quinta-feira, 11 de julho de 2019

O suplício de Tântalo (Conto), de Monteiro Lobato



O suplício de Tântalo

Desde as primeiras horas da manhã, o palácio onde morava Tântalo, rei da Lídia, estava num rebuliço. Não era para menos, pois seu pai, Júpiter, deus dos deuses, estava prestes a chegar para um amigável almoço. Além dele, viriam também seu inseparável filho Mercúrio e Ceres, a de usa da fertilidade.

Tântalo estava preocupado.

“O que oferecer a Júpiter, no almoço?”, perguntava-se.

Tântalo, que apesar de rei tinha um temperamento u m tanto servil, queria apresentar aos convidados um prato digno de seus paladares divinos. Levando ao extremo a sua intenção de agradar, mandou chamar seu filho Pélope, que descansava em seus aposentos.

– Pélope, meu filho, hoje você terá o prazer de estar à mesa junto com os deuses! – disse risonho Tântalo, assim que botou os olhos no rapaz.

– Oh! Teremos à mesa conosco o meu avô Júpiter? – exclamou, encantado, o rapaz.

– Não só ele, mas ainda outras duas divindades! – disse Tântalo, procurando animá-lo ainda mais.

– Divino! Maravilhoso! Vou vestir meu melhor manto! – disse Pélope, retirando-se.

– Eu diria bárbaro– replicou o rei de modo enigmático.

Depois que o filho saiu, Tântalo chamou às pressas o cozinheiro.

– Vá atrás de Pélope, mate-o e faça um assado magnífico com ele – disse o rei calmamente.

O cozinheiro, estranhando o pedido, ficou sem ação.

– Vamos, idiota, faça o que eu disse! – exclamou Tântalo. – Hoje é um dia especial.

“Júpiter ficará encantado ao descobrir que lhe sacrifico o meu próprio filho!”, pensou o rei, acostumado à prática, ainda corrente em seu reino, dos sacrifícios humanos.

Pélope, porém, antes de ser morto, foi trazido até o seu cruel pai.

– Idiota! – disse o rei, furioso, ao cozinheiro. – Não disse para matá-lo de uma vez?

– Pai, não faço isso! – implorava o pobre rapaz. – Você não disse que eu estaria à mesa, daqui a instantes, com os deuses?

– Sim, e estará! – disse Tântalo. – Vamos, escravo, faça rapidamente o que eu disse.

Depois, enquanto o filho era arrastado para o cepo, tentou acalmá-lo:

– Vamos, rapaz, deixe de fricotes. Pedirei a Júpiter que o recompense com a imortalidade!

Apaziguada a sua consciência perversa, Tântalo chamou as escravas e ordenou que preparassem a mesa com o maior requinte possível. Na verdade, pretendia pedir para si próprio a imortalidade. Afinal, não era filho do imortal deus dos deuses? Por que não podia ser eterno também?

Já ia alta a manhã quando os visitantes se aproximaram do palácio. Todos pareciam pouco animados. Enquanto Mercúrio vinha à frente, distraído, mais atrás vinham o seu pai, de braço dado com Ceres.

– Veja, pai, estamos chegando – disse Mercúrio, ao avistar as torres do palácio.

– Vamos de uma vez – exclamou Ceres, como quem diz, “se tem de ser, que seja logo”.

Júpiter concordou, e os três apertaram o passo. Em instantes surgiram os três deuses no salão.

Enquanto isso, o rei deliciava-se com a ideia da imortalidade: “Deus Tântalo”, pensava ele. Um escravo entrou na sala, cortando o fio de seu pensamento.

– Magnânimo rei, as visitas já chegaram! – disse o escravo, curvando-se.

– Ótimo! Mande-os entrar. Mexa-se imbecil – disse o rei, aprumando-se.

Ao ver entrarem as divindades, Tântalo adiantou-se, fazendo uma profunda reverência ao seu poderoso pai.

– Seja bem-vindo, poderoso Júpiter, diante do qual todos os poderes celestes e terrestres se humilham – disse, beijando-lhe os pés.

Em seguida, querendo chegar logo até a bela deusa, beijou rapidamente os pés de Mercúrio. Quando, porém, chegou até os pés da encantadora Ceres, esta lhe ofereceu distraidamente a sola empoeirada das sandálias.

– Divina Ceres, seus encantos superam, hoje, os da própria Vênus! – disse o rei com a boca coberta de pó.

Tântalo conduziu todos até os seus assentos.

Como vão as coisas lá em casa, pai? – perguntou a Júpiter, referindo-se ao Olimpo.

– Vão bem, vão bem – disse o pai dos deuses, lacônico.

Júpiter, na verdade, detestava aquelas visitas anu ais que era obrigado a fazer ao seu filho bastardo.

– Mercúrio, tem viajado muito? – disse, voltando-s e ao meio-irmão, na tentativa de ser simpático.

– E você, Ceres, sempre linda, hein? – disse Tântalo, aproximando seu rosto de maneira quase obscena. – Foi boa a colheita este ano? – ajuntou, enquanto cheirava os cabelos.

– Bastante – respondeu a deusa, estendendo o guardanapo, sem olhar para o rosto do interlocutor.

De repente, surgiram quatro escravos carregando uma imensa bandeja, que foi depositada com pompa sobre a mesa diante de Júpiter. Tântalo esfregava as mãos sob a mesa, na expectativa da reação favorável de seu pai. “Desta vez sai a imortalidade!”, pensou, com euforia.

A tampa foi descoberta. Em meio a tâmaras, amêndoa s e nozes descansavam os pedaços do pobre Pélope.

– Faço questão de servi-lo eu mesmo – disse Tântalo a Júpiter, arremessando-se para a bandeja e expulsando o escravo com um safanão. – Carne branca ou mais escurinha, pai? – perguntou, estudando a tigela.

– Branca – disse Júpiter, distraidamente.

Depois de escolher mil vezes, o anfitrião selecionou um grande pedaço de carne branca. Em seguida, serviu também a deusa.

– Miúdos não, obrigada – disse ela, secamente.

Depois de servi-la com mil trejeitos, colocou finalmente, um pouco de carne no prato de Mercúrio. Este último, antes de começar a comer, percebeu que lhe tocara o pior pedaço. Na verdade, era implicância d e Tântalo, que tinha ciúmes do filho predileto de Júpiter.

– Isto aqui parece pé humano – disse Mercúrio, depondo os talheres sobre a mesa.

Todos os rostos se ergueram dos pratos. Ninguém, a não ser Ceres, que era a mais faminta de todos, havia começado a comer.

“É agora!”, pensou Tântalo.

– Sim, pai, é o pé de meu querido Pélope! – disse o rei, orgulhoso, a Júpiter, como se tivesse sido este o autor da observação.

Júpiter ergueu um olhar ao rei da Lídia, de tal forma feroz, que o tornou branco como a parede de mármore.

– Como se atreve, maldito, a me oferecer a carne do próprio filho?

Mercúrio levantou-se da mesa, enojado, enquanto Ceres era acometida de náuseas.

– Mas pai, é um sacrifício humano! – disse, atônito, o rei. – Quis provar a minha dedicação extrema oferecendo-lhe em holocausto, o meu próprio filho!

– Idiota! Não sabe que a prática de sacrifícios humanos já foi há muito tempo abolida? – disse Júpiter.

Enquanto isto, Mercúrio, penalizado da sorte de Pélope, espiava-o dentro da imensa tigela:

– Pai, vamos tentar trazê-lo de volta à vida – disse.

Imediatamente foi trazida a cozinha uma grande caldeira. Mercúrio, num voo rápido, foi até o Olimpo buscar Cloto, uma das Parcas, para que com sua magia restituísse a vida a Pélope. Num instante, os restos do rapas foram tirados da bandeja e passados à caldeira, de onde, por suas artes mágicas, Cloto retirou Pélope com vida outra vez. Seu ombro, no entanto, perdera-se, pois Ceres o havia comido, inadvertidamente. Júpiter, porém, lhe deu um ombro novo, inteiramente de marfim.

– Obrigado, Júpiter supremo! – disse o rapaz, feliz com seu novo e elegante ombro.

Quanto a Tântalo, Júpiter foi implacável:

– Mercúrio, leve este patife para os infernos! – disse, tomado de cólera.

De nada adiantaram as súplicas do cruel rei. Em algumas horas, entrava no inferno, sendo recepcionado por Plutão e sua esposa Prosérpina, a rainha do reino sombrio.

– Imperador das regiões inferiores, trago-lhe este assassino! – disse Mercúrio a Plutão.

– Ótimo, conduza-o até aquele lago, lá adiante – disse Plutão, com um gesto de mão.

Então Tântalo foi jogado dentro de um grande lago. Foi deixado ali, somente com a cabeça a descoberto.

– Até que está fresquinho,aqui! – disse o prisioneiro, que apesar de imóvel, estava mergulhado num lado de águas frescas, cercado de árvores carregadas do mais belos frutos.

De repente, torturado por uma terrível e insuportável sede, Tântalo, sem poder dobrar o corpo, abaixou a cabeça para beber um pouco do líquido refrescante, pois a água estava quase na linha de sua boca. A água, contudo, instantaneamente lhe desceu até os pés, ao menor movimento do pescoço. Depois, tomado por uma fome devastadora, estendeu o braço para alcançar os deliciosos frutos que pendiam das árvores ao redor. Porém, quando quase tinha um deles nas mãos, um forte vento ergueu o galho para o alto, tornando o fruto inatingível aos seus curtos braços. Deste modo Tântalo alcançou a imortalidade no inferno, como prêmio por sua selvageria. Pélope, o rapaz do ombro de marfim, por sua vez tornou-se o rei do Peloponeso.

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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