segunda-feira, 15 de julho de 2019

O espertalhão caipora (Crítica), de Sylvio Floreal



O espertalhão caipora

É de crer que no fundo de uma ambição desmedida há sempre um conto do vigário em perspectiva.

O conto do vigário do casamento por interesse começa na ambição, passa pelo ridículo e acaba sempre no espetáculo triste do desengano.

Imagine um belo rapaz pobre, uma perfeita estampa litográfica de homem, dotado de uma grande ânsia de enriquecer e que vive a transformar a imaginação num louco moinho de vento, na expectativa de que um dia o vento da fortuna o arrebate em seu turbilhão. Esse vento, que é o acaso, a sorte, o momento, que tem a máscara risonha da felicidade, tarda, não vem! E o belo rapaz vai sacando, através da esperança, sobre o futuro, o alimento róseo para o seu sonho ávido de fortuna. Tenta vários ofícios, ensaia outros tantos expedientes, mas a fortuna teima em não lhe passar ao alcance dos braços. Quando está quase a sucumbir sob o peso formidável, mas invisível do desânimo, um dia, olhando atentamente a sua linda estampa no espelho do quarto, bate na terra e, se tem uns laivos de cultura literária, exclama: — “Eureka! Cá está a fortuna.”

De fato, o espelho bondoso, como é a maioria dos espelhos, lhe revelara a grande verdade, a verdade da sua beleza, a qual, bem avaliada no mercado do casamento entre mulheres que procuram um belo marido, poderia alcançar um preço incalculável. E assim fez o nosso herói. Começou a cotizar seus belos olhos e a sua esbelta figura desde aquele dia em que o espelho, refletindo-lhe a sua fisionomia, o chamara à realidade. E entrou então a fazer girar nas asas do moinho da sua ambição o desejo de casar, não com uma moça nem uma mulher, nem tão pouco ainda com o amor — porém com um dote.

E será possível que o nosso herói não encontre o dote desejado? Encontra, sim; porque o mundo é grande, a vida é vasta e a tolice humana é maior ainda.
E o Caça-Dotes81 em questão teima, porfia, persiste, até afiar a paciência nos rebolos de todos os obstáculos, mas a sua paciência tem a virtude da paciência obscura da formiga. E ele prossegue sempre, escorregando pelos patamares do seu sonho de grandeza, arrimado ao corrimão da esperança, levando dentro da alma o eco daquele conselho popular que diz: Quem procura acha! E de fato, até mesmo o acaso, que não costuma andar ao léu com qualquer pessoa, nem bem, nem mal acompanhado. A persistência é uma gazua com a qual, abrindo-se as portas do imprevisto, um indivíduo dá sempre de cara com o acaso. E o belo rapaz, sempre trabalhando pela ânsia louvável e simpática de ser rico, veio um dia encontrar-se com uma coisa que tinha talvez uns quarenta anos de idade, coisa essa que possuía cabelos compridos e usava saias. Era uma dona viúva, dona também de algumas dezenas de contos de réis. Uma respeitável senhora; porém, ao espírito do Caça-Dotes, ela era simplesmente uma coisa que tinha muito dinheiro. Foram apresentados por um terceiro, que escondia habilidosamente o interesse em tal apresentação. Noivaram, escondendo ele, o mais possível, todos os seus sentimentos de ganância.

O sonho do herói estava em vias de materializar-se, ou por outra, de metalizar-se. Nas vésperas do casamento ele vibrava e, sentindo-se já um homem que dominava a vida, porque era mais que certo que ia ter dinheiro, muito dinheiro, já pisava firme, ruminando o seguinte solilóquio: Dinheiro! Com o dinheiro, comprarei todas as coisas belas e agradáveis do mundo; com o dinheiro, todas as criaturas humanas rojar-se-ão sobre a minha sombra; com o dinheiro, comprarei aquilo que nem todos possuem — a felicidade.

Comprar a felicidade! Grande mentira, que seduz e perturba unicamente a imaginação dos tolos, porque, em última análise, o dinheiro, tudo conseguindo, consegue somente realizar a parte material da felicidade, e nada mais. No dia do casamento, o ilustre Caça-Dotes, completamente desvairado, recebe felicitações até de indivíduos que o detestam. E passa então a desfrutar a estima e a consideração de várias famílias e de muitas personalidades. Enriquece e é de bom tom cotejar os que enriquecem. Mas se diz o adágio que quem procura acha, há também uma sentença que diz muito bem: O dia da alegria é sempre a véspera da tristeza. Pois bem: as alegrias passaram. Vejamos agora como vive o nosso herói dentro da tristeza.

Passados alguns meses, a ilustre senhora, atacada de uma forte recaída de ciúmes, tornou-se impertinente, irritadiça, amarga.

E, como que agachada atrás do biombo roxo do seu ciúme progressivo, tomou uma assinatura sinistra de rabugices contra o seu esposo, que, a princípio, vergado por uma habilidosa resignação, sorria em face dos tormentos. Porém, ele estava a queimar os últimos cartuchos da paciência, e passou então do sorriso à sisudez.

Evadira-se-lhe, como por encanto, a alegria. Os dias passavam embaciados aos olhos entristecidos; e ele, fazendo prodígios sobre a corda bamba da paciência, pedia aos céus que lhe mandassem uma pesadíssima carga de resignação.

A esposa era rica, mas o dinheiro que caía nas mãos do Caça-Dotes, uma espécie de mesada que lhe dava a ilustre senhora, não chegava nem ao menos para controlar com uma dose de prazeres extraconjugais, todos os tormentos que o assediavam.

E o nosso homem, à espera de que a esposa fosse chamada o mais depressa possível pela Providência, à espera — digamos o pensamento cruel do Caça-Dotes — de que a consorte morresse, estraga os nervos e envelhece antes do tempo sob a descarga de uma neurastenia ultravioleta.

Quando o dinheiro já não lhe serve quase para mais nada, porque ele está envelhecido e curtido por uma lixívia de intensivo pessimismo, a mulher morre.

E aí temos o conto do vigário oriundo da ambição.

E mesmo que o Caça-Dotes desafortunado como foi este, viesse um dia revelar estas amargas verdades com o intuito humanitário de pregar exemplos, não seria tomado a sério absolutamente! Todos os aspirantes a caça-dotes dariam uma sonora gargalhada, achando que o herói em questão, depois do ridículo do seu fracasso, ainda pretende coroar a sua comédia bufa com o ridículo enjoativo de dar conselhos.

Se todos os conselhos provocam naturalmente uma certa aversão, os conselhos que procuram delimitar a ambição provocam ódio, acarretando a pecha de despeitado sobre o mísero mortal que teve a veleidade de querer incutir na cachola de alguém a obediência aos conselhos. Porque, na melhor das hipóteses, quase sempre aceitar um conselho é aprender a errar pela cabeça dos outros. E é por causa disso que há no fundo da astúcia humana uma surda prevenção contra os conselheiros...


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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

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