terça-feira, 23 de julho de 2019

O amor de Eça à terra portuguesa (Ensaio)



O amor de Eça à terra portuguesa
Jamais na nossa literatura alguém desenhou mais nítidas paisagens, modelou mais vivas figuras, pôs em circulação maior número de ideias e imagens, anotou mais incoercíveis sensações, desbanalizou e recunhou mais palavras gastas, melhor descreveu, melhor narrou, mais de perto atingiu a fronteira da realidade e as fontes da vida!
(Alberto de Oliveira: "Eça de Queirós", Páginas e Memórias)
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Dos nossos escritores dos últimos tempos é Eça um dos mais diversamente discutidos. Há sobre ele as mais desencontradas opiniões. Uns têm pelo eminente romancista uma verdadeira idolatria, escondendo cautelosamente os seus defeitos, outros, não se referindo às suas qualidades de prosador e artista primoroso, criticam-no acerba e impiedosamente.
Para alguns a Relíquia é quase um decalque das Memórias de Judas de Petrucelli dela Gattina, o Mandarim uma simples bluette extraída do Peau de Chagrin de Balzac, a Ilustre Casa de Ramires uma pochade à política provinciana, a Correspondência a sua pior obra e até Os Maias "uma porção de crônicas, isto é, de apontamentos, de notas muito ridículas, muito engraçadas, que tanto podiam vir colecionadas sob um título único como debaixo de vários títulos, fragmentadas" (Fernando Reis).
A ânsia dos seus detratores em lhe amesquinharem a obra vai ao ponto de considerarem o Crime do Padre Amaro como um ignóbil plagiato de La faute de l'abbé Mouret, escrito por Zola alguns anos depois.
Eça, defende-se ironicamente desta falsa acusação numa nota inserta na segunda edição do Crime: "Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou má fé cínica podia assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama duma alma mística, ao Crime do Padre Amaro que, como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de província portuguesa."
Fialho de Almeida, o azedo panfletário dos Gatos, como oficial do mesmo ofício, não poupa Eça e acha-o um caráter desnacionalizado, uma contrafação estrangeira e Silva Pinto, que a princípio o considerava um escritor sem mácula, faz coro com o autor do País das uvas.
E até o Sr. José Agostinho o põe também pela rua da amargura!
Jaime Batalha Reis prefaciando Eça não se esquece de indicar as influências estrangeiras que se notam na obra queirosiana; o Sr. Dr. João de Meira, num curioso folheto, vai mais longe pois se entrega ao trabalho pacientíssimo de comparar algumas passagens de escritores estrangeiros com as de vários romances de Eça, dizendo como desculpa à denúncia feita que Eça se limitou apena» "a imitar, transportar para o seu estilo as imagens, as ideias ou as expressões de um outro estilo, apresentando de um modo inédito as coisas já ditas, ou aplicando frases feitas a situações inteiramente novas."
Um dos muitos defeitos atribuídos à obra de Eça é a pornografia, a imoralidade, a ação dissolvente dos seus romances. Estes — dizem — atacam a família, essa instituição que devia ser sagrada, intangível. O próprio Eça sai è estacada defendendo-se dessa agressão: "eu não ataco a família, ataco a família lisboeta, produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem", escreve ele numa interessantíssima carta dirigida em 1878, de Newcastle, ao Sr. Dr. Teófilo Braga.
O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro são os romances considerados como mais realistas, mais imoralizados, contudo o Sr. Dr. Fidelino de Figueiredo considera o primeiro, na sua serena e minuciosa análise "uma obra de imaginação, animada dum elevado propósito de morigeração" e o segundo um romance completo que integralmente satisfaz, "de superior beleza e de elevada mora!"
O Sr. Dr. Teófilo Braga, que em matéria literária, não é fácil de contentar reputa também inexcedível o primeiro destes romances: "não haverá nas literaturas europeias romance que se lhe avantaje. Há ali a construção segura de Balzac, o acabado artístico de Flaubert, a crueza real mas imponente de Zola, os quadros completos como um Daudet."
Porém, uma das mais graves e importantes acusações feitas ao eminente autor da Cidade f. as Serras é a de que ele foi um escritor desnacionalizado, que as figuras dos seus romances não são portuguesas.
Como escreve o ilustre poeta e escritor Dr. Alberto de Oliveira: "os espíritos mais sagazes e refratários ao contágio dos lugares comuns não hesitam em afirmar, aliás na intenção menos depreciativa, que Eça de Queirós foi o escritor português menos português que ainda houve em Portugal."
Isto não é verdade. Eça adorava a sua terra, a luminosa, a ridente e linda terra de Portugal; a ação dos seus romances, escritos no estrangeiro, desenvolve-se em meios portugueses e toda a galeria de personagens da sua obra é genuinamente nacional.
Ele amava a sua pátria; o que fortemente detestava eram os ridículos da sociedade portuguesa que desassombradamente classifica de mesquinha, estúpida, convencionalmente pateta, grotesca e pulha.
Os conselheiros Acácios e os literatelhos acéfalos que Eça tão flagrantemente personaliza na figurinha alvar do Ernestinho é que lhe não perdoam as ironias e as incoerências.
Das centenas de tipos que povoam os seus romances e que constituem a prole literária de Eça todos eles viveram e se agitam ainda no nosso meio. Mesmo as figuras episódicas, fugitivas, mal esboçadas se tornam inconfundíveis pelos seus ligeiros traços porque foram todas elas copiadas do natural, arrancadas ao tablado da vida nacional. Toda a série curiosíssima de personagens arroladas por Eça são etnográfica e psicologicamente exatas, bem estigmatizadas nas suas taras, nos seus defeitos, nos seus vícios e na crueldade impiedosa como ele os rubrica, como ele desfaz as suas existências, como as arrasta pela amargura da vida, como as ridiculariza, e que está o seu forte realismo.
Seria interessante fixar aqui a lista verdadeiramente curiosa de todas as suas personagens genuinamente portuguesas, mas não é esse o objetivo do nosso despretensioso artigo; o que pretendemos apenas é reabilitar Eça da acusação que mil vezes lhe tem sido dirigida de que ele desprezou sempre a sua terra.
"Acusam-no de não ser um escritor português a ele que vivendo quase sempre no estrangeiro fez todos os seus livros sobre assuntos nacionais, e constantemente teve os olhos presos na visão desta terra que ele sobretudo criticou — porque a queria a melhor e a mais bela. O meio em que evolucionam os tipos que a sua imaginação criou, foi sempre o nosso", assim escreve Justino de Montalvão numa das suas magníficas e brilhantíssimas crônicas.
Eça lá fora viveu sempre assoberbado por uma profundíssima nostalgia, nostalgia que ele deixou bem documentada na Cidade e as Serras, livro que é, como diz Paulo Osório, "de todos o mais nosso e o que mais encanta, o único que, roçando apenas a miséria humana, se eleva alto, num voo de otimismo e crenças, e cuja leitura, para mais como brilho dum estilo adorável, tonifica, faz bem."
Com as suas sutis ironias, com os seus famosos paradoxos, com as futilidades mundanas, Eça procurava afogar as saudades da Pátria, mas, de quando em quando, elas espicaçavam-lhe a alma e assim, recordando os seus tempos de estudante, das alegres guitarradas, a horas mortas, pelas ruas estreitas do velho burgo coimbrão, escreve em uma das cartas a madame Jouarre: "E o dia na quinta finda... enquanto na guitarra ao lado geme algum dos fados de Portugal, longo em saudades e em ais, e a lua, ao fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surde como a escutar, por detrás dos negros montes."
Dando relevo às suas preocupações de touriste intelectual fantasia o Mandarim.
Pois ainda mesmo dentro de todo esse exotismo encontramos uns laivos de paisagem portuguesa.
Teodoro, quando do alto das muralhas de Pequim envolve com o olhar triste a grande cidade, sente invadir-lhe a alma uma profunda melancolia, lembra-se com saudade da sua aldeiazinha minhota.
"... era como uma saudade de mim mesmo, um longo pesar de me sentir ali isolado, absorvido naquele mundo duro e bárbaro: lembrei-me com os olhos umedecidos, da minha aldeia do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um ramo de louro à porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos quando verdejam os linhos..."
Como se vê, as personagens dos seus romances, mesmo quando peregrinam por longínquas terras, afoga-as a saudade da Pátria. O Teodorico Raposo da Relíquia, farto das remotas paragens orientais, de volta de Jerusalém, exulta de prazer quando, num hotel do Egito sabe que, finalmente, pode regressar a Lisboa porque "um vapor de gado, El Cid Campeador, partia de madrugada para as terras benditas de Portugal!"
A paisagem é sempre duma flagrante verdade.
"Algumas páginas descritivas — como escreve Alfredo de Carvalho num seu interessante opúsculo — são traçadas por mão de mestre, e valem como esplêndidas aquarelas, a que os anos não conseguem delir a beleza viçosa. As paisagens do Padre Amaro conservam-se agora mesmo, em torno de Leiria, e com uma igual distribuição de tonalidades e uma inesmaecida policromia de outrora."
Realmente que luminosa aquarela é esta em que Eça nos descreve um recanto da paisagem do Lis:
"A tarde descaía muito límpida; o alto céu tinha uma pálida cor azul; o ar estava móvel. Naquele tempo o rio ia muito vazio; pedaços de areia reluziam em seco; e a água baixa arrastava-se com um marulho brando, toda enrugada do roçar dos seixos...
Com a inclinação do sol a água perdia a sua claridade espelhante, estendiam-se as sombras dos arcos da ponte. Do lado das colinas ia subindo um crepúsculo esfumado, e as nuvens cor de sanguínea e cor de laranja que anunciam o calor, faziam, sobre os lados do mar, uma decoração muito rica."
Interessante e fortemente colorida é também a seguinte descrição duma quinta minhota:
"... por aqui me quedei, olvidado do mundo e de mim, na doçura destes ares, destes prados, de toda esta rural serenidade que me afaga e me adormece...
Adiante é a horta viçosa, cheirosa, suculenta, bastante a fartar as panelas todas de uma aldeia, mais enfeitada que um jardim, com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam, e as latadas ensombram, copadas de parra densa. Depois a eira de granito, limpa e alisada, rijamente construída para longos séculos de colheitas, com o seu espigueiro ao lado, bem fendilhado, bem arejado, tão largo que os pardais voam dentro como num pedaço de céu. E por fim, ondulando ricamente até às colinas macias, os campos de milho e de centeio, o vinhedo baixo, os olivais, os relvedos, o linho sobre os regalos, o mato florido para os gados...
De madrugada os galos cantam, a quinta acorda, os cães de fila são acorrentados, a moça vai mungir as vacas, o pegureiro atira o seu cajado ao ombro, a fila dos jornaleiros mete-se às terras — e o trabalho principia, esse trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa sempre incansável, porque é todo feito a cantar. As vozes vêm, altas e desgarradas, no fino silêncio d'além, dentre os trigos, ou do campo em sacha, onde alvejam as camisas de linho cru, e os lenços de longas franjas vermelhejam mais que papoulas."
E referindo-se aos jantares da quinta de Refaldes, exclama orgulhosamente:
"Em palácio algum, por essa Europa superfina, se come na verdade tão deliciosamente como nestas rústicas quintas de Portugal."
E prosseguindo num verdadeiro cântico à terra portuguesa conclui:
"Os arvoredos repousam numa imobilidade de contemplação, que é inteligente. No piar velado e curto dos pássaros há um recolhimento e consciência de ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos pastos, cansada e farta, e vai ainda beberar ao tanque, onde o gotejar da água sob a cruz é mais preguiçoso. Toca o sino a Ave-Marias. Em todos os casais se está murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pesado de mato, geme pela sombra da azinhaga. E tudo é tão calmo e simples e terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em que me sento, fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e tão em harmonia com ela, que não há nesta alma, toda incrustada das lamas do mundo, pensamento que não pudesse contar a um santo...
Verdadeiramente estas tardes santificam."
E aqui e ali, em toda a obra de Eça, pequeninas manchas, esplêndidos carvões esquissando-nos amorosamente lindos fragmentos da nossa paisagem tão cheia de luminosidade, de cor e de sentimento.
As telazinhas sobre Sintra de Os Maias; as de A Ilustre Casa de Ramires e tantas outras, dão-nos flagrantemente a fisionomia pitoresca dos nossos campos e das nossas cidades e demonstram-nos que todos esses trechos da nosso Portugal se conservavam na retina de Eça mesmo quando em terras alheias e longínquas, onde foram escritas as melhores páginas dos seus melhores romances.
Vivendo no estrangeiro, ele só se interessa pelo seu país.
Mas onde Eça exprime o seu grande amor à terra lusa é sem duvida no livro póstumo A Cidade e as Serras. Nessa obra, escrita com a ternura dum enamorado, ele redime bem o grande pecado de haver sido alguma vez ingrato para com ela, quando ainda mal a conhecia.
"Enquanto conheceu mal o seu país, em que abundam maravilhas de beleza, feriu-o cruelmente com alfinetadas de violenta e implacável crítica. Mas não tardou a emenda do irremissível erro.
Ao fim da longa curva que seguiu na sua evolução literária, a transformação por que passou o espírito do escritor exímio era completa e ele pôde então ver os encantamentos da sua terra, cujas serras alcantiladas, o verdejar dos vales aos píncaros, algumas vezes o agasalharam à sombra dos densos arvoredos, perfumados pelo aroma agreste e picante dos montes floridos. Nessa hora de visão clara, Eça de Queirós compôs e dedicou-lhe harmoniosos hinos bucólicos a que deu toda a alma..." (Antônio Cabral)
Quem não conhece essas deliciosas páginas em que Eça nos descreve a beleza incomparável das serras e dos vales do Douro e que tanto maravilharam Jacinto, o príncipe da Grã-Ventura, o hipercivilizado do nº 202 dos Campos Elísios? Como ele admira "o divino Artista que faz as serras e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado!" (A Cidade e as Serras)
O acendrado amor pelo nosso belo torrão manifesta-o Eça ainda quando em Paris, cheio de nostalgia talvez, fecha um dos seus romances com este período:
"... e padre Soeiro, com o seu guarda-sol sob o braço recolheu à Torre vagarosamente no silêncio e doçura da tarde, rezando as suas Ave-Marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras."

ELOY DO AMARAL
"Eça de Queiroz: In Memoriam" (1922)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019
).

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