terça-feira, 25 de junho de 2019

Paixão fatal (Conto), de Brito Camacho



Paixão fatal
Bem me quer... mal me quer...
Ficou-se, pensativa, os dedinhos em fuso, com unhas cor de rosa, segurando a pétala branca, e os olhos negros, de veludo, pregados na areia seca, quase tão seca como os seus lábios em febre.
Bem me quer... mal me quer...
Vinham as ondas morrer na praia, e o seu confuso marulhar, como um sussurro prolongado, era uma cantilena ao sol poente, a sumir-se no horizonte em chamas.
Bem me quer... mal me quer...
Misteriosa é a linguagem das flores, mas repugna acreditar que mintam, e as pessoas que sabem entendê-las afirmam a segurança dos seus juízos e a propriedade rigorosa das suas palavras.
Bem me quer... mal me quer...
Descia vagarosa a noite, e por sobre o mar infinito estendia-se um longo manto de névoa pardacenta e tênue, que tornava ainda mais confuso o marulhar das ondas levemente túmidas que vinham morrer na praia em espreguiçamentos de odalisca amorosa, a reviver, sonhando, lances de embriaguez voluptuosa.
Bem me quer... mal me quer...
Ergueu da areia seca — quase tão seca como os seus lábios em febre, os olhos negros de veludo, úmidos das abundantes lágrimas que pela face lhe escorregavam, caindo sobre o seu branco vestido de noiva, tão branco como as pétalas que arrancava ao malmequer, com os seus dedinhos em fuso, as unhas cor de rosa...
Bem me quer... mal me quer...
Caminhou, a passos lentos, calcando a areia seca, para uma luzinha que brilhava ao longe, hipnotizando-a sem a adormecer, ouvindo o marulhar confuso das ondas, como um sussurro prolongado, e crendo que uma voz a chamava, lá de longe, de muito longe, de onde brilhava aquela pequenina luz intensa que a hipnotizava sem a adormecer.
Bem me quer... mal me quer...
Teve um estremecimento quando a primeira onda lhe beijou os pés, desfazendo-se em espuma, mas foi caminhando sempre, a passos lentos, os olhos presos aquela pequenina luz que de longe, de muito longe, a hipnotizava sem a adormecer, crendo que era de lá que partia aquela voz que a chamava, entre súplice e prometedora.
Bem me quer... mal me quer...
Aos primeiros clarões da madrugada, quieto e silencioso o mar, diáfano e roto o manto de nevoa pardacenta que a noite lançara por sobre as águas, uns barqueiros que passavam virara o seu corpo, hirto e leve, como se fosse uma grande flor recortada em neve boiando na placidez de um lago adormecido.
Nos dedinhos em fuso, as unhas cor de rosa, segurava a última pétala que arrancara à flor homicida, como se fosse o punhal que vigorosamente cravara no coração, louca de amor, nos desesperos de não ser amada.
Bem me quer... mal me quer...



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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