terça-feira, 2 de julho de 2019

A outra primavera (Conto), de Raul Brandão



A outra primavera

Os dias passaram-se e a Árvore era um colosso esbranquiçado e mudo. Nessa noite o Astrônomo encontrou o Pita desvairado, com o xale-manta ao vento.

– Pita, você tem um ar estranho. E o Pita, transido, murmurou:

– Você deve tê-los visto. Nascem, irrompem da treva...

O outro, cheio de serenidade, afiançou:

– Foi a primavera.

– A primavera isto! O amigo desvaira. Como a primavera? Eles só aparecem de noite, criam-se nos saguões. Deparo com criaturas que nunca vi. Uns são lama viva, outros que são?... Homem, dir-se-ia que todos os sonhos tomaram corpo.

– Tomaram. Tenho pensado nisso. Pois foi a primavera. Você tem visto um charco, lama e água revolvida? Vem a primavera e aquilo transforma-se. O mesmo sopro que faz bater mais alto; o coração dos montes cria naquele palmo negro a vida – murmúrios, gritos, um arrancar de mistério. A primavera faz isto; transforma o húmus inerte numa vida furiosa. Eu já vi...

– Então...

– Então, Pita, você medite, é isto... Esta lama que e cria nos saguões, homens, gebos, emparedados, pôs-se com estas noites a criar... Veio dali – e apontou para os lados do Hospital – um eflúvio, o mesmo que faz nascer as árvores, e eles estremeceram abalados.

– A noite tem realmente qualquer coisa que aflige...

Opressão, mistério...

– Emoção que foi até às tocas onde eles criam. Puseram-se a sonhar e criaram. Ora escute... Ouve um frêmito, o escachoar dum rio, gritos?... E, como se a gente pusesse o ouvido de encontro à terra...

– Criaram?

– Criaram. Isto que nós vemos não são eles, são aparições. É o que eles sonharam. Os sonhos dos desgraçados tomaram corpo. Só nós é que não podemos sonhar.

– Nós não, nunca mais... Os sonhos dos desgraçados tomaram enfim corpo!

– Tanto sonharam! tanto sonharam!...

– Mas foi a Noite então?...

– A Noite. Uma primavera negra, feita de emoção e de noite. Eles só deitam flor à noite e só podem sonhar noite.

– São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem estátuas vivas, outros são disformes...

– Eu tenho visto. É uma amálgama singular. Criaturas de fogo, outras de crime. Di-las-íeis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que tudo acarrete...

– O que eles sonhariam para chegar a materializar!

– De cada canto surgem. É inesperado e imprevisto. E dos sítios mais negros é que eles irrompem em brasa. Ontem vi um que parecia uma flor – branco, todo branco ou de luar gelado...

– E falam!

– Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?

Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O bairro leproso estremecia. O Prédio, queria ele própria criar. O rio subterrâneo estropia cóleras, engrossara, rompera para a luz. E a Árvore imensa enchia o mundo. Não era uma árvore como as outras, cheias de frescura e rumores – uma construção viva, com pernadas e folhas que se agitam, um gigante forte e simples. A Árvore era enorme e só dor, esbranquiçada e só dor. E aquela dor materializada e de pé, chamava todos os desgraçados, atraía-os de muito longe até ao fundo do saguão, em frente do hospital de pedra, compacto, e monstruoso. Noite revolvida até às entranhas, fisionomias revolvidas até ao âmago – espectros de ladrões, de prostitutas e de pobres... À roda a cidade confusa e indistinta, léguas de pedra uniforme, e para lá mais pedra aglomerada. – A cidade era odiosa ou a vida é que era odiosa?

Falaram baixo. Depois calaram-se... A Árvore vibrava toda sensibilidade, duma vida só dor, duma vida irreal e estranha – só dor...

Silêncio. E eles no saguão imundo viram primeiro (todos encolhidos, e encostados uns aos outros) uma paisagem ao luar. Choupos direitos. Uma poça com limos. E o luar trespassando as camadas das folhas, até reluzir num fio à tona de água... – Murmúrio leve de folhas... – Talvez fosse a Árvore a falar... A névoa vem do fundo e flutua em rendas como fantasmas... Ao longe a ternura duma fonte caindo pingue que pingue numa lasca de pedra – e mais perto outra coisa, outra coisa maior, um sentimento que nos põe em comunicação com não sei quê que não entendemos, mas cujas mãos benéficas sentimos – uma lei que domina os pobres bichos e o homem só reflexão e cérebro, impressão angustiosa que nos leva aturdidos...

– Que sentes?

– Espera! espera!

– Ouço gritos e vejo uma grande brancura! O que eu ouço! o que eu ouço de vozes!

– É a Árvore!

– Calem-se! calem-se!...

Calaram-se todos e depois durante um momento, sob o luar magnético tiveram a visão nítida duma floresta imensa... Viram a floresta prodigiosa, a floresta calada, sob o jorro. branco do luar. Silêncio e depois do silêncio corre um murmúrio que vinha de muito longe, agitou as folhas, trouxe consigo vozes de bichos, ruídos indistintos e por fim o vento carregado de pólen e a voz dum mar que se espraia. Tudo outra vez se imobilizou e ouvia-se cair o jorro do luar todo branco sobre a floresta impenetrável... O rumor dum bicho na folhagem tornou o silêncio mais profundo e mais sagrado. Na noite, e muito. ao longe, reluzia uma estrela enorme... Os desgraçados olhavam sufocados. Cheirava-lhes a terra, pressentiam outra vida desconhecida. Aquilo durou minutos – mas durante esses minutos alguns seres compreenderam, outros deram as mãos e as mulheres choravam. Só o homem que vivera sempre emparedado ficara mais desvairado depois da comunicação da Árvore e pregava aos desgraçados.

Viam-no curvar-se sobre os míseros e falar-lhes baixo, precipitado, rouco. Deixava-os a cismar de olhos febris.

As suas palavras ardiam. E subterrâneo, incansável, férreo, minava. Ia à procura de ódios para os atiçar. Pregava-lhes, apontando o Hospital:

– É ali! ali!...

Falava dos montes e das águas, mas confundia tudo: aquela noite de Março esbraseara-o.

– É uma coisa esplêndida! É ao mesmo tempo a frescura e o fogo, um incêndio verde que pacifica e estanca toda a sede. Águas a rolar e árvores esgalhadas falando... Sabeis o que são árvores? Há ali montanhas de riqueza, tesouros para lá da dor... Deitai abaixo! deitai-o abaixo!...

Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite.

– Há montes todos de ouro erguidos para o céu, há ouro nas árvores, ouro nos montes e no tojo... Todas de ouro são as águas a rolar. Há seda viva e árvores... Há árvores! E tantas vozes a falar... Tudo fala! tudo fala!

E os pobres, os transidos, os homens encardidos de desgraça, escutavam-no e punham-se a falar sozinhos. Primeiro a Árvore, e depois aquelas palavras, empoeiravam-nos de inquietação e tristeza. A noite era como um brasido que alguém remexe. Ouvira-se o primeiro murmúrio, a zoada como um rio que incha e trasborda.

– Há ouro! para lá há ouro!...

E era como se do globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O Prédio parecia abalado. Todo aquele terriço de criaturas o esbraseara.

– Tanto sonharam! tanto sonharam!...

Pobres, que fariam senão deitar as mãos tábidas a um outro universo que eles pressentiam ígneo? À força de sonhar materializaram o sonho.

Ei-los gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converte-se em cinza, e no rescaldo todos os toros se confundem. Não conheciam da vida senão a dor. Gesticulavam, olhavam absorvidos, perdidos de emoção, como quem descobre nova terra, e deitavam-se a falar uns para os outros sem se entenderem. Nem sequer se ouviam. Cada um narrava a sua ânsia, dizia a história pobre ou doirada da sua alma. Pelos sótãos, nas mansardas e nos saguões, encontrava-se aquela levada cismática, tolhida de sonhar. Duns para os outros ia o emparedado e falava-lhes com palavras que os doloriam e lhes faziam precipitar as ilusões represas...

É verdade afinal que há árvores e fontes todas de ouro? Por que é que eu nasci para sofrer? Por que é que existem vidas, como a de certas sementes, que não chegam a ter força de germinar?

Tocados dessa primavera negra cada um, à força de sonhar, criara uma figura, desdobrava-se. Dos seres trágicos, rotos, calcados, nascera uma aparição de beleza estranha; de outros névoa, fantasmas. Todos traziam o seu companheiro – e havia homens acompanhados por árvores, pelo ódio, pelo riso e por monstros... Um momento e estas figuras adquiriram a sua verdadeira expressão, um momento e Árvore, Hospital, pedras, tiveram outra significação... E os desgraçados querem ver. Querem ver o que se passa para lá das pedras, para lá do mundo atroz.

– Ei-los que deitam flor! ei-los que deitam flor!...

E na noite eles botavam realmente flor, sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer podiam exalar ilusões, sonho de sebes, de calhaus, de tudo que no planeta se cria de ignorado, de calcado e de humilde.

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