segunda-feira, 24 de junho de 2019

Casamento e mortalha... (Conto), de Brito Camacho



Casamento e mortalha...
Tinha sido o seu primeiro, o seu único amor.
Conheceram-se ainda ela usava as saias curtas, e preparava-se ele para deixar o calção.
Viviam em prédios contíguos, de modo que se viam a toda a hora, umas vezes à janela, outras vezes no quintal, vindo a estabelecer-se entre as duas crianças sem malicia uma intimidade que se traduzia em olhares acariciadores, sem palavras e sem gestos.
As respectivas famílias não se visitavam, nem sequer trocavam um cerimonioso cumprimento de janela para janela ou quando se encontravam na rua, cada qual seguindo ao seu destino.
Quando ela saiu do colégio, muito instruída e muito bem educada, entrou ele para a Universidade, com dezessete anos completos, e já então o namorico de crianças, que a família dela via com maus olhos, contrariando-o discretamente, tomara a consistência de uma paixão fortemente enraizada, absorvente e dominadora.
Uma criada velha, mais velha na casa que a própria mãe da menina, condescenderá em proteger aqueles amores castos, de uma ingenuidade pueril, mas já tão fortemente enraizados, que se via bem não ser possível contrariá-los sem abrir feridas sangrentas.
Porque contava na família um corregedor e um bispo, a mãe da menina, com proa de fidalga, só pensava em doirar os seus brasões à custa da filha, casando-a muito rica. Por isso contrariava aquele namoro, sobretudo agora, já estudante da Universidade o rapaz, com fama de bom estudante, e já verdadeiramente uma senhora a filha, tão forte, tão desenvolvida que ninguém lhe fazia a idade que tinha.
Deviam casar logo que ele terminasse o curso e obtivesse uma situação, fosse qual fosse, de conformidade com as suas habilitações, que lhe permitisse ter casa, assumir as responsabilidades de um ménage, contando apenas com os seus recursos.
— Sabes? Receio muito que na hora decisiva te falte a coragem para resistires a tua mãe, que até parece ter-me ódio, como se eu fosse uma pessoa degradada, absolutamente indigna de se ligar a uma família honesta, sem heráldica e sem fortuna...
— Tontinho! Se não casasse contigo, morreria solteira, mas nem concebo que haja forças humanas que me arranquem dos teus braços, quando chegar o momento de ser [tua, unidos por laços indissolúveis...
Sucedeu que tendo ele empreendido uma viagem à África, por conta de uma Companhia, com demora de alguns meses, o que representava um bom começo da sua vida de advogado, os pais dela, ambiciosos e raciocinadores, com muita prosápia e pouco dinheiro, meteram-na à cara de um brasileiro rico, o qual, preso aos seus encantos, lhe ofereceu a mão e a fortuna, uma belíssima fortuna, avaliada em muitas centenas de contos. Era o futuro com tudo quanto pode encher a ambição e lisonjear a vaidade de uma criatura fútil.
Três meses depois dela se fazer a esposa desse brasileiro opulento, tornara-se ele, despeitado, o marido de uma prima rica, muito rica, que vivera, sempre apaixonada por ele, na província, e jurara não casar enquanto ele fosse solteiro.
Compreendia que eia, lutando contra o despotismo dos pais, dominados só pelo interesse, acabasse por ceder; mas sabia que ela não levara muito longe a resistência, facilmente esquecida da promessa solene que lhe fizera — se não casar contigo, morrerei solteira. Casando rico, ela não o afrontaria com a sua fortuna, e seria obrigada a reconhecer que ao seu amor ele teria sacrificado a prima, quase tão rica como o brasileiro, e em nada inferior a ela, sob qualquer ponto de vista.
Doze anos mais tarde, num colégio de Londres, visitava ele a sua filha única, a sua boa fada, uma rapariga forte e esbelta que era a própria luz dos seus olhos, a vida da sua vida. Custara-lhe muito separar-se dela, mas em Portugal não havia um colégio de meninas, para onde a mandasse com absoluta confiança, e queria instruí-la e educá-la por maneira a fazer dela, não apenas uma rapariga interessante, mas ama mulher distinta. Não a queria sabichona, à maneira de Molière; mas também não a queria paradisiacamente ignorante à maneira portuguesa. Queria lhe muito; mas não o cegava o amor que lhe tinha, levando-o a exagerar os seus talentos e virtudes. Eram admiráveis as suas qualidades de inteligência e os seus predicados de caráter; nela havia tudo a desenvolver, e coisa alguma a corrigir. Grande admirador da Inglaterra, como Nação, as suas prosperidades atribui-as às qualidades individuais dos seus filhos, gente da mais rija tempera, criada e educada no respeito e no amor da Pátria, cada inglês considerando o seu País como um prolongamento ou amplificação da sua casa, o seu heme, moralmente obrigado a sacrificar-lhe tudo, quando ele careça dos seus sacrifícios.
— Demora-te um instante, papá, que eu quero apresentar te a minha amiga.
Da mesma idade, quase da mesma estatura, uma loira, a outra morena, aquelas meninas estimavam-se como se fossem irmãs; nunca um farrapito de nuvem passageira toldara aquela amizade infantil.
Nunca saíam urna sem a outra, e no colégio, quer no estudo, quer no recreio, estavam sempre juntas. Tinham os mesmos gostos, as mesmas predileções; vestiam pelo mesmo figurino, tocavam as mesmas músicas e liam os mesmos livros. A inevitável intriga dos colégios, comum a todos os internatos, não atingia as duas amiguinhas, que dir-se-ia terem nascido do mesmo ventre e na mesma hora, fisicamente distintas, moralmente semelhantes, de uma semelhança tão grande que dir-se-ia uma igualdade. Gozavam da estima geral, e certas atenções que por elas manifestavam as Mestras, deferências especiais que tinha para com elas a diretora do Colégio, não despertavam o ciúme das outras meninas, talvez porque elas, excessivamente modestas, não tiravam daí nenhum motivo de envaidecimento, e tão espontaneamente, com tanto zelo observavam a disciplina da casa, que dir-se-ia viverem no permanente receio de sanções rigorosas para as suas mínimas faltas de crianças.
Seria possível?...
Aquele ar senhoril, de uma rara distinção; aquele olhar macio, de uma volúpia casta; aquele sorriso vago, nem triste nem alegre, como se fosse ao mesmo tempo a expressão de uma saudade longínqua e a esperança duma felicidade remota...
Ficou-se, mudo e quedo, a olhar a grande amiga de sua filha, quase não se atrevendo a cumprimentá-la, mal se decidindo a beijar-lhe a face que ela, numa admirável intimidade, oferecia aos seus lábios em febre.
Seria possível?
Era a mesma figura e o mesmo nome, precisamente a gentil criança que ele namorara da sua janela e do seu quintal, trocando olhares acariciadores, discretamente conversando sem palavras e sem gestos. Evocava esse passado longínquo, e sentia a dor, o sofrimento torturante de uma felicidade quase realizada, uma promessa de bem-aventurança convertida de súbito numa condenação de réprobos.
Ia a fazer-lhe perguntas, acariciando-a, quando ela, num salto de gazela, a correr pelo vasto pátio, grita como que para dar o sinal de alarme:
— Olha a mamã!...Olha a mamã!
Ouve-se o toque duma sineta, convidando as visitas a retirarem-se.
— Quando voltas, papá?
— Quando voltas, mamã?
À porta do colégio, instalando-a no cab que a trouxera, apertando-lhe muito a mão:
— És feliz?
— Sim, quanto se pode ser com o coração partido. E tu?
— Também, quanto se pode ser feliz com a alma em farrapos.
Tinha sido o seu primeiro, o seu único amor!



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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