terça-feira, 25 de junho de 2019

O presente de bodas (Conto), de Veiga Miranda



O presente de bodas
Prelidiano Gonçalves de Távora desposara, havia quase vinte e cinco anos, uma mocinha de Iguape, franzina, meiga e cheia de sardas. Naquela época, ainda não era ("lê escrivão nem qualquer outra coisa. Entrou para o cartório mais tarde, instado pela sogra a cujas costas vivia e que se não cansava de pregar todos os dias um sermão contra "certos maridos troca-tintas que deixam a mulher em casa, a trabalhar, e vivem trocando as pernas, pelas esquinas..."
A temível senhora morria pouco depois, de um antraz ao peito e só então veio a conhecer Freudiano a dura contingência de prover ao combustível para a máquina doméstica, contingência tanto mais imperiosa quanto a família prosperara (em número, já se vê...), havendo a franzina iguapense em menos de dois anos brindado ao aturdido escrivão com três magníficos exemplares da última edição dos Gonçalves de Távora.
Essa assustadora fecundidade assombrou o pobre pai; vieram primeiro aquelas meninas gêmeas. Laura e Leonor, depois o seu morgado, como ele dizia aludindo ao rebento varão, a que chamou Mariano, em honra de sua esposa, Marianinha.
Mas, foi um susto apenas; a fecundidade de Ma­rianinha esvaiu-se, estacou, desapareceu, como esses veios de água límpida que correm sob as florestas e de súbito somem na terra. Tranquilidade para Freudiano... Tranquilidade logo depois convulsionada por uma dor aguda: o seu morgado que, aos sete anos já era um grandíssimo peralta, certa manhã, em outubro, levava uni trambolhão dos píncaros de uma jabuticabeira, de tal sorte que se lhe torceram os gorgomilos e morreu.
Ficou o doce sentimento da paternidade reduzido, em Freudiano, a passear da cabeça de Laura para a de Leonor, da cabeça de Leonor para a de Laura. E, como a família era pequena, entenderam as suas cunhadas de Iguape que seria agradável e consolador virem-se aboletar com ele, nada menos de três, uma das quais viúva, reumática, e com quatro filhos. A máquina doméstica exigia agora o dobro em cavalos-vapor de autos, translades e públicas-formas, e a figura de Prelidiano a suportar todo o estafante e pesadíssimo encargo daquela família lem­brava bem o símbolo mitológico de Atlas, mas de um Atlas pigmeu, condenado a aguentar o mundo.
***
Aproximavam-se para o venturoso casal as bodas de prata e a suave Marianinha lembrara-se de que bem podiam festejar aquela data casando as duas filhas, pois tanto Laura como Leonor traziam namoro, a primeira com um escrevente de cartório, a segunda com certo oficial de polícia. Estavam ambos prontos a pedi-las, era questão de um sinal de cabeça das meninas...
— Seria a maneira mais bonita, dizia a romântica Marianinha, de comemorar-se aquele dia... Mas, objetava o marido, para isso eram precisos meios, recursos para o enxoval, para os consertos da casa, para a mobília dos quartos!
A casinha era própria, uma casinha na Rua do Carmo, pequena é verdade, mas era deles, ou antes dela, Marianinha, legado de certa baronesa rica que n levara à pia do batismo e cuja proteção e amizade foram para a iguapense, ao lado do encanto dos seus olhos, as coisas que mais enfeitiçaram Freudiano.
O escrivão achara a ideia dos casamentos verdadeiramente genial, tanto mais que se lembrara de estabelecer com os genros uma espécie de comandita para aguentar o lar doméstico. E andava preocupadíssimo com a lem­brança dos enxovais, da mobília dos quartos, dos con­sertos da casa, sonhando mil recursos diferentes, emba­lando-se nas mais frágeis miragens, lançando a âncora da esperança aos bilhetes de loterias, ao acaso, a algum testamento desconhecido.
Mas nada, nada!
Com os seus proventos de escriba, magros, que mal chegavam para o feijão diário, nem era bom contar. Naquele caso só uma intervenção providencial, algum fenômeno benéfico da fortuna, coisas que escapavam inteiramente aos seus esforços e à sua energia.
E, entretanto, contava de tal forma com essas forças estranhas, que as duas raparigas já haviam acenado aos namorados o "peça-me a papai", e tal pedido já fora feito e dado o Sim, tudo isso em duplicata, infestado, como dizia um caixeiro da vizinhança, amigo do escrivão.
Faltavam apenas quatro meses para a data venturosa e fatal, o amoroso idílio das pequenas corria o mais ardente possível, sob o olhar de cérebros tutelares da mãe e das tias, e só Freudiano andava cada vez mais sorumbático e triste.
A fortuna não dera ainda um passo a seu favor! Os enxovais estavam por fazer, as mobílias por comprar, a casinha inteira esperando a mão de tinta prometida e urgente.
A sua Marianinha desfazia toda a suavidade em objurgatórias constantes, terríveis catilinárias que desa­bavam como pedras sobre a cabeça do escrivão, atos esses em que colaboravam as três cunhadas vindas de Iguape, uma certa comadre da vizinhança, e até as me­ninas com expressivos muxoxos e dengues cheios de ironia e desprezo.
— Arre! Graças a Deus, tia Antonica, já me deu seis camisas, dizia uma.
— E eu, para o meu vestido, já tenho uma peça de tira bordada, volvia a outra.
— E vocês se contentem, meninas, que o enxoval há de ser pouco maior, gorgolejava uma das tias, que era um tanto papuda.
— E, se formos esperar por mais, não casamos, respondiam ambas.
Estas palavras, entrecortadas de sorrisos escarninhos, olhares mofadores e ferinos, transpassavam a alma do escrivão como sete espadas. Era quase sempre à hora do almoço que se passavam tais escaramuças e o pobre homem saía para o trabalho varado e humilde como um cão.
Sofria aquela injustiça dos seus com resignação estoica. Que pretendiam, santo Deus? Que fabricasse moeda falsa, roubasse, descobrisse uma mina de ouro? Já se não lembrava porém de que aquela suntuosidade de enxovais, de mobília, de casinha pintada, fora ele próprio que despertara no espírito das filhas, sugerindo-lhes coisas que, á sua imaginação de visionário, se auguravam realiáveis e possíveis.
O pobre homem tomava tristemente o chapéu, a bengala, um maço de autos que levara a copiar toda a noite, e o jornal. Acendia um cigarro grosseiro, de palha, e lá se ia vagarosamente, lendo a folha pela rua. A primeira coluna por onde soltava os olhos febris e espe­rançosos era a das loterias. Nunca deixava de ter um bilhetinho a conferir. Era o seu grande sonho! Cin­quenta contos, bastavam... E imaginava o seu número premiado, notas dos bancos bailando em torno à figura, num frenesi. Não dizia nada a ninguém; depositaria o dinheiro em um banco, afetaria em casa a mesma pobreza, o mesmo desânimo... Deixaria que fizessem um enxovalzinho modesto, simples, muito escasso... Ouviria as recri­minações da mulher contra o mau estado da casa, a feia e velha mobília dos quartos: suportaria o desdém e má vontade das filhas, tudo com um sorriso superior, enigmático, de quem traz um mistério dentro de si.
Ah! mas no dia, depois de realizada a cerimônia, ele se chegaria aos dois pares, na presença do juiz de paz, do cônego, dos convidados, metido naquela mesma sobrecasaca ruça que também passava as bodas de prata e, depondo nas mãos de cada filha um rolo de papel, dizia:
— Eis aí, meninas, o presente de bodas do vosso pai!
Eram vinte apólices, vinte contos para cada uma. E todos ficariam atônitos, e ele, radiante, alegre, triun­fador, seria abraçado e beijado pelas filhas, pela mulher, pelas cunhadas, e até pelos dois genros, sem dúvida, principalmente pelos dois genros.
E o pobre Gonçalves de Távora repetia na rua o seu grande gesto, vibrando o rolo dos autos e do jornal, a dizer em voz alta para os transeuntes espantados:
— Eis aí, meninas o presente de bodas do vosso pai!
Mas o som das suas próprias palavras vinha fazê-lo cair em si, despenhando-se do alto da sua quimera para a dureza da realidade e do asfalto.
***
Diariamente era a. procura dos números da loteria que o levava a sonhar; e diariamente a sorte fugia dele numa obstinação cruel. Da coluna das loterias passava os olhos pelo jornal todo, com indiferença. Lia-o, entre­tanto, linha por linha, até o fim, mas às vezes a leitura estava para um lado e a sua imaginação se desgarrava por outro, aos saltos, atrás do belo sonho de sempre.
Certa vez em que procedia distraidamente a essa leitura, sentado a sua mesa de trabalho, antes de encetar a labutação enfadonha de encher folhas e folhas de almaço, surgiu-lhe pela frente uma notícia que lhe soube prender os olhos e a atenção. Vinha no obituário e dizia:
"Suicidou-se ontem, ingerindo uma forte porção de láudano, o conhecido negociante desta praça, Sr. A. de L.
Atrasos comerciais levaram-no a esta solução extrema. Sabemos, porém, que deixa a família amparada graças a um seguro de cem contos que fizera na companhia tal"...
Como! Exclamou consigo Freudiano, as companhias pagam o seguro em caso de suicídio! Não é possível... Mas, daí a três ou quatro dias, tinha a confirmação daquilo lendo no mesmo jornal o recibo firmado pela viúva do morto, acompanhado de agradecimentos à companhia de seguros pela prontidão com que satisfizeram o pagamento, etc.
Segundo o costume, logo subordinou aquele caso à sua fantasia. Releu vagarosamente o recibo, mas firmado por Marianinha, e o segurado extinto, suicida, tinha o nome dele, bem claro, com todas as letras — Freudiano Gonçalves de Távora! Aquela ideia sulcou-lhe a mente como as rodas de pesado caminhão um terreno fofo e compreensível. Sim, realmente, era uma solução, pensava ele. E, depois, que heroísmo, quanta abnegação naquele sacrifício pela família!...
Faltavam dois meses apenas para as> suas bodas de prata e até agora a fortuna, o acaso, as loterias, nada qui­sera vir ao seu encontro.
Guardou no fundo d'alma aquela resolução. Desde esse dia, quando, em casa, a mulher e as filhas o primiam sob uma saraivada de remoques e ditos, ele sorria, tinha um ar transfigurado de mártir, parecendo gozar daquele sofrimento. Os ápodos, as recriminações, as continuadas invectivas que dantes o abatiam e torturavam, constituíam agora para ele delícias esquisitas.
— Como se hão de arrepender, pensava ele, como se hão de arrepender!...
E, em segredo, sem participar a ninguém, conheceu a prestação que, na sua idade, se deveria pagar por um seguro de cinquenta contos, sujeitou-se ao exame médico no consultório da companhia, tudo misteriosamente, às escondidas, com terror pânico de ser pilhado e descoberto durante aquelas disposições.
Homem de ordinário inerme, sem expedientes, Prelidiano se transformara naqueles dias, desenvolvendo atividade e astúcia até então desconhecidas na sua pessoa.
Assim foi que, ao saber que uma só prestação lhe custaria dois contos de réis, devido à sua avançada idade, não desanimou; foi a um capitalista seu amigo e fê-lo, pe­dindo o maior sigilo, dizer se lhe emprestava aquela quantia sob a hipoteca de sua casinha. Obtida resposta favorável do argentário, fez lavrar em cartório a com­petente escritura que apresentou à sua mulher, fazendo-a assinar como se fossem papéis para os casamentos. A simples e suave Marianinha assinou confiante-
Freudiano, nadando cm júbilo, partiu de casa para o escritório do capitalista que o embolsou do dinheiro. Ao tocar aquelas notas, numa quantia que nunca tivera em mãos em dias de sua vida, o escrivão não teve a menor sensação de horror. Não eram a sua sentença de morte; eram os esponsais, a felicidade das filhas, o seu presente de bodas.
Levou toda a importância à agência da companhia, recebendo imediatamente a sua apólice de cinquenta contos. Cinquenta contos! O que não pudera adquirir, em trinta anos de trabalho e de sofrimento, para legar à família, ia conseguir de uma hora para outra, rapida­mente, graças a uma dose de láudano. Andou, de far­mácia em farmácia, comprando o tóxico em pequenas quantidades para não suscitar suspeitas... E, guardando no bolso aquele arsenal de vidrinhos, ao lado da apólice do seguro, partiu para a casa feliz, cheio de tranquili­dade, trauteando cançonetas alegres.
Certa manhã, a mulher dirigiu-se-lhe de mau-humor:
— Não sei se te lembras de que faltam vinte dias para os casamentos! E estamos tão adiantados como há seis meses... Santo Deus, que palerma de marido!
— É hoje, pensou o pobre homem — E respondeu: — Não te aflijas, Marianinha, juro-te que os casamentos serão feitos. Amanhã mesmo terás todo o necessário para isso...
— Todo o necessário... É bom dizer mas não de arranjar. Esperas que caia do céu, não é?
— Verás, Marianinha, verás...
Tomou o chapéu, a bengala e os jornais, como de costume, mas, em vez de sair para o cartório, dirigiu-se sorrateiramente para um compartimento da casa que lhe servia de escritório e fechou-se por dentro.
Sentou-se à sua velha escrivaninha, onde tantos milhares de autos, translades, públicas-formas e escrituras copiara durante a vida e escreveu estas linhas derradeiras e fatais:
Marianinha
Nesta gaveta acharás uma apólice de seguro de vida no valor de cinquenta contos. É meu desejo que no dia dos casamentos, seja dada a cada uma das meninas, como presente meu, a quantia de, vinte e cinco contos. O resto é para ti e para as despesas. Adeus.
Prelidiano.
E deitando-se num velho canapé ingeriu, de um por um todo conteúdo dos frasquinhos que trouxera.
Seria uma hora da tarde quando um solicitador do foro bateu à porta da casinha da Rua do Carmo, per­guntando pelo escrivão.
— Foi para o tribunal, disseram.
— Mas lá não está, respondeu o homem.
E acrescentou precisar de uns papéis que deveriam estar na escrivaninha de Prelidiano e pedia às senhoras licença de procurá-los.
— Pois não! Entre e faça o favor, respondeu uma das filhas introduzindo o recém-chegado.
E Marianinha e as duas raparigas lá conduziram o rapaz, através dos corredores da casa, até o gabinete do escrivão. Notaram com espanto que a porta estava fe­chada e a chave pelo lado de dentro, na fechadura. O espanto degenerou em pânico e terror quando lhes pareceu, a todos, ouvir gemidos trágicos, dolorosos, que provinham do aposento.
Gritos e lamentações de Marianinha e das filhas, enquanto o solicitador metia ombros à porta que, depois de várias e enérgicas tentativas não teve senão ceder.
No chão, sobre o tapete esgarçado, caído do canapé, jazia o Prelidiano mísero! A mulher atirou-se aos gritos para ele, as meninas saíram correndo, a pedir socorro, entrou gente estranha na casa, apareceu um médico, reinando por algum tempo uma confusão terrível.
Quando o enorme alarido serenou, é que deram com o bilhete em cima da secretária. Marianinha, ao lê-lo, teve um delíquio e foi necessário retirá-la do gabinete.
O solicitador que, no meio daquilo tudo, não esque­cera os seus papéis e remexia as gavetas a procurá-los, tirou de uma delas a apólice do seguro e leu-a.
— Datada de quatro deste mês, disse ele para o mé­dico que neste momento acabava de declarar perdido aquele caso, mas esta apólice não vale nada...
— Como? perguntou um dos presentes.
— A companhia só paga o seguro em caso de sui­cídios quando o sinistro se dá depois de cinco anos de prestações.
O pobre envenenado teve um momento de lucidez extrema ao ouvir aquelas palavras. Pensou na sua ca­sinha hipotecada e expirou.

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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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