segunda-feira, 24 de junho de 2019

Valor de posição (Conto), de Brito Camacho



Valor de posição
Era o tipo do sargento instrutor.
Quando lhe puseram no braço as quatro divisas, já ele tinha abdômen de major. Assentara praça muito novo, aos dezesseis anos, como voluntario, sem conhecer uma letra. O capelão era o mestre-escola, e como se desse o caso de ser bom homem, dedicava-se ao ensino coma melhor Boa vontade. De modo que o nosso jovem recruta, tendo caído nas boas graças do capelão, era de todos os alunos o que ele tratava com mais carinhosa solicitude. Ficou distinto no exame de furriel, e foi o primeiro classificado no exame para segundo sargento. Não era de uma inteligência notável; mas era excepcionalmente aplicado, e tinha uma vontade de ferro.
Muito sério, irrepreensivelmente bem comportado, nunca sofreu o mínimo castigo, a mais atenuada repreensão. Todos os senhores oficiais, desde o comandante ao almoxarife, mostravam por ele muita estima e muita consideração. Cumprimentavam-no pelo nome, — adeus ó Lopes! — e ele era tão fundamentalmente disciplinado que nunca se desmandou numa familiaridade permitida.
Ganhara as suas esporas de ouro num arraial, onde ora comandando uma força requisitada pelo administrador do concelho. Andavam desavindos, por mera rivalidade de campônios, dois povos vizinhos, e esperava-se que eles aproveitassem o arraial para ajustarem as suas contas, descarregando uns nos outros pancada de criar bicho. À cautela, o administrador requisitou uma força de sargento, convencido de que uma força de cabo valeria tanto como uma viola num enterro. Logo se assentou em que fosse o Lopes o comandante dessa força, homem resoluto, mas calmo, valente mas ponderado, incapaz de uma imprudência, que pudesse ter consequências graves.
Chegou o destacamento de véspera, ao cair da noite, e logo se espalhou que o sargento recebera ordem de dar para baixo, aos primeiros assomos de desordem.
No dia seguinte, já em plena festa o arraial, bêbedos de vinho ou de entusiasmo os romeiros, era voz geral que o sargento recomendara aos soldados, aquartelados numa dependência da Igreja, que à voz de fogo fizessem pontarias baixas, para a caça não fugir. Mais se dizia que cada soldado tinha na patrona sessenta cartuchos, havendo quem afirmasse que era assim, por ter visto, acrescentando que um dos soldados, ainda seu parente, lhe dissera que se chegasse a haver tiros, seria uma desgraça nunca vista.
Não tardou que se armasse uma desordem, cruzando-se no ar os cacetes, que implacavelmente caíam nas costas de uns e na cabeça de outros, havendo costelas partidas e pinhas rachadas, jorrando o sangue em abundância. Ia generalizar-se a pancadaria, como num debate parlamentar, quando apareceu o sargento, de espingarda ao ombro, a baioneta calada, o ar sereno de quem vai de passeio e para a ver uma montra.
Da multidão saiu este grito — mata-se! mata-se!— e para o sargento avançaram alguns pimpões, confiados em que a superioridade do número compensaria a desigualdade das armas.
O Lopes recuou alguns passos, e pondo a espingarda na posição de preparar, conteve os amotinados, dizendo-lhes:
— O primeiro que der um passo, prego-lhe um tiro nos cascos.
Ninguém se moveu, e sumiram-se os cacetes que andavam no ar.
O sargento então, sereno como se estivesse a conversar à boa paz, falou nestes termos:
— Ouçam bem o que lhes vou dizer, e tenham tento na bola. A força que eu comando não veio aqui para matar ninguém; veio para não deixar que vocês se matem uns aos outros. Quem tiver contas a ajustar, vá ajustá-las noutro sítio, se não acharem é melhor deixarem-se de asneiras, e esquecerem todas as queixas que tiverem uns dos outros, bagatelas que não valem a ponta dum cigarro.
Os meus soldados estão debaixo de forma à espera das minhas ordens. Se vocês entrarem na razão, se largarem os cacetes para se agarrarem ás moças, balando e cantando até moerem as pernas, emborcando o seu copázio, de quando em quando, para enrijar o nervo, se vocês fizerem isto, a minha voz de comando será esta: — Ensarilhar, armas! À vontade... Se não quiserem assim, saberão como elas cantam. As baionetas têm ponta, todos os cartuchos têm bala, e no destacamento não tenho um só homem que na escola de tiro não obtivesse prêmio.
Sic orsus, mas ao contrário do que sucedeu no caso de Eneias, todos aqueles lapuzes, longe de ficarem de boca aberta — intentique ora tenebant, mudos como se fossem marmotas, desataram aos berros, atroando os ares:
— Viva o nosso sargento! Viva o nosso sargento! — como se fossem da tropa.
Em relatório para o governador civil o Administrador do Concelho informou detalhadamente do procedimento que tivera o sargento, afirmando que sem a sua cordura, a sua decisão, a sua valentia calma mas intrépida, teria havido mortos sem conta. O governador civil levou o caso ao conhecimento do comandante do regimento, o qual louvou o Lopes e lhe concedeu trinta dias de licença, sem nenhum desconto.
No mesmo dia em que saiu primeiro sargento foi encarregado da instrução dos recrutas. Era paternal, para com os pobres lapuzes, sem todavia deixar de ser severo, como convinha. Possuía o talento raro do instrutor, em termos que não havia recruta bronco que no mínimo do tempo não adquirisse a instrução completa. Conhecia como ninguém a psicologia dos alarves, e era isso que lhe dava a altíssima competência de instrutor, que todos lhe reconheciam.
— São uns diamantes em bruto; mas a gente faz deles o que quer, o ponto é dar-lhes com as manhas.
Na verdade, alguns faziam-se mais broncos do que eram, esperançados em que o sargento, vendo que não fazia bom deles, declarasse oficialmente que eram incapazes de receber a instrução de recrutas, sendo- lhes dada a baixa apetecida.
— O meu sargento bem vê. Eu não adianto mais dum dia para o outro, e ainda que esteja aqui toda a vida, nunca chegarei a ser dado como pronto. Gostava de aprender; mas sou muito rude. Cada qual é para o que nasce, e o meu sargento bem vê que eu não nasci p’ra isto.
Tais discursos não comoviam o Lopes, que muito bem sabia ao que eles visavam — largar as correias antes de finda a escola, regressando à paisana com uma baixa limpa.
— Pode ser que fu nunca aprendas a recruta, mas nesse caso serás recruta durante três anos, que é o tempo de serviço. Os recrutas não têm direito a licenças, e depois do primeiro período de instrução, sem aproveitamento, não se lhes fez um favor do tamanho de uma unha. Dispensas de recolher? Dispensas de formatura? Nem meia; o plantão e a faxina, sem escala, são para esses melros o pão nosso de cada dia.
És rude?
O homem incapaz de aprender a instrução, deve ser dado como incapaz da vida militar; mas incapaz como soldado, devendo ser aproveitado como montada, num regimento de cavalaria.
Às vezes iam senhores oficiais assistir à escola do Lopes, e ele tinha grande desvanecimento com isso. Aproveitava essas ocasiões para instruir os galuchos com respeito aos deveres que incumbiam ao soldado nas varias situações de serviço.
—Ouve lá, rapaz; aqui está uma porta e tu estás de guarda a ela, com ordem de não deixares entrar seja quem for. Ouviste bem? Seja quem for.
— Sim, meu sargento.
— Está bem. Eu sou o nosso capitão Gaitinhas... Posso entrar?
— Não, senhor.
— Fazes bem, rapaz... Agora sou o nosso major Sete Falinhas... Posso entrar?
— Não, senhor.
— Fazes bem. Agora sou o nosso comandante. Posso entrar?
O recruta hesita um pouco, e responde:
— Não, senhor.
— Muitíssimo bem, rapaz. A ordem é não deixar entrar seja quem for. Repara bem nisto — seja quem for. Bom; eu agora sou o rei. Olha que o nosso Comandante, ao pé do rei, é tanto como tu ao pé do nosso capitão.... Repara bem — eu agora sou o rei Não me deixas entrar?
— Lá o rei, sim... deixo.
— Pois não devias deixar, grandíssimo bruto. Tu aqui não és o 37 da quarta; és a Lei. O nosso capitão, o nosso major, o nosso comandante e o próprio rei valem menos do que tu, quando representas a lei. Fora daí és um filho da... mãe, como qualquer outro, mas aí és superior a todos. Não devias deixar entrar o rei, minha cavalgadura.
Era um sargento como então havia muitos, como hoje há poucos, militar de carreira, profissional das armas para quem o seu regimento era uma extensão da sua família.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019

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