terça-feira, 2 de julho de 2019

Memórias de Luísa (Conto), de Raul Brandão



Memórias de Luísa

É assim a história duma das mulheres.

"Tive sempre frio. Esta impressão de ter os ossos gelados vem de muito longe, de pequenina.

Nunca tive mãe, nem ninguém. Fecho os olhos e só vejo o Asilo, os corredores úmidos, o dormitório, o frio refeitório abobadado de granito. Toda aquela pedra parecia sepultar-nos.

Também guardo de pequenina esta impressão: a vontade que tinha de beijar, sem ter ninguém a quem dar beijos. Todos os que eu conhecia eram hirtos.

Vou ver se me lembro bem... Primeiro é tudo confuso: depois vai-se espancando a névoa e eu recordo a triste existência do Asilo.

Noite ainda nos erguíamos para rezar. Tocava um sino. Mal sabíamos andar, trôpegas como velhinhas. A algumas era preciso vesti-las. A Irmã ralhava se nos demorávamos. Aquele sono da manhã de que nos arrancavam era como a cova e o esquecimento. Antes nos deixassem dormir para sempre. Para que vem a gente ao mundo?


De tantas que conheci, quase todas, mais felizes, morreram por não terem mãe.

Todas, tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas. E não sei que de amargo, de refletido, de sofrimento, de experiência da vida. Brincavam sem risos pelos cantos, com bichos, com pedrinhas. Uma vez uma disse alto:

– Ó mamã!...

E foi um escândalo. Onde aprendera ela, que não tinha mãe, a pronunciar aquela palavra?

Quereis crer? Só tenho esta imagem: pareciam velhinhas recolhidas, tristes por não terem filhos.

E no entanto eu curto saudades dessa negra existência do Asilo.

Na cerca havia um curral com vacas, que nos davam um leite aguado. Duma vez uma, já eu era grande, toda a noite gemeu. Por piedade perguntei ao hortelão o que ela tinha.

– Soidades por lhe levarem o filho. E há mães que os deitam fora!

Muito deve custar a morrer a uma mãe que deixa no mundo um filho para o Asilo!

Havia as grandes, as médias e as pequenas. As grandes eram desajeitadas, de mãos enormes, com vestidos negros e grossos. E todas eram feias. Faltava-lhes não sei que graça, que só existe nas que têm mãe, por mais feias que sejam: seres de abandono, plantas que vivem estioladas...

Às vezes o senhor provedor visitava-nos. Era um homem seco, ríspido, de cara rapada, que nos vinha lembrar que vivíamos por esmola:

– É preciso que se recordem disto: a sua vida devem-na aos benfeitores.

Ele próprio era um benfeitor. O seu retrato lá estava colocado ao pé dos outros, com o mesmo caixilho fúnebre. Era o último da sala enorme, gelada, onde os passos ecoavam, toda cheia de retratos em torno. Os benfeitores!... – Dir-se-ia uma galeria de afogados, todos solenes, secos, hirtos, de lábios finos e ar de cerimônia.

Todas as noites as Irmãs nos faziam rezar por eles, a quem devíamos o pão e a vida.

Era proibido falar, a não ser às horas do recreio, e isto explica talvez os vincos que todas tínhamos, ainda as mais pequeninas, aos cantos da boca.

O melhor sítio do Asilo era a enfermaria, por isto: era mais quentinho; dava-lhe o sol todo o dia e viam-se as árvores da cerca; e por a Irmã enfermeira ser a única que tinha coração e que gostava de nos beijar. Todas éramos amigas dela.

É curioso. Lembro-me das grandes árvores que de lá se avistavam, mas só as recordo descarnadas e despidas, num céu pálido. Sempre no inverno.

Tenho ainda a impressão de ter os joelhos frios e doridos. Nunca mais consegui aquecê-los.

O pão do Asilo tinha um sabor que nunca encontrei em outro pão, por mais desgraçados que fossem os meus dias: um gosto amargo e requentado. E em todo o refeitório havia um cheiro idêntico. Todo, até o Cristo, até o caldo aguado, a mesquinha ração que nos davam, parecia dizer-nos: "Olhai que viveis por caridade! Habituai-vos à desgraça!"

Quereis crer? Muito mais caridoso seria afogar as crianças que não têm mãe. Livrá-las-eis do Asilo, da caridade, da vida.

No dormitório tudo era regular, branco e monótono, e, apesar de branco, fúnebre. O sol, que entrava pelas janelinhas, abertas numa muralha de prisão, era pálido e, mesmo de verão, parecia um sol de inverno; as camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas às paredes caiadas e nuas; só no fundo, por cima da cama  da Irmã, um Cristo de louça azul manchava aquela brancura.

O recreio não era na cerca do convento. Brincávamos sem barulho no claustro. Parece que tinham medo de nos mostrar árvores e sombras. O claustro...

Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um retângulo do céu, e a sombra geométrica estendia-se cá em baixo. Dum lado era sempre frio e úmido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um golfinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio de água frígida. De tudo aquilo saía uma paz transida de sepulcro. Só andorinhas cortavam em cima o céu, mas duma vez que em março vieram, afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas deitaram-lhos abaixo. Destruí-los por quê? Os restos, farrapos de penugem quente, ternos diríeis, andaram por muito tempo no claustro. Passaram de mão em mão com alvoroço. Algumas das asiladas cismavam, olhando-os: as mais pequeninas brincavam com eles. Uma disse:

– É um berço...

Destruí-los por quê? Para que não soubéssemos que as aves têm mãe e cuidam dos filhos? Para que não tivéssemos saudades das nossas, que não conhecêramos? Para que ignorássemos?... Mas que candura a das Irmãs se era por isto! Nós pressentíamos, adivinhávamos tudo aquilo e quando uma das mais pequeninas explicou às que faziam roda: – É o berço dos passarinhos... – quantas de nós já tinham cismado num berço assim agasalhado e fofo!...

Daquela vida idêntica, seca, dura, vinha um dia, quando éramos grandes, arrancar-nos o provedor.

Era um dia solene. Íamos partir. Quem precisasse duma criada que comesse pouco procurava-a no Asilo. Uma caderneta, papéis, alguns trapos, camisinhas curtas e o discurso do senhor provedor:

– Sustentou-as este Asilo por caridade. Se vivem, devem-no aos benfeitores. Ora agora lembrem-se sempre nas suas orações do bem que lhe fizeram. E na casa que as recebe sejam agradecidas. Tomam-nas por esmola...

E assim, com uma trouxa debaixo do braço. partíamos para a vida.

Oh! minha mãezinha!"

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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