6/23/2019

Truque (Conto), de Valdomiro Silveira



Truque
A candeia lançava sobre os jogadores uma luz amarelada, muito trêmula, e a fumaça, levada para to­dos os lados pelo vento agudo que passava, tinha um cheiro atordoador de mamono ainda verde. Ao redor da mesa de jacarandá, que a velhice deixara bamba e toda negra, viam-se Antônio Cuba e o Venceslau, o Craro e o Chico Prequeté, cada qual mais tupina e mais prosa no truque. O Antônio Cuba, dono da casa, dizia, a cada passo, que até sentia vexame de dar sova tão grande, como ia dar, no Prequeté e no Craro, mas que, enfim, quem entra na chuva é para se molhar. E o Prequeté, seco-na -paçoca para um falseio, roncador que nem cõi-cõi, res­pondia-lhe, muito sério, que quem vai dar leva saco.
Antes de começar a primeira mão, o Cuba gritou à filha, a Ismena (aquilo é que era caboclinha linda!)
— Traga uma luz aqui, minha filha, aquela garra­fa branca! Senão esta gente desconfia duma vez comigo, que nunca mais me deixa estribar!
Veio a pinga, uma pinga zangada, de trazer água aos olhos e um pigarro teimoso à garganta. E, enquanto a Ismena acendia o fogo para o café e a queimada, cor­reu-se a primeira mão. Não houve coisa de maior: o Cra­ro e Prequeté ganharam no empate, com jeito frio, sem uma palavra ao menos.
Mas já na segunda mão principiou o calor, dizendo o Venceslau:
— Ora, o premeiro milho é dos pinto'...
— É dos pinto'? — perguntou o Prequeté. Pode ser também dos galo'!
A vaza foi do Cuba, que matou um três com o sete-ouros.
— Eu sou pé, e não sou qualquer! Agora, aguente o repuxo, parceiro!
Na outra vaza, apareceu logo um dois do Prequeté:
— Eu sou todo seu tou-lhe ajudando já, seu Craro! Mas o Venceslau cortou o dois de golpe:
— Aqui não passa cachorro magro!
O Craro bradou entusiasmado para o Cuba:
— Componha a sua casa, p'ra mim dar uma diligên­cia!
O Cuba, entretanto, prudenciou:
— Bamos embora, Venceslau? Trucar de falso, cha­mar com elas!
O Cuba foi mão.    E enchouriçou o pescoço:
— Vocês já tenham a primeira e a segunda, e tão ganjentos, não é? Pois eu vou acabar c'o seu gaz de re­pente! Lá vou eu, seu Chico, e vou tinindo! Reboco de igreja velha! Esteiro de bexiguento! Espirro de lam­bari! Já tá c'a pacuera batendo?
O Prequeté afastou o banco:
— Ué! tou esperando o baque! Se você tiver corage, e não quiser topar c'a ronda, fale! Bamo Ver quem é que tem mais peito!
— Pois antão truco mesmo!
— Caia!
A carta do Cuba era a espadilha. E o Prequeté er­gueu-se, bateu o chapéu na testa, arrastou os pés no assoalho, fez um barulhão:
— Você já sai coiração-de-negra, e bufa de mão, só p'ra abichornar a gente? Antão é tudo ou nada: 'tava seca a manilha, seo poaia? Ora, vá com seis!
— Agora é lá p'ra diante — disse o Cuba. Eu fui adonde vão os bom, p'r'além não posso! Como é, compa­nheiro, você quer ver os home 'inda mais perto?
O Venceslau afiançou que o Chico era baixo para estourar a espadilha:
— HomÉ, quer saber o que mais? Eu, por mim, chamava.
— Se o meu parceiro chama, eu não deschamo — concluiu o Cuba: derrube essa frieza de carta!
Era uma sota! Mas o Cuba e o Venceslau ficaram meio murchos, porque a sota do Craro era guia de sete-copas no corte passado. E não houve picana, tudo foi na ordem: só se tivesse acontecido algum extravio não se achariam mais juntos aqueles dois perigos! O Venceslau pôs na mesa uma carta branca, a do Prequeté foi um ás vermelho, e entrou precedido de licença. Cuba voltou com um seis, o Venceslau apertou o Prequeté com um dois, o Prequeté desceu um três, o Cuba cortou de zápete.
Houve uma flauta por parte dos contrários: — Aquele três rançou tudo, não, seo Cuba? E com que dor de coiração! Lá se foi tudo quanto Marta fiou! E o zápÉ rompeu sem brado de arma!
O Venceslau, entretanto, afirmou de cabeça levan­tada:
— Antão? Mostraram uma cara deste tamanho, não mostraram?
O primeiro jogo foi do Craro e do Prequeté. E o Cuba fez zombaria:
— Se pinto come primeiro pirÉ pode comer também o premeiro prato! Depois é que vocês vão ver que birimbau não é gaita!
O baralho estava com o Venceslau, que traçou as cartas e o entregou ao Craro. O Craro cortou de soco, mas uma carta desprendeu-se, virou de costa, apresentou à companhia a cara barbuda do rei de paus. E o doador de cartas galhofou às direitas:
— Pingou, perdeu! Inda mais que você buliu certitinho nas veneneira 'toda'! Pode ajuntar a troxa, que aí vem chuva! Eu inté nem quero ver as minhas; a mó' que já 'tou passando a mão no zápe e na sete-ouro', e o par­ceiro na sete-copa' e na espadilha!
O Chico Prequeté bateu um três com força, e ainda andou esfregando pelas mãos do Cuba, que pegou a rir-se:
— Ora venha onte'! Isso não é chuva p'ra quem tem ponche! Arrecolha esse três e jogue coisa que sir­va!
— Você não pode co'êle; 'ta fazendo grandeza à-toa, agora! Se você for gente, pise adiante desse três!
— Olhe que eu piso e piso bem!
— No frigir dos ovos é que se vê a manteiga que sobra.
— À vista dos autos, truco! Adiante e atrás! Diga por que não quer!
O Craro disse de golpe: 
— É bom.
E o Cuba apresentou a espadilha. Mas Craro ficou desacochado, bem se lhe percebeu o encalistramento no modo por que falou ao Venceslau:
— Seis adiante!
O Venceslau arrastou um surrão danado:
— Seu Craro, não se atreva a ponhar cuca num home' sacudido que nem eu. Repare que eu sou pé e não sou de capim! P'r' amor de o desaforo, quero mais três milho: vá com nove!
Mas os tentos eram de ôlhos-de-cabra. O Prequeté mostrou coração alegre:
— Se fosse milho mesmo, «eu chamava de topo, por­que p'ra vocês dois basta o peito, não percisa carta. Mas p'ra fazer pouco causo ansim de nove sementes bonitas como esta, isso eu não faço.
O Venceslau convidou então o Cuba:
— Jogue p'ra mim, parceiro, que essa gentinha não presta.
E apontaram todas as manilhas entre os dois, coisa que fez o Craro andar pelas turinas e armar um perequê medonho:
— Ota, caiçarada ruim! que p'ra jogar com dois são' e sarado' ver eu e o seu Chico tem que fazer potrinha, senão perde na certeza! Vocês não tenham sangue na cara, taperada?
Tudo se acalmou em poucos instantes. O Craro deu as cartas, e o Venceslau não quis cortar o baralho, man­dou apenas queimar três. O Cuba deu de cantar entre dentes a moda do truque:
Zape' matou sete-copa',
menina, falai comigo na horta;
sete-copa'  matou  espadilha,
menina, falai comigo  de dia;
espadilha matou sete-ouro',
menina, os seus olhos parece' besouro':
sete-ouro'  que mata um três,
menina, falai  comigo  outra vez;
um três que mata um dois,
menina, falai comigo  despois:
um  dois  que  mata um  ás,
menina, comigo  não fala mais

O Craro zangou-se por em cheio:
— Quando acabar a cantoria, diga, que é p'ra en­trar em lenda como boi ladrão!
Contraveio-lho, porém, o Venceslau, casquinando uma risada de machucar:
— Apanhar? Que! Qual é o caborjudo que bateu em home's como eu e o Cuba? Na terra! Vocês podem falar, o fazer é que é nove! Eu inté nem quero outra vez olhar as carta': não olho mesmo. Saracura é bicho feio, tem cabelo até no joelho...
E trucou de flor, o Venceslau.
Mas o Prequeté não esteve pêlos autos, achou que era de mais:
— Só se você fez algum maço! Quando não, 'tá frito. Ora bamo, ver c'o que foi que você trucou!
O Venceslau ergue as cartas da mesa, mostrou-as uma por uma: cinco, sete à-toa, valete.
— Parceiro dum anjo! desta vez eu 'tou que de louça nem um pire'! Sou a sua vergonha, desta vez.
O Cuba, entretanto, não quis entregar a rapadura com a palha e tudo:
— Agora deixe correr, que você não 'tá sozinho no mundo! Jogue a pior!
Preparou um pé de três e de zápete, fez o corpo mo­le, aceitou a chamada de seis, ganhou o jogo.
Mas, no desempate da queda, a sorte principiou a declarar-se pelo Prequeté e pelo Craro. Chamavam com qualquer carta, pouco trucavam, iam fazendo um jogo manso e razoável. E cachaça passeava de um lado para outro, numa toada. Quando já tinham nove tentos, o Venceslau fez um escarcéu temeroso:
— Eu gosto que me esquentem premeiro, despois sou destemido mesmo, sou um teba sem rival: vou tru-car nos tentos desses pamonhas. Truco, tapera, quem foge não espera! Eu corro atrás de quem corre!
O Prequeté pôs-lhe medo:
— Não vem não, laranja azeda, que eu te chupo! E o Craro segundou a ameaça:
— Não chega não, cachaça braba, que eu te bebo! Decidiram, porem, fugir:
— Nada!    Nós 'tamos alto'!
Correu em silêncio a outra mão, e a décima inda. Quando o Cuba, já meio tomado, perguntou:
— HomÉ, em que mão estamo?
O Craro respondeu-lhe, pegando no baralho:
— Nas onze, e o baralho na mão do bronze!
Deu cartas, consultou o parceiro, não mandaram. Os outros apenas tinham quatro tentos. E afinal ganha­ram a queda.
Ao romper da segunda queda, que também ganha­ram, o Antênio Cuba exclamou, um tanto passado:
— Eu 'tou sentindo que você 'tá c'ua meia catinga de égua, parceiro. Ou sou eu que 'tou? Isto é a falta da queimada. Ismena, traga aqui a do gengibre, bem quente!
Não lhe deram resposta. Pediu segunda vez a quei­mada, quando ia jogar a terceira queda, e o mesmo si­lêncio continuou no interior da casa. Só então veio um compadre dizer, meio choroso:
— Você não viu a hora em que houve um tropel de cavalo aqui mesmo na porta? Foi o Mane Roxo que rou­bou a Ismena.
Todos ficaram assustados, porque o Cuba era um ca­boclo brigão e sacudido: acercaram-se dele. Mas o Cuba tinha entrado por demais na branca, estava bem afian­çado: levantou-se com os olhos muito arregalados e ver­melhos, jogando o corpo, encanou as cartas, puxou-as até a um lado do peito e gritou furioso:
— Pois já que 'tá tudo perdido mesmo, truco!



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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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