domingo, 30 de junho de 2019

As duas moças (Conto), de Francisca Júlia



As duas moças
Duas moças viviam em casa dos seus pais, numa aldeia quase deserta onde todos eram igualmente pobres. Cada um era proprietário do seu próprio terreno donde tirava o sustento para a sua família.
Os habitantes, ignorantes na sua simplicidade, não conheciam a riqueza nem a miséria. Se lhes falavam em palácios de arquitetura custosa, em luxo, carruagens e aparatos de riqueza, eles riam-se, como se de fato estivessem ouvindo contos de fada ou novelas do outro mundo; quando lhes falavam em miséria, em horrores de fome, sorriam também, e diziam que não há jeira de terra sem couve e couve que não alimente.
Este povo era tão simples, que dormia com as portas abertas, sem receio aos ladrões e malfeitores, porque não acreditava na existência desta gente.
Estas duas moças é que estavam incumbidas do trabalho da casa, plantio das hortaliças, criação das aves, porque seus pais já eram velhos e inaptos para qualquer serviço.
Uma delas, Rosa, quando toda a família estava reunida ao redor da mesa, conversando sobre assuntos domésticos, como as próximas chuvas, a surribação da terra, a peste das galinhas, ergueu-se e falou assim:
— Meus velhos pais e minha boa irmã, vou deixá-los por algum tempo; estou cansada desta vida monótona, sem futuro, desta pobreza geral, em que cada qual tem de trabalhar para comer; eu nasci para uma existência mais luxuosa e de mais conforto, onde tenho carruagens para exibir a minha formosura, palácios para mostrar minha elegância e leitos de seda e púrpura para afogar minha preguiça. — Adeus.
Todos começaram a chorar, as faces escondidas nas mãos, sufocados pelos soluços.
O velho falou com amargura:
— Ingrata filha, vai; sê feliz; que os teus desejos se cumpram e que a fortuna espalhe riquezas pelo teu caminho, como um semeador lançando grãos sobre um terreno fértil; porém que as saudades de teus velhos pais, que abandonaste, e da pobre aldeia, em que nasceste, arranquem lágrimas aos teus olhos, suspiros ao teu peito e ofegos ao teu coração.
Então a boa filha, que tinha ficado, depois de abraçar os pais, prometeu-lhes com amor que nunca havia de abandoná-los, que havia de ficar sempre na companhia deles, como um consolo à sua velhice.
Os tempos passaram. Um dia um rico lavrador, moço ainda e extremamente belo, passou por essa aldeia, enamorou-se desta pobre rapariga e pediu-a em casamento.
Os velhos consentiram. Era a felicidade esperada por tanto tempo, que lhes entrava em casa. Enriqueceram.
E Rosa, que fora tentar fortuna, voltou mais pobre ainda, coberta de andrajos, os pés descalços.
Os pais, quando a viram, abraçaram-na chorando, sensibilizados pelo aspecto humilde das suas roupas e da sua fisionomia.
E perguntaram-lhe:
— Onde está tua riqueza, Rosa?
— Na experiência, meus bons pais, na miséria que sofri, na fome que me devorou as entranhas. Se eu soubesse dos sofrimentos por que havia de passar, não vos abandonaria e deixava-me ficar convosco. Os meus sofrimentos datam da minha partida: a riqueza das donzelas está no carinho dos seus pais.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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