quinta-feira, 11 de julho de 2019

Zé Brasil (Conto), de Monteiro Lobato


Zé Brasil

Zé Brasil era um pobre coitado. Nasceu e sempre viveu em casebres de sapé e barro, desses de chão batido e sem mobília nenhuma — só a mesa encardida, o banco duro, o mocho de três pernas, uns caixões, as cuias... Nem cama tinha. Zé Brasil sempre dormiu em esteiras de tábua. Que mais na casa? A espingardinha, o pote d’água, o caco de sela, o rabo de tatu, a arca, o facão, um santinho na parede. Livros, só folhinhas — para ver as luas e se vai chover ou não, e aquele livrinho do Fontoura com a história do Jeca Tatu. Coitado deste Jeca! dizia Zé Brasil, olhando para aquelas figuras. Tal qual eu. Tudo que ele tinha, eu também tenho. A mesma opilação, a mesma maleita, a mesma miséria e até o mesmo cachorrinho. Pois não é que meu cachorro também se chama Joli?...

***

A vida de Zé Brasil era a mais simples. Levantar de madrugada, tomar um cafezinho ralo (“escolha” com rapadura), com farinha de milho (quando tinha) e ir para a roça pegar no cabo da enxada. O almoço ele o comia lá mesmo, levado pela mulher; arroz com feijão e farinha de mandioca, às vezes um torresmo ou um pedacinho de carne seca para enfeitar. Depois cabo da enxada outra vez, até à hora do café do meio-dia. E novamente a enxada, quando não a foice ou o machado. A luta com a terra sempre foi brava. O mato não para nunca de crescer, e é preciso ir derrubando as capoeiras e capoeirões porque não há o que se estrague tão depressa como as terras de plantação.

Na frente da casa, o terreirinho, o mastro de Santo Antônio. Nos fundos, o chiqueirinho com um capadete engordado, a árvore onde dormem as galinhas, e a “horta” — umas latas velhas num jirauzinho, com um pé de cebola, outro de arruda e mais remédios — hortelã, cidreira, etc. no jirau, por causa da formiga.

— Ah, estas formigas me matam! Dizia o Zé com cara de desânimo. Comem tudo que a gente planta.

E se alguém da cidade, desses que não entendem de nada desta vida, vinha com histórias de “matar formiga”, Zé dizia: “Matar formiga!... Elas é que matam a gente. Isso de matar formiga é só para os ricos, e muito ricos. A formicida está pela hora da morte — e cada vez pior, mais falsificada. E que me adianta matar um formigueiro aqui neste sítio, se há tantos formigueiros nos vizinhos? Formiga vem de longe. Já vi um olheiro que ia sair a um quilômetro de distância. Suponha que eu vendo a alma, compro uma lata de formicida e mato aquele formigueiro ali do pastinho. Que adianta? As formigas do Chico Vira, que é o meu vizinho deste lado, vêm alegrinhas visitar as minhas plantas”.

***

A gente da cidade — como são cegas as gentes das cidades!... Esses doutores, esses escrevedores nos jornais, esses deputados, paravam ali e era só crítica: vadio, indolente, sem ambição, imprestável... não havia o que não dissessem do Zé Brasil. Mas ninguém punha atenção nas doenças que derreavam aquele pobre homem — opilação, sezões, quanta verminose há, malária. E cadê doutor? Cadê remédio? Cadê jeito? O jeito era sempre o mesmo: sofrer sem um gemido e ir trabalhando doente mesmo, até não aguentar mais e cair como cavalo que afrouxa. E morrer na velha esteira — e feliz se houver por ali alguma rede em que o corpo vá para o cemitério, senão vai amarrado com cipó.

Mas você morre, Zé, e sua alma vai para o céu, disse um dia o padre — e Zé duvidou. Está aí uma coisa que só vendo! Minha ideia é que nem deixam minha alma entrar no céu. Tocam ela de lá, como aqui na vida o coronel Tatuíra já me tocou das terras dele. Por que, Zé?

***

— Eu era “agregado” na fazenda do Taquaral. O coronel me deu lá uma grota, fiz minha casinha, derrubei mato, plantei milho e feijão.

— De meias?

— Sim. Metade para o coronel, metade para mim.

— Mas isso dá, Zé?

— Dá para a gente ir morrendo de fome pelo caminho da vida — a gente que trabalha e planta. Para o dono da terra é o melhor negócio do mundo. Ele não faz nada, de nada, de nada. Não fornece nem uma foice, nem um vidrinho de quina para a sezão — mas leva metade da colheita, e metade bem medida — uma metade gorda; a metade que fica com a gente é magra, minguada... E a gente tem de viver com aquilo um ano inteiro, até que chegue tempo de outra colheita.

— Mas como foi o negócio da fazenda do Taquaral?

— Eu era “agregado” lá e ia labutando na grota. Certo ano tudo correu bem e as plantações ficaram a maior das belezas. O coronel passou por lá, viu aquilo — e eu não gostei da cara dele. No dia seguinte me “tocou” de suas terras como quem toca um cachorro; colheu as roças para ele e naquela casinha que eu havia feito, botou o Totó Urumbeva.

— Mas não há uma lei que...

Zé Brasil deu uma risada. “Lei... Isso é coisa para os ricos. Para os pobres, a lei é a cadeia e se rezingar um pouquinho é o chanfalho”.

***

— E se você fosse dono das terras, aí dum sítio de dez ou vinte alqueires?

— Ah, aí tudo mudava. Se eu tivesse um sítio, fazia uma casa boa, plantava árvores de fruta, e uma horta, e até um jardinzinho como o do Giuseppe. Mas como fazer casa boa, e plantar árvores, e ter horta em terra dos outros, sem garantia nenhuma? Vi isso com o coronel Tatuíra. Só porque naquele ano as minhas roças estavam uma beleza, ele não resistiu ambição e me tocou. E que de terras esse homem tem! A fazenda do Taquaral foi medida. Os engenheiros acharam mais de dois mil alqueires — e ele ainda é dono de mais duas fazendas bem grandes, lá no Oeste. E não vende nem um palmo de terra. Herdou do pai, que já havia herdado do avô. E o gosto do coronel é dizer que vai deixar para o Tatuirinha uma fazenda maior ainda — e anda em negócios com o Mané Labrego para a compra daquele sítio da Grota Funda.

— Então não vende nem dá as terras — só arrenda?

— Isso. Também não planta nada. O que ele quer lá é rendeiro como eu fui, e são hoje mais de cem as famílias que vivem no Taquaral. Desse jeito, o lucro do coronel é certo. Se vem chuva de pedra, se vem geada ou ventania, ele nunca perde nada; quem perde são os rendeiros.

***

— Mas, Zé, se essas terras do Taquaral fossem divididas por essas cento e tantas famílias que já vivem lá, não acha que ficava muito melhor?

— Melhor para quem? Para o coronel?

— Não. Para o mundo em geral, para todos. Pois está claro que sim. Em vez de haver só um rico, que é o coronel Tatuíra, haveria mais de cem arranjados, todos vivendo na maior abundância, donos de tudo quanto produzissem, não só da metade e o melhor de tudo seria a segurança, a certeza de que ninguém dali não saía por vontade dos outros, tocado como um cachorro, como eu fui. Ah, que grande felicidade! Mas quem pensa nisso no mundo? Quem se incomoda com o pobre Zé Brasil? Ele que morra de doenças, ele que seja roubado, e metido na cadeia se abre a boca para se queixar. O mundo é dos ricos e Zé Brasil nasceu pobre. Ninguém no mundo pensa nele, olha para ele, cuida de melhorar a sorte dele...

***

— Não é assim, Zé. Apareceu um homem que pensa em você, que por causa de você já foi condenado pela lei desses ricos que mandam em tudo – e passou nove anos num cárcere.

— Quem é esse homem?

— Luiz Carlos Prestes...

— Já ouvi falar. Diz que é um tal comunista que quer desgraçar o mundo, acabar com tudo...

— Quer acabar com injustiça do mundo. Quer que em vez de um Tatuíra, dono de milhares de alqueires de terra e vivendo à custa dos que trabalham, homem prepotente que faz o que fez a você...

— Que toca a gente...

— Que toca, que manda prender e meter o chanfalho em quem resmunga, haja centenas de donos de sítios dentro de cada fazenda, vivendo sem medo de nada, na maior abundância e segurança.

— Que beleza se fosse assim!

— E por que não há de ser assim? basta que vocês queiram. Se todos os que sofrem essa injustiça da falta de terras próprias, num país tão grande como este, se reunirem em redor de Prestes, a situação acabará mudando completamente.,

— O Brasil tem 5 habitantes para cada quilômetro quadrado...

— Quanto é isso em alqueires?

— Um quilômetro quadrado é um pouco mais de 40 alqueires. Ora, havendo cinco habitantes para cada quilômetro quadrado, cada habitante pode ter um sítio de oito alqueires, homem, mulher ou criança.

— Quer dizer que terra é o que não falta. Falta uma boa distribuição das terras, de modo que se acabe com isto de uns terem tudo e a grande maioria não ter nada.

***

— Mas por que então esse homem é tão guerreado?

— Justamente por isso. Quem é que o guerreia? Os que trabalham na roça, como você? Os que sofrem a injustiça do mundo, como você? Os que nas cidades ganham a vida nos ofícios ou como operários de fábricas? Os que produzem tudo quanto existe no mundo?

Não. Os que combatem Prestes e as ideias de Prestes não são os que trabalham e sim os que vivem à custa do trabalho dos outros.

— Como aqui o coronel Tatuíra... Exatamente. São os Tatuíras que tomaram conta do mundo e como para eles está tudo bem, não querem mudança nenhuma.

— Para eles está bom mesmo! Não precisam trabalhar e são donos de tudo, das terras, das casas, das fábricas... e do produto do trabalho dos outros. O mal está aí, Zé. No dia em que quem trabalha ficar dono do produto do seu trabalho, tudo entrará nos eixos e todos serão felizes. Mas isso de cem trabalharem para um só ficar com tudo, isso não está certo e tem de acabar.

— Pois no Taquaral é assim. Cem famílias trabalham naquelas terras, como negros de eito, para que o coronel viva no macio, sempre lá pelas capitais, arrotando presunto. Do que essas famílias produzem, a parte que a elas cabe mal dá para não morrerem de fome e não andarem totalmente nuas. Se o Prestes quer mudar isso, esse homem merece a nossa aprovação.

***

— Se ele tiver o apoio de vocês todos, quem poderá com ele? Vocês são os milhões; os Tatuíras não passam de centenas. Se sendo tão poucos os Tatuíras dominam e exploram a vocês que são milhões, isso vem duma coisa só: falta de conhecimento por parte de vocês. É que vocês não sabem! E o remédio é um só: procurar saber. No dia em que todos souberem como as coisas são, ah, nesse dia tudo começa a mudar, e em vez da felicidade ficar só com as centenas, passará a ser também dos milhões.

— Mas como a gente há de saber, se cada um diz uma coisa? Jornal eu não leio, mas o Chico Vira lê e outro dia me disse que os jornais andam falando horrores do comunismo.

— Os jornais deles, está claro que dizem horrores. Mas os jornais comunistas, ou do Prestes, esses dizem as coisas do modo diferente. Em que vocês devem acreditar? No que dizem os Tatuíras e os jornais dos Tatuíras, ou no que dizem os homens que querem o bem de vocês? Os homens que padecem por vocês, como esse Prestes que já passou nove anos no cárcere, incomunicável, só porque em vez de decidir pela felicidade dos Tatuíras, se decidiu pela felicidade de Zé Brasil?

— Eu estava me parecendo que era assim, mas não tinha a certeza. Agora estou compreendendo muito bem como é a coisa. Estou vendo que o nosso homem é esse Prestes. E que quem é contra Prestes e seus companheiros, só prova uma coisa: que não quer mudança nenhuma no mundo. Que quer que tudo fique como está.

— E acha justo isso, Zé? Acha justo que tudo fique como está, isto é, uns tendo tudo e a imensa maioria não tendo nada, de nada, de nada?

— Se eu achasse justo isso, eu tinha de dar razão ao coronel Tatuíra quando me tocou da grota e se apossou da casa que eu ergui com tanto trabalho e das roças que plantei e estavam tão bonitas. Ora, como é que eu poderei concordar com uma injustiça destas?

— Prestes! Prestes!... Por isso é que há tanta gente que morre por ele. Estou compreendendo agora. É o único homem que quer o nosso bem. O resto, eh, eh, eh! é tudo mais ou menos coronel Tatuíra...


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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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