terça-feira, 16 de julho de 2019

Filosofia do arranha-céu (Conto), de Ronald de Carvalho



Filosofia do arranha-céu
(Estados Unidos)

O arranha-céu não é apenas um milagre da mecânica. É, antes do mais, um índice sociológico, uma representação de valores políticos. Ao revés do templo ou do castelo senhoril, cuja construção estava subordinada às necessidades de um ente superior, que fazia sentir, por toda a parte, o influxo do seu poder exclusivo, o arranha-céu é uma pequena comuna, onde todos quantos ele abriga estão sujeitos a uma só lei de igualdade civil. Essa igualdade liberta o indivíduo das hierarquias e aumenta-lhe o senso da responsabilidade em face dos seus semelhantes.

A galeria dos espelhos, em Versalhes, é a moldura de um Rei. Móveis, tapeçarias, cristais e gentis-homens eram, ali, efêmeros acessórios da majestade real. Constituíam simples acidentes, onde se refrangiam os raios do Rei-Sol. Puras massas de paisagem para o jogo de um Príncipe.

A nave de Catres, os largos espaços das basílicas romanas criaram-se para o esplendor da ideia de Deus.

A lógica da catedral e do palácio inspira-se numa disciplina abstrata: no respeito ao Homem-Deus e ao Homem-Senhor.

A lógica do arranha-céu inspira-se no sentimento da comunhão, nas leis da economia, que repelem quaisquer resíduos decorativos, e nas leis do direito público, que reduzem as relações sociais a um pacto de igualdade.

O arranha-céu é filho da Revolução. Seu primeiro arquiteto foi o Emílio, de Rousseau.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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