domingo, 14 de julho de 2019

A fuga Conto), de Afonso Arinos



A fuga
Pelas estradas barrentas, no meio dos rugidos do temporal desfeito, quando a ventania disparava pelos campos em arranco de boiada, e, topando o capoão além, constringia-o na medonha luta, ouvia-se, ao esmorecer das vozes do trovão, um tilintar de correntes, cadenciado, rítmico, acompanhando o estrupido de passos fortes.
O viandante tresmalhado, ou o vaqueiro que se recolhia a desoras, ébrio, das delícias do batuque, fugiria apavorado, julgando ver no som das correntes arrastadas a penitência de alguma alma penada, — quem sabe se a do pobre Tristãozinho, espancado há tempos, brutalmente, ali mesmo, à beira do rio, quando de volta da casa de Paquinha, procurava desamarrar a canoa para a travessia?
O tilintar das correntes, cadenciado, rítmico, fugia, a pouco e pouco, pela estrada afora, abafado a espaços pelo glu-glu das enxurradas, que, sopitadas nos caldeirões do caminho, estancavam, reunindo forças para se derramarem depois, impetuosas, assoberbantes, pelos sulcos de carros de bois até ao longe, no grande rio.
Dois condenados da Extração, escravos reúnos, confiscados a seus donos pela Real Fazenda, aproveitando-se da tempestade, fugiam da rancharia junto de uma gupiara à beira do córrego, onde eram obrigados a trabalhar para El-Rei, como galés, no serviço da mineração de diamantes.
Percebida a fuga, foi dado o alarme, pouco depois, ao som rouco de córneas buzinas, e a força de dragões avançou confusamente, dando descargas para aqui, para acolá; mas recuou logo, pela improficuidade da perseguição nessa noite tormentosa.
Os dois fugitivos porfiavam por meter aos sabujos grande espaço em meio.
— Não aguento mais, Isidoro!
— Agarra-te a meu ombro e vamo-nos embora. Olha que os fulares não tardam.
— Valha-me, Senhora da Abadia!
— Não esmoreças, Bento. Estou-te desconhecendo. Não pareces o mesmo cabra que aquele dia tirou a cisma do macho ruão, no terreiro da Cacimba.
— Dói-me tanto o peito, que me responde cá nas costas. E que descarga danada! Os judeus me meteram uns dois balázios aqui no braço e na perna. Foi Deus que não os deixou acertar em lugar mortal.
Por cima de tudo, a pontada, esse demônio de pontada perto da maminha, desta banda...
A marcha dos fugitivos enfraquecia. Já não era o mesmo pisar forte, seguido do ranger dos grilhões.
Abeiravam, então, o Jequitinhonha, cuja presença era indicada pelo estalar das águas em plena cheia. Ouviam já o som cavernoso do rio, rolando formidavelmente, no meio dos ribombos causados pelas grandes árvores, arrancadas a custo pela fúria da corrente, precipitando-se no abismo das águas com gritos despedaçados dos ramos e raízes.
Dentro do camoão, denunciando aos tredos caminhantes por um grau mais intenso de sombra, tomaram fôlego, pávidos, baixando instintivamente a cabeça com a sensação da grande massa negra, informe, que lhes pairava em cima. No pandemônio de sons e movimentos que se adivinhavam no bojo da atra escuridade, pressentiam lutas supremas de troncos contra os estirões da borrasca, inundações de ninhos, dramas trágicos de animais silvestres mortos pela queda dos galhos e outros arrastados pelas enxurradas; uivos entrecortados de onças abrigadas nas lapas alcançadas pelas águas, junto aos filhos ainda aquecidos pelo calor materno; berros de sucuris despertando do sono costumeiro com as notas vibrantes e sonoras da tempestade.
Isidoro carregava já seu companheiro, arcando ao peso, roncando de esforço a cada passo, incerto, titubeante, no meio da estrada.
O vaqueano sentiu perto o rio e, norteando-se ao clarear dos relâmpagos, entrou à esquerda, por uma trilha de anta, que conduzia a uma grande rocha à beira d'água, seu pesqueiro habitual em outros tempos.
Acocorou-se aí com o pobre do companheiro, que riem falava mais. Suspirando longamente, quedou-se, resignado, à espera da madrugada.
***
Serenou a tormenta.
E, já na meia claridade da antemanhã, uma sensação súbita de frio principiou de invadir os míseros. Era a grande massa d'água, farrusca, ameaçadora, que grimpava a pedra, traiçoeiramente, como um jacaré que se arrasta, sutil e feroz, na algidez repelente de sua pele escamosa, querendo pilhar a presa durante o sono. Espessa camada de neblina cobria toda a superfície do rio, montando, da flor das águas, pelas barranceiras acima, aos ramos mais altos do mato frondejante. O tope de arvoredo rasgava no alto o denso véu cinzento, que se esfarrapava, prendendo nas pontas da galhada longas flâmulas brancas, arfando serenamente às auras matutinas.
Os tons roxos do céu iam cedendo a uma coloração de ouro tenuíssima, que se acumulava ao longe, na barra do horizonte, onde o rio num préstito triunfal de pequenas ondas muralhosas, parecia perder-se no espaço ilimitado.
Longas fitas de ouro e púrpura cairelavam o céu na comissura do rio, sobrepondo-se paralelamente, até se afogarem no pélago de nimbos que refluía de onde se arqueava o firmamento.
— Eh lá! companheiro! Esperta e vamos embora, batendo mato pela beira do rio. Olha que enchente! Vigia: se nós cochilamos mais um bocadinho, a água nos papava.
E, meio estarrecido da longa quietação e do frio, Bento estremunhou distendendo os braços com gritos de dor das feridas.
— Assim, com esse inferno de corrente pesada, eu quase não me posso mexer — disse Bento, batendo o queixo, apertando no corpo o timão de baeta já meio enxuto.
Isidoro lembrou-se, então, da lima finíssima que lhe dera, há tempos, o Chico Júlio e de que se não pudera servir na precipitação da fuga. Começou a cerrar vigorosamente o anel de aço que roxeara o tornozelo do seu pobre companheiro. Depois, prendendo num gancho de ferro pendente do cinturão de sola toda a corrente, que lhe subiu do pé pela perna acima, exclamou:
— "Vamos ganhar a estrada!" E, suspendendo o companheiro por baixo dos braços:
— Corpo duro! Nós já desnorteamos os fulares, que andaram bestando pelo mato. A chuva apagou os rastros, mas eles podem andar farejando por aí; eu deixo para limar minha corrente na venda do Chico Júlio.
Iam começar a marcha, quando estacaram de chofre, estremecendo, com o estrepito de um corpo que caía pesadamente na água. Assuntaram algum tempo, mas ouviram logo outro ruído igual e, não longe duas ou três capivaras que se precipitavam no rio, assustadas com a presença de tais franduleiros nos seus domínios.
Tranquilizados, partiram, numa farfalhada de folhas molhadas e de taquaras que se quebravam, assustando as jaós, fazendo os nhambus ocultar as cabecinhas no meio das folhas, levantando para o ar o uropígio coberto de frouxéis.
Queriam atravessar o rio a nado, fora de porto frequentado, onde pudessem ser vistos, mas a fraqueza de Bento, fê-los hesitar diante da impetuosidade da corrente.
Encontrado, alfim, um espraiado, onde a enchente, sem a constrição de barrancos, podia pavonear suas forças, avassalando pacificamente, sem tropeço, os descampados, os fugitivos derribaram algumas piteiras, já meio secas, cujas hastes se erguiam, ainda retas e altaneiras, das touças em redor, e, jungindo-as fortemente com cipós em grossos travessões de taquaruçu, improvisaram uma jangada.
Isidoro encontrou, arrancada pela ventania da véspera, uma folha de coqueiro, cujo talo lhe serviu de remo.
— Encomenda a alma a Deus e vamos embora. Tu não tens alguma oração contra enchente? Esta jangada é muito leve e nos aguenta, mas não por muito tempo, porque a pita encharcando afunda sob o peso. Segura bem, rapaz!
Cavalgaram a jangada e fizeram-se ao largo, demandando um portozinho na outra margem, muito embaixo.
Bento acurvou o busto, azindo fortemente a estiva.
Ao ganharem o fio da corrente, a jangada foi fortemente impelida para baixo e Isidoro começou a lutar a grandes remadas, para aproximar-se da margem oposta. Então jangada e tripulantes se confundiram, se unificaram, semelhando, no movimento que se lhes percebia, o dorso mosqueado de um surubi retouçando ao sabor da correnteza.
Quase não se lhe notava a marcha, mas sentia-se que um esforço vivo e inteligente, terrível e heroico, lutava contra a força esmagadora dá natureza onipotente.
Conseguiram vingar o portozinho, que era antes um bebedouro de animais.
Saindo d'água, tiraram os chapéus de couro e puseram as mãos, levantando os olhos ao céu, em profundo reconhecimento pela salvação; já não temiam os fulares, nem os tiros de reúnas.
A jangada que tinham abandonado lá foi, boiando sempre, topar uma grande árvore esgalhada, flutuando também. Outros ramos se lhe foram juntar e mais uns restos de macegas e garranchadas, que formaram um batel selvagem, todo franjado de espumas pardas, no qual pousava às vezes um martim-pescador, soltando gritos estridentes, numa alacridade de vitória e de fartura.
O sol iluminou, ainda baixo e frio, o campo de batalha da véspera; beijou, reverente, numa carícia de vassalo humilde, a face do rio, que pompeava seu poderio, ostentando os despojos da liça com os bosques marginais e rolando sempre, no meio de um como "ave! triunphator!" da natureza.
Do outro lado, lobrigavam-se ainda, pequeninas, amesquinhadas, as figuras dos fugitivos.
Esses primeiros raios do sol no levante, esbatendo suas cabeças, aquecendo seus corpos meio entorpecidos e alquebrados de sofrimento e de fadiga, pareciam ter uma carícia de amor e piedade para os miserandos, um resplendor de vitória para os lutadores.

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Afonso Arinos de Melo Franco (1868-1916)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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