domingo, 30 de junho de 2019

O Monge (Conto), de Francisca Júlia



O Monge
Uns mercadores, com suas malas às costas, caminhavam em direção à cidade, para vender suas mercadorias. Mas a viagem tinha sido longa e eles estavam cansados.
Tinham atravessado campos, galgado montanhas e sentiam já tanta fadiga, que resolveram sentar-se sobre a relva para descansar. Mas o sol estava muito ardente e eles seguiram adiante. Entraram num bosque onde a sombra era fresca e em cuja entrada havia uma gruta de pedras brutas, iluminada de alvas estalactites.
Penetraram, não sem algum receio, cautelosos, porque podia ser um covil de malfeitores.
Tudo estava às escuras. Mas, logo que se habituaram às trevas s da gruta, viram um monge de joelhos, as mãos postas, a fronte erguida, absorvido nas suas preces.
— Monge, disse um deles; perdoa-nos ter-te interrompido nas tuas meditações. Entramos em tua habitação para te pedir abrigo contra os ardores do sol.
— Entrai, viajantes, respondeu o monge mal desperto das suas contemplações místicas Todos os peregrinos terão aqui seguro abrigo contra as inclemências do sol e contra as tempestades da noite.
Os mercadores agradeceram, e, como sentissem fome e sede, falaram:
— Na nossa longa e perigosa jornada a fome devorou nossas entranhas e a sede secou nossas gargantas; mas tu deves estar tão acostumado ao jejum, que em tua habitação nada pode haver.
— Nada há, de fato, pobres viajantes; mas o poder de Deus é infinito e a sua misericórdia é sem limites. Então, de um gesto, fez jorrar de uma fenda da rocha um grosso fio de água clara, onde eles beberam até à saciedade; e, arrancando do chão uns calhaus que se transformaram em pães, entregou-os aos peregrinos, dizendo:
— Tomai; cumpriu-se a divina vontade.
Os mercadores, homens materiais e rudes, tremeram de susto, receando algum sortilégio diabólico; mas, ao mesmo tempo, diante da religiosa bondade e aspecto humilde do monge, comeram.
E um deles falou:
— Monge, se tu estás revestido de tanto poder e podes, com um gesto apenas, fazer brotar a água e transformar em pães os calhaus brutos, por que não fabricas também o ouro para gozares as delicias da riqueza? E por que vives oculto nas trevas desta gruta, como uma fera, emagrecido pelos jejuns e cilícios?
— Que errada e falsa compreensão tendes da vida, meus amigos! Sabei que o ouro serve somente para corromper os sentimentos, envenenar a alma, e não poderá dar-me os gozos a que eu aspiro. Ao menos, na pobreza em que vivo e que desprezais, sem as preocupações que acarreta a fortuna e os pecados que ela desperta, posso mergulhar-me inteiramente em minhas preces e na contemplação da divindade.
Os viajantes agradeceram ao monge o generoso acolhimento, beijaram-lhe respeitosamente as mãos e partiram.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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