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10/15/2022

O casamento da Emília (Conto), de Monteiro Lobato



 O CASAMENTO DA EMÍLIA

Durou uma semana o noivado de Emília. Todas as tardes, trazido à força por Pedrinho, aparecia o Marquês de Rabicó para visitar a noiva, e tinha de ficar meia hora na sala, contando casos e dizendo palavras de amor. 

Mas apesar de noivo o Rabicó não perdia os seus instintos. Logo que entrava punha-se a farejar a sala, na sua eterna preocupação de descobrir o que comer. Além disso, não prestava a menor atenção à conversa. Não havia nascido para aquelas cerimônias. 

Uma tarde, Pedrinho zangou-se e resolveu substituí-lo por um representante. 

– Rabicó não vale a pena – disse ele aborrecido. – Não sabe brincar, não se comporta. O melhor é isto, querem ver? – e saiu. 

Foi ao quintal e trouxe um vidro vazio de óleo de rícino que andava jogado por lá. 

– Esta aqui. De agora em diante o noivo será representado por este vidro azul, e o tal Marquês de Rabicó vai passear – concluiu pregando um pontapé no noivo. 

Rabicó raspou-se gemendo três coins , e desde esse dia, enquanto fossava a terra no pomar atrás da tal minhoca de anel na barriga, quem noivava por ele, de cartola na cabeça, era o senhor Vidro Azul. 

Emília comportava-se muito bem embora de vez em quando viesse com impertinências. 

– Eu já disse a Narizinho: caso, mas com uma condição. 

– Eu sei qual é! – adivinhou o senhor Vidro Azul. – Não quer morar na casa do Marquês, com certeza porque não se dá bem com o futuro sogro, os Visconde de Sabugosa. 

– Isso não! Até gosto muito do senhor Visconde. O que não quero é sair daqui. Estou muito acostumada. 

– O senhor Vidro Azul coçou o gargalo. 

– Sim, mas… 

– Não tem mas, nem meio mas! Quem manda neste casamento sou eu. O Marquês fica por lá e eu fico por cá – declarou Emília, toda espevitadinha e de nariz torcido. 

O representante do noivo suspirou. 

– Que pena! O Senhor Marquês já mandou construir um castelo tão bonito, de ouro e marfim, com um grande lago na frente… 

Emília deu uma risada. 

– Eu conheço os lagos do Marquês! São como aquele célebre “lago azul” que certa vez prometeu à Libelinha lá do Reino das Abelhas. 

O senhor Vidro Azul atrapalhou-se. Viu que Emília não era nada tola e não se deixava enganar facilmente. Procurou remendar. 

– Sim, um lago. Não digo um grande lago, mas um pequeno lago, um tanque… 

– Uma lata d’água, diga logo! – completou Emília mordendo os beiços. 

Narizinho interveio, repreensiva.

– Você esta aqui para noivar, Emília, para dizer coisas bonitas e amáveis, e não para brigar com o representante do Marquês. Veja lá, hein? 

E dirigindo ao representante: 

– O Senhor Marquês não escreveu ainda uns versos para a sua amada noivinha? 

– Escreveu, sim – respondeu o Vidro Azul, metendo a mão no gargalo e sacando um papelzinho. – Aqui estão eles. 

E recitou: 

Pirulito que bate bate,
Pirulito que já bateu,
Quem adora o Marquês é ela.
Quem adora Emília sou eu. 

– Bravos! – exclamou Narizinho batendo palmas. – São lindos esses versos! O Marquês é um grande poeta!… 

Emília, porém, torceu o nariz e até ficou meio danadinha. 

– O verso esta todo errado! Vou casar-me com Rabicó mas não “adoro” coisa nenhuma. Tinha graça eu “adorar” um leitão! 

Narizinho bateu o pé e franziu a testa. 

– Emília, tenha modos! Não é assim que se trata um poeta. Você vai ser marquesa, vai viver em salões e precisa saber fingir, ouviu? 

Depois, voltando-se para o representante: 

– Peço-lhe mil desculpas, senhor Vidro Azul! Emília tem a mania de ser franca. Nunca viveu em sociedade e ainda não sabe mentir. Não é aqui como o nosso Visconde de Sabugosa, que fala, fala e ninguém sabe nunca o que ele realmente esta pensando, não é verdade? 

O Visconde fez um gesto que tanto podia ser sim como não. 

Desse modo conversavam todas as noites, longo tempo, até que vinha o chá. Chá de mentira com torradas de mentira. Depois do chá, se despediam. 

Passada uma semana, a menina queixou-se a Dona Benta: 

– Este noivado esta me acabando com a vida, vovó. Todas as noites, tenho de fazer sala para os noivos. Como isto cansa!… 

– Mas que é que esta faltando para o casamento, menina? 

– Os doces, vovó… 

– Já sei. Já sei. Pois tome lá estes níqueis e mande vir os doces. 

Como era justamente aquilo que Narizinho queria, lá se foi aos pinotes, com os níqueis cantando na mão. 

Chegou afinal o grande dia e vieram os grandes doces: seis cocadas, seis pé-de-moleque e uma rapadura, doce mais que suficiente para uma festa em quase todos os convidados ia comer de mentira. 

Pedrinho armou a mesa da festa debaixo de uma laranjeira do pomar e botou em redor todos os convivas. 

Lá estavam Dona Benta, Tia Nastácia e vários conhecidos e parentes, todos representados por pedras, tijolos e pedaços de pau. O inspetor de quarteirão, um velho amigo de Dona Benta que às vezes aparecia pelo Sítio do Pica-pau Amarelo, era figurado por um toco de pau com uma dentadura de casca de laranja na boca. 

Chegou a hora. Vieram vindo os noivos. Emília, de vestido branco e véu; Rabicó, de cartola e faixa de seda em torno do pescoço. Vinha muito sério, mas assim que se aproximou da mesa e sentiu o cheiro das cocadas, ficou de água na boca, assanhadíssimo. Não viu mais nada. 

Logo depois veio o padre e casou-os. Narizinho abraçou Emília e chorou lágrima de verdade, dando-lhe muitos conselhos. Depois, como a boneca não tivesse dedos, enfiou-lhe no braço um anelzinho seu. Pedrinho fez o mesmo com o Marquês; enfiou-lhe no braço uma aliança de laranja, que Rabicó por duas vezes tentou comer. 

Os outros animais do Sítio, as cabras, as galinhas e os porcos, também assistiram à festa, mas de longe. Olhavam, olhavam, sem compreenderem coisa nenhuma. 

Terminada a festa. Narizinho disse: 

– E agora, Pedrinho? 

– Agora – respondeu ele – só falta a viagem de núpcias. 

Mas a menina estava cansada e não concordou. Propôs outra coisa. Puseram-se a discutir e esqueceram de tomar conta da mesa de doces. Rabicó aproveitou a ocasião. Foi se chegando para perto das cocadas e de repente – nhoc! Deu um bote na mais bonita. 

– Acuda os doces, Pedrinho! – berrou a menina. 

Pedrinho virou-se e, vendo a feia ação do pirata, correu para cima dele, furioso. Agarrou o inspetor de quarteirão e arrumou uma valente inspetorada no lombo do porquinho… 

– Cachorro! Ladrão! Marquês duma figa!… 

Rabicó deu um berro espremido e disparou pelo campo, mas sem largar a cocada. 

Como era de prever, não podia dar bom resultado aquele casamento. Os gênios não se combinavam e, além disso, a boneca não podia consolar-se do logro que levara. 

Narizinho ainda tentou convencê-la de que Rabicó era realmente príncipe e Pedrinho só dissera aquilo porque estava danado. Não houve meio. Quando Emília desconfiava, era toda a vida. E desse modo ficou casada com Rabicó, mas dele separada para sempre. 

– Esta aí o que você fez! – costumava dizer em voz queixosa. – Casou-me com um príncipe de mentira e agora, esta aí, esta aí… 

Narizinho dava-lhe esperanças. 

– Tudo se arruma. Um dia, ele morre e eu caso você com o Visconde ou outro qualquer.

7/11/2019

Alexandre o Grande (História), de Monteiro Lobato



Alexandre o Grande
Depois de tomar fôlego, dona Benta perguntou:
– Que é que você pretende ser quando tiver vinte anos, Pedrinho? O menino ficou atrapalhado. Ele pretendia ser tanta coisa...
– Pois aos vinte anos o nosso Alexandre já era rei.
– Grande milagre, vovó! Eu também seria rei aos vinte anos, se tivesse nascido filho de rei.
– Sim, não há nada demais em ser rei aos vinte anos quando um homem nasce num trono. Mas o que esse reizinho de vinte anos fez é um assombro. Apesar de rei de dois países, a Macedônia e a Grécia, não se contentou. Alexandre queria ser rei do mundo.
Para isso deu andamento àqueles planos de conquistas a Pérsia, fazendo-a pagar a guerra que cento e cinquenta anos antes Dário havia feito aos gregos. E conquistou-a. Alexandre reuniu um excelente exército, atravessou o Helesponto e penetrou na Ásia, onde os persas não conseguiram embraçar-lhe o caminho. Alexandre não saía vencedor de todas as batalhas.
Na sua contínua marcha para a frente, passou por uma cidade onde havia um templo célebre. Sabem por quê? Por causa dum nó.
– Dum nó? Que graça! Exclamou Narizinho. Um nó cego, aposto.
– Um nó cego na verdade, minha filha, impossível de ser desatado. Era o celebre Nó Górdio, do qual um oráculo havia dito que quem o desatasse conquistaria a Pérsia. Quando Alexandre soube do caso, foi examinar o nó e imediatamente viu que era mesmo um nó cego. Puxou, então, da espada e cortou-o pelo meio, de um golpe...
Ahn! Exclamou Pedrinho. Só agora compreendo porque as pessoas que resolvem uma situação encrencada dizem: "cortei o nó górdio!"
– Pois é isso mesmo. Usamos tal expressão por causa do que Alexandre fez há vinte e três séculos. Mas o nosso Alexandre que não era de brincadeiras, realizou a predição do oráculo: conquistou a Pérsia. De lá marchou para o Egito, quem pertencia à Pérsia, e também o conquistou. Para comemorar a vitória ergueu uma cidade perto da boca do Nilo e deu-lhe um nome derivado do seu – Alexandria. Nessa cidade que iria torna-se uma das mais importantes do mundo, fundou a mais célebre biblioteca dos tempos antigos.
– Como eram os livros?
– Escritos a mão, em tiras de papiro emendadinhas, formando rolos. Essa biblioteca foi acumulando tudo o que a humanidade havia escrito até aquela data e chegou a ter meio milhão de obras. Se séculos mais tarde não fosse queimada pelo sultão Omar, seria hoje a mais preciosa e importante biblioteca do mundo.
– Por que esse indecentíssimo Omar destruiu uma coisa tão preciosa, vovó? perguntou o menino, revoltado.
– Por puro espírito de fanatismo, meu filho. Omar que era um fanático da religião Maomé, mandou incendiar a preciosa biblioteca porque: "Ou os seus livros dizem o mesmo que o Corão, e nesse caso são inúteis, ou dizem o contrário, e nesse caso devem ser destruídos." O Corão é o livro sagrados dos maometanos, como para os cristãos é a Bíblia.
– Imbecil! Não era lá que havia o tal farol?
– Sim. Nessa mesma cidade de Alexandre foi erguido esse monumento notabilíssimo. O farol, o gigantesco farol cuja luz alcançava muitos quilômetros longe. Foi levantado na ilha de Faros – de cujo nome veio a palavra farol. Era uma torre de mais de trinta andares, coisa colossal numa época de construções de um e dois andares apenas.
Mas Alexandre não ficou á espera de que a biblioteca se enchesse de livros e a torre de Faros se erguesse ao trigésimo andar. Deu ordens para que tudo se fizesse e tocou para a frente. Alexandre não podia parar. Ardia por conquistar novas terras, ver novas caras, novas coisas – e esqueceu-se completamente de sua Macedônia. Em vez de voltar para lá, ao menos a fim de matar as saudades, marchou para diante e foi conquistando todos os países que encontrou, até a Índia.
– Que homem "mais que os outros" era Alexandre, vovó! observou a menina. Desde meninote...
– Realmente. Alexandre era único e tinha o bicho carpinteiro no corpo. Não podia parar. Começou a ser rei aos vinte anos e desde aí até a morte jamais esquentou lugar. Morreu com trinta e três anos apenas – a idade de Cristo – e já era chamado de Alexandre o Grande. Havia se tornado senhor de todo o mundo – pelo menos de todo o mundo então conhecido e habitado por povos civilizados. Só não se lembrou da Itália ou não teve tempo de conquistá-la. Mas naquele tempo a Itália não passava de uma porção de cidades pouco povoadas e sem nenhuma importância.
Quando Alexandre viu que nada mais restava que valesse a pena vencer, dizem que chorou...
– E como não tinha mais mundo para conquistar resolveu morrer, não é?
– Mais ou menos. Não vendo inimigos pela frente contra os quais lançasse o seu exército, Alexandre resolveu voltar para a Grécia; mas com muita preguiça, lentamente, parando pelo caminho para gozar a vida em festas. E assim alcançou a cidade de Babilônia, que já não era nem sombra do que havia sido nos tempos da grandeza. Lá morreu repentinamente durante um banquete, no ano 323 a.C.
Este Alexandre deveu muito e muito a Aristóteles. Foi Aristóteles quem lhe ensinou a ser um grande homem. Nas suas conquistas prestava grandes benefícios aos povos dominados. Ensinava-lhes a língua grega, de modo que pudessem cultivar o espírito lendo os únicos livros de valor existentes na época, os livros gregos; ensinava-lhes os esportes atléticos praticados em Olímpia; ensinava-lhes as artes – a pintura, a escultura, a música. Sua preocupação era melhorar a cultura dos vencidos. Podemos até dizer que com seus livros ninguém ensinou mais aos homens do que Aristóteles e com sua espada ninguém ensinou mais aos povos que seu discípulo Alexandre.
Alexandre casou-se com uma rapariga persa de grande beleza, chamada Roxana, e morreu antes de lhe nascer o único filho, de modo que a chefia do império coube aos seus generais.
– Aos quais?
– "O mais capaz que governe", tinha sido a recomendação de Alexandre. "Lutem entre si e vejam qual o mais forte. Esse deverá ser meu sucessor". Os generais lutaram entre si, mas a vitória empatou entre quatro. Em vista disso o império de Alexandre foi dividido em quatro, cabendo cada parte a um deles.
Destes generais só um realmente tinha qualidades de chefe, ou rei – um chamado Ptolomeu. Governou o Egito sob nome de Ptolomeu I e governou bem, formando uma dinastia, isto é, fazendo que seus filhos governassem depois dele. Os outros generais não souberam conservar os reinos recebidos, de modo que depois de alguns anos nada mais restava do grande império de Alexandre.
– Tal qual um balãozinho de elástico que a gente assopra, e ele enche e enche até que – paf! estoura e não fica coisa nenhuma, observou Pedrinho filosoficamente.

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019

A esperteza da Macedônia (História), de Monteiro Lobato



A esperteza da Macedônia
No outro dia dona Benta falou dos meninos que começam "sapeando" um brinquedo e por fim se metem nele e acabam donos de tudo.
– Foi o que aconteceu na Grécia. Enquanto Atenas, Esparta e outras cidades se debatiam naquele terrível brinquedo de guerra, um senhor Filipe, rei de Macedônia, espiava por cima do muro, esperando a ocasião de entrar no jogo. Filipe viu que Atenas e Esparta estavam exaustas da luta, a ponto de mal poderem consigo; logo, se ele pulasse o muro e entrasse no brinquedo quem virava o chefe seria ele. Ser rei da Grécia sempre fora o seu sonho. E como os gregos odiassem os persas por causa do incêndio de Atenas, o espertíssimo Filipe resolveu entrar por esse caminho.
- "Vossos antepassados", falou ele aos gregos, "fizeram os persas recuar; mas os persas voltaram para suas terras, muitos frescos da vida, e nunca foram punidos pelo mal feito à Grécia. Por que não tomais vingança? Por que não organizais uma boa guerra contra eles, não só para castigá-los, como também para apanhar-lhes os grandes tesouros que possuem?
E depois acrescentou um finalzinho que era onde estava o gato, isto é, onde estava escondida a ideia secreta de Filipe:
– "E eu, que sou o grande guerreiro que sabeis, eu me juntarei convosco para vos ajudar".
Ninguém pareceu perceber o que havia bem lá dentro da cabeça de Filipe, exceto um ateniense chamado Demóstenes.
– Não é o tal das pedrinhas vovó?
– Sim, é o mesmo. Quando menino, Demóstenes revelou uma fortíssima vocação para orador, embora um defeito de nascença o estivesse avisando a cada passo: "Seja tudo quanto quiser, menos orador". De... Demós... tenes é... era gá... gago.
– E um gago a querer ser orador, é mesmo da gente dar com um gato morto em cima até que o gato mie, disse Pedrinho.
– Pois Demóstenes não levou com gato em cima, mas deu com pedrinhas na gagueira e acabou com ela e ficou sendo o mais famoso orador da humanidade. Ainda hoje, quando a gente quer dizer que um fulano de tal é grande orador diz: "É um Demóstenes!" Não se lembram daquela festinha do compadre Teodorico, no casamento da Miloca? Como foi que o Zezinho Xarope começou o seu brinde aos noivos, no jantar?
– Eu me lembro, vovó! gritou Pedrinho, e até decorei a frase, de tão bonita que a achei. Foi assim: "Neste momento solene, em que ergo a minha débil voz para saudar os nubentes, eu queria ter a eloquência dum Demóstenes para etc. e tal". Foi só palmas. Na volta para casa a senhora nos ensinou o que queria dizer nubentes. Recordo-me muito bem.
– Pois é. Demóstenes foi um orador tão famoso que até o Zezinho Xarope se lembra dele, neste fim de mundo onde moramos. Demóstenes entendeu de acabar com a gagueira. Diariamente ia a um ponto da praia onde as ondas se quebravam nos rochedos com grande barulho. E lá se punha a fazer discursos, com pedrinhas na boca.
– Por que pedrinhas?
– Para aumentar a dificuldade. Você compreende que assim embaraçado com as pedrinhas mais difícil ainda se tornava para aquele gago discursar no meio do barulho das ondas. Mas insistiu, insistiu até que venceu o embaraço de nascença somado com o embaraço das pedrinhas – e acabou falando com voz tão alta que dominava o barulho do oceano. As ondas furiosas eram para ele o público – um público insolente, que procurava impedir que sua voz fosse ouvida. Demóstenes venceu a gagueira à força de exercício, e foi aumentando o tom da voz até vencer também o rumor das ondas. Mais tarde, quando em vez de ondas tinha diante de si multidões de homens, também sua voz dominava o barulho das ondas humanas – e Demóstenes ficou o rei dos oradores. Quem o ouvia, era conquistado pela sua eloquência a ponto de rir ou chorar, conforme o desejo do orador.
Pois bem, este Demóstenes percebeu as intenções ocultas de Filipe naquele negócio da vingança contra os persas. "Ele quer tomar conta da Grécia e virar nosso rei" refletiu, e desde esse momento passou a aplicar toda a força de sua eloquência contra o esperto Filipe. Fez contra ele doze discursos famosos, que se chamaram as Filípicas. Quando hoje um orador qualquer pronuncia contra alguém um discurso violento, todos dizem: "É uma filípica".
Sempre que os gregos ouviam uma arenga de Demóstenes ficavam com ódio de Filipe; mas depois iam esquecendo e de novo se deixavam enlear pelos projetos do paciente rei da Macedônia. Afinal, Filipe venceu. Acabou como queria – rei da Grécia; mas não pode realizar o seu plano de guerra porque morreu assassinado por um dos seus generais.
– Isso quer dizer, vovó que, embora a eloquência valha muito, a esperteza ainda vale mais, observou o menino.
– Na verdade, meu filho, a esperteza é tudo na vida. Quem lê a história dos homens, vê que a esperteza acaba sempre vencendo. Vence até a força bruta.
Filipe tinha um filho chamado Alexandre, com vinte anos de idade nessa época, o qual passou a ser rei da Macedônia e da Grécia juntas e realizou grandiosos planos do pai. Era uma criatura extraordinária esse Alexandre, com todos os dons de inteligência e da beleza. Quando ainda meninote, aconteceu-lhe um caso famoso, certa vez em que assistia a uns exercícios de equitação. Sabem o que é equitação?
– Sei! Gritou Emília, que tinha estado quieta uma porção de tempo. Equitação é coisa de cavalo. Andar a cavalo, montar a cavalo, cair do cavalo, puxar o rabo do cabalo, dar milho para o cavalo, pentear a crina do cavalo...
– Pare, que já errou! disse dona Benta. Equitação é o nome da arte de montar nos cavalos – só isso. Puxar rabo de cavalo não é equitação – é reinação perigosa. Mas ao assistir àquelas provas, Alexandre viu que nenhum dos presentes conseguia montar certo ginete muito fogoso. Parecia assustadíssimo o animal, dando tais pinotes e corcovos que ninguém podia firmar-se na cela. Percebendo que o cavalo estava assustado com a sua própria sobra, Alexandre disse ao pai: "Papai, dá licença que eu monte esse animal?" O rei Filipe achou graça e riu-se gostosamente. "Que absurdo, meu filho! Pois não vê que cavaleiros velhos, peões de primeira ordem não conseguem fazê-lo sossegar?" "Pois eu conseguirei", afirmou o menino. O pai, sempre a rir-se, deu a licença pedida, e Alexandre, dirigindo-se até o cavalo, virou-o de modo que ficasse de frente para sol e, portanto, sem poder ver a própria sombra. Imediatamente o cavalo sossegou e deixou-se montar. Tão alegre ficou Felipe com a habilidade do filho, que lhe deu o cavalo como prêmio. Chamava-se Bucéfalo. Esse famoso corcel foi por muito tempo a montaria predileta de Alexandre; quando morreu teve estátua, e ainda várias cidades batizadas com o seu nome.
– Que danadinho, o tal de Alexandre!
– Habilíssimo. Alexandre teve uma grande coisa consigo, que talvez explique tudo quanto fez de importante na vida; foi discípulo de Aristóteles, o maior professor que a humanidade possuiu até hoje.
– A humanidade, vovó? Não está achando isso meio muito? observou Pedrinho com cara de dúvida.
– Não é muito, não. Este Aristóteles escreveu uma porção de livros importantíssimos sobre todas as coisas – sobre os astros...
– Astronomia! gritou Pedrinho.
– ...sobre os animais...
– Zoologia!
– ... sobre as plantas...
– Botânica!
– ... sobre a política e sobre o modo da cabeça da gente funcionar, isto é, sobre o espírito, as ideias, a inteligência, etc. Como se chama esta ciência, senhor sabidão?
Pedrinho engasgou.
– Cabeçologia! gritou lá de longe a boneca.
– Psicologia, corrigiu dona Benta, estudo da alma ou do espírito. Sobre todos esses assuntos escreveu Aristóteles, e tão bem que durante muitos séculos...
– Séculos, vovó?
– Séculos, sim. Desde o ano de 384 a.C., data do seu nascimento, até hoje, temos 2.327 anos, ou mais de vinte e três séculos. Por todo esse tempo as obras desse famoso professor vieram ensinando a ciência aos homens. Antigamente, há um século atrás, os únicos livros de ensino existentes nas universidades eram os de Aristóteles. Únicos, hein? Hoje a coisa está mudada. Temos outros livros; mas tais livros não passam dos mesmos livros de Aristóteles, apenas melhorados com o que a experiência dos homens nos foi ensinando até aqui.
Este famosíssimo professor foi aluno de outro mestre de igual fama, chamado Platão, e este Platão foi disciplinado daquele Sócrates que teve que beber cicuta. De modo que os três homens que maiores serviços prestaram à humanidade como mestres da ciência, foram... Vamos lá, Narizinho...
– Sócrates, Platão e Aristóteles.
– Muito bem. Quando vocês crescerem, não deixem de ler algumas das suas obras. Vão ficar admirados do vigor da inteligência dos três filósofos gregos. Sócrates não deixou obra escrita, mas o seus discípulo Platão nos dá todas as suas ideias.

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

Os gregos brigam entre si (História), de Monteiro Lobato


Os gregos brigam entre si
– Que pena, vovó, exclamou Narizinho, que essa desgraça viesse estragar um tempo tão bonito.
– A peste não foi nada, minha filha, apesar da grande perda que causou com a morte de Péricles. Muito pior do que a peste foi o que veio depois...
– Será possível que haja alguma coisa pior que a peste? admirou-se Pedrinho.
– Há, sim, meu filho. A Guerra é cem vezes pior, sobretudo a guerra civil, isto é, guerra dentro de casa, entre filhos do mesmo país. Pois logo que o horror da peste passou, os horrores da guerra vieram estragar a linda Grécia daquele tempo.
– Conte! conte! pediram os meninos – e dona Benta contou.
– A causa da desgraça foi o ciúme que depois da vitória sobre os persas, Atenas começou a inspirar. Os espartanos tinham um grande orgulho da superioridade dos seus soldados, que realmente eram os primeiros do mundo. Atenas, que também tinha excelentes soldados, depois da grande vitória da sua esquadra em Salamina ficou, sem querer, mais do que Esparta, pois possuía uma esquadra poderosa. A bela reconstrução de Atenas feita por Péricles e o florescimento de todas as artes não incomodavam Esparta, porque os espartanos não ligavam grande importância à cultura. Mas a esquadra ateniense incomodava. Esparta ficava no interior e por isso não podia ter esquadra, e como não podia ter esquadra não queria que Atenas a tivesse. Considerava desaforo. Daí nasceu a guerra.
– Mas não eram um mesmo país, Esparta e Atenas?
– Eram e não eram. Ambas faziam parte da Grécia, mas cada qual se governava como queria. Esparta estava situada num pedaço da Grécia chamado Pe-lo-po-ne-so, e por isso essa terrível luta entrou para a História com o nome de Guerra do Peloponeso. E sabem quanto tempo durou? Vinte e sete anos!
– Que horror, vovó! fez Narizinho. Vinte e sete anos! Imaginem...
– Foi uma luta horrorosa, com vantagem ora para este lado, ora para aquele, mas Esparta, que quase sempre ficava de cima, acabou tomando a cidade de Atenas. Depois disto entrou na briga outra cidade grega.
– Tebas, a qual conseguiu o milagre de vencer a invencível Esparta. Os espartanos ficaram muito admirados de ver forças inimigas em seu território, coisa que durante cinco séculos jamais acontecera.
Mais tarde, quando for tempo de ler uma história do mundo das grandes, vocês verão tudo quando sucedeu nesses vinte e sete anos de luta. Por agora basta que saibam que a Guerra do Peloponeso enfraqueceu e arruinou quase todas as cidades gregas, pondo fim da importância da Grécia no mundo.
Durante esse tempo viveu em Atenas um grande filósofo de nome Sócrates, que considerado o melhor e mais sábio homem que a humanidade produziu. Sócrates andava pela cidade ensinando os moços a pensar; mas em vez de ensinar como outros filósofos, dizendo isto é assim ou assado, empregava outro sistema – fazia perguntas e ia indo até que por si mesmo o discípulo achasse a resposta exata. A esse sistema ficou ligado o seu nome. Chama-se método socrático.
Sócrates era muito feio; careca e de nariz arrebitado. Mas apesar de serem os atenienses grandes amigos da beleza, todos gostavam dele, porque se não possuía a beleza física tinha em compensação todas as belezas morais – e não há belezas que valham estas.
Sócrates era casado com Xantipa, uma verdadeira jararaca. Xantipa jamais compreendeu o marido, ao qual vivia xingando de vadio, e indolente, de traste inútil. "Este diabo leva a falar, a falar o tempo todo e nada de aparecer aqui com dinheiro" – devia ser a xingação diária dessa senhora. Certa vez ela o descompôs com tamanha fúria que Sócrates achou prudente fazer uma retirada estratégica. Assim que ia saindo, Xantipa jogou sobre ele um balde d'água. O grande sábio apenas murmurou: "depois da trovoada vem a chuva" – e nada mais.
– Ah, se fosse comigo! exclamou Pedrinho, arregaçando as mangas.
– Batia-lhe com um pau, não é verdade? disse dona Benta. Pois seria um ato mui vulgar e reles. Não há brutamonte na roça que não faça o mesmo. Justamente porque em vez de bater em Xantipa, Sócrates respondeu de maneira tão fi-lo-só-fi-ca, é que estamos a falar nele. Procure nunca ser vulgar, Pedrinho, que você acertará.
Sócrates não acreditava nos deuses gregos, embora nada dissesse em público, porque os gregos não admitiam que ninguém brincasse ou descresse de tais deuses. Mas um homem com a cabeça de Sócrates não podia tomar a sério o senhor Júpiter nem a senhora Vênus, e por isso, sem falar mal deles, também não falava bem. Calava-se. Era como se não existissem.
Foi o bastante para incorrer nas iras do povo, sendo denunciado como inimigo dos deuses e corruptor da mocidade. Resultado: condenação à morte.
– Que horror, vovó! Já estou ficando com ódio nos gregos. Por uma coisinha a toa mataram Fídias, que era o maior escultor; agora vão matar Sócrates, o melhor e o mais sábio dos homens! Isso é demais. E com certeza o enforcaram...
– Felizmente não chegaram a essa monstruosa brutalidade. Intimaram-no a beber uma taça de chá de cicuta, planta venenosíssima. Sócrates obedeceu – e morreu a mais bela das mortes, rodeado de seus queridos discípulos em lágrimas. Tinha então setenta anos. A morte de Sócrates é uma das cenas mais altas do drama da humanidade.
Emília declarou que ia plantar cicuta na horta.
– Para quê? Perguntou Narizinho.
– Para não ser preciso enforcar o visconde, se alguma dia ele for condenado à morte...


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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

A Idade de Ouro (História), de Monteiro Lobato



A Idade de Ouro
– Já falamos nas Idades da Pedra e do Bronze, continuou dona Benta. Vamos ver agora um pedacinho duma verdadeira Idade de Ouro, ou época em que o bem estar do povo trouxe um grande florescimento das artes e ciências.
Depois de terminada dum modo tão feliz a guerra com a Pérsia, os atenienses voltaram para Atenas e reconstruíram as casas. E como eram um povo de grandes dotes artísticos, aproveitaram a ocasião para fazer de Atenas a mais bela cidade do mundo. Tudo os ajudou – tudo concorreu para isso.
– Quem era nesse tempo o chefe de Atenas?
– Oh! Atenas tinha um grande chefe chamado Péricles. Esse homem não era rei, nem tirano, mas possuía tal inteligência, falava tão bem, mostrava-se tão hábil político, que os atenienses começaram a segui-lo em tudo – e durante muitos anos Atenas foi na realidade governada por ele. Péricles lembra um capitão de team de futebol altamente querido por todos os jogadores em vista de suas qualidades. Um capitão desses leva a equipe a operar prodígios – e vencer todos os jogos. Assim foi Péricles com a Grécia.
Surgiram por esse tempo grandes filósofos, grandes escritores, grandes poetas, grandes escultores, grandes arquitetos, grandes tudo.
– Pare um pouco, vovó, disse a menina. Eu vejo sempre falar em filósofo e até já tenho empregado essa palavra; mas na verdade não sei muito bem o que quer dizer. Para tia Nastácia, filósofo é um sujeito de calça furada, que anda distraído pela rua, tropeçando nos sapos. Será isso mesmo?
– Não, minha filha. A palavra "filósofo" quer dizer "amigo da sabedoria". Os filósofos são o complemento dos cientistas. Estes vão até o ponto em que podem provar o que afirmaram. Desse ponto em diante acaba-se a Terra da Certeza e começa a Terra do Pode Ser. Nesta Terra é que moram os filósofos. Se um filósofo provar por A + B a sua filosofia, mas provar de verdade...
–... ali na batata... ajudou Emília.
–... provar experimentalmente, ele deixa de ser filósofo, passa a ser cientista.
–... muda-se para a Terra do é... – ajudou de novo a Emília, e Narizinho advertiu-a de que dona Benta não precisava de ajutórios.
– Pois é isso. Por causa da grande liberdade de pensamento floresceu em Atenas um grupo de filósofos dos mais notáveis. Até hoje o que os filósofos gregos ensinaram tem grande valor, porque é difícil haver inteligência mais penetrante e clara do que a deles. Ao lado dos filósofos apareceram grandes escritores, que compuseram notáveis peças de teatro.
– O Teatro grego era como o de hoje?
– Não. Era coisa muito mais importante e muito diferente do de agora. Os espetáculos realizavam-se ao ar livre e só de dia, à beira de encostas de morro, cuja inclinação servia de arquibancada. Quase nenhum cenário, e em vez de orquestra havia um coro de cantores ou recitadores. Os artistas usavam máscaras, cômicas ou trágicas. Ainda hoje, na ornamentação dos nossos teatros, vemos esculpidas essas máscaras ou caretas gregas.
Atenas tirara o seu nome do apelido grego da deusa Atena. Por esse motivo os atenienses resolveram erigir um monumento digno dela, no alto duma colina, o qual recebeu o nome de Parthenon, ou templo da virgem. Guardem esta palavra, porque o Parthenon é considerado como a mais perfeita obra prima da arquitetura antiga.
– Ainda está de pé, vovó?
– Infelizmente, não. Subsistem ruínas. Dentro do Parthenon havia uma estátua de ouro e marfim feita por um escultor chamado Fídias, o qual tem fama de ser o maior escultor da antiguidade. Essa estátua desapareceu. Foi uma perda de que o mundo artístico jamais se consolou.
Fídias ainda fez outras estátuas para ornamento exterior do Parthenon; algumas ainda hoje são vistas nos museus da Europa, embora bastante mutiladas, esta sem cabeça, aquela sem braços. Tão célebre ficou Fídias com os seus trabalhos no Parthenon, que foi convidado para esculpir a estátua de Júpiter erigida em Olímpia. Dizem os seus contemporâneos que essa estátua era um prodígio de beleza. E devia ser, pois foi incluída entre as Sete Maravilhas do Mundo.
Apesar de ser o maior escultor da época, Fídias morreu na prisão por um crime que hoje nos faz rir. Imaginem vocês que no escudo da estátua de Minerva ele reproduziu, numa das figuras de certa cena, a sua própria cara e noutra, a cara do seu amigo Péricles. Pois foi o bastante para ser denunciado como sacrílego, julgado e condenado à prisão – e na prisão morreu.
– Por falar em escultura, vovó, li ontem uma história de colunas jônicas e coríntias que não entendi. Explique-me isso.
– Nos monumentos gregos havia três espécies de colunas, a coluna dórica, a coluna jônica e a coluna coríntia. A coluna dórica era a mais simples; tinha no alto o que chamam capitel, formado como que de um ladrilho tampando um prato fundo; e em baixo, ou na base, nada tinha – enfiava-se diretamente na terra. A beleza deste tipo de coluna residia na simplicidade e na ideia de força que dava. Por isso foi considerada como estilo masculino.
– Desaforo! Protestou Narizinho.
– A segunda coluna, a jônica, possuía uma base sobre a qual se assentava; e tinha no capitel, em vez do prato fundo tampado com o ladrilho, uns ornatos como voltas de caramujo. Era considerada como de estilo feminino.
– Toma! Gritou Pedrinho piscando para a menina. Quer dizer que vocês mulheres são caramujas.
– O terceiro estilo de coluna, continuou dona Benta, era o coríntio, o mais luxuoso, o mais enfeitado. A coluna coríntia tinha o capitel cheio de coisas, tais como folhas de acanto e outras.
– Acanto? Que é isso?
– Uma planta da Grécia que ficou célebre nas artes – uma espécie de serralha. Dizem que o capitel coríntio foi criado do seguinte modo. Um arquiteto, que andava desenhando colunas, passou um dia pelo cemitério e viu sobre o túmulo de uma criança qualquer coisa que o impressionou. Os gregos tinham o costume de depositar no túmulo das crianças cestas de brinquedos, em vez de coroas ou flores. Naquele havia sido depositada, meses atrás, uma cesta de brinquedos coberta por um ladrilho. Com o tempo, um pé de acanto nasceu por ali e envolveu a cesta em suas folhas, formando uma coisa tão linda. Tão linda que o arquiteto parou e copiou o jeitinho, para depois o aplicar no capitel duma coluna – que ficou sendo a coríntia.
– Que interessante, vovó! exclamou Narizinho. Veja como uma coisa puxa outra...
– Infelizmente, aquele glorioso período da vida grega não durou muito. Veio uma peste horrível, que dizimou os atenienses, não perdoando nem ao próprio Péricles. O grande homem dedicara-se demais ao socorro da cidade – e tantos pestosos recolheu em sua casa, que também apanhou a peste e foi-se...

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

Ainda o segundo tempo (História), de Monteiro Lobato



Ainda o segundo tempo
– Havia na Grécia, disse dona Benta no serão seguinte, uma passagem muito estreita, ou desfiladeiro, conhecido como as Termópilas. Dum lado era o mar; doutro, a escarpa duma montanha. Por ali os persas tinham de passar na sua marcha rumo a Atenas.
Termo, vovó disse Pedrinho, significa...
– Quente. Águas termais, águas quentes. Termópilas queria dizer passagem quente, porque de fato havia por ali umas fontes de água quente. Mas os gregos acharam que em vez de esperar o ataque dos persas muito melhor seria atacá-los na passagem das Termópilas, onde um homem era capaz de fazer frente a muitos. E Leônidas, o rei de Esparta, foi escolhido para defender o desfiladeiro. Leônidas era um espartano digno de nome que tinha, porque Leônidas quer dizer igual ao leão. Tomou o comando de sete mil soldados bem escolhidos, entre os quais trezentos espartanos daqueles tinham aprendido a não se renderem nunca. Mas era uma loucura jamais vista escorar tamanho exército com sete mil homens apenas.
Quando Xerxes percebeu que Leônidas estava ocupando as Termópilas com aquele punhadinho de homens, riu-se, e mandou-lhe intimação para entregar-se. "Venha buscar-nos", foi a lacônica resposta de Leônidas. Logo depois travou-se a luta, e durante dois dias os gregos sustentaram as suas posições, impedindo o avanço dos persas. Mas houve traição. Alguém foi contar a Xerxes que naquela montanha havia passagem secreta dando para a retaguarda de Leônidas, de modo que se os persas entrassem por lá os gregos seriam apanhados pelas costas.
Quando Leônidas soube que os persas tinham descoberto a passagem secreta e vinham vindo, compreendeu que tudo estava perdido. Falou aos seus homens. Contou o que se passava; disse que quem quisesse retirar-se poderia fazê-lo e que quem ficasse tinha de contar com a morte.
– E retiraram-se muitos? Perguntou Pedrinho, ansioso.
– Seis mil. Ficaram apenas mil, entre os quais trezentos espartanos. "Nós recebemos ordem de defender esta passagem", foi a lacônica resposta que deram ao general.
Leônidas e seus mil homens lutaram nas Termópilas até o fim, morrendo todos, um por um.
Depois que os persas atravessaram o desfiladeiro, a cidade de Atenas ficou em má situação, porque nada podia impedir o ataque. Era absurdo resistir, dada a desproporção entre atacados e atacantes. Os atenienses correram a consultar o Oráculo de Delfos.
O Oráculo respondeu que a cidade de Atenas estava condenada a ser destruída, mas que os atenienses seriam salvos por muralhas de madeira.
– Que queria dizer com isso? Perguntou Pedrinho.
– Essa mesma pergunta acudiu a todos os atenienses. O Oráculo falava sempre dum modo enigmático, que exigia interpretação. Dessas vez Termístocles traduziu a seu jeito a resposta, dizendo que tais muralhas de madeira significavam navios da esquadra, e convidou o povo a abrigar-se em barcos ancorados na baía de Salamina. Os atenienses aceitaram o convite; abandonaram a cidade e meteram-se a bordo.
Quando os persas entraram em Atenas, só viram por lá casas vazias. Puseram-lhes fogo e depois marcharam para Salamina, onde a esquadra persa, ajudada pelas forças de terra, iria varrer dos mares os navios gregos. Para gozar esse espetáculo, Xerxes mandou erguer um trono no alto dum morro, donde se descortinava toda a baía.
A tal baía de Salamina assemelhava-se muito ao desfiladeiro de das Termópilas; era uma faixa d'água ou como um trecho de rio – e essa semelhança deu a Temistocles uma ideia. Fingindo-se traidor, com aquele que nas Termópilas havia revelado a passagem secreta, mandou dizer a Xerxes que se a esquadra persa fosse dividida em duas partes, ficando uma num extremo e outra no outro extremo da baía, os gregos, encurralados, nada poderiam fazer.
– E Xerxes caiu na esparrela...
– Como um patinho. Acreditou na nova "traição" e dividiu a esquadra em duas partes. Isso foi ótimo para os gregos, que com todos os seus navios puderam atacar cada metade por sua vez, e ainda, por meio de hábil manobra, conseguiram fazer que as duas metades da esquadra persa se chocassem, com perda de muitos navios.
O resultado final foi a completa derrota dos persas no mar, e a necessidade em que ficou o exército de terra de retirar-se para a Pérsia pelo caminho mais curto.
– Estou imaginando o acesso de raiva que havia de ter Xerxes no seu trono, lá no alto do morro! disse a menina.
– E eu, os pulos de alegria de Temístocles! disse Pedrinho. Esse chefe acertou em todos os pontos – até na decifração da fala misteriosa do Oráculo. Era um danado!
A consequência da admiração do menino pelo chefe grego foi bezerro da vaca mocha, nascido na véspera, passar a chamar-se Temístocles e não Gaveta, como queria a boneca. Gaveta! Aquela Emília tinha cada uma...

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

O segundo tempo (História), de Monteiro Lobato



O segundo tempo
– Estou imaginando a cara desse Dario! disse Pedrinho. Apanhou de dez a zero...
– Realmente, meu filho. Ele, o soberano do maior império do mundo, derrotado por um punhadinho de gregos! Mas, não! A coisa não ficaria assim! O rei persa iria formar nova esquadra e novo exército – uma esquadra como jamais existiu outra e um exército de encher de assombro a todos e levar de vencida quantas Grécias surgissem. Dario jurou e rejurou e bufou como um tigre logrado por uma raposa. E vários anos passou a preparar o grande exército. Nisto, morreu.
– Morreu com certeza de raiva recolhida, observou a menina.
– Seja do que for, morreu e foi substituído pelo seu filho Xerxes, que do pai herdara não só o trono como também o ódio aos gregos e a determinação de destruí-los. Xerxes continuou os grandes preparativos de guerra começamos por Dario.
Mas os gregos, animados pela vitória, estavam mais do que resolvidos a não se deixarem bater em hipótese nenhuma, e como tinham a certeza de que os persas voltariam, preparam-se da melhor maneira.
Por esse tempo o povo de Atenas vacilava entre dois chefes igualmente grandes. Temístocles e Aristides. O primeiro queria por prevenção se construísse uma esquadra para a próxima guerra, e Aristides era de parecer contrário. A luta pegou fogo entre os partidos dos dois candidatos, mas como o partido de Temístocles se tornasse maior, Aristides acabou no ostracismo, apesar da sua grande fama de homem perfeito. Chamavam-lhe Aristides o Justo.
No dia da votação um homem que não sabia escrever aproximou-se de Aristides com uma casca de ostra na mão e pediu-lhe que escrevesse nela um nome. "Que nome?" perguntou Aristides. "Aristides", respondeu o homem. Sem dar-se a conhecer, o grande ateniense perguntou-lhe: "Por que querer condenar este homem ao ostracismo? Cometeu ele por acaso alguma falta?" "Oh, não!" respondeu o eleitor. "Ele não cometeu nenhuma falta, mas..." e suspirou. "Mas, que?" insistiu Aristides. "Mas estou cansado de ouvir o povo chamar-lhe sempre o Justo, o Justo..." concluiu o homem.
Aristides conhecia o caráter dos gregos e portanto não se admirou daquela inconsequência. Limitou-se a escrever o seu próprio nome na casca de ostra. Concluída a votação, foi verificado haver na urna o número de votos necessário para a sua condenação – e Aristides foi para ostracismo.
– Que grande injustiça! exclamou Pedrinho indignado com os atenienses. Isso é o cúmulo dos cúmulos!
– E que o grande acero político! disse dona Benta. O afastamento de Aristides pôs toda a força do lado de Temístocles, que conseguiu, afinal, impor a sua ideia da esquadra e mais preparativos para a possível guerra. E Temístocles acertou. A guerra veio. Dez anos depois da batalha de Maratona os persas reiniciaram a sua marcha contra a Grécia. Desta vez não com cento e vinte mil homens, mas com dois milhões.
– Dois milhões, vovó? exclamou o menino, espantado.
– Parece que mesmo um pouco meio muito, como diz o compadre Teodorico. Em todo o caso, é essa a contagem dos historiadores da época. Mas semelhante exército era em excesso numeroso para vir por mar. Seriam necessárias mais trirremes do que as havia no mundo inteiro. Por isso Xerxes determinou que a marcha fosse por terra, embora mesmo por terra houvesse um bocadinho d'água a separá-lo dos gregos: o estreito que hoje se chama Dardanelos e naquele tempos se chamava Helesponto.
– De que largura era esse estreito, vovó?
– Apenas um quilômetro e meio.
– E Xerxes passou?
– Quase. Xerxes construiu uma ponte de barcos, isto é, foi colocando barcos um encostado ao outro até alcançar o lado grego; depois estendeu por cima um tabuado como de ponte. Mas assim que concluiu a obra, uma tremenda tempestade sobreveio e arrasou tudo.
A fúria de Xerxes foi tamanha que pegou de um chicote e pôs-se a surrar o mar como se o mar fosse um de seus escravos. Em seguida mandou fazer uma nova ponte. Desta vez não houve tempestade e o exército pôde avançar. Sete dias e sete noites levou passando, em massa cerrada. A esquadra, que era enorme, o seguiu. Quando as forças alcançaram a terra da Grécia...
Dona Benta teve de parar nesse ponto. O visconde, que desde o seu "renascimento" não dissera ainda uma só palavra, tinha dado um grito. Correram todos. Que foi? Que não foi? "Foi Emília, eu vi" disse tia Nastácia aparecendo da cozinha, com a colher de pau na mão. "A malvada deu em cima dele com um tal ostracismo. Não sei o que é, mas deve doer muito..."

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

Pérsia vs. Grécia (História), de Monteiro Lobato



Pérsia vs. Grécia
Dona Benta escreveu num papel o título deste capítulo e perguntou ao menino o que significava aquele vs. entre dois nomes. Pedrinho não soube responder.
– Simples abreviação da palavra latina versus, que quer dizer "contra". Pérsia contra Grécia – é o que está escrito aqui. Na notícia dos jogos de futebol os jornais usam muito está palavra. "Realiza-se amanhã a luta do Narizinho Futebol Clube versus o Emília Torneirinha Clube..."
Pois naqueles tempos houve um verdadeiro match entre a Grécia e a Pérsia. Ciro, o rei dos persas, conquistara a Babilônia e outros países importantes, com exceção da Itália e da Grécia. O seu sucessor, o rei Dario, quis dar à Pérsia a dominação do mundo, e viu que faltava pouca coisa. Faltavam aquele pedacinho que era a Grécia e a tal bota italiana.
Ora, os gregos haviam fomentado uma rebelião na Pérsia, de modo que não faltou a Dario pretexto para a guerra. "Quero puni-los pelo que me fizeram e depois anexarei suas terras às minhas". E tratou disso. Construiu uma grande esquadra e preparou um exército que, sob o comando do seu próprio genro, fosse castigar os gregos. Mas uma tempestade destruiu a esquadra e o exército teve de voltar do caminho.
Furioso com o genro, com o mar e com os deuses, os maiores culpados do desastre, Dario decidiu ir ele próprio sovar os gregos, logo que nova esquadra e novo exército estivessem prontos. Enquanto isso, mandou mensageiros com intimação a todas as cidades gregas para lhe mandarem um punhado de terra e um pouco d'água como sinal de que se rendiam sem luta.
Tão forte e poderoso era por esse tempo o rei persa que muitas cidades gregas se apressaram em mandar a terra e a água exigidas. Atenas e Esparta, porém, recusaram-se, apesar de serem umas pulguinhas comparadas ao vastíssimo império de Dario. Os atenienses agarraram o mensageiro persa e o meteram num poço, dizendo: "Aí tens terra e água". Os espartanos fizeram o mesmo.
– Esparta com certeza limitou-se a jogar o mensageiro no poço sem dizer coisa nenhuma, observou Narizinho. Isso é que seria uma resposta bem lacônica...
– Realmente, minha filha. A uma resposta dessa poderíamos chamar o cúmulo do laconismo, porque nem uma só palavra seria necessária – bastava o ato... Mas era isso o que Dario queria – os preparativos para a guerra foram intensificados. Fez ele construir grande número de trirremes.
– Que é trirreme, vovó?
– Uma embarcação de bom tamanho, movida de cada lado por três ordens de remo.
– Não entendo bem...
– Sim, três ordens de remos de casa lado – isto é, uma fileira de remos em cima, outra um pouco abaixo e a terceira ainda um pouco mais abaixo – e dona Benta desenhou uma trirreme.
– Pois é, continuou depois; os persas construíram 600 trirremes, que levavam, cada uma, 200 soldados, além dos remadores. O exército inteiro tinha – quantos homens, Pedrinho? Depressa, de cabeça...
– Doze mil! Respondeu o menino.
– Cento e vinte mil! emendou Narizinho, que era muito boa no cálculo rápido.
– Um milhão e duzentos milhinhos! gritou lá do fundo a boneca.
– É isso mesmo, Narizinho, disse dona Benta, fingindo não ter ouvido o cálculo da Emília. Cento e vinte mil homens foram embarcados e, como não houvesse tempestade durante a travessia, todos chegaram sem novidades às praias da Grécia.
– Em que ponto desembarcaram?
– Numa planície de nome Maratona, a dezoito quilômetros de Atenas. Assim que os atenienses souberam da chegada dos persas, trataram de avisar o povo de Esparta. Esparta ficava a 240 quilômetros de Atenas. Se fosse hoje, não seria nada essa distância. Hoje manda-se uma comunicação daqui à China em alguns segundos. Mas naquele tempo não havia telégrafo, nem telefone, nem trem, nem avião – nada rápido. E parece que em Atenas nem bons cavalos havia, porque num momento de tanta gravidade o meio usado para se comunicarem com Esparta foi um mensageiro a pé, de nome Feidípedes. Feidípedes correu a noite e o dia inteiros, sem parar sequer para comer – e no segundo dia chegava a Esparta.
Mas não lhe valeu correr tanto, porque os espartanos declararam que, como estavam na lua minguante, não podiam partir em socorro de Atenas; tinham de esperar pela lua cheia... Havia em Esparta essa superstição, como nós temos aqui a da sexta-feira e a do pé esquerdo e mil outras.
Os espartanos podiam esperar pela lua cheia porque estavam longe dos persas, mas os atenienses não podiam esperar nem um minuto – e marcharam contra eles. O exército ateniense compunha-se de apenas dez mil homens, comandados por Milcíades; contava ainda com mais mil homens de uma cidade vizinha, aliada a Atenas. Total: onze mil – ou menos de um para cada dez soldados persas.
– E aposto que os gregos vão vencer, disse Pedrinho. Quando os contadores de história começam com esses cálculos, é para preparar uma surpresa...
Dona Benta riu-se da finura do neto.
– Pode ser, disse ela, mas note, Pedrinho, que os gregos eram atletas admiráveis, como não havia outros no mundo, de modo que o número de persas não significava grande coisa. O resultado foi a derrota completa de Dario em Maratona. Note ainda que os gregos estavam lutando pela própria vida, e coisa nenhuma dá mais coragem aos homens do que isso. Não sabem a história do cão e da lebre?
Ninguém sabia.
– Um cão perseguiu uma lebre sem poder alcançá-la. Os outros caçoaram dele. "Esperem lá", disse o cão. "Eu estava correndo por esporte, mas a lebre correu para salvar a vida. Era natural que ganhasse".
– E que aconteceu depois aos gregos, vovó?
– Aconteceu que os gregos ficaram numa grande alegria. Feidípedes, o mensageiro que levara o aviso a Esparta e também se batera em Maratona, logo depois da batalha partiu de carreira para Atenas afim de dar a grande notícia. Mas ainda não estava refeito do grande esforço da primeira corrida, de modo que ao alcançar a praça do Mercado deu a boa nova e caiu morto.
Em honra a esse herói foi instituída nos Jogos Olímpicos uma carreira com o nome de Maratona, na qual a distância a correr era exatamente a distância entre Atenas e Maratona.
– Em que ano foi isso, vovó?
– No ano de 490 a.C. A batalha de Maratona tornou-se a mais famosa da História. O rei persa teve de voltar para o seu reino, surrado e envergonhado. Mas a coisa não parou aí. O jogo ia continuar.

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)