segunda-feira, 15 de julho de 2019

Palavras amargas (Crônica), de Sylvio Floreal



Palavras amargas
(A um literato rico)

A sinceridade é um luxo que só é permitido, como os diademas e a autoridade, às mais elevadas categorias, a quem é permitido dizer as verdades por não terem ninguém acima de si aquém adular ou com quem se conformar. Todo homem isolado é sincero. Quando entra outra pessoa, começa a hipocrisia.

Emerson -  Iludido Jayme de Torrealta:

Escrevo-te com palavras amargas, porque elas se prestam melhor a traduzir a sinceridade.

Bem sei que ser sincero é ser grosseiro; mas para romper a espessa atmosfera de ilusões que te envolve e domina, sou forçado, neste momento, a recorrer a tal arma. Doutro modo, não poderia a minha sinceridade atravessar a cortícula da tua encruada vaidade, a fim de te ferir justamente no âmago.

Somente assim, meu inefável, lograrei consumar o meu desideratum, que é o que deve ser sincero. Não estranhes, pois, se as palavras e os conceitos desta carta, inçada do agridoce da ironia e da saburra desagradável do sarcasmo, condimentada de perfídias e cinismos, perturbarem o jardim silencioso da tua alma, onde os pavões mirabolantes da vaidade espalmam o leque furta-cor da sua cauda insolente.

Sim, é necessário que saibas que és uma vítima dos tais pavões a que acabei de aludir...

Do alto estapafúrdio das tuas polainas, e mumificado através da lasca do teu irritante monóculo, que tem o desdém pretensioso de destilar indiferentíssimo sobre o meio ambiente e circulante, grávido de hipocrisias, julgas dominar a vida? Puro e lamentável engano!

Muito provavelmente seja um nome fictício e irônico pela escolha do sobrenome Torrealta.

O acaso, esse pseudônimo de Deus, como disse Gautier, fez de ti um homem rico, e depois agravou a tua situação fazendo-te um homem de letras!

De uns meses a esta parte, a mentalidade paulista, tomada, como foi, da ânsia de assaltar a glória e forçar com o pé-de-cabra da audácia deslavada e manhosa as portas da cidadela da Imortalidade, deu em parturejar um livro caxingó em cada quinze dias. E tu também quiseste, com um gesto castiçamente deselegante, figurar na galeria dos parturientes; com o fórceps do teu dinheiro, os prelos gemeram desesperadoramente, num parto infeliz, e deram à luz do sol da Pauliceia o teu livro, — aborto teratológico concebido na câmara escura do teu heráldico bestunto. Não afrontou o ridículo essa tua mania, mas afrontou a indiferença, que é pior ainda.

A tua silhueta de dândi pretensamente letrado, quando passa por entre os homens, desperta em todos uma galhofa surda, recalcada no fundo da malícia, e que escapa à tua argentaria argúcia. Nessa ocasião, o teu nome é murmurado em surdina, acompanhado de beliscões morais e crivado de farpilhas envoltas em laçarotes de vermelhos adjetivos lanciolantes. Se nesse momento, porém, a tua figura, que carrega uma alma de manequim, enfrenta o grupo, como a querer lamuriar a sede de glória que arde no teu íntimo, não percebes a estupefação que tolhe a voz e os gestos de todos. E passas convicto de que aquele silêncio foi uma manifestação espontânea de admiração. Como a tua ingenuidade é irritante! O insulto velado, amordaçado pelo açaimo do convencionalismo, cantou aos teus nababescos ouvidos como poema de comovidos louvores.

No mundo do bom tom, da galanteria, os teus gestos ritmicamente estudados, e mais a cenografia da indumentária, sugestionam e vencem, com o dinheiro; abres portas que dão para todos os salões do mundanismo; mas, no mundo literário, desprovido como és da chave do talento, não consegues abrir uma portinhola!

Ser um bom rico é mais fácil do que ser um literato. Já pensava assim o teu particular amigo, o conselheiro Acácio.

A tua formidável boa-fé, e a pueril confiança depositada nas dunas movediças dos elogios de falsete, alardeados pelos amigos exageradores, fizeram estraçalhar a tua ótima ingenuidade pela rampa acidentada desse declive enganador, que tem por fundo um fojo trevoso, onde dorme a fauna variegada de todos os ridículos.

Aos teus amigos, num grande desprezo pela tua figura humana, não lhes doeu a alma, ao te arremessarem nesse fojo em cuja borda todos os que passam riem da tua caricata pessoa.

Ninguém se atreve a ter piedade de ti, expondo-te a tua própria situação. Seria isso um insulto ao teu dinheiro. Mas, se fosses um literato pelitrapo, desses que almoçam sem nenhuma lembrança do último jantar, amaldiçoados pela sorte bruxa, não te faltariam críticos conselheiros, amigos guiadores. Tens aquilo que mata nos homens a sinceridade, e por isso não há um que se atreva a dar-te um conselho.

Confiaste em demasia nos outros, porque te faltava o hábito de confiar em ti mesmo!

O teu bem-estar material e o teu excesso de conforto obumbraram-te a ótica da análise.

Vês os homens sem perfídias, julgando que eles também procederão da mesma forma para contigo.

Sinuosa miragem!

Nunca encontraste no teu caminho algum desassombrado que, arcando com o minúsculo fardo do teu desprezo, ousasse ser sincero. Nunca!

A tua conduta admira-me, porque afinal de contas, não és totalmente cretino. O bom senso dos medíocres ainda não se extinguiu em ti.

Grande egoísta, não te bastavam as mil e uma regalias que o dinheiro vem de proporcionar-te pela vida afora?

Não! Quiseste, num gesto manque de cabotinismo, sair da obscuridade burguesa que entenebrecia a tua confusa personalidade. E publicaste o indigesto cartapácio que meia dúzia dos que se dizem teus amigos leu com enfado e de que a maioria não tem sequer noção de tal ignomínia impressa. Publicaste para mostrar que sabes escrever, porém São Paulo está cheio de imbecis que julgam saber escrever. De grafomonos está a Pauliceia repleta: em cada repartição pública há um literato inédito, que para escrever livros que ninguém lê, como o teu, molha a pena no marnel da própria vaidade.

Feliz daquele que, tendo escrito um livro para passar o tempo, por mero diletantismo, esconde, sigilosamente, o fruto das emoções, dos olhos da maioria dos mortais!

Feliz dos que têm notícia da própria mediocridade!

A esses, a ironia chula dos pérfidos não os ferirá.

O teu descrédito no mundo das letras é formidável, embora os incensadores digam o contrário. Não soubeste esconder, como era devido, a tua brilhante mediocridade; por isso pensas absurdamente que és um homem que carrega a glória, quando a verdade, que todos cogitam esconder aos teus olhos, é bem outra. A verdade apunhaladora é que és um homem falho de senso crítico, de acanhado temperamento artístico, cultura vulgar, imbuído de literatice, dessa que alucina os colegiais e os provincianos.

Amigo, medita um pouco sobre a tua jocosa situação, e depois isola-te o mais que possas, a fim de reabilitares na solidão a pequena vaidade com a tua imensa ambição.

A crítica oca, feita por meia dúzia de paspalhões atacados da peste do intelectualismo, proclamou em todos os diapasões as Excelências que não existem no teu livro. Os desalmados, na lavra do exagero, não procuraram estabelecer premissas, para chegarem a uma dedução mais ou menos razoável, a fim de se ver em que altura devia figurar o teu talento, na escala dos valores!

Nada disso foi feito. E o teu livro, que ninguém lê, porque tem a grande qualidade de não interessar ao mais insignificante habitante desta capital, foi rotulado, por esses criticoides, de esplendido e maravilhoso. Como a sinceridade teve medo do teu dinheiro!

Mudando de tom: não há uma só pessoa, sob o céu da Pauliceia, que se atreva a negar-te talento! E tu, na verdade, não és um homem de talento. És, quando muito, um homem futilmente brilhante; e com esse brilhantismo, tiveste a petulância de escrever um livro falso, postiço, que não reflete a grande vida que turbilhona cá fora, amarga e agitada, onde os homens se contorcionam na febre delirante dos interesses e do egoísmo que os impulsiona na ânsia bárbara de se devorarem mutuamente. Longe destes fenômenos foi urdido o teu desalinhavado volume.

Tudo é fantasioso nele. A única verdade que ele projeta é a tua existenciazinha passada entre paredes doiradas e ambientes pacatos, onde o rumor mais sensacional é o de um bocejo distraído.

Falta paixão, tragédia e sofrimento no teu livro.

Escrever um livro é um trabalho fácil, mas criar um livro, como disse Ibsen, é um trabalho difícil.

Ninguém te odeia, ninguém te combate! Rubinstein exclamou um dia: — “Tem-se a medida exata do valor de um literato, contando o número de medíocres que se coligam para o derrubar”. Ora, não havendo quem se coligue para te derrubar, quer dizer que tu não existes na esfera das letras...


---
Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...