segunda-feira, 15 de julho de 2019

Chapéu Verde! (Conto), de Sylvio Floreal


Chapéu Verde!
(Tentativa perversa de conto)

Poderia começar este conto, para armar a efeito, de um modo um tanto romântico, em vista de ser esta escola uma coisa tão apreciada no Brasil. Não querendo invadir a seara de Marinetti, não me posso furtar à fascinação de emprestar a este conto truncado uns laivos azul-ferrete de futurismo.

A história é complicada, como são todas as histórias em que os personagens de caracteres imprecisos fogem à ótica focalizadora da análise; é complicada, mas vou contá-la de um modo mais simples possível, pondo de lado a corja indiscreta dos adjetivos agudos e verrumantes. Para a boa execução desta tarefa, sinto não ter um estilo aguado de jornalista manque, ou repórter que, à força de escrever mal, aprendeu a narrar fatos policiais com uma tal ou qual perícia.

Ele, ou por outra, o personagem desta tentativa de conto, vive em toda a parte, no Rio, e até mesmo em São Paulo. Ela, personagem pivot, é neta legítima de Messalina, e vem conspirando contra todas as leis do deplasmamento psicológico através dos séculos, trazendo no sangue a mesma morbidez luxuriosa da esposa de Claudio, o infeliz imperador romano que gostava de ornamentar a sua casa com pequenas estatuetas do chifrudo touro Ápis, que para ele eram mais um símbolo, uma alusão direta à sua própria vida, do que mesmo objetos de arte.

Ele, ambiciosíssimo, quando se libertou do período pubertário das rajadas românticas, aproximou-se, como gato sorna, d’Ela, que morava na mesma cidade, e, se não me falha a memória, na mesma rua. Sapeqinha a valer; conhecia já o tato digitálico de uma aluvião de noivos e namorados. Tudo isto, porém, não lhe abalou a reputação de moça séria, educada nos mais austeros princípios emanados do seio tradicional da sua religiosa a família.

E o ambicioso, sabendo tudo isto, fez ouvido de mercador, e tratou quanto antes de se despencar nas boas graças da meninota, e um belo dia, desses belos duas que marcam uma época na vida de um homem, catrapus, casaram-se que foi um gosto!

Não conheciam nenhum entrecho de novela francesa, dessas que o assunto é todo um baile em torno de uma cama... mas, assim mesmo, tanto pelo indiferentismo d’Ele, como pelas exigências, etc., etc., etc., d’Ela, acharam que era moderno, e até mesmo cômodo, transformar o lar num ménage à trois!

E sem se darem por achados, viveram assim muito tempo, até chegarem aos nossos dias.

Ela sempre pompeando, à sombra do contrato social do casamento, o seu messalinismo de potranca árdega. Ele, que alguns murmuravam em surdina, chamando-o de coitadinho, sentia-se bem, porque o seu fim único na vida não era, como não foi, encontrar a felicidade no casamento, mas sim, dar expansões a toda a sua eloquente e feroz ambição que gania no seu fundo de homem-rotina, que anda em pé graças às leis do equilíbrio, porque a sua verdadeira posição deveria ser outra bem diferente...

O povo murmurava em cochicheios maliciosos, fazendo mil e uma suposições a respeito da honestidade d’Ela e o sobrecarregado frontispício d’Ele.

Insensível, porém, a todos os falatórios e parolagens de esquinas e reuniões, o homenzinho ia triunfando, galgando alturas e mais alturas nas diversas esferas sociais, como sejam jornalismo, política, literatura e outras tantas aspirações que guardava sopitadas, à espera da oportunidade mais imediata e viável.

De João Ninguém passou a ser um João Muita Coisa!

A mulher somente sabia que o seu marido vivia, quando à noite, nesse aconchego lamecha do lar, Ele, entre medroso e hesitante, chamava absurdamente de filha a Lirys, criancinha que recebera na pia batismal o seu nome.

Somente um indivíduo dotado de alma audaciosa, que fazia trocadilhos e piadas perversas num jornal que havia na cidade, atreveu-se a fazer de uma feita uma piada alusiva ao nosso homenzinho, que por cúmulo do caiporismo tinha predileção pelos chapéus verdes.

E o engraçado exclamou de uma esquina, quando ele passava: — “Chapéu verde! Esperança de aumentar ainda mais a substância córnea que prolifera, de parceria com os cabelos, no frontispício do homem que não se importa com a vida de sua mulher...”.

Os que ouviram a deliciosa piada riram gostosamente; somente Ele, já por cima na vida, e com todas as suas ambições satisfeitas, passou pisando firme, sem esboçar sequer um furtivo sorriso.

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