terça-feira, 2 de julho de 2019

Luísa e o morto (Conto), de Raul Brandão



Luísa e o morto

O ladrão escondia-se. Perseguiam-no, fugira, andara, e nessa noite, com um pedaço de pão metido entre o seio e a camisa rota, fora dar ao cais. O céu estava negro e o rio negro corria como lava. A água à noite assusta; fala, atrai, e a sua frialdade tem qualquer coisa de cova. O rumor das águas lembra um ruído de vozes a concertar baixinho coisas presagas.

Estava uma noite de silêncio úmido e abafado. Brilhava uma luzinha ao largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades puídas do cais. E era no ermo o único ruído, aquela respiração estrangulada, apressada, um marulhar humano e trágico na noite funda, silenciosa e opaca.

O Morto aconchegou ao seio o pedaço de pão – o seu jantar – e teve um ah! de alívio. Ali ninguém o procuraria, era como se estivesse sepultado no fundo do rio. Havia quase dois dias que não

comia e ia enfim dar a primeira dentada no pedaço de pão. Tinha os joelhos doridos e sentia uma lassidão enorme. Ao sentar-se topou num corpo caído, abandonado. Num sobressalto, de pé, com o pão, a que ia dar uma dentada, na mão, perguntou:

– Quem está aí?

Ninguém: a noite negra e o ruído da ressaca minando as pedras.

– Ouh!

As suas mãos ao tatear deram com uma rapariguinha inerte. A saia estava encharcada e frios os pés.

– Estará morta.

E sossegado tornou a sentar-se para comer o pão. Mas sentiu-a mexer-se.

– Outra desgraçada... – cismou. – Quem está aí? E, saindo da treva, uma voz de criança começou:

– Sou eu.

– Tu quem és?

– Não sou ninguém.

– Que estás aqui a fazer?

– Não estou a fazer nada.

– Tu que queres, então?

– Vim deitar-me ao rio.

– Ah!...

– Mas tive medo. A água do rio sempre é mais fria do que a morte.

A treva espessa em torno e o mesmo ruído da ressaca, a pregar. As nuvens baixas envolviam-nos num fluido negro, ambos tragados pelo deserto da noite. Não se viam e aquelas duas vozes, uma infantil e baixinha, a outra rouca, eram como o diálogo de duas forças ignotas, que o acaso rola no mesmo turbilhão do infinito.

Perguntou-lhe o Morto:

– Como te chamas?

– Chamo-me Luísa.

– Quem te fez mal?

– Ninguém. Estou grávida.

– Ah!...

– Estou grávida. Eu não sabia nada. Estou grávida, acabou-se. Por que é que não ensinam à gente que todos nos querem fazer mal? Uma pessoa devia aprender.

– O quê?

– A ser desgraçada. Há dois dias que não como. Tenho andado por aí. Botaram-me fora, empurraram-me e eu ando por aí a chorar.

– Vai pra a tua casa.

– Eu sou do Asilo, não tenho ninguém, nem mãe, nem nada.

– Enganaram-te?

– A mim não, ninguém me enganou. Eu não sabia nada. Quando vim do asilo não sabia nada. Um dia apareci grávida e puseram-me fora. Ninguém me quer assim. Quando a gente está grávida que há de fazer? A gente não tem culpa...

– Não fizesses o filho.

– Eu era uma inocente.

– Ah! – E o ladrão riu-se.

– Não sabia nada, juro-lhe pela minha salvação.

– E então?

– Deitaram-me fora do asilo e fui servir. O patrão  foi quem me logrou.

É sempre o mesmo caso banal e trágico. Se o homem encontra uma pobre criatura desprotegida e ao desamparo, ilude-a e explora-a. Saída do asilo com uma trouxa debaixo do braço e o discurso do senhor provedor, foi servir. Logo que o patrão viu aquela rapariguinha ao abandono na terra, pôs-se a falar-lhe baixo, às escondidas.

– Era como se me pisassem o coração...

Ela ouviu e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes agudos de esfaimada, ficava muitas horas cismática e a falar sozinha. Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, já vindo à terra com este destino amargo – ser explorada. Ele deixou-a logo e ela continuou a servi-los, com o mesmo sorriso, mais descorada e triste. Um dia acordou grávida e patroa pô-la na rua. Remexeu-lhe a trouxa e gritou:

– O que tu merecias era ir para a polícia.

Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço pôs-se a andar pelas portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até que foi dar o rio pregava e o ladrão ria.

Calou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré. Só o rio pregava e o ladrão ria.

Uma luzinha, que brilhava ao largo deixando na água um fio de ouro trêmulo, de todo se sumira. Então o Morto, no silêncio e no negrume, começou:

– Tu que imaginas que é isto?

– Isto quê, senhor?

– A vida. Todos querem mas é enganar. Os ricos fazem mal aos pobres, os pobres roubam os ricos. Todos  querem fazer chorar os mais.

– Todos?

– Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quiser. Não grites, que é pior. Ninguém te acode.

– Eu não grito.

Deitou-lhe as mãos enormes e frias puxou-a para si para a olhar no escuro:

– A tua mãe botou-te fora, para não te criar, o teu patrão enganou-te. Tu que imaginas? E que podias fazer senão deixá-lo enganar-te? Que hás de fazer? Hão de enganar-te sempre e só te não desamparará...

– Quem? – perguntou ansiosa.

– A fome. Hás de andar por aí até caíres de velha, aos pontapés e às voltas com a desgraça.

Agora vais ser minha... A desgraça é que pode tudo, ninguém no mundo tem mais força. Se tiveres fome, hão de se rir de ti e dar-te terra a comer.

– Ó senhor! senhor! Mas então para que me criaram no asilo? Era melhor terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a ninguém. Que hei de fazer? Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Há dois dias que não como.

– Mata-te. Para que vieste tu ao rio?

– Para me afogar... Mas tenho um medo à água!...

Quando meti os pés no rio tão negro, fugi...

Apertou-a nas grandes mãos, mas ela nem sequer gritou. Era uma coisa já sem forças, abandonada, que chegara a compreender que seria sempre a presa do mais forte. O ladrão ria. E ela só gemeu:

– Ó minha mãezinha!...

E tombou para o lado.

O Morto palpou-a. Estava encharcada, todo o pobre corpo, ainda por criar, enregelado e transido.

– Tu que tens?

– Nada. Fome.

– Toma lá.

E o ladrão deu-lhe todo o pão que trazia.

---
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...