7/15/2019

O conto do vigário e a moda das mulheres (Crítica), de Sylvio Floreal



O conto do vigário e a moda das mulheres

O espírito dos homens sempre procurou a graciosa frivolidade feminina com o intuito de fazer graça. Brincar com as mulheres é mais arriscado ainda do que querer bailar nas bordas de um abismo. A mulher é uma eterna boneca risonha nas mãos dos homens. É uma boneca que gosta de ser afagada pelo homem, esse divertido fantoche, que algumas vezes faz chorar, e quase sempre faz rir. E homem e mulher, na fantochada do amor, procura cada qual arrimar-se aos predicados morais de um e de outro. O homem, pelo fato de possuir uma dosagem corrosiva de fanfarronice, quando não tem outro passatempo que melhor lhe fascine o espírito maledicente, outra coisa não faz que não seja achar defeitos nas mulheres. E então, estribado na proverbial resignação feminina, diz que a mulher é um animal de cabelos longos e ideias curtas; que a mulher não tem talento, como se ela necessitasse de ter talento e de ter ideias para valorizar a sua beleza. Quanto à alma, é possível até mesmo que, às vezes, ela tenha mais do que uma, mas é forçoso reconhecer que sempre ela tem as almas que quer. Na pantomima da vida, os homens, fantoches sisudos, outra coisa não têm feito que caluniar as mulheres — bonecas risonhas.

Os homens transformam-se raramente pelo espírito, as mulheres transformam-se constantemente pelas modas.

A moda é a “mise-en-scène” da alma feminina.

É o delírio furta-cor das pinturas! Estamos em pleno reinado do “rouge” e do “baton”! Os lábios pintados estão na ordem do dia e nos caprichos desordenados dos ideais de elegância que inflamam a sensibilidade das mulheres.

A Eva moderna, vulcanizada pela ânsia maviosa de mentir, no intuito de exteriorizar uma volúpia escaldadiça, com o milagre colorante do “rouge” transforma a boca numa romã esquertejada.

“Baton” na cova dos olhos e “rouge” nos lábios, é um câmbio de cambiantes que torna o rosto feminino uma palheta curiosamente pintalgada. É forçoso, porém, reconhecer que o rosto feminino, sob o disfarce simpático do abuso das tintas, adquire essa graça matizada, que lhe permite corar discretamente. Se é verdade que os sentimentos têm cor, as mulheres que lançam mão dos coloridos para lançá-los na linda carinha podem viver relativamente sossegadas, porque têm na artificialidade das massas coloridas que lhes transformam a fisionomia um agente astuto que as ajuda a atingir os sentimentos segundo a necessidade e os desejos, fazendo-as aparentar sempre aquilo que querem ser, e, às vezes, aquilo que querem aparentar.

A mulher, tendo propensão para várias oscilações, acaricia em última análise a queda das atitudes e das aparências. A aparência constitui a sua embriaguez máxima, a sua tontura suprema. E a moda foi inventada justamente para lhe alimentar essas oscilações.

A mulher, para obedecer aos caprichos da moda, é capaz de cometer todos os dislates possíveis. E para tornar encantador o corpo por fora, não dispensa muita atenção ao que ele exige por dentro; e por isso há mulheres que carregam no rosto maior quantidade de pó de arroz do que mesmo de arroz trazem no estômago.

A moda pode ser considerada hipocrisia do corpo, a mentira dos semblantes a mutação das atitudes e dos gestos.

A moda é um capítulo de astúcia que Maquiavel esqueceu de escrever!

A moda, mesmo quando é ridícula, empresta à mulher uma força que a torna invencível, porque é sempre a ilusão aplicada ao corpo. E o homem, mesmo crivando a mulher de defeitos, vota-lhe uma adoração contínua, um pouco porque é próprio da fraqueza masculina gostar das mulheres, e em grande parte porque elas possuem a magia dominadora da ilusão. Por isso são invencíveis as mulheres! Mas, essa ilusão, sendo o resultado das modas que as transfiguram, é para todos os efeitos uma ilusão conto de vigário. E, na longa teoria dos contos de vigário, esse é por certo um conto de vigário bom, um conto de vigário que possui o dom maravilhoso de fazer o homem esquecer todos os contos de vigário maus que ele é condenado a suportar pela vida além.

E, sem essa ilusão, como seria triste o destino das mulheres! Sem essa ilusão os homens seriam duplamente desgraçados, porque então os defeitos femininos nos apareceriam enfadonhos, odiosos, cansativos, com essa agressividade própria das coisas precárias! Conservemos a ilusão com esse espírito conservador de alto respeito pela mentira, porque a ilusão e a esperança são duas mentiras mais úteis do que a verdade da realidade.


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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

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