terça-feira, 16 de julho de 2019

Port of Spain (Conto), de Ronald de Carvalho



Port of Spain

CAPÍTULO 1

Horace Page, filho primogênito do Sr. governador da Trinidad, aproveita o domingo para jogar golfe com as duas irmãs miss Dorothy e miss Catherine, e com a amiga de suas irmãs, miss Mary Homer, filha de mr. G. T. Homer, armador de Southampton.

Os olhos azuis dos quatro ingleses louros se embebem no campo verde, e sugam as claridades matinais da paisagem com a gula ingênua das mansas pupilas saxônicas.

Saltam gafanhotos, em pulos curtos e indecisos, batendo nas botas de couro cru.

O mato chia debaixo do sol, que encera e cresta as ervas gordas do chão.

Zumbem insetos na folhagem.

Os gramados vaporam cheiros ácidos. Estalam gomos de bambu.


CAPÍTULO 2

Na casa do Sr. governador, com a sua varanda coberta de trepadeiras preguiçosas e o seu aroma de chá bem fervido, cai do mastro pintado de branco a bandeira de sua majestade.

Tudo está no seu logar.

As arvores estão atentas!

Mangueiras imóveis.

Bananeiras imóveis.

Mamoeiros imóveis.

Palmeiras imóveis.

A paisagem é uma parada.

A natureza espera o sr. governador para se mexer.

Sentido!

O Sr. governador entra no seu cabriolé de verniz amarelo, abre o chapéu  de sol encarnado e mete no bolso os "Salmos de David", em papel de arroz, edição de Oxford.

Cercas de campos, troncos e pedras tudo se perfila!


CAPÍTULO 3

Só os molequinhos caraíbas, atolados, até os joelhos, nos mangues manchados de caranguejos azuis, ignoram a disciplina britânica.

O cabriolé de verniz amarelo do Sr. governador da ilha de Trinidad pôde passar à vontade.

Nem por isso os molequinhos caraíbas deixam de parecer pequeninos bronzes indiscretos, de onde jorram, de quando em quando, fios e fios de ouro em fusão.

Ouro que os ingleses desprezam.

Ouro que o sr. governador não apura nos seus relatórios ao governo de sua majestade.

Ouro que os molequinhos caraibas esbanjam, indifferentes às leis de economia e aos provérbios judeus do sr. governador geral da ilha de Trinidad.


CAPÍTULO 4
OU DA MORALIDADE

Miss Dorothy, miss Catherine e miss Mary Homer pensam que os molequinhos caraíbas são imorais.

Mr. Horace Page é como o seu pai: não pensa nada.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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