domingo, 14 de julho de 2019

Preço de sangue Conto), de Jorge Falleiros



Preço de sangue

A antiga fazenda do Domingos Nunes agacha-se num descampado, esparrimada nos flancos de um declive que verte para um riacho.

Tem o aspecto senil duma tapera. As paredes denegridas, o madeiramento pesado, o telhado enegrecido e escabroso dão aquela decrepitude arquitetônica os ares torvos de alguma coisa morta.

Para os fundos se mostra o quintal, no verde fosco das laranjeiras a enfeitar debalde sua velhice com as flores de noivado que todas se desprendem à mais fagueira viração da tarde. Na frente, o curral de aroeira fincada e o chão duro do terreiro. Junto da porta, um montão de pedras à guisa de escadaria. A porta, muito grossa e perra nos seus gonzos ferrugentos, dá acesso a uma sala desguarnecida e vazia. Apenas ali se notam uma grosseira mesa de cerne, dois bancos duros de taboa e uns arreios de couro, amontoados a um canto.

|A uma janela lateral, um velho magro, Domingos Nunes, estava olhando para os lados do paiol. Um pouco além, subsistiam ainda uns destroços de senzala.

A tarde declinava. Domingos Nunes, como se o invadisse uma tristeza imensa, à vista do paiol arruinado, arrancou-se dali e, arrastando os passos pelo assoalho de grossas pranchas de peroba, enveredou para o salão, onde outrora as africanas laboriosas trabalhavam nos intérminos dias de calor. Encostado duma banda, permanecia inerte o tear. Rocas desmanteladas jaziam para os cantos. No meio dos trastes abandonados, em desordem, como os destroços dum naufrágio, sobrenadava uma argola de ferro com duas hastes como chifres, trazendo guizos nas pontas. Ao modo de canga chinesa, ia ao pescoço das fujonas que costumavam varar mato. A parca luz, que entrava pela única janela aberta e também encarada pelo corredor que ia ter à cozinha, dava a tudo uns ares de sombra e de mistério. O vasto compartimento oferecia saída a outros aposentos, cujas portas, fechadas desde muitos anos, enclausuravam almas penadas e morcegos que atordoavam a casa, pela noite a dentro, com uma algazarra infernal. Junto da escada de madeira, lisa pelo uso constante, arrumada à parede, Domingos Nunes parou meditabundo, como atando a ideia da escada às outras que tivera à janela, em frente do paiol. Ali estava ainda no mesmo lugar a maldita escada, aquele instrumento de suplícios para as pobres cativas; ligadas de bruços a ela, dos pés à cabeça, como numa cruz, suportavam entre gemidos a brutalidade da pancadaria. Junto do moirão, aquém da senzala, ainda se achava a sepultura anônima daquela mestiça que sucumbira aos golpes do azorrague. Domingos Nunes chamou para dentro, na sua voz asmática:

— Escrava!

Outra voz também asmática respondeu:

— Sinhô...

E à boca do corredor assomou uma anosa crioula, meio coxa:

— Veva!

— Sinhô...

— Ainda resta lenha para o lume?

— Sim, sinhô...

— Leva também esta escada para queimar.

— Sim, sinhô...

Saindo dificultosamente com o traste, Genoveva murmurava entre dentes, benzendo-se:   

— Credo! Sinhô parece capeta! Raias de sangue nos olhos! Sinhô não tarda morrer!...

Veva estava livre, mas em Domingos Nunes era tão entranhado o sentimento daquela propriedade que não a tratava como tal. Depois, ela mesma tinha, por instinto e habito, índole por demais servil; no dia 13 de Maio de 1888, rejeitara a liberdade. Prezava-a menos do que a honra e esta lhe fora extorquida por aquele homem cruel. Pouco se lhe dava agora passar o resto da vida sob o seu jugo. Por orgulho e por despeito renegara aquela liberdade tardia. Os filhos que nasceram da sua desonra e das suas dores, ela os vira partir, um a um, nos balaios, em cargueiros, vendidos como vis animais. A sede de fortuna fizera do seu senhor um desumano. E não fora só ela a vítima; todas as suas companheiras de escravidão foram também sócias do mesmo infortúnio. Por tudo isso, por toda aquela desonra e por toda aquela revolta que sentia dentro d'alma, Veva sardonicamente preferira ficar junto do déspota, alimentando a esperança de se vingar um dia. Vingar-se terrivelmente, povoando de fantasmas e assombrações o fim da vida do velho fazendeiro. Ainda na execução do seu plano sinistro lá estava ela carcomida pelos anos, emperrada pela dor do reumatismo que lhe torturava os ossos. Sentia dentro em si a morte!

Também o velho parece que a percebia, a negra parca, enganchada nos seus ombros. Naquela tarde vieram-lhe certos caprichos de quem vai morrer. Havendo escutado o gemido cavo do monjolo, a mourejar, pilando arroz, fê-lo parar. Tendo visto pendurado na varanda o sino que em outros tempos servira para reunir, em determinadas horas, o seu harém negro, desprendeu-o dali a muito custo e o depositou a um canto. Aquele sino, às vezes, alta noite começava a badalar tristemente. Nessas horas, Domingos Nunes ficava transido de agonia. Todo barulho estranho o congelava de susto. Já era noite fechada quando ele se recolheu ao quarto junto da sala. Acendeu a candeia, abriu a janela e derreou-se no parapeito. Sofria de insônia. Antes de conciliar o sono não arredava dali, a olhar os astros como um cão de guarda. Naquela noite estava preocupado com recordações dolorosas. Depois de ficar assim uma hora esquecida, a absorver a aragem e o silêncio, começou a sentir um tremor esquisito nas carnes. Súbito pareceu- lhe ouvir uma voz semelhante à sua dizer-lhe ao ouvido o seu nome:

— Domingos Nunes!

Todo trêmulo e reprimindo a respiração, despregou-se da janela e se recostou à parede como temendo que uma alma do outro mundo o assaltasse pelas costas. E que, na pressão do medo que sentira, não viu que fora ele mesmo quem pronunciara o próprio nome. Mas, como reinasse depois um silencio de pedra, começou a recuperar a tranquilidade, imaginando:

— Foi o vento...

Teve então uma ideia que já o salvara em iguais conjunturas, para dissipar as sombras do espírito: — abrir o seu baú — porquanto nada o distraía mais do que mirar e remirar, contar e recontar o dinheiro que rendera a venda dos seus filhos. Foi à canastra, tirou o baú, aproximou a candeia, espalhou sobre a cama os pacotes embolorados de papel-moeda. E contou mentalmente:

— Onze maços de cinco contos de reis!

E acrescentou depois duma demora:

— Tudo preço de sangue!...

Nesse mesmo momento explodiu lá dentro a sarabanda das almas perdidas. Gemidos, vozerio, pancadaria, ranger de ferros. Domingos Nunes, pálido de espanto, pôs-se a rezar. O alarido cessou por uni instante. Foi quando ele ouviu no fundo do grande compartimento das escravas um arrastar vagaroso de chinelas. E aqueles passos caminhavam para ele, trazendo através da casa uma voz horrível a engrolar uma língua estapafúrdia que ele não entendia. Pareceu-lhe conhecer a voz, que era de mulher, mas a linguagem como era estranha! devia vir do inferno... Tendo atravessado o vasto salão, parou à sua porta, monologando muito tempo naquela monotonia desconcertada do sotaque africano. Se entrasse! Mas não entrou. Calou-se é voltou sobre os passos, ao arrastar sossegado dos chinelos. Houve um silêncio. Domingos Nunes tremia. Tomado de sobressalto arrebanhou a dinheirama no baú e meteu tudo no esconderijo. Depois, agarrando a candeia, saiu do quarto. Viu ainda na escuridão um vulto, como sombra envolta na sombra, embocando pelo corredor. Não gritou pela escrava: teria, medo da sua própria voz. Apegou-se mais à claridade que tinha nas mãos, como se aquela luz mesquinha desmanchasse todos os espectros. Cobrou animo e avançou. Temendo sempre pelas costas, sondava, com os olhos esbugalhados, as trevas em redor. Chegado ao quarto de Veva, fez um esforço e chamou:

— Veva!

— Sinhô...

 — Vem para o meu quarto.... traz a tua cama.

A negra, temerosa, agarrou o colchão de palha e seguiu o seu senhor. Em chegando, entendeu a enxerga no assoalho e deitou-se.

— Veva!

— Sinhô...

— Eu vou morrer?

— Não morre, não, sinhô...

Domingos Nunes estirou o corpo sobre o leito, ao estalar dos ossos, como um cadáver. Reinou a solidão. Fora a água da bica querelava sem descontinuar, despejando-se no poço do monjolo. À noite já ia muito adiantada quando um chamado roufenho interrompeu o silêncio:

— Veva!

Ela dormia. Chamado mais forte:

— Escrava... Escrava...

— Sinhô...

— Vai aquela canastra, no canto.

Ela cumpriu a ordem, levantando-se devagar e receosa.

— Arranca fora o baú... Traz a candeia.

A negra se aproximou com o baú e a candeia.

— Abre!

Escancarou o baú, apalermada ao ver tanta riqueza de papel pardacento...

— Põe no chão e ateia fogo!

— E ele acrescentou como uma ideia fixa:

— Tudo preço de sangue...

A velha africana começou a chorar. Lembrou-se dos filhos, lembrou-se de tudo... E soluçava:

— Não queime, não sinhô, não queime, não...

— Obedece!

A esse mando imperioso, Genoveva dobrou a cerviz. Numa longa obediência e numa longa servidão habituara-se a servir e obedecer. Fez um esforço supremo e achegou o lume aos pacotes embolorados e sujos.

Um clarão sangrento iluminou o quarto.

Domingos Nunes, inteiriçado no seu catre, estendendo os braços ao estalar dos ossos, os olhos arregalados para o teto, resmungava numa ânsia desesperada:

— Preço de sangue...

São Paulo, 1921.

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Jorge Falleiros (1898-1924)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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