domingo, 19 de janeiro de 2020

Poesia de Luís Delfino ("Atlante Esmagado")


LÁGRIMA MAIOR QUE O MAR

O mar!... o mar!... o mar!...a arena das procelas,
Onde o tufão sacode as rábidas lufadas,
Onde o raio revolve as eternas querelas,
Onde respondem logo as vagas convulsadas,
Onde as asas se veem das grandes brancas velas
Voar, como de uma ave as penas arrancadas.

O mar!... o mar!... o mar!... a lágrima profunda
Caída pelos céus dos cílios do infinito,
Que dois terços da terra abraça, aperta, inunda
Com seu tremendo, rouco e impetuoso grito;
Lágrima enorme, amarga, irrequieta, iracunda,
Dentro de um vaso de montanhas de granito.

O mar! quem o não ama? o mar! quem o não teme?
Quando sacode a juba inflamada e vermelha,
Quando o seu dorso salta, encurva-se, e refreme
Retalhado a farpões de rúbida centelha,
Quando se lança após do furacão, que geme,
E a luta colossal da Águia e do Leão semelha...

Cobre-lhe o peito e a espádua azul, como mortalha,
Toda a espuma da boca horrenda escancarada:
Uma risada atroz, histérica, farfalha
Na verruga de um seixo aos ombros agarrada:
Aquela água está sempre a renovar batalha:
Quer a pugna sem fim; nunca está descansada.

De um deus irado, um deus vencido e em desespero
Caiu um olho e toda aquela água sombria
Na sabulosa face a arder do mundo inteiro,
Antes dela encontrar seu leito de agonia;
E inda convulsa vivo o olho do guerreiro,
Como que irado contra o deus que o arrancaria.

Mas esse mar imenso, esse mar que domina
De um polo a outro, e a terra enleia nos seus braços:
Esse mar, que soluça aos pés de uma colina,
E arremessa-se aos sóis, e atira-se aos espaços,
Que declinar vê tudo, e que jamais declina,
Que aos Impérios dá vida, e engole-os aos pedaços:

Esse mar que recorda um longo sofrimento,
Dos bulcões lacerado, assim como um precito,
Dos deuses fulminado, açoitado do vento,
Maldito pela dor, pelas trevas maldito,
Cabe em terra, onde esconde a lágrima e o tormento.
E a minha? a minha só conter pode o infinito!



A ALCOVA

A sua casa é como escrínio rutilante
De joia de valor:
É, como em grande bosque, um pássaro gigante,
Onde se ouve cantar lá dentro a todo o instante
Um cântico de amor.

A sua casa branca é como oculto ninho
Dentro de um madrigal,
Na copa do arvoredo, à beira do caminho,
Onde, como um chuveiro, a voz de um passarinho
Cai sobre todo o val.

Sua casa é como um riso,
Não tem musgos de tristeza;
Adivinha-se a beleza
Aí no seu pedestal;
As trepadeiras, que enlaçam
De sua alcova a janela,
Não sei que espreitam por ela...
Mas vê-las, me fazem mal.

Oh! pudera eu subir, como elas, desatados
Meus braços estender,
Para vê-la dormir no leito sem cuidados,
E as asas brancas ver dos anjos desvairados
A alcova toda encher.

Ir de pé ante pé, e contemplar seu rosto.
Ver ainda em botão
Dos seus lábios sair um sorriso composto
Dos sonhos da inocência, e perfumes de agosto,
E rosais de verão.

Foi uma vez uma estrela,
No puro azul cintilava,
Coroada de ouro ela entrava
Por sua alcova: — tremi!
Eu erguia as mãos convulsas,
E embalde ao céu as erguia!
Foi uma noite de orgia!...
Ambas beijavam-se: eu vi.

Oh! poder que eu pudesse! O mundo atravessara,
Como quem entra o céu,
Para vê-la de pé, como uma deusa em ara,
Da alâmpada ao clarão, em cujo meio para,
Como deusa em troféu.

Ver cada estrela, que lhe entra pela vidraça
Devagar... devagar:
Cada estrela que vem, cada estrela que passa,
E nos bracinhos de ouro a aperta, a cerca, a enlaça,
Sem fazê-la acordar.

Surgia a aurora: entre os dedos
Alvas rosas desfolhava,
E as loucas brisas soltava
Dos arregaços do véu:
No peitoril da janela
Vi pousar um passarinho:
— Ave, segue teu caminho...
Vai teu caminho do céu.

Não venhas perturbar-lhe o sono, ó linda aurora,
Não a despertes, sol:
Tuas lágrimas de ouro ela as merece: — chora!
Não perto dela, não: lamenta-te lá fora:
Não sobre o seu lençol. —

Ela está no seu leito ainda seminua;
Desnus os pés gentis,
Dobrada sobre si, como encurvada lua
De nuvem negra à beira: a coma lhe flutua
Às espáduas de lis.

Ah! se te ergueras! no meio
De tua cheirosa alcova,
Vira-te acaso Canova,
Marmórea estátua gentil,
— Paros com vida, — decerto
Num brusco assomo quebrara
Quanta estátua ele rolara
De cima do seu buril.

Ei-la: acordou enfim: a brisa que cicia
Cheirosa dos vergéis,
O sol, que lhe enche as mãos de pérolas do dia.
O prazer, que gorjeia endechas de alegria,
Tudo beija os seus pés.

Tudo nela alvorou: tudo enfim se levanta,
Com ela tudo riu...
Com ela tudo riu, com ela tudo canta,
E ela chega à janela, assim como uma santa,
Que do nicho saiu;

Ei-la! chegou à janela
No meio das trepadeiras:
A toda flor, sim! tu cheiras:
Cheiras, sim! a toda flor:
Da moldura, que te envolve,
Tu aproveitas o ensejo,
Para dar à boca o beijo
De tudo que sente amor.

Nova estrela a surgir no vasto azul profundo,
Nova constelação
Pregada em novo céu, cobrindo um novo mundo;
Uma pérola nova arrancada do fundo
De um mar em ignição;

Não alvoroça tanto, e não surpreende um grito
De espanto e de terror,
Como ao que teve acaso em ti seus olhos fito,
Como ao que viu nos teus a imagem do infinito,
No infinito do amor.

De tarde, quando o sol volta,
E para o mar se debruça,
A tua fronte soluça,
O teu olhar sombras tem;
Mas o sol, que leva o dia,
Não carrega os teus encantos:
Por que te salpicam prantos,
Como orvalhos à cecém?

Ó deusa, essa tristeza eleva-te num plinto:
É mesmo o teu altar: —
Dela o teu pensamento ir para azuis eu sinto,
Dela se erguem teus pés sobre este labirinto:
O pensar é chorar...

Eis porque vejo em ti mais que a mulher querida,
Mais que o meu sonho quer:
Tu és a fé, que crê; — o sábio, que duvida:
Tu és todo o luzir e todo o horror da vida:
Amo-te assim, mulher.


IDIOTA?

Saí de casa triste e em desalinho,
A alma inquieta e turva, o olhar sombrio;
E, como sai de um bosque escuro um rio,
Fui, levando as imagens do caminho.

Anda em vaivém, na faina, muita gente:
Abre um e outro com força uma janela;
E eu vou, na direção da casa dela,
Morno, alheado, absorto, inconsciente.

Passa em farrapos um rapaz robusto,
Retalhando uma música divina,
O sol festeja-o, ri-se, e o ilumina,
Como a um anjo em frontão de templo augusto.

Dança um macaco aos sons de um realejo;
Tocam um piano, em cima, num sobrado;
Um cavaleiro, a trote acelerado
Corre; as pedras faíscam num lampejo.

Andemos — Eis o oceano em maré cheia!
Como cintila essa esmeralda imensa!
Ninguém sorri melhor, murmura e pensa,
Quando lambe o estendal da branca areia.

Pensa, medita, e ri-se, e aquele riso
De tigre se desfolha em branca espuma,
E enrosca as vagas todas uma a uma,
Como a cobra falaz do paraíso.

Parece riso cínico o que vejo
Nessa cintilação do mar sereno;
Bebo irritante, aspérrimo veneno
Na ironia do seu tépido beijo.

Um grande barco vai soprando o fumo
Pela ardósia do mar azul e inquieto;
E num novelo artístico e correto
Está o vapor o céu subindo a prumo.

Aquela quietação tira-me a calma;
E esse zunzum das rodas volteando
Parece em mim arremessar, zombando,
Todo o seu estridor dentro em minha alma.

É belo o céu, lavado e deslumbrante,
Úmido, largo, imenso e luminoso;
0 sol no centro em trêmulo repouso,
Como num aro lúcido diamante.

Oh! se o céu fosse menos azulado!
Se uma nuvem cobrisse o sol agora!
Não sei por que minha alma geme e chora,
E só ouço risadas ao meu lado!...

Algumas flores, que estou vendo abertas,
Nos jardins, que há em frente a algumas casas,
No mesmo lume, ó céu, em que te abrasas,
Unem-se, como em solidões desertas.

E eu que as vira até ali tão pudibundas!
Que as brancuras do lírio amava tanto!
A ninguém sabem já ter dó no pranto,
Quando de luz e amor, sol, as inundas!

Hei de chegar assim a passo lento
Até a sua habitação querida,
Tudo cheio de luz, de amor, de vida,
E eu só com meu sombrio pensamento!

E eu só com esta noite de tristeza
Ante a galhofa e o rir, e o amor de tudo;
E vendo bronco, curvo, opaco, mudo,
Vestida em festa, (insana!) a natureza...

Porque ela sabe por quem vivo todo,
E por que dentro em mim há noite escura:
Porque lá dentro anima-se e fulgura
A estrela das visões de um pobre doido.

Por isso tudo mostra essa ironia...
Zombam... até que junto dela chego:
Mas se o olhar meu profundo, doce e meigo
Não lhe diz meu amor, quem lhe diria?

Chego: aperta-me a mão alegremente:
Ri-se, graceja, fala, canta, voa,
(Crê-se, se anda), é chã, é meiga, é boa:
Mas o amor, que lhe tenho, ela o não sente.

Por isso ri-se: e nisso anda o gracejo,
Que eu vejo e sinto em toda a natureza:
Ó minha funda noite de tristeza,
Só pode ela apagar-te à luz de um beijo.

O amor agita o céu, a terra, o inferno.
O amor vive num sol, num grão, num brilho;
E eu que apenas do amor também sou filho,
Vivo e morro de amor, ó Deus eterno.

O amor prende-se a tudo, em tudo brota,
Num musgo, numa célula, num ninho:
Estou louco de amor, mas não sozinho!
Será que o amor foi sempre um deus idiota?!...



UMA MISÉRIA POR UM ASTRO

Andas nesta miséria luminosa,
Alma cheia de luz e vagabunda;
Busca-te a vida e a flor, e o sol te inunda,
E renegas do sol, do céu, da flor:
Vives na sombra das florestas virgens:
Vais às cidades; nada te consola:
Teu pobre coração mendiga a esmola
De uma miséria: anda a pedir amor...

O Gênio diz: — toma esta pena; — escreve,
Farás um livro como Dante e Homero: —
E tu respondes: — para mim não quero. —
Um anjo diz: — de um astro vais dispor;
Dominarás tu só um vasto mundo;
Vem: sobe às minhas asas rutilantes: —
E tu respondes triste, como dantes:
—Só quero uma miséria: esmolo o amor...—

O céu te oferece azuis e a vida encantos;
O mundo a arena do combate e a glória;
A pátria em branco a esplendorosa história,
Em que há de os fastos do teu nome expor:
Rasgam-te os seios dilatadas veigas,
Onde aspiras perfumes do Oriente:
Dizes-lhes só, alheado e descontente:
— Eu quero pouco — esta miséria,— o amor... —

Dão-te a mulher, que em mocidade esplende,
A carne branca, lisa e cetinosa,
Onde à neve e aos jasmins se mescla a rosa,
Mármore quente, vivo, encantador...
O anjo do Prazer te diz: — venceste:
Manda-te Deus o amor na mulher linda...
Gemes exausto: — não venci ainda!
Se podem, deem-me esta miséria, o amor... —

Sóis da vida, ambições, prazeres, glória,
Teu coração é pobre, e rude, é tosco,
Não quer, não pode carregar convosco,
Mundos cheios de vida e de fulgor:
Há na sombra de um vale um lírio branco,
Que tens em mais que estrela peregrina:
Dê-te essa esmola a sua mão divina...
Mas... quem ta der, dar-te-á teu céu de amor!



NÊNIA DE UM LOUCO

— Donde vem essa barca auribordada,
Como entre flores peregrino altar,
Por briosos cavalos arrancada?
Espumam, como quando corre o mar.
Quem vem nela? A que terras é levada?
Em que oceano profundo a irão lançar?
Sobre que areias brancas e macias
Vai ver rolar o ouro dos seus dias?
Mas... por que tantas faces vão sombrias?
Que tormenta elas veem no céu pairar?

Cobriram-na de belas coroas: creio
Que isto só podem ter os imortais!
É pois uma heroína em seu passeio,
Que dentro dessa barca azul levais?
Não são seus louros em batalhas ganhos,
Não são seus feitos tantos e tamanhos,
Que estão pedindo estemas triunfais?
Qual vai ser seu destino? e donde veio?
Mas... vós levais intumescido o seio:
Deveis rir, indo à festa: e vós chorais? —

Isto apenas o louco murmurava:
Depois como o acordando de um letargo,
Ria-se; e era o seu riso tão amargo,
Que era melhor chorar; e não chorava.

— O sol, que cai por mar a dentro, volta:
Hão de vê-lo amanhã pelo horizonte;
E ela não surgirá sobre algum monte:
Levou-a de uma vez, quem a levou.
E há quem suspenda a pérola marinha,
Quem ache um mundo em incógnito oceano,
Basta-lhe um tronco e em cima dele um pano;
E há quem encontre a estrela que buscou!

Cantava, como o azul profundo canta,
Cantava, quando a primavera ria,
Como canta a cigarra à luz do dia.
E inda ao luar em noites de verão:
Essa mulher era a canção eterna;
Cantava, como canta toda aurora:
Não sei se alguém, que a viu, e a amou, a chora:
Eu? Chorar? Para quê? — Chorava em vão.
Tivera-a um dia, acaso entre os meus braços,
Como pomba a fremir presa a dois laços,
Ai! de prazer eu choraria então... —

Parecendo perder a razão toda,
Dizia o louco: — Eu vim também à boda... —

E logo viu abrir as férreas grades
De um jardim grande e muito povo entrar:
Lá dentro anjos de pé, rosais em bando
Sobre estátuas de mármore trepando,
E rotundas e a cruz de quando em quando.

E a toda a gente andava a perguntar:
— Se lá na extrema se estendia o mar?... —

Moviam-se os ciprestes, meneando
Lugubremente as frondes devagar,
Mais devagar as frondes levantando...
Dois pássaros cantando em desafio
Na ramaria agora, agora no ar,
Metiam mais um lento calafrio
Na tristeza indizível do lugar.

E o louco: — Sinto o odor de algas da praia:
E vem do fundo deste campo um ruído,
Como de um mar por brisas revolvido,
Antes que o Sul mais forte à noite caia:
Agora a vaga raiva e se ergue, e apruma,
Trepando em vão a bronca penedia,
E numa rapidíssima agonia,
Há de cair em turbilhões de espuma. —

E então tornava o louco a perguntar:
— Se lá na extrema se estendia o mar?...
A praia é branca? Há conchas de ouro nela?
O alvo tapete de mimosa areia
Jamais poluiu de mortos a procela:
Olhem: quando Ela sobre o chão passeia,
O chão canta, o chão ri, o chão gorjeia,
O chão... parece que Ela o diviniza;
Cintila, como um céu, o chão que pisa,
Em cada grão de pedra um, sol ateia... —

Quando voltava o povo, a dor no rosto,
Limpando o pó dos pés e o suor da fronte,
O dia se afundava no horizonte,
Erguia-se o luar do lado oposto:
O louco era mais pálido somente,
Como folha por cima da corrente,
Trêmulo, e frio, — e desvairado o olhar,
Sentado à pedra do degrau da porta,
Dizendo a todos: — Estaria morta?
Por que a deixam na barca e só no mar?... —



UM CONTO DE BAUDELAIRE

Eram dois jovens, cada qual mais belo:
Um tinha na alma o inferno derretido,
Noutro havia nos olhos buliçosos
A noite, e um céu de estrelas suspendido.

Contudo parecia que brincava
Neles a graça da estação das rosas:
Ria-se o moço tanto!... e traz a moça
Tanto prazer nas formas descuidosas!...

Iam num carro: era do Rohe... lindíssimo!...
Os cavalos do Cabo, e o cocheiro,
Um mulato brunido ao sol dos trópicos,
Crendo esmagar aos pés o mundo Inteiro.

— Para onde iremos? À Lagoa? À Gávea?
A Andaraí? Ao Prado? Hoje há corridas:
Dize. — Para ir contigo a toda parte,
Quisera ter e repartir mil vidas.

— Nada: nem Prado, nem o resto... quero
Um dos prazeres que aos demais prefiro.
—Manda o cocheiro, — diz o esposo; e a esposa
Diz ao cocheiro: — Em direção ao Tiro.

Sai da boca da moça um céu de estrelas,
Quando o lábio sorri, ou mexe ou fala,
E das roupas de seda roçagante
Todo o perfume a primavera exala.

De umas rendas alvíssimas desponta
Em cuidado abandono um pé mimoso,
Raio de luz, que leva ao sol de um Éden...
Fresta do céu... e mais dizer não ouso...

Chegam. — Erra o marido o alvo: os tiros
Multiplica, mas nada. — A linda esposa
Ri-se, galhofa, zomba do desazo,
E às amigas não fala de outra coisa.

Já chameja-lhe o rosto afogueado
E à sombra das espessas sobrancelhas,
Como dois astros, que orlam duas nuvens,
Chispam seus olhos lúbricas centelhas.

Não erra nunca, ou poucas vezes. — Olham-na
Com amoroso quebro os jovens. — Ela
Olha-os também assim: julga que o pode:
Sabe que é moça, e muito mais... que é bela.

Talvez somente desagrade ao esposo
A mimosa e ligeira travessura...
Há tanta gaza sobre os mimos dela!...
Mescla tal pejo na sutil soltura!...

Mas quem pudera não tremer, notando
Aquele andar felino, e a macieza
Daquele olhar tão lânguido, que corta
Como aço de Milão ou de Veneza!...

— Voltaremos, diz ela, sem ao menos
Dares no alvo uma vez? de novo ensaia: —
Riu-se: não tem o mar mais alvas conchas,
Quando a onda arregaça e mostra a praia.

Estava ali perto uma marmórea estátua;
Era Diana. — O esposo num sorriso
Envolvendo a mulher, lhe diz: — Finjamos,
Que aquela estátua és tu, meu paraíso.

Vamos pois ver se agora inda erro o alvo!
Olha pra ali, rainha invicta e ufana.
Parte o tiro; — feriu; — esboroada,
Cai por terra a cabeça da Diana.

— Beijo-te os pés, divina criatura, —
Diz-lhe, — e desata um rápido suspiro, —
Só tu, anjo de amor, podias dar-me
Firmeza à mão... e tal certeza ao tiro.



COMO SE VÊ NA AUSÊNCIA

De ver-te, pois, sabe disto,
Não perco nenhum ensejo,
Que te vejo, e que te hei visto,
Mesmo quando não te vejo.

Sou como um cego, e perdido
Na densa treva, em que luto,
Em cada rumor escuto
O ranger do teu vestido.

Em cada pedra que piso,
Levanto a fronte aos espaços,
E ouço o bater dos teus passos,
E a tua sombra diviso.

Se o vento os perfumes toma
Dos jardins, onde transito,
É do teu quarto o esquisito,
O doce, o suave aroma.

Se a brisa o ruído exala
Das asas de vozes cheias,
Ouço as frases que gorjeias,
Quando a tua boca fala.

Se alguém ri, ouço o teu riso:
Nele cantar o céu ouço
Num auroral alvoroço
No seio de um paraíso.

Se palpo a tez melindrosa
De uma criança, decerto
És tu, que estás ali perto...
Foi tua mão cetinosa.

No dia em que te não vejo,
Ando a ver-te em toda parte,
Dá-me amor luz para olhar-te,
Corta a distância o desejo.

Não tenho fome, se penso
No meio de densa treva,
Que me surges, como Eva
Ao sol de um Éden imenso.

Nem tenho sede, se creio
Beber em jarra de prata
Todo o leite, e toda a nata,
Que há na pele do teu seio.

Não durmo, nem tenho sono
Se creio ver-te suspensa,
Como rainha num trono,
Na turba, que se condensa.

Vê que sinto, ao ter-te perto,
Ouvindo mesmo os teus passos!
Quando te enleio em meus braços,
É todo o céu que eu aperto...



A SOMBRA DE SUA MÃO

Saí de sua alcova a passo lento e morno,
Onde a deixei velando
A irmãzinha doente: olhei depois em torno,
O dia ia baixando:

O corredor escuso em meia sombra estava,
No fim descia a escada:
Na minha mão direita a mão dela eu levava
Ligeira e delicada;

A sombra da mão dela, a sombra fugitiva.
Porque eu sentia ainda
Roçar-me a sua mão quente, trêmula, viva,
A sua mão tão linda,

A sua mão tão branca, a sua mão macia,
Suave e cetinosa,
Com unhas cor da aurora e luz do meio dia
Nas hastes cor de rosa.

Quando só me senti, levei à boca ardente
A minha mão gelada,
E aí de sua mão beijei profundamente
A sombra perfumada...



ELA CHORANDO

I saw thee weep.

Byron — Hebrew Melodies

Sabei, astros gentis, sabei, lindas auroras,
Sabei que ELA chorou!
Ó dor, pois ao teu dente agudo, em poucas horas,
Seu mármore estalou?

Dos longos cílios seus, secos a alguns instantes,
Vi pérolas rolar:
Eram seus olhos dois lagos cheios, brilhantes
No rosto a transbordar.

Tremiam-lhe, no choro, os beiços de criança:
Rubro o esbelto nariz,
Dava sombras de incêndio à face... Esta mudança
Em ti, fui eu que a fiz?

Porque ELA sabe que é assim inda mais bela,
Ou por orgulho enfim,
Foi com certo furor, ao vão de uma janela,
Chorar, longe de mim.

Mas se estendo meu braço aflito, e consolá-la
Procuro, foge... vai...
Que pode o argueiro contra o raio, quando estala,
Ziguezagueia e cai?

Logo depois voltou com rosto de viúva,
Seria, triste, porém:
Trazia, como um céu lavado pela chuva,
A face de cecém.

E vinha, como sai a aurora da orvalhada,
Das ondas o luar:
E vinha, como sai do lago, a haste inclinada.
A flor do nenúfar...

Eu, que adoro esta esfinge, eu, que amo este segredo,
Vendo-a um dia a chorar,
Fiquei, como quem fica olhando absorto e quedo,
A imensidão do mar.

Fiquei, como quem vê, quando ninguém o espera
O abismo aos pés, no chão...
O mármore partira, e tinha uma cratera,
E o pranto de um vulcão...

Oh! fui eu o Moisés que levantou a vara,
E o penedo tocou:
O penedo cedeu: a água arrebentara...
Essa mulher chorou!...

Estas lágrimas de hoje, as lágrimas choradas
Perder-se-iam no ar,
Como no céu da noite as estrelas douradas,
Que se ergueram do mar?

Não... não... — Eu as colhi, em meu amor envoltas,
Céu em pedaços... — não!...
Não se perderam, não; — aqui as tenho soltas
Dentro em meu coração

E a lágrima gentil, que cada cílio embala,
Choraria por mim?
Chorarias por mim, ó lágrima? Sim! fala:
Dize, ó lágrima: sim?...

Deuses, se ELA chorou por mim, eu desafio
Vosso eterno poder:
De vós, de vossos céus, de vossos mundos, — rio:
Não troco o meu prazer.

Ela chorou por mim!... Ó oceano, que choras,
Tormenta, que passou,
Sóis, que passais, sabei que a fiz chorar: auroras,
ELA por mim chorou!

Ser chorado por ELA!... Oh! quem já foi chorado
Assim com tanta dor?
Eu sou, ó Madalena, o Cristo consolado
Em lágrimas de amor.

Ó natureza, ó Deus, ó deuses; — Natureza,
Ó flanco maternal,
Que a lágrima produz, que produz a beleza,
Luz, que colora o vale,

Eu te agradeço o ter nascido do teu seio:
Eu sei o que é gozar:
De dentro dela mesmo a lágrima me veio,
Como o sol vem do mar.

Ó primavera, eu tenho em mim as tuas flores:
Ó sol, ó céu, ouvi:
ELA chorou por mim: deuses, das suas dores
O meu amor teci.

Eu sei que ELA me ama: — ama-me, eu sei agora...
Quando chega o arrebol,
É o grande cisne branco asas abrindo, e chora...
E a festa aí vem do sol.



PATAS DE TIGRE

Ah! se algum dia sentisse
A sombra de tua mão,
Como de ave, que fugisse,
Em meus cabelos — então

Pudera dizer-te: — Filha,
Morrer... pois agora.. sim!...
Que à sombra da mancenilha
Tem-se igual gozo e igual fim.

Mas... tua mão é um deserto
Sem cisterna, água, e palmar:
Crê-se isso tudo bem perto:
Anda se... e nada. É cansar.

Tuas duas mãos estão cheias
De mil carícias: pois bem,
O areal tem menos areias,
E menos tigres também...

Vós, ó tigres de Bengala;
Vós, jaguares de Ceilão,
Vossa pele não iguala
À pele de sua mão,

Halituosa, suave,
Macia, cheirando bem:
Mas... coisa muito mais grave!
E nem nas unhas. — Já veem?

Mas... filha, se queres, lança
As unhas de tua mão...
Anda, não sejas criança,
Mata-me. Eu peço-te em vão?

Eu quero sentir ao menos
A felina maciez
Desses dedinhos pequenos,
Pequenos tigres talvez.

Como estiletes buídos
Finca-os em meu coração:
E para uns restos partidos
Abre em teu colo um caixão,

E mete-os lá. — Depois disto,
Se vires que estou a arfar,
Um dos milagres de Cristo
Pudeste tu renovar...

Mas qual... Orgulho, esperteza
De um belo tigre real,
Que até desdenha da presa...
E até não quer fazer mal!...

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