domingo, 30 de junho de 2019

O Curandeiro (Conto), de Francisca Júlia



O Curandeiro
Cristo andava passeando em companhia de São José pelas ruas de uma aldeia, parando diante de cada porta a observar o trabalho de cada um.
Viu um ferreiro que dirigia imprecações contra o céu, porque o fogo da forja não era bastante forte para abrandar o ferro; um mercador sentado em uma pedra a contar o dinheiro ganho com usura; um ladrão que passava, de ar humilde de mendigo do templo, esfarrapado e imundo, ocultando sob os andrajos o produto do seu roubo; viu com horror alguns garotos apedrejando um velho estropiado; cães sem dono, magríssimos, uivando de fome pelas ruas, e lazarentos raspando as chagas com cacos de telha.
— Que gente ímpia! disse Jesus ao seu companheiro. São José abaixou o rosto, sem dizer nada, como se se sentisse envergonhado diante de tanta impiedade.
E foram caminhando, de vagar, pelas tortuosas ruas da aldeia.
— Cada homem destes, falou Cristo, tocado de compaixão, se é rico, é perverso e cruel; se é pobre, é um revoltado da sorte, que vive a maldizer a pobreza. Parece que um gênio mau ou que a cólera divina derramou sobre esta miserável terra a aluvião de todos os pecados. Pobre gente!
— Bem difícil seria arrastá-la ao bom caminho.
— Impossível quase, murmurou Jesus; mas, enfim, para que se não diga que a nossa visita foi inútil e sem proveito, vamos ensinar a virtude com o bom exemplo ao primeiro que aparecer.
Nesse instante eles tinham passado diante de uma porta onde um curandeiro se anunciava com grandes gritos, dizendo-se milagroso.
Pararam.
— Cristo ouviu o seu pregão e perguntou-lhe:
— Em que consistem as vossas curas milagrosas, e por que é que vos apregoais como o primeiro curandeiro do mundo? Que virtudes têm os vossos remédios e a vossa ciência? Que mágico vos ensinou tanta sabedoria? Mostrai-me vossas virtudes todas, para que eu vos acredite.
O homem começou a enumerar, com orgulho, as curas que praticara:
— Com óleo de oliva, a que misturei umas preparações, de que eu só guardo o segredo, curei um leproso em poucos dias; concertei a perna a um estropiado; dei vista a um cego e voz a um mudo; uma pobre mulher, que há muitos anos gemia no fundo do leito, ergueu-se e está hoje sã com os remédios que lhe dei. Tenho bálsamos para as feridas, óleos para as queimaduras, alívio para as dores, pós para as lepras e colírios para todas as doenças de olhos.
— Sois, na verdade, muito sábio; porém, por mais prodigiosas que sejam as vossas curas, nunca vos esqueçais de que o mundo é grande e nele devem haver homens de sabedoria igual ou superior á vossa.
— Igual, talvez; mas superior, não, afirmou com a natural soberba.
— Vejamos, pois, disse Cristo. Aqui está um homem (e apontou para o seu- companheiro) que, desde a infância, tem uma enorme chaga que lhe cobriu a perna inteira e o faz estorcer-se de atrozes dores. Vede se podeis curá-lo.
São José, que já estava prevenido ou tinha adivinhado a intenção do Mestre, ergueu a ponta do manto que o cobria e mostrou a perna, muito inchada e toda coberta de chagas vermelhas e roxas.
O curandeiro olhou com repugnância e untou a perna de São José com uns óleos frescos e perfumosos.
O Santo começou a gemer de dor, e grossas lágrimas lhe molharam as barbas.
O homem falou:
— Impossível curá-lo. Essas feridas são tão velhas que se radificaram por todo o corpo. Podeis seguir o vosso caminho, infeliz peregrino, que não encontrareis cura em parte alguma.
Cristo, então, disse-lhe:
— Vós nunca soubestes curar. O que não puderam fazer os vossos óleos, faço eu com um gesto.
Passou a mão de manso sobre as feridas de São José, e curou-as imediatamente.
O curandeiro caiu de joelhos, assombrado.
— Quem sois vós, senhor, que sabeis obrar tão grandes prodígios e milagres como estes?
— Um pobre peregrino, respondeu Cristo, com sua evangélica modéstia e religiosa humildade, que anda pelo mundo a aliviar as dores e sofrimentos humanos.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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