terça-feira, 2 de julho de 2019

A Mouca (Conto), de Raul Brandão



A Mouca

Noite de chuva, desta chuva miúda que enlameia e entristece como uma angústia. Na rua Sofia passa com o xale de rasto. Há um clarão de tochas à porta. Vai sair um enterro. Morreu o pequeno do gato-pingado. Trouxe-a para casa uma noite, a essa criança que encontrou caída na rua. Um rapaz de dez anos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe queria o gato-pingado fazer, não me dirão?...

Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão dum garoto, que não lhe é nada. Ele que não tem onde cair morto, chora o pão que tiraria à própria boca para dar a outro.

Morreu-lhe ontem. É decerto um gato-pingado a menos.

Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, dessa noite de primavera negra, em que todos se põem a contar baixinho os seus sonhos à escuridão.

– Deitam flor à noite... – diz o Astrônomo.

A treva entope os buracos das ruelas. As tochas têm debaixo da chuva sinistros clarões de incêndio. Vai uma balbúrdia na rua e o redemoinho da noite traga o bairro acastelado. Eis o enterro. Vão mulheres perdidas e uma velha a tossir, vai o Astrônomo, e na frente dum caixão de passarito, comboiando a turba, lá marcha o gato-pingado, de brandão em punho, chapéu alto e casaca a esvoaçar... A que irão eles deitar fogo na noite trágica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho tísico...

Todos os dias desaparece alguma das mulheres levada para o Hospital. Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe resta?

O Gebo a sustentar.

Todas as manhãs sobe à mansarda onde o velho dorme, levando-lhe pão, que ele mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lágrimas e só diz:

– Filha!

Dizem-me: a que recanto espantoso vai a natureza buscar esta ígnea bondade? A que esconderijo, a que veio oculto? De que força é que se constrói, de que química é que se forma a bondade profunda, inabalável, inextinguível, que sustenta e ampara os pobres?...

As prostitutas, que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora menina, depois que a vêem sua igual. Repartem com ela o pão que ganham, e ao vê-la caída, chorando, ficam aflitas, porque não sabem consolá-la.

– Mais lhe valia deitar-se a afogar – diz uma.

– Isto aqui é uma vida de cão.

– Olhai que ter fome!... Sempre a fome é negra – conclui outra.

Só a Mouca a odeia. Ela que foi sempre a mais maltratada, maltrata agora. Se pudesse, pisá-la-ia aos pés. Ela, de quem todos se riam com escárnio, cuspida pelos soldados, quer fazer sofrer. Não há ser mais degradado, não porque seja má, mas porque é como todas as criaturas que o homem cria para o gozo.

A princípio todas faziam sofrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de a verem chorar lágrimas de aflição para a igualarem.

– Cá temos a menina!

– Quem no diria? Não falava a ninguém a mosquinha morta! E para aprender!

– Deixai-a!

– Deixai-a o quê? Ela é como as outras.

– Deixai a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não têm coração.

– Também a gente sofre.

Riam-se, empurravam-na para os piores tratos, mas pouco e pouco, diante daquela dor silenciosa e profunda, calaram-se. Tratavam-na por menina. Uma queria penteá-la, outra ajudá-la. Só a Mouca lhe tinha o mesmo ódio.

– Olha lá, ó parida!

– É comigo que fala?

– Faz-te tola! acaba lá com esses ares de senhora.

Já estou farta. Tu aqui és tanto como eu, sabes?

– Sei – diz Sofia.

– Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem sou. Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

– Ah, tu não falas? Olhas pra mim com cara de escárnio? Não quero que olhes pra mim, não quero, ouviste? Ai, não falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

– E agora? agora? Quiseste, aí tens. Toma. Tu aqui és uma desgraçada como eu. Aqui não há meninas. E agora? agora? pensas que és mais do que as outras?

– Sou mais desgraçada.

E pôs-se a soluçar.

Mas de súbito a Mouca gritou:

– Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: não a podia ver por inveja. Fui sempre assim, Não me fique com raiva. Eu dizia cá comigo: Então os outros têm mãe e eu nunca a tive? Os outros são infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Criaram-me os ladrões, já deve ter ouvido. Tenho sido muito má pra a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peço-lhe que se ria pra mim, para me mostrar que não está zangada comigo. É boa! eu dizia cá por dentro: hei de pô-la tão rasa como eu. Que é ela mais do que eu? Sabe por que lhe tinha esta osga? Por ver que a menina era infeliz e boa pra todos. Eu sou assim, sou como um cão.

Peço-lhe uma coisa... Bata-me, para eu acreditar que é minha amiga.

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