terça-feira, 25 de junho de 2019

Amor divino (Conto), de Brito Camacho


Amor divino
Todas as noites, antes de se meter na cama, ajoelhava sobre uma almofada, em frente do oratório, a rezar as suas devoções. Não dormiria tranquila, se urna vez só que fosse deixasse de cumprir essa espécie de penitência, a que se habituara desde pequenina, quando apenas sabia gaguejar o padre nosso, e raramente deixava de fazer na testa a cruz que devia fazer no peito. Por maneira que todas as noites, antes de se meter na cama, ajoelhava sobre uma almofada, em frente do oratório, a rezar as suas devoções, parecendo-lhe que os santinhos lhe sorriam, amorosos, por entre flores de papel, onde ela via com mágoa a irreverência das moscas. A todos adorava e queria muito, mas o Cristo ocupava um lugar privilegiado nas suas devoções e nas suas simpatias. Era, na verdade, uma linda imagem em bronze escuro, pregada numa cruzinha de pau preto, suspensa duma fitinha benta, que o seu noivo lhe tinha dado, numa romaria, antes de partir para África. As cartas que dele recebia, muito solicito em escrever-lhe, lia-as fechando-se no seu quarto, ajoelhada em frente do oratório, sobre uma almofada de suma-à-uma, e era como se as lesse ao seu adorado Cristo, pregado numa cruz. Tinha por certo que ele havia de preservar o seu noivo dos variadíssimos perigos de África, deferindo os seus rogos fervorosos, as suas enternecidas suplicas. Parecia-lhe, às vezes, que ele ia descerrar os lábios para lhe dizer que tivesse confiança, para lhe assegurar que os seus votos seriam exalça- dos, que as suas orações seriam ouvidas. E então lhe vinha um desejo louco de o beijar, de o meter no seio, do lado do coração, quase dentro do peito, a sentir queimar-lhe as carnes, como a Santa Tereza, uma chama lubrica, embora divina.
Muito pudica, muito decente, quando acabava de rezar as suas orações, ajoelhada sobre uma almofada, à hora de se deitar — o quarto frouxamente iluminado por um candeeiro de azeite, tapava o oratório com uma toalha de rendas simples, e só então se desembaraçava das roupas brancas, metendo-se entre lençóis, com a camisa de dormir.
Ora sucedeu que uma noite, já tinha voltado de África o seu noivo, são e escorreito como para lá partira, ela deixou de ajoelhar sobre a almofada, rezando as suas devoções, e como se esquecesse, no seu sonho de noiva que se entrega, de cobrir o oratório com a toalha de rendas simples, que fizera pelas suas próprias mãos, e não servia para outra coisa, apenas metida na cama, louca de amor, cortando o silêncio do quarto pequenino, que uma lâmpada sem vigor alumiava frouxamente, ouviu o Cristo gritar dentro do oratório, numa fúria de possesso:
— Ó que grande pouca vergonha!
Durante o dia não se atreveu a entrar no quarto, retinindo-lhe aos ouvidos aquela apostrofe violenta que o seu adorado Cristo soltara, e que seria talvez a condenação da sua alma, apanhada em flagrante pecado de luxuria.
Como fora possível toldar-lhe assim o juízo a embriaguez de um gozo que não seria menos intenso pelo fato de ser mais recatado, a volúpia de um prazer que ainda seria doce se o temperasse um bocadinho de pudor?
Nunca se despojava da roupa branca para se meter na cama, tendo rezado as suas devoções, sem tapar o oratório com uma toalha de rendas, e esta pratica era sem dúvida agradável ao Cristo, porque ela bem via que ele tinha o ar de lha agradecer, prestes a descerrar os lábios para lhe dar as boas noites. Perante a sua consciência reconhecia-se duplamente pecadora; mas seria possível que lhe não perdoasse o Cristo, ele que perdoara à Madalena, pecadora toda a vida, fazendo do pecado a sua profissão?
Na outra noite, quando ajoelhou sobre a almofada, a rezar as suas orações, os olhos mortificados do muito que chorara, a face macerada do muito que sofrera, pareceu-lhe que o Cristo se tinha deslocado na sua cruzinha de pau preto, e como o fixasse muito, a querer adivinhar na sua inalterabilidade de bronze o sentimento que lhe inspirava agora, desfolhada a sua coroa de inocência, bem via que ele já não lhe sorria como antigamente, e quis-lhe parecer que os outros santinhos, mais livres que Jesus, escondiam a cabeça para traz das flores de papel, onde ele nem via agora a irreverência das moscas.
E nunca mais se meteu na cama, tendo rezado as suas devoções, sem cobrir o oratório com uma toalha branca de rendas, que não servia para mais nada, e ela fizera por suas mãos.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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