domingo, 14 de julho de 2019

Lágrima perdida Conto), de Lúcio de Mendonça



Lágrima perdida
(A Urbano Duarte)

Somente quem nunca esteve na vila fluminense onde se deu o extraordinário caso pode ignorar a história do Rafael ourives. Também, a história do coitado resume-se no fato que lhes vou contar: o mais de sua vida obscura apenas tornou-se conhecido e falado depois que se iluminou com este acontecimento notável.

A modéstia do meu pobre herói começa já pelo nome: chamava-se unicamente Rafael, sem nenhum apelido de família; ourives, acrescentavam alguns, sem cuidar que assim lhe estavam declarando um belo título de nobreza, conferido pelo seu trabalho, pela sua profissão, que, tão bem exercida, se tornara de simples ofício verdadeira arte. Rafael ourives era, de feito, um artista: rimava o ouro com o diamante como Gautier lapidava a estrofe; compunha braceletes que fechavam bem como sonetos de Petrarca; há um broche dele tão rico e cintilante que é ver uma página das Orientais.

E era ourives mascate; levava, triste rapsódia, de povoado em povoado os seus poemetos de ouro e pedraria.

Quis a má fortuna que aquele coração peregrino se agrilhoasse no cativeiro de um amor forte; enamorou-se o rapaz de uma criaturinha anêmica e desengraçada, primeiro e fútil pretexto que a sua imaginação de artista por desgraça encontrou para encarnar o formoso ideal que o enamorava.

A menina — chame-se Laura que é nome romântico — tinha por pai um português cheio de senso pratico e de cálculos exatos; compreendia muito poucas coisas, mas de tudo o que menos compreendia era genro pobre. Ora cumpre dizer que Rafael não teve tempo de informar-se das opiniões do burguês antes de achar encantadores os olhos da filha: mais culpada foi ela, que, de,vendo conhecer o bom do pai que tinha, alimentou com fartura de olhares e sorrisos o infeliz amor ainda implume que, com isso, criou asas. Asas tão atrevidas que Rafael, em poucos dias, foi ter com o pai da moça e pediu-lha em casamento. Aí é que foi uma cena triste para o namorado; o homem respondeu-lhe, com um risinho brejeiro que era muito seu:

— Meu caro Sr. Rafael, eu sou homem de negócios francos: a menina já me foi pedida por um moço do comércio, bem encarreirado, que tem de seu uns dez contos e ha de vir a ter mais um par deles por morte da mãe, a qual, se Deus for servido, não pode tardar muito... O senhor desculpe a sinceridade... eu sei que a menina lhe quer mais que ao... mas na minha posição de pai e homem que conhece a vida, bem vê que não posso deixar de perguntar-lhe... de quanto dispõe o senhor?

Rafael empalideceu de indignação e perguntou-lhe, mal contendo a ira que o engasgava:

— E a Sra. D. Latira pensará como o senhor?

— Nesses negócios penso eu por ela, meu caro amigo!

— Acha então que é apenas um negocio?!

— Mais importante que alguns outros, é só a diferença.

— Está claro, o senhor é sectário da doutrina do casamento em concurso; por outra, é pai leiloeiro; entregará a filha a quem mais der.

— Pois, senhor, não conte comigo, que sou mau licitante.

E voltou as costas ao riso amarelo com que o outro o escutava. Quem pudesse ouvir o doloroso monólogo que ele ia revolvendo no espírito perceberia, pouco mais ou menos, isto:

— Dez contos de réis e mais a herança materna! não tenho tanto dinheiro! E o mais? — a minha vida, cheia de privações, mas sem uma única vergonha, o meu talento, a minha arte?... que me vale tudo isto? o que ele quer, o que ele conhece, é o dinheiro. E a Sra. D. Laura pensará como o senhor? perguntei-lhe; devo também perguntar-lho, a ela. Antes disso, nem a posso julgar com justiça, nem decidir com prudência o que hei de fazer de mim.

Mas, depois do que ouvira e dissera ao pai de Laura, não podia voltar à casa dele; não queria, tão pouco, escrever à moça: nunca lhe tinha escrito, nem sabia escrever que prestasse; demais entendia que era mal feito dirigir-lhe carta: — esperou que ela fosse a uma casa do seu conhecimento, onde poderiam conversar francamente. Só oito dias depois, foi Laura uma tarde, à tal casa.

Rafael entrou pouco depois dela. Conversava-se na sala de visitas; a filha do burguês, como se tratasse de costuras, dizia como e porque ia casar, daí a dois meses, com o Sr. Luizinho do armazém:

— Meu pai quer, e eu aceito, acabava de dizer, quando Rafael entrou, depois de estar parado porta algum tempo, ouvindo as frases banais com que a menina sem coração ingenuamente o apunhalava.

Laura, quando viu o namorado, assustou-se como uma criança apanhada em flagrante travessura, e corou vivamente.

 — Peço desculpa, balbuciou Rafael, não pensei, que viesse surpreender uma conversa íntima... Mas D. Laura não tem de que ficar assim, envergonhada... é tão natural casar, na sua idade.

Cumprimentou com um modo digno e triste, e sentou-se; conversou pouco, — a conversa geral esfriara com a sua entrada, — e, ao despedir-se, declarou que se despedia para uma viagem de muitos anos, talvez para sempre.

— Para onde vai? perguntou-lhe a dona da casa.       

— Por esse mundo fora, respondeu, e saiu! todo enleado.   

Quando chegou à estalagem onde estava hospedado, encontrou um moço que o esperava. Era! o Sr. Luizinho do armazém.

— Eu vinha encomendar ao Sr. Rafael que me fizesse uma joia bem bonita; pode ser... Não tem pressa; basta que fique pronta nestes dois meses: é para dar de presente a minha noiva, no dia do casamento... Quero coisa aí para cento e cinquenta, are duzentos mil réis, quando muito...

— Não senhor, atalhou Rafael, não posso: faço viagem amanhã e não volto.

— Mas a Laura queria mesmo que a joia fossei feita pelo senhor...

— Já disse que não faço, que não posso, que não quero. E passe bem; tenho mais, que fazer.

Deixou o Sr. Luizinho pasmado na sala e entrou para o seu quarto.

***

Estava, enfim, só. Sentia uma constrição na garganta; tinha vontade de chorar, de blasfemar. A sorte oprimia-o, indignamente. Dizia-lhe a consciência que era um rapaz honesto, laborioso, cheio de boas intenções; dizia-lhe o coração — dizia-lho em tumultos desesperados — que amava imensamente, e não o amavam nem compreendiam. Outro, bom rapaz, talvez, honrado e trabalhador também, mas estúpido e feliz, ia receber, sem exaltação nenhuma, com uma naturalidade idiota, a ventura transcendente, que a ele o endoideceria de júbilo! E ela também, que alma pequenina! com que facilidade o sacrificava! Só se lembrara dele para desejar que lhe fizesse uma joia para o dia do casamento; sugestão de vaidade, não de amor. Afinal, mostrava que merecia bem o marido que lhe impunham.

Instintivamente olhou-se a um espelho que pendia da parede, defronte; assustou-se do seu próprio olhar, tão sombrio era. Que cara de réprobo! e a angústia, a febre e o ciúme dos últimos dias escaveiraram-lhe o aspecto, já de si pouco formoso; emagrecera como um naufrago num rochedo isolado; o rosto todo anguloso, estava devastado; os olhos, que tinha azuis e esplêndidos de vivacidade, luziam sinistramente, encovados; queimava-lhe os lábios um sorriso irônico e mau. Não estava, com certeza, menos feio que o Gilliat depois da salvamento da Durande, maltrapilho, flagelado dos ventos, sugado pelas pústulas vivas da pieuvre, coberto de chagas irritadas pelos beijos da onda acerba.

Meditando da tristeza do seu destino, que se antulhava ermo e desconsolado, lembrou-lhe, de improviso, que desde criança guardava, com inviolado segredo, uma dádiva misteriosa, que sua mãe lhe entregara, coma mão já fria, no leito de morte. Era um cofrezinho quadrado, envolto em papel branco, lacrado, com esta inscrição em caracteres miúdos: Lembrança de tua mãe, para só abrires um mês antes do teu casamento. Respeitara até ali, fielmente, a recomendação materna; muitas vezes sofrera necessidades de dinheiro, estreitas necessidades, e imaginara que aquilo podia ser algum objeto precioso; mas nunca se resolvera a rasgar-lhe o invólucro: fora uma antecipação, que se lhe afigurava sacrílega. Demais, pensando bem, que valor podia ter em moeda a dádiva de sua mãe, que morrera tão pobre?! É certo que o pai, garimpeiro feliz da província de Minas, fora em outro tempo, senhor de bons haveres; mas dissipara em jogo desenfreado todos os bens da fortuna aventurosa, e um dia, achando-se roubado na última importante parcela de sua riqueza, um fabuloso diamante, que até então conservava bem guardado, suicidara-se covardemente, deixando ao desamparo a viúva e o filho ainda infante. Mas naquela tristíssima noite, desenganado para sempre, vendo fechado em trevas todo o futuro, assentou Rafael desvendar o segredo de tantos anos, depois de haver assim raciocinado consigo.

Ou abro agora a caixinha ou nunca mais, porque eu, decididamente, já não caso.

Avivou a luz do lampião que ardia no quarto, e tirando de uma canastrinha de viagem o misterioso guardado, rompeu comovido, o envoltório de papel amarelecido pelo tempo; achou uma caixinha de veludo roxo, abriu-a... Teve um deslumbramento! era um tesouro esplêndido, um diamante enorme, fascinante, incrível, o maior que já encontrara, ele que muitos e riquíssimos tinha visto! Tomou-o na mão tremula, mirou-o à luz: cegava; era uma pedra magnífica, sem falha, sem jaca, rutilante maravilha!

— Estou rico! exclamou atônito. Era este o diamante que tantas vezes ouvi dizer que foi roubado a meu pai, e cuja perda lhe custou a vida! E acrescentou, chorando no intimo da alma: — Deus te perdoe, minha mãe, a tua santa,culpa! bem caro paga hoje teu filho o desvario de teu amor: é inútil este tesouro: eu já nada ambiciono do mundo; conheço-o; é para os estúpidos e maus; é para o Sr. Luizinho; é para Laura... Esses hão de casar e ser felizes... Felizes?! e por que não? E eu que amo ainda tanto! tanto! misero de mim!

Escondeu a face nas mãos e rompeu em soluços convulsivos.

***

Três dias correram sem que Rafael saísse do quarto, onde esteve fechado, noite e dia; na terceira noite, ordenou ao criado que lhe foi levar o chá:     

— Diga a seu amo que preciso falar-lhe sem demora. 

Daí a nada entrava o estalajadeiro, e o ourives lhe dizia:

— Parto amanhã de madrugada; faça o favor de ver a minha conta.

— Amanhã!... Mas o Sr. Rafael a modo que está doente...

— É o que lhe parece; não tenho nada. Veja sem demora quanto lhe devo; ainda tenho muito que fazer hoje.

O homem saiu com a morosidade que entendia ser de boa delicadeza quando lhe pediam a conta, e pouco depois voltava com o quarto de papel garatujado e o apresentava ao freguês. Este leu a soma, pagou sem observação, e disse, fitando em face o negociante:        

—Agora, por despedida, quero pedir-lhe um favor.

— Dois ou três, Sr. Rafael.

— Esta caixinha é uma pequena encomenda do Sr. Luizinho do armazém; já está paga; queira entregar-lha em mão, amanhã mesmo, com esta carta. E boa noite!

— As suas ordens hão de ser cumpridas pontualmente. E agora até quando?

— Até breve; talvez para a semana... Boa noite!

— Pois boa noite, e boa viagem!

***

No outro dia, estava o Sr. Luizinho no armazém, que lhe dava a alcunha, quando o estalajadeiro veio ter com ele.

— Ora viva o Sr. Luizinho!   

— Bom dia... Sente-se, que estou muito ocupado agora; ando às voltas com os tais papéis do casamento... Olhe que é uma campanha!

— E quando é isso?

— Sábado... se não chover.

— Pois o que aqui me traz não tem demora: o Rafael ourives...

— Sim!... Que sumiço levou esse malcriado? Olhe que outro dia estive para lhe dizer boas...

— Fez viagem esta madrugada; ficou de voltar p'ra semana. Venho mesmo a mandado dele.

— Ahn!              

— Deixou comigo, para lhe entregar, a sua encomenda, com uma carta.

— Eu não fiz encomenda nenhuma; estava-a fazendo... e até o desabrimento dele causou-me bem bom transtorno... Mas enfim, deixe ver isso.

Deu-lhe o estalajadeiro a encomenda e a missiva. Luiz abriu curioso a carta, relanceou por ela os olhos e meteu-a no bolso, fazendo-se circunspeto:

— Nunca pensei que o homem tomasse a sério a minha encomenda: foi uma loucura, das de noivo, sabe? mas, agora que está feita, é tratar de ser bom cavalheiro.. Olhe só o presente de casamento que vou dar a minha noiva. Já viu algum dia joia mais rica, hein? 

O estalajadeiro ficou boquiaberto diante da maravilha que, sem saber, trouxera ao outro.

Obra-prima de ourivesaria e prodigalidade como um príncipe poderia ter! era um alfinete de peito original e preciosíssimo: uma grossa lágrima de brilhante gotejando de um punhalzinho de ouro.

— É rico, sim senhor; mas é esquisito, homem! assim à primeira vista parece um punhal com uma lágrima... e é que é mesmo, é...

— É uma lágrima, não tem dúvida, mas olhe que vale mais que todas as da senhora Madalena arrependida, mais que todas as lágrimas do mundo! Nem calcula o dinheirão que isto me custa... contos de réis, homem!

— O Rafael disse-me que já estava pago. O Sr. Luizinho meteu-se então em funduras...

— Homem, não: isto era uma dívida perdida; o sujeito pagou-me com este brilhante. Podia ser pior.

— Isso agora é outro cantar. E quem lhe diz que o brilhante não é falso?

— Bem pode ser, não digo que não; mas como eu já não contava com a tal dívida, tudo serve.

Despediu-se o estalajadeiro e saiu. O Sr. Luizinho leu segunda e terceira vez a carta; não entendia nada! dizia assim:

"Sr. Luiz. — Lembrei-me da encomenda que me fez e na ocasião não aceitei e envio-lhe este alfinete de peito. Qualquer ourives daria por ele cinquenta contos de réis; mas não deixe de o dar, em seu nome, à sua noiva. E estime-a e respeite-a, faça-a feliz: é este o preço por que lhe vendo a joia. Pode dizer a sua mulher que o trabalho foi meu, como ela queria; mas exijo que não diga nunca, nem a ela, nem a ninguém, como obteve isto. Queime esta carta. — Rafael."

— Seja como for, aceito muito calado, que não sou tolo, resolveu o Sr. Luizinho. E faço um figurão. Mas pelo menos, devo convidar para o casamento o maluco do rapaz que se mostra tão interessado (cinquenta contos de réis!) em que a Laura seja feliz... Há de se cuidar disso, meu caro, pode ficar descansado.

Dissera-lhe o estalajadeiro que a ausência do ourives era por uma semana; adiou o casamento à espera dele; chegou a lembrar-se de o convidar para sua testemunha; mas passou-se a semana, passou-se um mês e Rafael não veio: celebrou-se sem ele o ato.

Na ocasião de irem para a igreja, o Sr. Luizinho ofereceu a joia a Laura, dizendo-lhe que fora, segundo o seu desejo, encomendada ao Rafael; a moça, fascinada de tanto esplendor, abraçou com efusão o noivo:

— Oh! agradeço-lhe muito! muito! nunca vi brilhante tamanho nem tão bonito!... A ideia do punhal, e da lágrima é que foi infeliz e imprópria ... Só mesmo daquela cabeça...

Durante toda a festa, a joia foi objeto de geral admiração e manifesta inveja; as más línguas da terra chegaram a rosnar coisas feias a propósito de tão rico presente dado por quem não possuía muito; mas foi voto unânime que era um esplendor o alfinete da noiva, e o nome do artista andou de boca em boca. O mais maravilhado foi o pai de Laura; mas, suspeitando algum mistério criminoso, achou prudente nem se por com grandes admirações.

Correram anos e anos; o casal teve muitos filhos; e Rafael ourives nunca mais voltou, nem nunca mais se soube dele.      

Rio Bonito, Dezembro, 1877.

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Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854-1909)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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