segunda-feira, 15 de julho de 2019

Onde as garças são mais brancas (Crítica), de Sylvio Floreal



Onde as garças são mais brancas

Depois do êxtase produzido pela música e dos momentos de alegria espiritual provocados pela meditação, é possível poder-se afirmar que nada consegue evocar um pensamento de paz e harmonia, quanto aquele que nos proporciona um bando de garças em revoada. Oh! Delírios de brancura! É uma sinfonia de alvas irisações resvalando pelo mistério das canduras! É todo um poema latescente de penas mimosas e asas estouvadas que se agitam nervosamente na freima irregular dos adejos, pela região cariciosa do azul, como se essas gentis filhas das águas e das nuvens, ufanas da própria maravilha, investidas do direito de se igualarem às brancuras das camélias, na ânsia de espalhar a beleza, levassem nos seus voos para o céu, todos os sonhos de pureza da terra.

E ante as suas asas que se arqueiam e recurvam pelo espaço em fora, tem-se a visão das coisas alcandoradas que se confundem no horizonte do sublime. Isto quando se tem a ventura máxima de ver os grandiosos bandos de garças de Mato Grosso, onde esses sutis voláteis, são dotados de tal brancura, que até parecem abusar do direito de ser brancos; direito esse que nos induz a crer que as garças nestas plagas, são, de fato, mais brancas do que as suas irmãs de brancura de outras regiões e paragens.

Nas margens dos rios São Lourenço e Cuiabá, além da fértil colônia dos jacarés e da prolífera família das capivaras que calculadamente assentaram o firme propósito de não saírem mais da orla hospitaleira desses rios, nem mesmo à bala, há, depois das garças, que constituem uma espécie de alma das águas, atuando como um domínio branco, dilatado até as raias de uma tirania suave, feita de asas frufrulejantes, também um formidável número de outras aves, aí agremiadas, entregues à disputa reiterada dos ariscos e reverberantes peixes. E essa agremiação matizada e barulhenta, que se açula ao encalço da presa, entre gritos, grasnados, e cicios siflantes, é composta de teimosos biguás, insolentes baguaris, calculistas anhumas, irrequietas arranquãs, espertos tuiuiús, ariscos colhereiros rosados, gaivotas ingênuas, solertes mutuns e de uma infinita variedade de patos que, juntamente com os persistentes martins pescadores e outras aves aquáticas, de menor importância, vivem em pé de guerra contra os pobres peixinhos que caem na patetice de vir à tona da água.

E a lida pela existência nessas frescas regiões, segue a sua marcha sinuosa, em que os mais fortes e bem aparelhados, conseguem vencer galhardamente, nessa eterna luta dos aptos contra os ineptos.

E todas essas aves munidas de violentas garras e bicos vorazes, pescam nos rios Cuiabá e São Lourenço, em todas as suas horas de fome, e depois vão sestear à sombra das árvores frondosas dos vastos pantanais que se debruçam sobre a caudal desses dois rios.

O pantanal, nas margens dos rios Cuiabá, S. Lourenço e Paraguai, é uma espécie de grandiosa floresta lacustre, formada pelas águas que em determinadas épocas do ano, avolumam-se tanto, que entendem de invadir as sombras das matas. É a tragédia das enchentes, em que essa região denominada pantanal, numa extensão calculadamente de uns oitocentos quilômetros, toma, assim, o aspecto de um oceano improvisado. É um espetáculo surpreendente que evoca, em miniatura, uma contrafação, uma paródia daquele lendário dilúvio que nos relata a Bíblia. E durante os meses em que as águas, abusando do direito de correr, se alastram pelo seio intérmino da floresta secular, causando aflições aos que vivem por essas localidades e alegria aos que navegam pelos rios, livres do tormento dos baixios, o pantanal é um mar pontilhado de árvores que protestam contra o abuso dessas periódicas invasões. Porém, esse protesto não tem produzido efeito nenhum, porque as árvores aparentam a resignada atitude de quem teve, por força das circunstâncias, de adaptar-se ao direito do mais forte. Fenômeno paradoxal! O mais forte, em vez de ser a floresta com o seu vigor e espessura, é justamente a água, com toda a sua moleza e transparência.

Depois de um longo período de incursões pelo domínio sombrio das matas, as águas vão lentamente procurando o leito dos rios. Mas, o pantanal, pelas irregularidades do seu terreno, parece que aprisiona, para as futuras sedes das suas jornadas de seca, uma certa quantidade de água que se transforma em lago, lago esse que por sua vez também se constitui em viveiros de garças. E o pantanal, com seus infinitos lagos de águas vítreas, alguns das regiões arenosas, e de águas turvas dos lugares de terras que se transformam em lamaçais periódicos devido à periódica visita das águas, é uma vasta canaã de aves aquáticas de todos os tamanhos e feitios e é também a charneca da promissão das aluviões de garças, que, debruçadas sobre o espelho silencioso dos lagos, parecem florações maravilhosas, brotadas do reino das alvuras quando paradas a debruar a margem dessas águas aprisionadas, de marcos brancos como essência de neve. E quando cruzam a superfície dos lagos, parecem flocos de algodão, caprichosamente triangulados, dotados de vibração vital. E surpreendendo-as nos mistérios seios da região dos banhados, ora em atitudes hieráticas, ora tatalando as asas, alongando o simpático pescoço e distendendo as magríssimas pernas, parecem-nos muito mais brancas, como de costume o são outras garças. São como que um prolongamento do espírito bom das águas, que, dessa forma se penitenciam dos momentos negros e sinistros que infundem a essa zona, transformando-a em pantanal. E essa penitência, como uma desforra dos males causados, está toda ela concentrada na brancura das garças que representam, assim, o arrependimento das águas perante o espírito da floresta.

Oh! Como são lindas as garças do pantanal de Mato Grosso! E como se tornam encantadoras as mulheres quando trazem, na cabeça, ao lado de um pensamento cor de rosa de candura e beleza, uma aigrette tremulante e espiritual, arrancada da asa doida de uma daquelas garças.

Oh! Sonhos de elegância! Oh! Visões de luxo!

Vendo a maravilha sem par das garças do pantanal, é que se pode avaliar o quanto as mulheres devem amar essas aves que vivem unicamente para criar penas que toucam, garridecem e enfeitiçam as cabeças femininas!

Deus, ao povoar o pantanal de garças, é possível que tivesse fixa na lembrança, a ideia de proteger com a graça e homenagear com a bondade, as representantes máximas de sua beleza na terra — as mulheres!

Sim, Deus nunca se esquece das mulheres.


Rio Cuiabá, 11 de Outubro de 1926.

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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

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