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6/25/2019

Amor divino (Conto), de Brito Camacho


Amor divino
Todas as noites, antes de se meter na cama, ajoelhava sobre uma almofada, em frente do oratório, a rezar as suas devoções. Não dormiria tranquila, se urna vez só que fosse deixasse de cumprir essa espécie de penitência, a que se habituara desde pequenina, quando apenas sabia gaguejar o padre nosso, e raramente deixava de fazer na testa a cruz que devia fazer no peito. Por maneira que todas as noites, antes de se meter na cama, ajoelhava sobre uma almofada, em frente do oratório, a rezar as suas devoções, parecendo-lhe que os santinhos lhe sorriam, amorosos, por entre flores de papel, onde ela via com mágoa a irreverência das moscas. A todos adorava e queria muito, mas o Cristo ocupava um lugar privilegiado nas suas devoções e nas suas simpatias. Era, na verdade, uma linda imagem em bronze escuro, pregada numa cruzinha de pau preto, suspensa duma fitinha benta, que o seu noivo lhe tinha dado, numa romaria, antes de partir para África. As cartas que dele recebia, muito solicito em escrever-lhe, lia-as fechando-se no seu quarto, ajoelhada em frente do oratório, sobre uma almofada de suma-à-uma, e era como se as lesse ao seu adorado Cristo, pregado numa cruz. Tinha por certo que ele havia de preservar o seu noivo dos variadíssimos perigos de África, deferindo os seus rogos fervorosos, as suas enternecidas suplicas. Parecia-lhe, às vezes, que ele ia descerrar os lábios para lhe dizer que tivesse confiança, para lhe assegurar que os seus votos seriam exalça- dos, que as suas orações seriam ouvidas. E então lhe vinha um desejo louco de o beijar, de o meter no seio, do lado do coração, quase dentro do peito, a sentir queimar-lhe as carnes, como a Santa Tereza, uma chama lubrica, embora divina.
Muito pudica, muito decente, quando acabava de rezar as suas orações, ajoelhada sobre uma almofada, à hora de se deitar — o quarto frouxamente iluminado por um candeeiro de azeite, tapava o oratório com uma toalha de rendas simples, e só então se desembaraçava das roupas brancas, metendo-se entre lençóis, com a camisa de dormir.
Ora sucedeu que uma noite, já tinha voltado de África o seu noivo, são e escorreito como para lá partira, ela deixou de ajoelhar sobre a almofada, rezando as suas devoções, e como se esquecesse, no seu sonho de noiva que se entrega, de cobrir o oratório com a toalha de rendas simples, que fizera pelas suas próprias mãos, e não servia para outra coisa, apenas metida na cama, louca de amor, cortando o silêncio do quarto pequenino, que uma lâmpada sem vigor alumiava frouxamente, ouviu o Cristo gritar dentro do oratório, numa fúria de possesso:
— Ó que grande pouca vergonha!
Durante o dia não se atreveu a entrar no quarto, retinindo-lhe aos ouvidos aquela apostrofe violenta que o seu adorado Cristo soltara, e que seria talvez a condenação da sua alma, apanhada em flagrante pecado de luxuria.
Como fora possível toldar-lhe assim o juízo a embriaguez de um gozo que não seria menos intenso pelo fato de ser mais recatado, a volúpia de um prazer que ainda seria doce se o temperasse um bocadinho de pudor?
Nunca se despojava da roupa branca para se meter na cama, tendo rezado as suas devoções, sem tapar o oratório com uma toalha de rendas, e esta pratica era sem dúvida agradável ao Cristo, porque ela bem via que ele tinha o ar de lha agradecer, prestes a descerrar os lábios para lhe dar as boas noites. Perante a sua consciência reconhecia-se duplamente pecadora; mas seria possível que lhe não perdoasse o Cristo, ele que perdoara à Madalena, pecadora toda a vida, fazendo do pecado a sua profissão?
Na outra noite, quando ajoelhou sobre a almofada, a rezar as suas orações, os olhos mortificados do muito que chorara, a face macerada do muito que sofrera, pareceu-lhe que o Cristo se tinha deslocado na sua cruzinha de pau preto, e como o fixasse muito, a querer adivinhar na sua inalterabilidade de bronze o sentimento que lhe inspirava agora, desfolhada a sua coroa de inocência, bem via que ele já não lhe sorria como antigamente, e quis-lhe parecer que os outros santinhos, mais livres que Jesus, escondiam a cabeça para traz das flores de papel, onde ele nem via agora a irreverência das moscas.
E nunca mais se meteu na cama, tendo rezado as suas devoções, sem cobrir o oratório com uma toalha branca de rendas, que não servia para mais nada, e ela fizera por suas mãos.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

As ditaduras (Conto), de Brito Camacho



As ditaduras
 As oposições vão intensificar o seu combate ao governo por ter violado a Constituição.
(Dos jornais)
Chamava-se Constituição por ter nascido em 29 de abril, aniversário da outorga da Carta pelo sereníssimo duque de Bragança, o Sr. D. Pedro IV. O avô andara nas lutas contra D. Miguel, e andou mais tarde nos movimentos da patuleia, furioso contra os Cabrais, a quem atribuía todas as calamidades da Nação.
Já velho, ainda se abrasava em ódio quando narrava episódios das batalhas em que entrara, sem nunca ser ferido, como se tivessem medo dele as balas. De modo que ao nascer-lhe a neta, num amanhecer fresco de abril, ele notou logo a coincidência, e disse para o filho, apontando a cachopita — há de chamar- se Constituição.
O prior da freguesia, descendente de miguelistas, era ele próprio miguelista, sem rebuço dizendo por toda a parte que o constitucionalismo fora uma das dez pragas do Egito, a pior de todas, que caíra sobre a Nação.
Quando, a lavrar o termo do batismo, na sacristia, preguntou como se havia de chamar a menina, o avô usurpando os direitos do padrinho, respondeu— Constituição.
Serenamente o padre, interrompendo-se, colocou a pena no livro dos assentos, com o bico para fora, e encarando com firmeza o contumaz e impenitente liberal, disse-lhe, quase a soletrar as palavres:
— Este lugar não é próprio, sr. Batista, para se fazer política. A menina não pode chamar-se Constituição, porque nome semelhante não figura no fios sanctorum, e nunca houve santa, que eu saiba, que se chamasse assim.
— Sei muito bem que neste lugar se não deve fazer política, e muito lamentável é que a faça quem menos devia fazê-la — o prior da freguesia. Eu não pretendi ofender o seu miguelismo, e o senhor, negando-se a inscrever a menina com o nome de Constituição, não podendo basear o seu procedimento em qualquer disposição da lei civil ou do direito canônico, sequer ao menos em qualquer provisão vinda de Roma, propositalmente agrava os meus sentimentos liberais, e insulta gratuitamente a memória de quantos morreram nos combates travados contra o usurpador, fanáticos duma religião que o senhor não compreende, a Liberdade, porque lha escurenta o negrume da batina.
— Se em vez de uma menina fosse um menino, com o ataque de brotoeja política que lhe chegou fora de tempo, era capaz de querer que se chamasse Liberal.
— Não, senhor. Se em vez de uma menina fosse um menino, queria que se chamasse Torquemada, para lhe ser agradável. Seria como se na Arvore da Liberdade, se o não ofendo, se fizesse um enxerto de Figueira do Inferno.
Por feliz acaso, encontrava-se ali, na qualidade de convidado, o juiz de direito, homem de uma grande austeridade, por todos respeitado, nunca tendo lavrado uma sentença, condenando ou absolvendo, que a opinião pública não reputasse justa. Era absolutamente neutral em política; seu pai fora soldado de D. Pedro, e um irmão do pai andara nos bandos de D. Miguel. Ele confundia a memória de um e outro no mesmo respeito, porque ambos tinham sido valorosos combatentes, cada um deles honestamente convencido que a sua causa é que era justa.
Sabendo que das palavras facilmente se passa aos atos, e vendo eminente o escândalo de uma cena de pancada, quase nos degraus do altar, o juiz interveio, por todos escutado em silêncio.
— O Sr. padre há de desculpar, mas quer-me parecer que lhe não seria possível justificar perante a autoridade eclesiástica a recusa de fazer o registro nos termos em que se pretende que ele seja feito. A lei permite tudo quanto não proíbe, e não há disposição legal, no profano e no religioso, que proíba registrar- se uma criança com o nome de Constituição.
Calaram estas palavras no ânimo do prior, fazendo-se o registo da menina à vontade do avô.
Filha de gente pobre, teve uma educação abandonada, sempre metida com os rapazes da vizinhança, escondendo-se pelos cantos, aprendendo palavrões, iniciando-se em deboches.
Ainda não era mulher e já conhecia toda a ladainha das vielas, espreitando à porta dos bordeis, numa grande ânsia de curiosidade.
Um dia abandonou o lar paterno e foi viver em casa própria. Cedo perdeu a frescura, aquele viço de mocidade que é uma forma especial da beleza. Entrava um, entrava outro, e com todos ela tinha as mesmas condescendências, a todos prodigalizava os mesmos favores. Era uma baixa clientela a sua — fadistões cadastrados na polícia, souteneurs de profissão, alguns com maneiras de gente fina e susceptibilidades fidalgas.
Na vizinhança toda a gente sabia quem era a Constituição, mas raramente ela aparecia à janela, e quando se apresentava na rua — afetava tais ares de senhora, que nem sombras de escândalo provocava a sua passagem. Nunca a polícia se intrometeu na sua vida, e de uma vez que a chamaram aos tribunais, foi posta a exceção de incompetência, e ela recolheu a sua casa, a continuar o seu fadário. Se fora educada com mais recato, em criança, e a tivessem livrado das más companhias, já mulher, outra seria a sua conduta, que o seu natural, diziam as pessoas que de perto a conheciam, não era vicioso nem era mau. Por isso, e porque na rua afetava ares de senhora, não provocando o menor escândalo, os que a não lamentavam, eram-lhe indiferentes.
Ora sucedeu que uma noite, quando no bairro todos-dormiam a sono solto, e o guarda noturno meditava, encostado a um candeeiro, com a sua lanterna à cinta, de repente ouvem-se gritos aflitivos, desesperados, pedindo socorro — quem acode! quem acode!
Tudo acordou na vizinhança, e muita gente saltou para o meio da rua, em fralda de camisa, supondo que tinha fogo no prédio, embora não visse fumo nem chamas.
Os gritos vinham justamente da casa onde morava a Constituição, um prédio velho, que fora convento de frades, e como o guarda noturno, mais vigilante que a polícia, fosse o primeiro a acudir, foi ele o primeiro a saber do que se tratava. Prendeu o homem contra o qual a Constituição pedia socorro, e a. ela deixou-a em paz. Segurando-o por um braço, dispunha-se a levá-lo para a esquadra mais próxima, a não ser que no caminho encontrasse um guarda a quem o entregasse. O homem não oferecia resistência, e a todos dava a impressão de um cinismo revoltante, calmo depois do crime que praticara... e que ninguém sabia qual fosse. Assediado de perguntas, vendo que o não deixariam caminhar se não desse as informações que lhe pediam, o guarda no- turno explicou:
— Foi este sujeito que violou... que violou aquela menina — disse sacudidamente, apontando a Constituição, que assomara à janela...
O pânico converteu-se em troça, uma destas troças que ficam na memória dos homens, pelas gerações adiante,
— Olha a Constituição violada!... Olha a Constituição violada!
Retiniam as gargalhadas quebrando a serenidade daquela noite luarenta; cruzavam-se no ar os comentários picantes, os ditos apilarados, dum realismo canalha, que faria corar, à luz do dia, um carregador da alfandega, e já o sol assomava na fimbria do horizonte, doirando os pontos altos da cidade, e ainda os habitantes do bairro, os que tinham vindo para a rua aos gritos de socorro, exclamavam uns para os outros, rindo descompassadamente:
— A Constituição violada! Esta nem lembrava ao diabo!...



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Paixão fatal (Conto), de Brito Camacho



Paixão fatal
Bem me quer... mal me quer...
Ficou-se, pensativa, os dedinhos em fuso, com unhas cor de rosa, segurando a pétala branca, e os olhos negros, de veludo, pregados na areia seca, quase tão seca como os seus lábios em febre.
Bem me quer... mal me quer...
Vinham as ondas morrer na praia, e o seu confuso marulhar, como um sussurro prolongado, era uma cantilena ao sol poente, a sumir-se no horizonte em chamas.
Bem me quer... mal me quer...
Misteriosa é a linguagem das flores, mas repugna acreditar que mintam, e as pessoas que sabem entendê-las afirmam a segurança dos seus juízos e a propriedade rigorosa das suas palavras.
Bem me quer... mal me quer...
Descia vagarosa a noite, e por sobre o mar infinito estendia-se um longo manto de névoa pardacenta e tênue, que tornava ainda mais confuso o marulhar das ondas levemente túmidas que vinham morrer na praia em espreguiçamentos de odalisca amorosa, a reviver, sonhando, lances de embriaguez voluptuosa.
Bem me quer... mal me quer...
Ergueu da areia seca — quase tão seca como os seus lábios em febre, os olhos negros de veludo, úmidos das abundantes lágrimas que pela face lhe escorregavam, caindo sobre o seu branco vestido de noiva, tão branco como as pétalas que arrancava ao malmequer, com os seus dedinhos em fuso, as unhas cor de rosa...
Bem me quer... mal me quer...
Caminhou, a passos lentos, calcando a areia seca, para uma luzinha que brilhava ao longe, hipnotizando-a sem a adormecer, ouvindo o marulhar confuso das ondas, como um sussurro prolongado, e crendo que uma voz a chamava, lá de longe, de muito longe, de onde brilhava aquela pequenina luz intensa que a hipnotizava sem a adormecer.
Bem me quer... mal me quer...
Teve um estremecimento quando a primeira onda lhe beijou os pés, desfazendo-se em espuma, mas foi caminhando sempre, a passos lentos, os olhos presos aquela pequenina luz que de longe, de muito longe, a hipnotizava sem a adormecer, crendo que era de lá que partia aquela voz que a chamava, entre súplice e prometedora.
Bem me quer... mal me quer...
Aos primeiros clarões da madrugada, quieto e silencioso o mar, diáfano e roto o manto de nevoa pardacenta que a noite lançara por sobre as águas, uns barqueiros que passavam virara o seu corpo, hirto e leve, como se fosse uma grande flor recortada em neve boiando na placidez de um lago adormecido.
Nos dedinhos em fuso, as unhas cor de rosa, segurava a última pétala que arrancara à flor homicida, como se fosse o punhal que vigorosamente cravara no coração, louca de amor, nos desesperos de não ser amada.
Bem me quer... mal me quer...



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Sangue azul (Conto), de Brito Camacho



Sangue azul
— Vossa excelência há de perdoar, mas há perto de trinta anos que temos contas...
— É certo; há perto de trinta anos que temos contas, e nunca o senhor deixou de ser pontual e correto.
— Mas como é, então, que o senhor conde...
— Eu lhe explico. O senhor é um republicano exaltado, embora, sincero, e eu não quero ter como rendeiro...
— Um republicano exaltado?... Mas bem sabe vossa excelência, que eu sempre fui republicano, já o era quando tomei conta das propriedades que o senhor conde me arrendou!... A minha exaltação republicana nunca se traduziu em prejuízos para vossa excelência quer levando- me a não pagar as rendas com a maior pontualidade, quer fazendo com que não cuidasse das suas propriedades como se fossem minhas. Republicano exaltado, desculpe o sr. conde, nunca fui, a menos que por exaltação se entenda inabalável firmeza de convicções. Republicano, sim, fui-o sempre, sou-o desde que me entendo; já o era quando tomei conta das propriedades que vossa excelência me deu de arrendamento.
— Não há dúvida. Simplesmente antes da República feita eu não acreditava que ela se fizesse, de modo que o seu republicanismo tinha para mim a significação de uma espécie de mania absolutamente inofensiva... Digo-lhe mais — achava bem que houvesse republicanos, porque a ação fiscalizadora que eles exerciam sobre a política e a administração continha os governos dentro de certos limites, evitando desmandos ruinosos. O Sr. era republicano, e eu não ignorava que o fosse; nunca lhe pedi que votasse nos candidatos do meu partido, nem mesmo quando um desses candidatos... era eu. Reputava inabaláveis os fundamentos da Monarquia, tão velha como a própria nacionalidade; era minha convicção que o trono resistiria a todos os embates, porque tinha raízes na alma da Nação. Nestas condições o seu republicanismo, como já disse, tinha para mim a significação de uma espécie de mania absolutamente inofensiva, uma tineta de que não viria mal ao mundo, a menos que se tornasse epidêmica.
— E agora?
— Agora o seu republicanismo é uma afronta ás minhas convicções políticas e ás minhas crenças religiosas, é a negação das tradições que nobilitam o meu nome, e também é, pela extorsão dos impostos, uma ameaça à minha fortuna.
— Não me compete discutir com o sr. conde as vantagens ou desvantagens da Republica. Seria republicano mesmo que os governos na vigência da Monarquia, administrassem com superior inteligência e irrepreensível honestidade; continuaria sendo republicano mesmo que os governos da Republica juntassem a uma incompetência manifesta uma flagrante improbidade. O que eu não percebo, Sr. conde, é o que tem que ver a forma política da Nação com as relações entre rendeiros e senhorios, estatuídas juridicamente em contrato, ou assentando simplesmente, como no meu caso, numa base de confiança mutua.
— É possível que tenha razão; mas dispenso-o de tentar convencer-me, porque perderia o seu tempo.
— De modo que a resolução de vossa excelência?...
— É absolutamente inabalável. No fim do ano eu tomo conta das propriedades, e o senhor arranja a sua vida como julgar mais conveniente.
— Assim será, visto que o Sr. conde quer que assim seja... Se lá no outro mundo o avô de vossa excelência e o meu tivessem conhecimento do que se está passando entre nós, ambos o lamentariam com profunda e sincera mágoa.
— Por quê? O seu avô serviu a nossa casa?
— Não, sr. conde. O meu avô e o avô de vossa excelência foram aprendizes de ferrador na mesma oficina, e a amizade que aí contraíram durou a vida de ambos, estimando-se e ajudando-se como se fossem irmãos.
As voltas que o mundo dá, Sr. conde!...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Almas benfazejas (Conto), de Brito Camacho



Almas benfazejas
Era dos sócios fundadores.
Não havia memoria de ter faltado a uma sessão, e constava das atas que a sua propaganda era das mais eficazes. Quase não passava um dia, e nunca passava uma semana, sem que ele desse conhecimento à Sociedade de qualquer ado punível, nos termos das leis adotadas para a proteção aos animais. Também era raro que passasse uma semana sem ele fazer a proposta de um ou mais sócios, criaturas que para se verem livres dele — um sarna! — condescendiam! em pagar uma quota e receber um diploma — que também pagavam.
Todos os dias visitava a Praça da Figueira, porque lhe constava que ali maltratavam os animais expostos à venda, chegando a dizer-se que certas mulherzinhas, por estupidez ou por maldade, depenavam galinhas vivas, fato que ele nunca surpreendera, por mais diligências que fizesse.
De uma vez pregaram-lhe com um coelho na cara, um coelho que estava pendurado pelas pernas, e por um triz não há uma desordem sangrenta na Praça, porque o tomaram por gatuno, que andava por ali, com incrível audácia e desvergonhamento, a fazer rapinâncias.
Às  vezes apeava-se dos elétricos para verificar a lotação do Chora, e nunca deixava de chamar um polícia, se o avistava ali próximo, para obrigar os passageiros a mais, a aliviarem o carro.
Usando e abusando da sua qualidade de Sócio da Protetora obrigava os carroceiros a darem conta do peso que transportavam, causando-lhes demoras inúteis, porque não havia maneira de verificar se mentia ou dizia a verdade.
Um dia, na Calçada do Combro, viu um magro cavaliqueques a puxar uma carga, que reputou excessiva para as forças do animalejo, e logo intimou o respectivo carroceiro a aliviar a carga ou pedir reforço de outra cavalgadura, caso fosse mais da sua vontade. O carroceiro, que já o conhecia, e que por causa dele já pagara umas duas multas, furioso por que o cavalo não arrancava, e ainda mais furioso porque lhe moía a paciência, deitou-lhe as mãos ao cachaço, e queria à viva força obrigá-lo a dar uma ajuda, maneira indireta de tornar a carga menos pesada.
Clamava, com fúria, contra as touradas, e quando via, nos jornais, que um toureiro, em Espanha perdera a vida na arena, não se furtava a dizer baixinho, como que envergonhado de si próprio — bem feito — embora soubesse que essa morte tornava mais interessante o espetáculo.
Chamavam-lhe o Roseta, porque em assembleia geral da sua Sociedade propusera, ficando a proposta para ser admitida numa segunda leitura, que as esporas, na cavalaria, não tivessem roseta, fazendo uma larga dissertação, substanciosa e erudita, sobre a educação dos animais, susceptíveis, como as crianças, de se educarem sem pancadas.
A primeira voz que se ergueu contra o uso do aguilhão, foi a sua, propondo que se substituísse o aguilhão pelo chicote, à moda bóer. Quando os jornais deram a notícia de se ter inventado na América um aparelho elétrico para a execução dos condenados à morte, matando instantaneamente e sem dor, ele propôs que se representasse ao Governo, no sentido de em todos os matadouros do país se adotar o maravilhoso instrumento. E ofereceu-se logo, pagando-lhe a viagem, para ir ver, nas mais importantes cidades americanas, como funcionava essa guilhotina de nova espécie, expedita e humanitária, encarregando-se de lá mesmo fazer estudar as modificações que seria necessário introduzir-lhe, adaptando a ao fim proposto.
A seu pedido andava um atuário estudando a organização de um Monte Pio só para cavalos, podendo mais tarde, quando a instituição já estivesse bem dirigida, alterar-se o respectivo Estatuto, sendo admitidos outros animais, todos quadrupedes, pagando joia e quota. Depois, se a experiência desse bons resultados, se procederia da mesma forma para com os outros viventes, ficando desde logo estabelecido que no Monte Pio das Aves não seria permitida a inscrição dos melros.
À sua porta não se dava esmola, e na rua, quando um desgraçado lhe estendia a mão, implorando cincorezinhos, ou fingia que era surdo, ou repelia o pedinte, com modos e palavras grosseiras — vá trabalhar, que tem bom corpo; vá para o hospital, que tem lá casa e mesa de graça.
Não constava que fosse membro de qualquer Associação de beneficência, e proibirá a mulher de fazer parte de uma comissão de senhoras, que se organizai na sua freguesia, para angariar donativos, de qualquer espécie, destinados ás raparigas tuberculosas, incapacitadas de trabalhar.
— Se gastassem menos em luxo e mais na comida, já não se tuberculizavam.
Logo que foi declarado o estado de guerra, constando-lhe que de Portugal iria uma unidade completa de batalha, fez reunir extraordinariamente a Sociedade para tratar dos socorros a prestar em campanha,... aos cavalos, coitadinhos. Nunca fora tão eloquente como naquele dia, a chorar sobre a sorte dos pobres animais que a bruteza humana leva para os campos de batalha, fazendo-os ao mesmo tempo vítimas e auxiliares dos seus crimes. Falou de São Francisco de Assis, narrando alguns dos casos que andam na lenda franciscana, entre eles o do lobo tomou com o Santo o compromisso de honra de nunca mais comer uma ovelha, um carneiro, um borrego, uma cabra, um bode ou um chibo, passeando por entre os rebanhos, ás vezes esfomeado, como se fosse um cão de guarda, perdido o seu instinto carniceiro.
E perorou:
— Todos os seres viventes são obra do Criador, tudo quanto há com fôlego à superfície da terra ou na profundeza dos mares, tudo Deus formou da matéria vil, insuflando-lhe o espírito divino, que outra coisa não é a vida. Por isso São Francisco se considerou irmão de todos os animais, irmão dos lobos e dos peixes, irmão dos pombos e das cotovias. À semelhança do Poverelo, embora sem os merecimentos que o tornaram grande em vida e o santificaram depois de morto; na hora trágica e incerta em que Portugal vai entrar na guerra, regando com o sangue generoso dos seus filhos e dos seus cavalos, os talados campos da Flandres, ergo um brado em favor dos nossos irmãos solípedes, vítimas da iniquidade dos homens.
A assembleia aplaudiu, num delírio, e por aclamação foi votado que se organizasse uma Cruz Parda, destinada a proteger os animais na guerra, não só dando-lhes a assistência de que necessitassem, quando feridos, mas também garantindo-lhes um futuro sem privações, se por motivos da guerra viessem a inutilizar-se para o trabalho. Como houvesse ainda alguns oradores inscritos, pediu licença para se retirar, declarando que daria o seu voto a todas as resoluções que fossem tomadas.
À porta um aleijado, que para mais era cego, pediu-lhe uma esmolinha pelo amor de Deus, e como estendesse a mão, a tocar-lhe no braço, sacudiu-o como se fosse um animal asqueroso, atirando-lhe, em vez da esmola, uma praga.
— Não sei para que serve a polícia! Não dá a gente um passo na rua que não se lhe depare um espetáculo destes, que até faz náuseas.
Quando chegou a casa, radiante como se tivesse ganho uma batalha, esfomeado como se tivesse feito um largo jejum, a mulher não tinha o jantar pronto. Havia um mês que estava sem criada, e a sua compleição franzina mal podia com o trabalho da casa.
— De janela, hein!
Habituada a maus tratos, a pobre quis justificar-se com palavras mansas, mas ele, incendido em cólera, por entre grosserias e insultos, moeu-a de pancadas.
... Ainda ressoavam na sala nobre da Sociedade as suas últimas palavras, eloquentes e enternecidas, orvalhadas de lágrimas na defesa dos animais, coitadinhos!...

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)