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6/24/2019

Nem tudo o que luz... (Conto), de Brito Camacho



Nem tudo o que luz...
Subitamente, dominando o barulho das ruas próximas, produziu-se no pequenino jardim, onde brincavam crianças, um ruído formidável, qualquer coisa de semelhante ao estampido dum trovão seco.
Nenhum prédio desabou, não se partiram vidros, não se desenraizaram árvores, mas quem ouviu o estrondo, sem tempo para refletir, acreditou que alguma coisa ruíra, e tal houve que na alucinação do terror viu a terra fender-se em bocas escancaradas, de onde saíam labaredas.
Havia poucos dias que uma bomba, atirada para um café, tinha produzido umas poucas de vítimas, e a polícia já deitara a mão a perigosos bombistas, andando no encalço de outros por igual perigosos. Recrudescera a febre destruidora dos inimigos da sociedade, começando a formar-se o pânico na população.
Um polícia correu para o único mictório que havia no pequeno jardim, a apitar, e toda, a gente o foi seguindo, instintivamente, estacando quando ele parou, segurando pelas costas um galego, que nem tempo tivera para se compor, e fazia esforços desesperados para não sair em jeitos de ofender a moral.
— Está preso!
Houve uma dificuldade enorme para evitar que o povo linchasse o facínora, pois que, embora ali não houvesse o menor sinal de explosão, era certo para toda aquela gente, e era certíssimo para o polícia, que fora aquele galego quem atirara a bomba.
Quem havia de ser, senão aquele malvado?
Por ali não havia ninguém com ares e modos de bombista, não passara ninguém que suscitasse a suspeita de ser um terrível nivelador social.
Quem sabe?
Talvez aquele galego não fosse, como inculcava, um pobre diabo vindo da Galiza para aqui ganhar honradamente a sua vida, mas sim um legionário disfarçado, um autêntico anarquista já com prática de tais proezas.
Galego aquilo, sem corda nem saco...
A cólera subiu de ponto quando uma voz gritou que estava ali morta, em cima de um banco, uma pobre velhota, de aparência decente, vítima de um estilhaço, que lhe penetrara o ventre. Era verdade que a velhota estava morta, e era também verdade que a vitimara a explosão... de um aneurisma, conforme dissera um doutor que ia passando no momento em que ela expirava.
— Conheço, muito bem esta senhora. Era minha cliente e sofria de um aneurisma da aorta há uns quatro anos. Mora na rua de tal, nº tantos.
Poucas pessoas ouviram a explicação do médico, e dessas, umas impuseram-se o dever piedoso de não abandonar o cadáver, enquanto outros iam chamar um carro que conduzisse a velhota ao hospital ou à Morgue.
Para o grande número, para a multidão que se formara junto do urinol, fora sem a menor sombra de dúvida um estilhaço que matara a pobrezinha, e a respectiva bomba fora aquele talassa, em travesti de galego, que a pusera no mictório.
Um patriota, sócio do Club Sola e Vira, chegando em plena balbúrdia, e informado do que se passava, lançou a hipótese de ser aquele galego um talassa, levado à pratica de tão hediondo crime para comprometer a Republica.
Já se erguiam bengalas, já se abriam navalhas, já se engatilhavam pistolas, quando o galego, apercebendo-se do erro daquela gente, num rasgo de gênio, gritou que se afastassem, porque tinha ali outra bomba. Instintivamente o polícia largou-o, a multidão recuou, e ele então, erguendo as mãos acima da cabeça, contraindo a musculatura forte, bumba! — exatamente como havia instantes, sem que nenhum prédio desabasse, sem que algum vidro se partisse, sem que se desenraizassem arvores.
E foram todos concordes, mais vexados do que furiosos, em que nunca tinham ouvido uma coisa assim.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Amores trágicos (Conto), de Brito Camacho



Amores trágicos
Tinha dezessete anos.
A noiva, um pouco mais nova do que ele, morrera havia dois meses.
Aos dezessete anos não é licito ter uma noiva, mas apenas uma namorada, duas ou três namoradas, porque os jovens corações, à semelhança das borboletas, pousam aqui e além, sempre enternecidos, mas livres sempre.
Certo é que, desde que lhe morreu a noiva, uma encantadora rapariga que aliava aos mais desejáveis dotes físicos os mais excelentes predicados morais, nunca mais teve uma hora de sossego, baldadamente procurando diluir em lágrimas a dor imensa que o torturava.
Todos os dias, ao cair da tarde, rigorosamente vestido de luto, ia ajoelhar sobre a sua sepultura, atapetada de flores.
Ali ficava, horas esquecidas, ás vezes colando o ouvido à pedra tumular como para recolher um segredo, uma palavra carinhosa, um juramento de amor, uma promessa de felicidade com que ela, a morta querida, pretendesse suavizar o seu incomportável sofrimento, a sua dilacerante saudade.
Tivera a coragem, que se lhe afigurava agora covardia, de não se matar quando a viu morta, não obstante ter-lhe dito, pouco antes, perguntando-lhe ela, numa crise de sofrimento pré-agônico, o que faria se ela morresse:
— Se fu morresses, o que Deus não permitirá, matava-me.
Só abandonara o cadáver por breves instantes, em- quanto o vestiam, e até fecharem o caixão, como que hipnotizado, os olhos fitos no seu rosto lindo, que a morte não transtornara, parecia querer surpreender o mais leve, o mais apagado sinal de vida, um imperceptível tremelicar das pálpebras ou dos lábios, um estremecimento de letárgico que se não ouvisse, como a harmonia das esferas, que se não visse, como o movimento da luz.
Quando a metraram na cova, ainda alto o sol, a atmosfera ligeiramente turva, o céu de um azul desbotado, quase sem nuvens, dois rouxinóis puseram-se a trinar, pousados no mesmo cipreste, ali perto, e ele teve a impressão de um coro divino que se organiza para acompanhar a alma da sua querida morta aos paramos infinitos.
A partir de então, todos os dias, àquela hora, rigorosamente vestido de preto, ia ajoelhar sobre a sua sepultura, atapetada de flores, e ás vezes, colando o ouvido à pedra tumular, parecia-lhe que lá de dentro vinham sons, vozes mal articuladas em que ele adivinhava promessas de felicidade, juramentos d'amor.
Naquele dia, como nos outros, rigorosamente vestido de preto, chegou à hora em que ela fora enterrada e ajoelhou sobre a sua sepultura, atapetada de flores, colhidas de fresco. Um moço do cemitério, generosamente retribuído, tinha o encargo piedoso de não deixar que houvesse flores murchas sobre aquele cofre sagrado.
Pareceu-lhe, na alucinação que o dominava, que ela se revolvia na cova e o chamava para junto de si, para os divinos esponsais.
— Eu vou! Eu vou!
Um guarda que andava ali perto, em serviço de ronda, ouviu uma detonação, e correndo para o local donde lhe pareceu que ela partira, encontrou-o morto, o revolver na mão crispada e nos lábios o esboço dum sorriso triste e feliz, expressão trágica dos que morrem de amor, certos de que noutro mundo, certos de que noutra vida encontrarão a felicidade que na terra não encontraram.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

As aparências enganam (Conto), de Brito Camacho


As aparências enganam
Sempre tivera a paixão das mulheraças, importando-se pouco que fossem bonitas ou feias. Todos os encantos femininos eram redutíveis, segundo o seu critério e gosto, a gramas e centímetros. Bem entendido, a mulher comprida, esgalgada, expressa numa só dimensão, o comprimento, embora lhe chamasse a atenção, não lhe perturbava os sentidos. O mesmo lhe sucedia com as mulheres baixas e repolhudas, as madamas estilizadas em abobora, com mais de noventa quilos, peso limpo.
Era capaz de correr a cidade inteira, em todas as direções, atrás desses Himalaias de saias, e por mais de uma vez lhe sucedeu continuar a viagem, em comboio, muito para além do seu destino, atraído por qualquer Eva de um metro e setenta e cinco de altura, não levando em conta os saltos, e a largura correspondente.
Era um fetichismo burlesco, no gênero de muitos outros que andam descritos em certos livros de medicina e constituem um dos capítulos mais interessantes da psicopatologia dos sexos, Sobre a maior parte dos outros fetichismos amorosos, que ele nem conhecia de leitura, jamais tendo prendido a sua atenção a essa ordem de estudos, este tinha a vantagem de não o sujeitar a percalços graves, sempre a respeitosa distância das madamas que seguia, a menos que um olhar acariciador caísse sobre ele, como um convite.
Falava do Oriente com muito desdém, por causa da pequenez das mulheres, talvez estimáveis bibelôs, cheios de frescura e de graça, mas bibelôs em todo o caso. Lera, algures, que as crianças são mulheres pequeninas, e logo invertera a máxima, para seu uso, dizendo que as mulheres pequenas são crianças grandes. Ora as crianças, na sua minusculidade de bonecas, eram indiferentes, absolutamente indiferentes aos seus apetites amorosos, eminentemente sexuais.
Fosse como fosse, as mulheraças exerciam sobre ele, bonitas ou feias, uma atração irresistível, a tal ponto que algumas vezes lhe sucedeu continuar a viagem, em comboio, muito para além do seu destino, prezo aos encantos de uma Vênus culatrona, comprida e larga.
Entrou no baile sem nenhuma intensão de se demorar; mas viu aquela enorme máscara, dominando a multidão, e ficou talqualmente como um saloio que dando uma topada numa pedra, encontrasse um tesouro. Tinha um rebolar de ancas como têm geralmente as varinas, e era de uma elegância tamanha a dançar, que dir-se-ia uma estrela coreográfica aplaudida e consagrada pelas mais exigentes plateias. Véstia de Judite de Betúlia, segundo a narrativa bíblica, e ele não se importava de ser o Olofernes, com tanto que antes de lhe cortar a cabeça, ela se lhe tivesse entregado sem restrições.
Pôs-se a segui-la devorando a com os olhos, lamentando-se de não saber dançar, o que tornaria fácil a abordagem, aliás nunca extremamente difícil num baile de máscaras, com entradas pagas.
Notou que ela andava em completa liberdade, dançando com este, dançando com aquele, conversando com uns, conversando com outros, mas livre como um passarinho na eira ou como um cabrito na pastagem.
Tanto fez que ela o notou, demorando se a fitai-o por detrás da máscara, naquele momento atrelada a um cavalheiro que lhe dava pelo ombro, e era dos homens mais altos que havia na sala.
Já perto da meia-noite, vendo-a no bufete, encheu-se de coragem e convidou-a para cear, se quisesse dar-lhe esse prazer — ali mesmo ou n’um gabinete reservado.
Agradeceu, fazendo uma reverencia, e voltou para a sala do baile, alta como a Torre dos Clérigos, ancha como o zimbório da Estrela.
Continuou a persegui-la, agora com mais insistência, às vezes perdendo-a de vista, no turbilhão dançante, e então farejando-a como um podengo, no mato, fareja um coelho.
Passou revista à carteira, e verificou que tinha bagagem suficiente para empreender uma batida àquela peça de caça grossa, que certamente não era uma ressurreição da Lucrécia romana, e a ser uma Imperatriz, seria a famosa Catarina da Rússia, cantada pelo Bocage.
Nunca se vira assim enternecido, fascinado por uma mulher, talvez bonita, talvez feia, o que pouco lhe importava, porque o seu critério de beleza feminina era o quilo e o metro.
Na verdade, era uma grande mulher, uma enormíssima mulher, as ancas largas como se fosse o cavalo de Troia antes de parir todos aqueles guerreiros que lhe atafulhavam o ventre.
Pediu a um amigo que fosse dançar com ela, para ele ter um bom pretexto para se aproximar, entabulando uma conversa que tivesse resultados decisivos.
Assim foi.
O amigo retirou-se logo que a conversa pegou, e ele então, mais animado que no bufete, a ver que as horas iam passando, e o baile acabaria antes do sol fora, não esteve com grandes cerimônias — propôs-lhe saírem, indo acompanhar à casa.
Houve a inevitável resistência, começando pelo desdém, vindo a seguir o protesto mais afetuoso que violento, acabando numa enternecida condescendência, guardadas as devidas cautelas — mulher casada, com filhos...
Morava longe, era muito conhecida no Bairro, e aquela hora, já quase dia, algum vizinho podia estar à porta ou à janela, ou recolher de uma noitada carnavalesca, encontrando-se na rua, de nada lhe servindo a máscara.
O porteiro do hotel, quando os viu entrar, estacou diante d’aquela bisarma de saias, tendo a impressão de ver na sua frente uma baleia mascarada. Ele então, radiante, parecendo ainda mais pequenino ao pé daquela mole gigantesca, tinha o ar babado de um serviçal que a patroa admite na sua intimidade.
— Haverá quarto?
O porteiro, já velhote, permitindo-se uma liberdade que, em qualquer outra época, não teria com o hospede da mais humilde condição, disfarçando um riso velhaco sob a espessura d um bigode branco pela idade e amarelado pelo cigarro, respondeu:
— Quarto ha, com certeza; agora cama que dê a conta...
E servindo-se dos olhos como de um compasso, mediu-os de alto a baixo, primeiro o cavalheiro, depois a dama, mal resistindo à tentação de lhes dizer que no Hotel não havia leito onde pudesse estender-se tão agigantada pessoa sem ficar com as pernas dependuradas.
Subiram, e logo ao cimo da escada lhes apareceu um criado, o de vela, perguntando o que desejavam. 
— Um quarto, se há.
— Sim senhor, há quarto. É só para dormida?
— É. Por que faz essa pregunta?
— É porque o quarto só para dormida paga-se adiantado.
Tirou dinheiro da carteira e pagou — dando logo gorjeta.
O criado desapareceu, levando um castiçal na mão; voltou daí a pouco, e disse para o cavalheiro, muito atencioso:
— Façam favor acompanhem-me.
Ninguém soube, ¡amais, o segredo daquele tête-à-tête, mas daí a nada o homenzinho, deixando no quarto a mulher himalaica e mascarada, saía em pé de vento, murmurando esta imprecação raivosa:
— Malandro!... Grandíssimo malandro!



---Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019

Valor de posição (Conto), de Brito Camacho



Valor de posição
Era o tipo do sargento instrutor.
Quando lhe puseram no braço as quatro divisas, já ele tinha abdômen de major. Assentara praça muito novo, aos dezesseis anos, como voluntario, sem conhecer uma letra. O capelão era o mestre-escola, e como se desse o caso de ser bom homem, dedicava-se ao ensino coma melhor Boa vontade. De modo que o nosso jovem recruta, tendo caído nas boas graças do capelão, era de todos os alunos o que ele tratava com mais carinhosa solicitude. Ficou distinto no exame de furriel, e foi o primeiro classificado no exame para segundo sargento. Não era de uma inteligência notável; mas era excepcionalmente aplicado, e tinha uma vontade de ferro.
Muito sério, irrepreensivelmente bem comportado, nunca sofreu o mínimo castigo, a mais atenuada repreensão. Todos os senhores oficiais, desde o comandante ao almoxarife, mostravam por ele muita estima e muita consideração. Cumprimentavam-no pelo nome, — adeus ó Lopes! — e ele era tão fundamentalmente disciplinado que nunca se desmandou numa familiaridade permitida.
Ganhara as suas esporas de ouro num arraial, onde ora comandando uma força requisitada pelo administrador do concelho. Andavam desavindos, por mera rivalidade de campônios, dois povos vizinhos, e esperava-se que eles aproveitassem o arraial para ajustarem as suas contas, descarregando uns nos outros pancada de criar bicho. À cautela, o administrador requisitou uma força de sargento, convencido de que uma força de cabo valeria tanto como uma viola num enterro. Logo se assentou em que fosse o Lopes o comandante dessa força, homem resoluto, mas calmo, valente mas ponderado, incapaz de uma imprudência, que pudesse ter consequências graves.
Chegou o destacamento de véspera, ao cair da noite, e logo se espalhou que o sargento recebera ordem de dar para baixo, aos primeiros assomos de desordem.
No dia seguinte, já em plena festa o arraial, bêbedos de vinho ou de entusiasmo os romeiros, era voz geral que o sargento recomendara aos soldados, aquartelados numa dependência da Igreja, que à voz de fogo fizessem pontarias baixas, para a caça não fugir. Mais se dizia que cada soldado tinha na patrona sessenta cartuchos, havendo quem afirmasse que era assim, por ter visto, acrescentando que um dos soldados, ainda seu parente, lhe dissera que se chegasse a haver tiros, seria uma desgraça nunca vista.
Não tardou que se armasse uma desordem, cruzando-se no ar os cacetes, que implacavelmente caíam nas costas de uns e na cabeça de outros, havendo costelas partidas e pinhas rachadas, jorrando o sangue em abundância. Ia generalizar-se a pancadaria, como num debate parlamentar, quando apareceu o sargento, de espingarda ao ombro, a baioneta calada, o ar sereno de quem vai de passeio e para a ver uma montra.
Da multidão saiu este grito — mata-se! mata-se!— e para o sargento avançaram alguns pimpões, confiados em que a superioridade do número compensaria a desigualdade das armas.
O Lopes recuou alguns passos, e pondo a espingarda na posição de preparar, conteve os amotinados, dizendo-lhes:
— O primeiro que der um passo, prego-lhe um tiro nos cascos.
Ninguém se moveu, e sumiram-se os cacetes que andavam no ar.
O sargento então, sereno como se estivesse a conversar à boa paz, falou nestes termos:
— Ouçam bem o que lhes vou dizer, e tenham tento na bola. A força que eu comando não veio aqui para matar ninguém; veio para não deixar que vocês se matem uns aos outros. Quem tiver contas a ajustar, vá ajustá-las noutro sítio, se não acharem é melhor deixarem-se de asneiras, e esquecerem todas as queixas que tiverem uns dos outros, bagatelas que não valem a ponta dum cigarro.
Os meus soldados estão debaixo de forma à espera das minhas ordens. Se vocês entrarem na razão, se largarem os cacetes para se agarrarem ás moças, balando e cantando até moerem as pernas, emborcando o seu copázio, de quando em quando, para enrijar o nervo, se vocês fizerem isto, a minha voz de comando será esta: — Ensarilhar, armas! À vontade... Se não quiserem assim, saberão como elas cantam. As baionetas têm ponta, todos os cartuchos têm bala, e no destacamento não tenho um só homem que na escola de tiro não obtivesse prêmio.
Sic orsus, mas ao contrário do que sucedeu no caso de Eneias, todos aqueles lapuzes, longe de ficarem de boca aberta — intentique ora tenebant, mudos como se fossem marmotas, desataram aos berros, atroando os ares:
— Viva o nosso sargento! Viva o nosso sargento! — como se fossem da tropa.
Em relatório para o governador civil o Administrador do Concelho informou detalhadamente do procedimento que tivera o sargento, afirmando que sem a sua cordura, a sua decisão, a sua valentia calma mas intrépida, teria havido mortos sem conta. O governador civil levou o caso ao conhecimento do comandante do regimento, o qual louvou o Lopes e lhe concedeu trinta dias de licença, sem nenhum desconto.
No mesmo dia em que saiu primeiro sargento foi encarregado da instrução dos recrutas. Era paternal, para com os pobres lapuzes, sem todavia deixar de ser severo, como convinha. Possuía o talento raro do instrutor, em termos que não havia recruta bronco que no mínimo do tempo não adquirisse a instrução completa. Conhecia como ninguém a psicologia dos alarves, e era isso que lhe dava a altíssima competência de instrutor, que todos lhe reconheciam.
— São uns diamantes em bruto; mas a gente faz deles o que quer, o ponto é dar-lhes com as manhas.
Na verdade, alguns faziam-se mais broncos do que eram, esperançados em que o sargento, vendo que não fazia bom deles, declarasse oficialmente que eram incapazes de receber a instrução de recrutas, sendo- lhes dada a baixa apetecida.
— O meu sargento bem vê. Eu não adianto mais dum dia para o outro, e ainda que esteja aqui toda a vida, nunca chegarei a ser dado como pronto. Gostava de aprender; mas sou muito rude. Cada qual é para o que nasce, e o meu sargento bem vê que eu não nasci p’ra isto.
Tais discursos não comoviam o Lopes, que muito bem sabia ao que eles visavam — largar as correias antes de finda a escola, regressando à paisana com uma baixa limpa.
— Pode ser que fu nunca aprendas a recruta, mas nesse caso serás recruta durante três anos, que é o tempo de serviço. Os recrutas não têm direito a licenças, e depois do primeiro período de instrução, sem aproveitamento, não se lhes fez um favor do tamanho de uma unha. Dispensas de recolher? Dispensas de formatura? Nem meia; o plantão e a faxina, sem escala, são para esses melros o pão nosso de cada dia.
És rude?
O homem incapaz de aprender a instrução, deve ser dado como incapaz da vida militar; mas incapaz como soldado, devendo ser aproveitado como montada, num regimento de cavalaria.
Às vezes iam senhores oficiais assistir à escola do Lopes, e ele tinha grande desvanecimento com isso. Aproveitava essas ocasiões para instruir os galuchos com respeito aos deveres que incumbiam ao soldado nas varias situações de serviço.
—Ouve lá, rapaz; aqui está uma porta e tu estás de guarda a ela, com ordem de não deixares entrar seja quem for. Ouviste bem? Seja quem for.
— Sim, meu sargento.
— Está bem. Eu sou o nosso capitão Gaitinhas... Posso entrar?
— Não, senhor.
— Fazes bem, rapaz... Agora sou o nosso major Sete Falinhas... Posso entrar?
— Não, senhor.
— Fazes bem. Agora sou o nosso comandante. Posso entrar?
O recruta hesita um pouco, e responde:
— Não, senhor.
— Muitíssimo bem, rapaz. A ordem é não deixar entrar seja quem for. Repara bem nisto — seja quem for. Bom; eu agora sou o rei. Olha que o nosso Comandante, ao pé do rei, é tanto como tu ao pé do nosso capitão.... Repara bem — eu agora sou o rei Não me deixas entrar?
— Lá o rei, sim... deixo.
— Pois não devias deixar, grandíssimo bruto. Tu aqui não és o 37 da quarta; és a Lei. O nosso capitão, o nosso major, o nosso comandante e o próprio rei valem menos do que tu, quando representas a lei. Fora daí és um filho da... mãe, como qualquer outro, mas aí és superior a todos. Não devias deixar entrar o rei, minha cavalgadura.
Era um sargento como então havia muitos, como hoje há poucos, militar de carreira, profissional das armas para quem o seu regimento era uma extensão da sua família.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019

Casamento e mortalha... (Conto), de Brito Camacho



Casamento e mortalha...
Tinha sido o seu primeiro, o seu único amor.
Conheceram-se ainda ela usava as saias curtas, e preparava-se ele para deixar o calção.
Viviam em prédios contíguos, de modo que se viam a toda a hora, umas vezes à janela, outras vezes no quintal, vindo a estabelecer-se entre as duas crianças sem malicia uma intimidade que se traduzia em olhares acariciadores, sem palavras e sem gestos.
As respectivas famílias não se visitavam, nem sequer trocavam um cerimonioso cumprimento de janela para janela ou quando se encontravam na rua, cada qual seguindo ao seu destino.
Quando ela saiu do colégio, muito instruída e muito bem educada, entrou ele para a Universidade, com dezessete anos completos, e já então o namorico de crianças, que a família dela via com maus olhos, contrariando-o discretamente, tomara a consistência de uma paixão fortemente enraizada, absorvente e dominadora.
Uma criada velha, mais velha na casa que a própria mãe da menina, condescenderá em proteger aqueles amores castos, de uma ingenuidade pueril, mas já tão fortemente enraizados, que se via bem não ser possível contrariá-los sem abrir feridas sangrentas.
Porque contava na família um corregedor e um bispo, a mãe da menina, com proa de fidalga, só pensava em doirar os seus brasões à custa da filha, casando-a muito rica. Por isso contrariava aquele namoro, sobretudo agora, já estudante da Universidade o rapaz, com fama de bom estudante, e já verdadeiramente uma senhora a filha, tão forte, tão desenvolvida que ninguém lhe fazia a idade que tinha.
Deviam casar logo que ele terminasse o curso e obtivesse uma situação, fosse qual fosse, de conformidade com as suas habilitações, que lhe permitisse ter casa, assumir as responsabilidades de um ménage, contando apenas com os seus recursos.
— Sabes? Receio muito que na hora decisiva te falte a coragem para resistires a tua mãe, que até parece ter-me ódio, como se eu fosse uma pessoa degradada, absolutamente indigna de se ligar a uma família honesta, sem heráldica e sem fortuna...
— Tontinho! Se não casasse contigo, morreria solteira, mas nem concebo que haja forças humanas que me arranquem dos teus braços, quando chegar o momento de ser [tua, unidos por laços indissolúveis...
Sucedeu que tendo ele empreendido uma viagem à África, por conta de uma Companhia, com demora de alguns meses, o que representava um bom começo da sua vida de advogado, os pais dela, ambiciosos e raciocinadores, com muita prosápia e pouco dinheiro, meteram-na à cara de um brasileiro rico, o qual, preso aos seus encantos, lhe ofereceu a mão e a fortuna, uma belíssima fortuna, avaliada em muitas centenas de contos. Era o futuro com tudo quanto pode encher a ambição e lisonjear a vaidade de uma criatura fútil.
Três meses depois dela se fazer a esposa desse brasileiro opulento, tornara-se ele, despeitado, o marido de uma prima rica, muito rica, que vivera, sempre apaixonada por ele, na província, e jurara não casar enquanto ele fosse solteiro.
Compreendia que eia, lutando contra o despotismo dos pais, dominados só pelo interesse, acabasse por ceder; mas sabia que ela não levara muito longe a resistência, facilmente esquecida da promessa solene que lhe fizera — se não casar contigo, morrerei solteira. Casando rico, ela não o afrontaria com a sua fortuna, e seria obrigada a reconhecer que ao seu amor ele teria sacrificado a prima, quase tão rica como o brasileiro, e em nada inferior a ela, sob qualquer ponto de vista.
Doze anos mais tarde, num colégio de Londres, visitava ele a sua filha única, a sua boa fada, uma rapariga forte e esbelta que era a própria luz dos seus olhos, a vida da sua vida. Custara-lhe muito separar-se dela, mas em Portugal não havia um colégio de meninas, para onde a mandasse com absoluta confiança, e queria instruí-la e educá-la por maneira a fazer dela, não apenas uma rapariga interessante, mas ama mulher distinta. Não a queria sabichona, à maneira de Molière; mas também não a queria paradisiacamente ignorante à maneira portuguesa. Queria lhe muito; mas não o cegava o amor que lhe tinha, levando-o a exagerar os seus talentos e virtudes. Eram admiráveis as suas qualidades de inteligência e os seus predicados de caráter; nela havia tudo a desenvolver, e coisa alguma a corrigir. Grande admirador da Inglaterra, como Nação, as suas prosperidades atribui-as às qualidades individuais dos seus filhos, gente da mais rija tempera, criada e educada no respeito e no amor da Pátria, cada inglês considerando o seu País como um prolongamento ou amplificação da sua casa, o seu heme, moralmente obrigado a sacrificar-lhe tudo, quando ele careça dos seus sacrifícios.
— Demora-te um instante, papá, que eu quero apresentar te a minha amiga.
Da mesma idade, quase da mesma estatura, uma loira, a outra morena, aquelas meninas estimavam-se como se fossem irmãs; nunca um farrapito de nuvem passageira toldara aquela amizade infantil.
Nunca saíam urna sem a outra, e no colégio, quer no estudo, quer no recreio, estavam sempre juntas. Tinham os mesmos gostos, as mesmas predileções; vestiam pelo mesmo figurino, tocavam as mesmas músicas e liam os mesmos livros. A inevitável intriga dos colégios, comum a todos os internatos, não atingia as duas amiguinhas, que dir-se-ia terem nascido do mesmo ventre e na mesma hora, fisicamente distintas, moralmente semelhantes, de uma semelhança tão grande que dir-se-ia uma igualdade. Gozavam da estima geral, e certas atenções que por elas manifestavam as Mestras, deferências especiais que tinha para com elas a diretora do Colégio, não despertavam o ciúme das outras meninas, talvez porque elas, excessivamente modestas, não tiravam daí nenhum motivo de envaidecimento, e tão espontaneamente, com tanto zelo observavam a disciplina da casa, que dir-se-ia viverem no permanente receio de sanções rigorosas para as suas mínimas faltas de crianças.
Seria possível?...
Aquele ar senhoril, de uma rara distinção; aquele olhar macio, de uma volúpia casta; aquele sorriso vago, nem triste nem alegre, como se fosse ao mesmo tempo a expressão de uma saudade longínqua e a esperança duma felicidade remota...
Ficou-se, mudo e quedo, a olhar a grande amiga de sua filha, quase não se atrevendo a cumprimentá-la, mal se decidindo a beijar-lhe a face que ela, numa admirável intimidade, oferecia aos seus lábios em febre.
Seria possível?
Era a mesma figura e o mesmo nome, precisamente a gentil criança que ele namorara da sua janela e do seu quintal, trocando olhares acariciadores, discretamente conversando sem palavras e sem gestos. Evocava esse passado longínquo, e sentia a dor, o sofrimento torturante de uma felicidade quase realizada, uma promessa de bem-aventurança convertida de súbito numa condenação de réprobos.
Ia a fazer-lhe perguntas, acariciando-a, quando ela, num salto de gazela, a correr pelo vasto pátio, grita como que para dar o sinal de alarme:
— Olha a mamã!...Olha a mamã!
Ouve-se o toque duma sineta, convidando as visitas a retirarem-se.
— Quando voltas, papá?
— Quando voltas, mamã?
À porta do colégio, instalando-a no cab que a trouxera, apertando-lhe muito a mão:
— És feliz?
— Sim, quanto se pode ser com o coração partido. E tu?
— Também, quanto se pode ser feliz com a alma em farrapos.
Tinha sido o seu primeiro, o seu único amor!



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/12/2019

O Compadre Rabino (Conto), de Brito Camacho



O Compadre Rabino

Apareceu um dia no monte, magro, escanzelado, consumido pelas febres, havia três meses a contas com umas quartãs que não o largavam nem à mão de Deus-Padre.

— Queres-te consertar?

Ele não queria outra coisa; mas sentia-se incapaz de mudar uma palha de um lado para o outro, de dois em dois dias abarracado com a quartã, para ali ficando num molho de manhã à noite, sem dar acordo de si.

— Não faz mal, é para guardar porcos. Tenho ai um remédio que te há de fazer bem. O remédio era o sulfato de quinino, o bom sulfato inglês, que minha mãe comprava em frascos, dando-o a quem dele necessitava, à gente pobre que o pedia.

Foi assim que o compadre Rabino entrou para minha casa, roído pelas febres, umas quartãs amaldiçoadas que o não deixavam ganhar a vida.

Sucedeu o remédio fazer-lhe bem, de modo que ao fim de poucos dias estava são e rijo como um pero verde, e comia com tal apetite que até parecia, diziam os outros criados, ter fome canina.

Por qualquer motivo, o maioral dos porcos deu o ano por acabado antes de Santa Maria, e o compadre Rabino, que entrara como ajuda, passou logo a ser o maioral, subindo de categoria e melhorando de vencimentos.

Minha mãe foi a madrinha da sua primeira filha, e assim o compadre Rabino passou a ser uma pessoa da nossa família, compadre de águas bentas, o que representava naquele tempo uma estreita relação de parentesco, tão estreita que os compadres como tal se tratavam, mesmo que fossem irmãos.

E que adorável, que santa rapariga era essa Maria Jacinta, que eu estou a ver, estudante de Medicina em fins do curso, pálida como se fosse modelada em cera branca com tonalidades amarelas, os olhos encovados, o peito deprimido, triste porque sentia a morte próxima, e ao mesmo tempo satisfeita porque me tinha ao pé de si.

— Diga-me que não morro, que eu acredito...

Pobre Maria Jacinta!

No campo, pela Primavera, em plena Natureza encontram-se florinhas, cetinosas ou aveludadas, admiráveis pelo desenho, cativantes pela cor, de uma beleza tão rara que a gente pasma de as ver ali entre plantas grosseiras, ao lado de outras flores ordinárias, que mais fazem realçar pelo contraste o seu porte aristocrático. Dir-se-ia, não as vendo ao pé da esteva resinosa, da papoila branca, junto dos cardos espinhosos, armados para a resistência a toda a espécie de agressão, dir-se-ia, naturalmente, serem tais florinhas o produto de uma seleção inteligente, continuada ao longo de tempos infinitos, mimosas e delicadas flores que mãos finas de princesa fossem tratando e educando segundo os melhores preceitos dessa arte essencialmente fidalga, como lhe chamou o Fialho, que é a floricultura.

Pois aparecem também semelhantemente, na família plebeia dos camponeses, criaturinhas de graça perturbante, como se dentro da frágil beleza de uma tanagra habitasse o espírito sonhador de uma castelã, tão nobres de sentimentos, tão fidalgas de maneiras, que a gente fica a pensar, olhando-as com enternecida curiosidade, se não coincide a repetição de certas formas com a transmigração de certas almas.

***

A vida do maioral de porcos é relativamente descansada, pelo menos durante uma boa parte do ano, de modo que ao compadre Rabino sobejava-lhe o tempo para me aturar, dias inteiros por lá com ele, sobretudo na época das túberas, que os porcos são uns artistas para as encontrarem e dão o cavaquinho por elas, como excelentes gourmets. Não me recordo de ter ouvido ao compadre Rabino uma palavra obscena, e ia jurar sobre umas Horas que jamais ele contou uma história picaresca. Era um homem austero nos seus costumes e de uma grande compostura na sua linguagem. É regra invariável dos homens que guardam animais, sejam eles quais forem — ovelhas, cabras, bois ou porcos, — envolverem nas suas pragas, que são exclamações de cólera passageira, os patrões, donos do gado, e não se dispensam inteiramente de o fazer, mesmo na presença deles. Às vezes, íamos de carro para qualquer parte, eu e meu pai, e o almocreve, farto de brigar com uma das mulas, que não queria puxar certo, desatava a bater-lhe furiosamente com o chicote, e cada chicotada tinha o reforço de uma injúria grave — Ah! mula de um filho da… como se a minha avó fosse a mãe dele.

Tinha a religiosidade dos homens da sua condição, o compadre Rabino, mas não era fanático nem supersticioso; acreditava nos santos, e não tinha medo das bruxas.

Do que ele tinha medo, um medo apavorante, era das trovoadas, a tal ponto que em ouvindo um trovão já não sabia onde havia de meter-se... Andava com o gado longe do monte, e o céu entrava a toldar-se, grandes nuvens correndo ao encontro umas das outras, formando esponjas do tamanho de montanhas. Daí a pouco chovia torrencialmente, e o compadre Rabino, enrolado na sua manta de riscas pretas e brancas, procurava um abrigo, se o havia ali perto, uma árvore ou uma barreira, e aguentava, ao pé da sua obrigação, o dilúvio que sobre ele caía. Mas ouvia-se um trovão, ainda surdo, muito distante, o compadre Rabino tratava de enrolar o gado — ó rapaz, acareia para cá aqueles porcos — e punha-se a caminho do monte. Se a trovoada o surpreendia, e no mês de Maio as trovoadas no Alentejo armam-se de um momento para o outro, o compadre Rabino largava o gado, carregava-se de trovisco, se por ali o havia, e pernas para que vos quero, até se apanhar debaixo de telha — como se o perigo, abrangendo muitos, fosse menor para cada um. Chegava, esbaforido, a manta pela cabeça, o chapéu debaixo do braço, e o seu primeiro cuidado era entregar o trovisco a uma criada, que tratava de o espalhar por todas as casas, ramo aqui, ramo além, não esquecendo nunca um raminho a tapar o buraco da fechadura na porta da rua. Já minha mãe, também medrosa dos trovões, tinha feito reunir a família num quarto onde não houvesse cobre ou estanho, porque estes metais atraem o raio, de modo que a sua presença, quando troveja, é perigosa para as pessoas. É como se estivesse a ouvi-lo, o pequeno coro de vozes súplices, erguendo-se numa toada plangente, e os trovões ribombando numa orquestração diabólica, terrificante — como se o Deus bíblico desencadeasse as suas cóleras por sobre as nossas cabeças.

Por que é que o trovisco livra a gente de perigos, ó compadre João?

Não lhe sei dizer, Sr. Compadre, mas sempre ouvi contar que Nossa Senhora, indo para o deserto na companhia de seu esposo e do seu bendito filho, uma trovoada apanhou-a num descampado, e ela então acolheu-se ao pé de uma trovisqueira, rezando as suas orações. Vai então Nosso Senhor abençoou o trovisco em honra da Virgem Santa.

Também eu rezava a magnificat e cantava o bendito-louvado; mas não tinha medo dos trovões e gostava de ver os relâmpagos, como faíscas, riscando a atmosfera espessa, e seguia com a maior curiosidade, como se quisesse penetrar um mistério, toda a evolução do estrondo atmosférico, desde o estampido inicial, como um estalo de madeira seca, até ao sussurro longínquo, quase apagado, como o de um vagalhão que morre na areia.

***
Nos primeiros dias de Outubro, às vezes nos últimos dias de Setembro, o compadre Rabino ia encabeçar os montados, e sempre os seus encabeçamentos eram mais exatos que o cômputo das receitas e despesas no Orçamento Geral do Estado.

— O Sabugueiro está carregado de comida; deve fazer umas quarenta cabeças. O Poço Seco não pode fazer mais de trinta. O sobro está bom, mas o Sr. Compadre bem sabe, afogado em mato...

Claro está que o compadre Rabino não tinha um processo especial, um processo seu para encabeçar um montado; mas tinha a pachorra de estacar diante de cada árvore, mirando-a bem, quase contando-lhe as boletas, e assim os seus cálculos tinham a possível exatidão. Ao encetar a sua tarefa, metia umas poucas de pedras na algibeira da jaleca, lado esquerdo, cada uma das pedras correspondendo a um porco magro. À medida que ia engordando essas cabeças, passava-as para a algibeira direita, e assim, terminada a vistoria, contando as pedras que tinha nessa algibeira, sabia quantas cabeças fazia o montado. Podia vir mau tempo; as geadas queimarem a boleta; o vento sacudia as árvores, formando soleiras que o gado não podia levantar, ficando para ali a comida a estragar-se. Com estes acidentes nada tinha o compadre Rabino, que baseava o seu cálculo na inspeção direta e confiava na regularidade dos fenômenos atmosféricos, mais do que era permitido à sua experiência de maioral.

Quando eu apanhava licença para ir ao Poço Seco levar as comédias ao compadre Rabino, que ali andava com o alfeire, o meu contentamento não tinha limites. Era uma jornada de vinte e tantos quilômetros montado no Carrula, um macho velho que havia em minha casa, muito manso, muito vagaroso — não mudava uma pata sem pedir licença à outra. Havia um perigo no caminho, se o Inverno era de chuvas copiosas — a ribeira de São Romão, que enche com facilidade e é caudalosa como um rio africano. Recomendava então meu pai:

— Se o macho fizer querena de não atravessar a ribeira, não o obrigue, venha-se embora.

Na verdade o macho sabia calcular muito melhor do que eu o volume de água que levava a ribeira, e porque era um animal calmo, raciocinador, em ele recusando atravessá-la, o que havia a fazer de melhor era aceitar-lhe a indicação.

As comédias ficavam aviadas de véspera, de modo que eu podia abalar cedo, à hora que me aprouvesse, e como não pregava olho em toda a santíssima noite, a antegozar a jornada, mal luzia o buraco saltava da cama, e era num rufo enquanto me punha a caminho.

A alegria do compadre Rabino em me vendo, e a sua carinhosa solicitude em arranjar-me um bom almoço que eu dispensava quase sempre por ter almoçado a choutear no Carrula.

— Os Srs. Compadres como estão? os manos?, toda a mais família?

Estavam todos bem, e recomendavam-se muito.

— Quanto estimo! Quanto estimo!

Guardadas as comédias e dada a ração ao macho, o compadre Rabino convidava-me a ir ver o gado, ia dar uma volta pela herdade, convite que sempre aceitava, jubiloso, vendo-me tratado como uma pessoa grande, um homem que fosse dono daquilo tudo.

— Isto é uma bela herdade, Sr. Compadre. O Sr. Seu Pai nem sabe o que aqui tem. Se andasse limpa, fazia o dobro do gado, não falando da pastagem, que podia ser desfrutada com ovelhas. Mas quê!... Há aí estevas maiores que as azinheiras. Então os sobreiros, coitadinhos, até faz pena olhar para eles. Alguns já são velhos; mas as estevas e as daroeiras chupam-lhes as raízes, e os pobres, em vez de crescerem, até parece que mínguam. Só com o dinheiro da cepa, vendida para carvão, o Sr. Compadre limpava a herdade sem por nada da sua algibeira.

Para me tornar mais sensível aos seus argumentos, o compadre Rabino levava-me por onde o mato era mais espesso, recomendando-me sempre que tivesse cuidado não fosse rasgar o fato e fazendo-me notar que as árvores, ali metidas, nem rama davam, quanto mais boleta.

Eu concordava com o compadre Rabino, às vezes nem sequer ouvindo o que ele dizia, entretido a colher medronhos, a colhê-los e a comê-los, porque eles eram magníficos, muito vermelhos, grandes e carnudos.

— Não se meta muito neles, Sr. Compadre, porque pode agarrar uma bebedeira. Eu logo apanho uma porção para levar.

Se o gado estava bom, o compadre Rabino não se dispensava de me dizer que melhor ele estaria se meu pai, fazendo como ele tinha aconselhado, deixasse ficar no monte umas trinta cabeças para levar à Feira de Castro. Se estava magro, pior que à saída do restolho, explicava que se tinha perdido muita comida com as geadas e que o gado, tendo de ir beber fora da herdade, perdia nessas andanças muito lustro e chorume.

— Ele água há em toda a parte, Sr. Compadre, o ponto é procurá-la. Todas as herdades que pegam com a nossa têm água com fartura. Ainda no outro dia, no Azinhal, abriram um poço, e quando chegaram à fundura de pouco mais de um homem, veio um jorro de água que parecia um braço de mar. Ora, se há de haver aí água! O Sr. Compadre o que devia era trazer aqui um vedor e abrir um poço onde ele dissesse.

Eu nunca tinha pressa de abalar, mas o compadre Rabino é que nunca se esquecia de que eu tinha de fazer, para chegar ao monte, umas boas três léguas da velha.

— Vão sendo horas, Sr. Compadre. A jornada é comprida, e o machinho não é grande coisa a andar.

Se à ida eu não tinha entrada em casa do compadre Rabino, passando fora de Messejana, à volta não me dispensava de o fazer, o que dava uma grande alegria à comadre Maria Inácia e à tia Mônica — além de que me fazia pousar em cavaleiro perante as gentes do povoado.

Quem me dera nesse tempo!

A comadre Maria Inácia era das mulheres mais feias da vila e termo, mas a sua fealdade não era repulsante, antes a disfarçava, quase tornando-a simpática, uma bondade que a todos prendia. Eu era, para ela, o Sr. Compadrinho, e por seguro tenho que ela não distinguia, na repartição dos seus afetos, alma afetuosa que era, entre os seus filhos e netos e os senhores Compadres das Mesas, grandes e pequenos.

A tia Mônica, baixota, redondinha, era surda como uma porta e falava a toda a gente quase a gritar — como se os outros é que fossem surdos. Era de uma alegria exuberante, fato excepcional nos surdos, que são, por via de regra, de uma tristeza sombria, ásperos, quase agressivos no seu trato. Os cegos, pelo contrário, são criaturas de bom humor, muito expansivos, de fisionomia aberta e iluminada, como se a luz que lhes falta nos olhos se lhes difundisse na cara. Figuro a hipótese de não ouvir, e parece-me que em pouco isso alteraria o meu viver habitual; figuro a hipótese de não ver, e instintivamente levo a mão à algibeira a verificar se trago o revólver.

Era uma grande frasquejadeira, a tia Mônica, e fazia uns ladrilhos de marmelada que eram dignos da mesa de um rei, sem quebra das minhas convicções republicanas. Diz-se que há famílias de bandidos, verdadeiras dinastias de facínoras, como se os germes da criminalidade andassem diluídos no sangue e fossem passando de uns para outros por via hereditária. Pois também há famílias de gente boa, dinastias de homens honrados e mulheres castas, podendo-se afirmar que nenhuma excederia em pureza a que o compadre Rabino representava.

De uma vez... Era quinta-feira de Ascensão, e o compadre Rabino, todo barbeado, com fato domingueiro, apareceu no monte pela meia tarde. Via-se que tinha bebido a sua goladinha porque falava com muita vivacidade e gesticulava com alguma exuberância.

Tem vagar, compadre João?

Se a Sra. Comadre precisa de mim, lá o vagar arranja-se.

Tratava-se de colher uma porção de avenca, da muita que o poço tinha, e que minha mãe queria guardar, bem seca, para cozimentos.

Aqui vamos todos a caminho da cerca, lá embaixo, rente ao barranco, o compadre João com uma grande escada às costas, as criadas com o farnel, minha mãe com uma joeira destinada à avenca, meu pai com o mais pequeno de meus irmãos pela mão, e o Manuel Narciso, no seu abominável saracoteio de maricas, levando ao quadril, como as mulheres, uma infusa com vinho.

O poço tinha mais de um homem de água, e quando o compadre Rabino começou a descer a escada para colher a avenca, meu pai recomendou-lhe que tivesse muito cuidado, não fosse cair. De tal forma ele se arranjou que lhe escorregaram os pés ao mesmo tempo, e aí vai deslizando pela escada, sem querer largar a joeira. Já metido na água até ao pescoço, agarrou-se escada com as duas mãos, conseguindo sair do poço sem um fio enxuto.

Ficou mal, compadre João?

Nada, mal não fiquei; mas ainda lá volto antes de mudar de copa, que a Sra. Comadre não há de ficar sem a avenca.

Era dedicado até este ponto o compadre João Rabino.

Explicava ele depois, no outro dia:

— Quando me escorregaram os pés, cuidei que ia morrer afogado; mas assim que entrei na água, ergui os olhos ao céu e vi Nossa Senhora da Assunção no bocal do poço a rir-se para mim. Foi então que deitei fora a joeira e me agarrei à escada com unhas e dentes.

Ninguém mais tinha visto a Senhora da Assunção no bocal do poço a rir-se para o compadre Rabino; mas tinha-a visto ele, e como ao seu aparecimento atribuía a sua salvação, mandou-lhe dizer uma missa cantada, e ofereceu-lhe um alqueire de azeite, que naquele ano se vendia a quartinho.

***

As porcas afilhadas era o compadre Rabino quem tratava delas — delas e dos filhos. A cortelhada, graças aos seus cuidados, parecia uma creche em que as crianças fossem bacorinhos.

Andava tudo num brinco, o corredor, ao centro, varrido duas vezes ao dia, e as camas de junco, nos cortelhos, renovadas amiúde para que não estivessem sujas.

— O porco é o animal mais asseado que há, Sr. Compadre.

Porventura o burro será o mais estúpido animal de quantos existem?

É preciso conhecer muito pouco o homem para sustentar uma opinião semelhante. Certo que de um indivíduo muito estúpido se diz que é muito burro; mas não é menos certo dizer-se que tem talento como um burro um indivíduo que é muito inteligente.

Os porcos não bebem a água suja do maceirão, e quando dormem no pocilgo, não urinam na cama, se a hora certa, pela noite adiante, o maioral tem o cuidado de os fazer sair — procedendo como as mães solícitas com os filhos pequeninos.

Porcas havia — grandíssimas porcas — que não faziam caso das crias, e então o compadre Rabino moía a paciência a demovê-las dos seus ruins propósitos, fazendo-lhes todas as gatimanhas que podem enternecer... um suíno. Dava-lhes palmadinhas na testa e no lombo, fazia-lhes cócegas muito levemente na barriga, e com muita arteirice ia pondo os bacorinhos a mamar, mais conhecedor da psicologia das fêmeas, sejam porcas, sejam mulheres, que muitos psicólogos de carreira. O leite é uma secreção que precisa de ser exaurida para que as fêmeas que o produzem tenham saúde.

Com muita arte, o compadre Rabino fazia adotar por uma porca os filhos de uma outra, e as porcas, honra lhes seja, prestavam-se complacentemente a esta manobra, dando assim aos humanos um grande exemplo de abnegação.

Às vezes, o compadre Rabino aparecia de semblante carregado, o ar triste de um homem que passou por uma grande contrariedade ou sofreu um grande desgosto.

Há alguma novidade, compadre João?

Novidade!... Esta noite pariu aquela marrã que ficou mal capada e comeu os bacorinhos. A minha vontade foi dar cabo dela! Eram cinco bacorinhos tão perfeitos! Não torna a fazer outra, isso lhe juro eu. Por minha vontade, já ela cá não estava há muito tempo... Parecia que me adivinhava o coração!...

As porcas não são as únicas fêmeas que comem os filhos num acesso de loucura puerperal; mas entre elas o fato dá-se com relativa frequência. Os que ignoram a sua razão científica atribuem-no a uma perversão de instintos, a uma ferocidade canibalesca, que é a negação do que há de fundamental na psicologia das mães. Nunca pude compreender a razão por que o Cristo, fazendo sair os diabos do corpo de certas pessoas, os autorizou a meterem-se no corpo de uns suínos que andavam ali perto foçando e logo desataram a correr para o mar, afogando-se em tropel. Eles não eram escribas nem fariseus — filósofos de tromba retilínea, alheios a toda a especulação religiosa.

O compadre Rabino!

Como não havia de querer-lhe muito se ele, incapaz de mentir em seu proveito, mentia para me livrar de uma sova, e Deus sabe de quantas me livrou a sua complacência na mentira! Pelas debulhas, à hora de maior calor, no giro do meio-dia, apanhando meu pai deitado e minha mãe entretida a repartir o jantar da ganharia, eu abalava com outros moços e íamos nadar num dos pegos do barranco, a que se chamava o Burdo. Mesmo suando, atiravamo-nos à água, e ali andávamos, os que sabiam nadar, serigaitando dentro do pego na desenvoltura de golfinhos. Durava a folia uma meia hora, porque eu precisava de chegar ao monte com o compadre Rabino, que me serviria de testemunha abonatória, caso minha mãe tivesse dado pela minha escapulida.

Tu foste nadar?...

Nadar, Sra. Comadre, não foi. Esteve com a gente à sombra, debaixo de uma oliveira.

***

Pouco dado a especulações metafísicas, o compadre Rabino nunca inquirira das razões por que Deus criara os animais daninhos e toda a bicharada inútil. Mas não se conformava com a criação dos ciganos, gente incapaz de trabalhar, vivendo só do roubo e da burla.

— Com ciganos nem para o céu.

Ora sucedeu que uma vez, pela Feira de Garvão, em princípios de Maio, um bando de ciganos chegou ao monte, já quase noite, e pediu agasalho.

— Fiquem para aí.

Apeteceu ao compadre Rabino, depois da ceia, visitar o arraial dos ciganos, e travou-se de conversa com um deles, já velho, mais bem encarado que os outros.

Não vai à feira, maioral?

Não vou. Tenho aí uma burrita para vender, mas fica para a Feira de Santo Antônio.

Eu compro-lhe a burra.

No dia seguinte, logo pela manhã, lá estava o cigano ao pé dos porcos, decidido a comprar a burra.

A primeira ideia do compadre Rabino foi não vender a burra ao cigano, nem que ele lhe desse por ela um conto de réis. Mas entrou a conversar, a discutir, e daí a pouco estavam encalhados no preço, o cigano a dizer que não podia dar mais de seis mil e quinhentos, e o compadre Rabino jurando que lha não dava por menos de duas libras — tão certo como estar-nos Deus ouvindo!

A burra não era grande coisa, já velha, parida umas poucas de vezes, mas não tinha as mazelas que o cigano lhe atribuía. Pois se ele até fez com que o compadre Rabino lhe visse uma névoa no olho esquerdo!

O caso é que a burra foi vendida pelos 6$500, e ainda a corja não tinha saído da herdade, já o compadre Rabino clamava que o cigano o tinha roubado porque a burra valia muito mais.

Passados uns quinze dias, os mesmos ciganos apareceram, bivacaram no mesmo lugar, mandando dizer ao monte que ali estavam, para efeitos da ceia.

O compadre Rabino não se conteve que não fosse de visita ao arraial dos ciganos, disfarçadamente, como quem não quer a coisa, a ver se eles ainda se não tinham desfeito da burra.

Vossemecê arranjou-me bem, maioral. A burra tinha alifafes nas duas mãos, e em andando meia légua entrava numa ofegância que parecia querer deitar os bofes pela boca.

Então vendeu-a?

Qual vendi! Entreguei-a pelo primeiro dinheiro que me ofereceram por ela, sempre a ver quando caía para nunca mais se levantar. Olhe que sempre foi uma partida!...

Pois se você ainda a tivesse, desfazia-se o negócio, e eu dava-lhe pela burra o mesmo por que lha vendi.

Conversa para aqui, conversa para além, uma cigarrada, acabando o cigano por lhe perguntar se já estava governado com respeito a jumenta.

Não estou. Já agora espero a Feira de Santo Antônio.

Pois eu trago aí um animalzinho que lhe deve servir.

Sem esperar resposta, foi buscar a burra, bateu-lhe duas palmadas na anca e disse ao compadre Rabino que a montasse e visse o belo cômodo que dava.

Embora resolvido a não fazer negócio, o compadre Rabino pôs-se a mirar a burra, abriu-lhe a boca, examinou-lhe os dentes, curvou-se para lhe examinar os cascos, deu-lhe palmadinhas na barriga.

— O raio da burra — murmurou por entredentes —, é a outra por uma pena.

Saltou o cigano para as ancas da burra e, excitando-a com uma dupla chicotada nas ilhargas, obrigou-a a correr na extensão de alguns metros, voltando na mesma corremaça ao ponto de partida.

— Isto vale quanto pesa, maioral. E então mansinha como uma borrega.

Fechou-se o negócio — doze mil réis.

No outro dia, quando o compadre João Rabino apareceu no monte, todo ancho, montado na sua jumenta, os outros criados gritaram, em coro, mal o viram:

— Olha a burra do tio João Rabino! Como é que ela lhe veio parar de novo às mãos, ó tio João?

O compadre Rabino sorriu-se, desdenhoso, e disse-lhes, como para dispensar outros argumentos:

Vocês até se esqueceram de que a minha burra era bragada na barriga. Acudiu logo o Manuel André, que por ter sido almocreve toda a vida conhecia bem as traças dos ciganos:

Lá isso, tio João, não quer dizer nada. Ora espere aí que eu já lhe conto um conto...

Daí a pouco, estava o Sr. Manuel André, armado de uma luva e ferro de limpar as mulas, a esfregar a barriga da burra como se fosse um sobrado. A água e o sabão fizeram o milagre, pondo a descoberto, na barriga desta burra, a mancha branca que tinha a outra no mesmo lugar! Um bocado de cortiça queimada, umedecida com azeite, fizera desaparecer a mancha branca, que era, para o compadre Rabino, a característica inconfundível da sua burra — inconfundível e inapagável.

Os ciganos!

Rebeldes a toda a disciplina, incapazes de qualquer trabalho honesto e aturado que lhes garanta os meios de subsistência, os ciganos vivem do roubo, e nada mais; é, bem consideradas as coisas, o comércio que eles fazem com bestas. Nas mãos de tal gente não há cavalgadura molengona, e apresentado por um cigano numa feira, qualquer vil pileco tem ares de um cavalo de cem moedas. Comprar, vender e trocar bestas é o único ofício que exercem, o único comércio que praticam, e cada uma destas operações nada mais é do que uma modalidade do roubo, o roubo quase sempre astucioso, algumas vezes, não podendo ser de outra maneira, violento.

— Dá-me licença que monte o cavalo? Aqui tem o sinal, para o caso do negócio me convir.

Escarranchado na sela, o cigano mete o cavalo num trote discreto, e quando se apanha fora da corredoira, por aqui me sirvo, numa correria doida, como se fosse tirar o pai da forca. Grande banzé, um levantamento geral contra os ciganos, que são obrigados a abandonar a feira, mas que na confusão sempre larapiam qualquer coisa, retirando alguns com a cabeça rachada.

É má gente, dizia meu pai. Mas corredoira em que não haja ciganos, não presta.

Estou a vê-los no arraial que eles faziam ao pé do monte, por ocasião das feiras no distrito de Beja para baixo! Era um acampamento de gente imunda, esfarrapada, dormindo ao relento, sobre enxergas, numa promiscuidade bestial. São muito prolíficos os ciganos, e isso explica porque a raça subsiste, a despeito de todos os baldões da sorte. Casam segundo o seu rito, e diz-se que as mulheres, por via da regra, são de uma grande fidelidade conjugal. Envelhecem muito cedo, as ciganas, principalmente quando têm filhos, e como velhas são de uma fealdade execrável.

As raparigas têm uma singular predileção pelas cores vistosas, berrantes, e eu gostava muito de as ver, carregadas de saias, quer fizesse frio, quer fizesse calor, saias de barra vermelha, cobrindo-as um vestido de folhos, em jeitos de balão policrômico. O seu penteado — uma garridice — era bizantino, de risco ao meio, e fazia-me desagradável impressão, quase de nojo, o lustro do cabelo, quase a escorrer banha de porco.

Os rapazes, altos e magros, olhos negros, a face macilenta, os dentes muito brancos, os lábios descorados, uma barbinha rala salpicando-lhes a cara, encantavam-me pela sua agilidade, sobretudo quando jogavam o pau, dando saltos prodigiosos.

Em se dizendo "Aí vêm os ciganos!", minha mãe dava logo ordem para se meter em casa tudo aquilo, fosse o que fosse, a que eles poderiam deitar a mão, e mais cedo que de costume, antes do sol-posto, recolhia a criação — as galinhas e os perus, indo o moço da água passar vistoria às serras de palha e ao monturo da lenha, delgada e grossa, em demanda de algum ovo que por lá houvesse.

Pediam tudo, os ciganos, e não havia recusa que os desanimasse. "Uma gotinha de azeite, Sra. Lavradora! Um bocadinho de toucinho, por alma de quem lá tem no outro mundo! Umas ceroulas que o Sr. Lavrador já não queira! Uma camisinha para o meu menino, que não tem que vestir! Uma chávena de mel para um xarope! Uns sapatos que a Sra. Lavradora já não use! Uma gorpelha de palha para os nossos burrinhos! Uma esmolinha em dinheiro para ajuda de uma missa à Senhora da Cola!"

Os ciganos!

Singular raça a desses boêmios, incapazes de se fixarem em qualquer parte, e na sua eterna peregrinação, hoje aqui, amanhã além, praticando o roubo como um modo de vida, talvez honestos adentro de uma moral que as gentes civilizadas ignoram!

***

Velho de mais de 80 anos, mas ainda rijo, andando sem arrastar os pés, o compadre Rabino, sabendo que eu estava em Aljustrel, foi visitar-me.

Acho o Sr. Compadre estragado.

São os anos, compadre João.

Os anos! Parece-me que ainda me doem os braços de o trazer ao colo.

Morreu em terça-feira de Entrudo e deve ter ido direitinho ao céu, alojando-se na mansão destinada aos bons — se é que não se pratica lá uma injustiça igual à da Terra.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)