domingo, 19 de janeiro de 2020

Poesias de Luiz Delfino (Atlante Esmagado)


ENIGMAS DA VIDA

Quantas vezes pressentimos
Um fato que se vai dar,
E que choramos, ou rimos,
Sem saber o que contar...

Um dia estava com ela...
Tão triste estava eu então,
Que me disse a virgem bela:
— Triste está? Por que razão?

Era uma dúvida, filha
Do meu entranhado amor:
Vinha duma maravilha...
Mas se assim é? se assim for?

Essa tristeza se exala
De mim, sem mesmo eu querer:
Ela então me disse: — fala;
De tudo eu quero saber...

Tu me pareces tão boa,
Mulher que eu amo: pois vá:
Não sei quem me não perdoa?
Só se tu és muito má.

Tenho um desejo... Quimera?
Porém quimera não é;
Tenho fé na primavera;
Nos teus olhos tenho fé.

Esse desejo... Mas temo!...
Loucura... enfim eu sei lá...
Dar-me-ia um gozo supremo...
Decerto tu não és má...

Deixa em pouco o olhar severo:
Zombarias? Também não;
Isto que eu quero, e não quero,
Só quer o meu coração.

Meu coração dissoluto,
Não está direito... não está:
Meu coração... eu reputo
Que o agita dúvida má...

Ou sou eu acaso um louco?
Acaso somos nós dois?
Ou cada qual é um pouco?
Qual deles mais louco é pois?

Põe de lado o olhar severo...
Em que estás pensando tu?
Que ele quer, e eu também quero
Ver todo o teu corpo nu?

É blasfêmia o que te peço?
É crime? mas crime assim?
Mas não é crime, eu confesso:
Não... não é crime isso em mim.

Olha, eu sonhei que tu tinhas
Nos ombros brancos, gentis,
Duas pequenas asinhas...
Por isso vê-las eu quis.

Meu coração, que suspeita!
Eu suspeitava também!...
Aceita a dúvida... aceita:
Quem ver não deseja? Quem?

Despir-te um pouco é preciso,
Olhar-te, ver quem tu és...
Vi... Tu és do paraíso:
Mulher, já estou aos teus pés.

Que ganho agora, anjo austero,
Em ver-te as asas reais?
Não fiques nua, não quero...
Não quero ver nada mais.

O coração suspeitava...
Duvidava o coração...
Só eu é quem certo estava,
Que mulher não eras, não.

Tem teu noivo o paraíso:
Tens asas: o céu te quer...
Bem me dizia o juízo,
Que tu não eras mulher...

Todos a choram agora...
Se morreu... por que a chorar?
Asas abriu, foi-se embora:
Era no céu o seu lar.

Toca o sino o campanário:
Está em festas a tanger?
Ou é toque funerário?
Quem à cova vai descer?

Todos a choram no entanto...
Ninguém mais sorri... ninguém...
Lavam-se os olhos em pranto:
À boca os soluços vêm.

Foi uma mulher amada;
Foi a mulher que eu amei...
Não foi mulher, não foi nada...
Foi só um anjo: — é que eu sei.

Toca o sino, dobra o sino,
Dobra o sino a funeral,
É do céu o peregrino,
Que nunca a ninguém fez mal.

Talvez a Virgem Maria,
As Virgens, tochas na mão,
A esperassem noite e dia,
Os astros em procissão...

***

Numa noite muito escura,
Alumiada a fuzis,
Foi que essa virgem tão pura,
Levá-la ao céu Deus o quis.

Ninguém viu as luminárias,
Nem ouviu canções ninguém:
Estas festas solitárias
Passam-se além... muito além

Lançava gritos o vento,
E a chuva torrencial
Chorava a todo o momento
Alto... baixo... desigual...

No outro dia pomba morta
Por sobre o altar encontrou
Sacristão, que abriu a porta:
À igreja: quem a levou?

Não há pombas por tão perto:
E nunca pombal se viu
Naqueles sítios: decerto
Do céu a pomba caiu!...

Nossa Senhora das dores
Tinha uma lágrima a mais
Dos olhos entre os rubores­
E as velas dos castiçais

Estavam todas consumidas:
Arderam de noite a sós?
Por quem foram acendidas?
Quando saiu dentre nós

O anjo que o povo amava,
Por quem o povo chorou,
O anjo que entre ele andava.
O anjo que Deus levou!...

Um grande mistério havia
Nessa morte que se deu,
Boa estava ela num dia,
No outro dia faleceu...

O jovem poeta contava
Essa triste morte assim...
E quase sempre chorava,
Quando ele chegava ao fim.

Mas seria isso verdade?
Ou verdade isso não é?
Tem sempre sinceridade
Que crê em Deus e tem fé...

***

Eu que guardei a memória
Do amargo fato, eu não sei:
Foi-me assim contada a história,
A história assim a contei.


A MÃO E A CONSCIÊNCIA

... Porque enfim tu lhe disseste
Que a curva da sua mão,
É como a curva celeste,
Onde há o raio e o trovão,

E o sol de dia, e de noite
Os belos astros gentis!
Há quem a tanto se afoite?
Isto a gente nunca diz.

É por isso que ela agora
Faz de tigre e de leão:
Diz-lhe que tem uma aurora
Em cada dedo da mão...

Diz-lhe que tem sol e lua,
E que Deus tudo isto fez
Por conhecer que a mão sua
Podia com mais talvez,

Com o mar, e o vento, e a procela,
Com tudo enfim, sim! senhor...
Só não podia a mão dela
Com o peso do teu amor...

... A consciência falava,
E eu, olhos fitos no chão,
Eu... só cismava... cismava...
Em como beijar-lhe a mão...



IANUA CAELI

Podes não ter um único sorriso,
Que se desprenda do teu lábio puro.
E, como um astro, que atravessa o escuro
Da noite, que me cerca, e cobre, e piso,

Vir até mim; eu creio: — isso que importa?
Também no chão prostrado, inda criança,
Rezava à Virgem, sem ter esperança
De vê-la menos santa e menos morta.

O órgão soava: de ouro e argentaria
Vestido o padre, o incenso lado a lado
Do altar lançava, em júbilo arroubado.
Tinha o seu porte lânguido maria.

Vinham beijar-lhe os pés meio encobertos
No seu manto estrelado, e as mãos delgadas
Sobre o sangue dos seus seios abertos,
Apertando por cima as sete espadas.

Rezava o povo a sua ladainha:
Chamavam-na de estrela matutina,
Torre ebúrnea, das Virgens a rainha,
Áurea porta do céu e Mãe Divina.

Batia o peito toda aquela gente:
A igreja tinha a arder milhões de velas,
Que todas refletiam brandamente
Na palidez de suas faces belas.

Em cada candelabro, em cada palma
As velas respondiam num som brando,
Todas cheias de lágrimas, chorando,
Como se elas tivessem também alma,

Como se a mesma fé as dominasse;
E a tristeza da luz em todo o templo,
Parecia estar dando aos fiéis o exemplo,
Espelhando a ima dor na dor da face.

Sobre o altar-mor à cruz pregado o Cristo;
O povo em prece enchendo toda a nave;
E do órgão a surda voz metia nisto
A nota excelsa, misteriosa e grave.

O incenso em rolo tinha no seu manto
A magia do espaço umbroso e augusto:
O céu nele descia a cada pranto,
Nele uma alma subia a cada susto.

E quem não teme o Deus que apaga o riso,
Que solta o vento, que enfurece o oceano,
Que, a qualquer falta nossa, ou erro, ou engano
Nos fecha para sempre o paraíso?

Que criou o lugar onde os precitos
Torcem-se em chamas e rangendo os dentes,
E ouvem passar a voz dos infinitos,
E a eternidade alegre dos contentes;

Onde lhes vem a música distante,
Como eco tênue de perene orgia;
E tudo quanto a escorço pintou Dante
É como sombra descorada e fria...

Tempos de fé: os corações tremiam
Convulsos de umas hórridas ideias,
E dos olhos as lágrimas caíam
Como a água de taças muito cheias.

Pediam-lhe perdão dos seus pecados,
Que ELA lhes desse a sombra de um sorriso,
E que depois de mortos e enterrados
Os levasse consigo ao paraíso.

Que há na terra que um crime enfim não seja?
Vai-se direito facilmente ao inferno:
Não há carinho humano e olhar mais terno
Que não mereça a maldição da Igreja.

E a Virgem não mudava a cor do gesto;
E, no meio do incenso, que a envolvia,
Todos nela esperavam, sem de resto
Saber nunca o que enfim Ela faria.

***

Do seu culto também eu tenho o zelo,
Minha esperança e único conforto;
E assim leva-me ao céu, depois de morto,
Se é que depois de morto eu posso tê-lo.

Também espero em ti: à tua planta
Todo o meu ser num longo beijo resta:
Embora faças como a Virgem Santa
Quando eu via rezar na sua festa.

Mas... pensa alguém que dúvidas oculto
Naquela fé ardente, viva, e pura,
Que deve ter a humilde criatura
Na Santa, origem do seu grande culto?

Se a outra não voltava a face linda,
Abrasada na luz em que me abraso,
Não pode esta voltar-me o rosto acaso,
Sendo melhor, sendo mais santa ainda?...



FRAQUEZA DE UM TITÃO

Ele dizia: — Pouco me custara,
O que deveras custa,
Forrar de pedras da calçada a cara,
Ter a ciência austera de Locusta,

Saber o modo de arranjar venenos
De alguma estranha planta,
Dá-los, num bródio, erguendo altar a Vênus,
Enquanto a orquestra os seus triunfos canta;

Sair desta baixeza e sobraçando
A cítara divina
De Homero, ver a esfera cristalina
Milhões de olhos de luz em mim fixando:

Erguer-me acima, aos ápices do solo,
De todo o vasto Oriente
Pisar a terra, conquistar a gente,
Leões montando, como o belo Apolo;

Lançar de fino mármore lustroso
E pórfiros um templo;
Ter de um vasto serralho o extremo gozo,
De Salomão seguindo o luxo e o exemplo;

Alargar Macedônia e o imenso império
Estender as estrelas,
Unindo à força indômita o mistério
De, em dourados grilhões, do céu trazê-las;

O teu amor ébria, eleva, anima:
Eu píncaros não acho
Em que não possa andar de pé por cima,
Vê-los inda de longe, e muito embaixo:

Porém não sei onde encontrar esforço,
Para dizer somente
O que tu sabes, todo o mundo sente,
Eu... sei lá... que aguentara os sóis no dorso...



TURBILHÃO DE ASAS

Fremem dentro de mim asas, mais asas,
Turbilhões mesmo de asas, como pode
Da terra erguer o vento, que sacode
Um pó da areia, quando tu me abrasas

Com teu olhar de chama aveludada,
Que me envolve em seus mundos luminosos,
Onde há promessas rútilas de gozos,
Sem que me dês, além de dor, mais nada...

Asas, asas, mil asas aos desejos,
Asas aos pés, aos ombros, à vontade:
Em que céus andarás, ó divindade,
A que não possam ir os meus adejos?

Oh! que eu morra na luz em que me abrasas!
Sinto que tudo em torno me abandona,
E que minha alma doida turbilhona
Em áurea poeira deslumbrante de asas.

Rasga-se o etéreo e lúcido caminho
Onde as pombas irmãs dormem arfando:
E sinto milhões de asas revoando
Para o sítio onde amor oculta o ninho.

Há um rio de neve no teu seio,
E há dois montes de leite ao lado, ó Eva!
É para aí que vou, e subo, e alteio,
E que este turbilhão de asas me leva...

Por estes céus é que me vou metendo...
Nesses montes talvez arfam, dormindo,
O casal de torcazes o mais lindo,
Que busco, um turbilhão de asas movendo...



INDÍCIOS

Pois no princípio me afligias muito;
Nem sabes tu o que sofri então:
Nunca, quando de ti me despedia,
Me apertavas a mão...

Como moedas de ouro acumuladas
Ia numa passando outra estação:
Tu me estendias sempre a mão nevada,
Não me apertando a mão.

Era apenas aquela cerimônia
Da mulher esmerada num salão:
Roçar de leve, quase a sombra apenas
Do esplendor de tua mão.

Hoje é outro o motivo e tens receio
Que eu sinta um certo enleio e confusão
Do prazer que terias se apertasses
Um pouco a minha mão.

Hoje eu morrera de desgosto e tédio...
Ai! não fora ventura extrema, não,
Se não me amasses mais, e te esquecesses
Apertando-me a mão.



TRIUNFADORA
(A C. G.)

Depois de ter recitado em cena.

O Legendário

Hão de as palmas cair de toda parte,
Há de sorrir-te a musa da harmonia,
E à luz do palco, então melhor que o dia,
— deusa nova da voz — hão de aclamar-te.

Dir-te-ei de longe, sem falar: — Coragem!
Esmaga a turba com teu pé, criança: —
E todos levarão na alma a lembrança
Da tua doce e rápida passagem.

Como na pira incendiado toro
De floresta de sândalos roubado,
Deixarás um aroma delicado,
Tal pelo céu a luz de um meteoro.

Mas foge como a estrela que fulgura,
E acende o céu um pouco só... mais nada:
Volta, ó pérola, à concha sossegada;
Só na sombra é que há saibos de ventura.

Bem sei que não há sombra em que se acoite
Quem tem em si do gênio o vivo lume,
Que a estrela brilha inda escondendo-a a noite,
E à noite exala a flor melhor perfume.

Os bravos ovações, auréolas, flores,
Os lauréis, nos triunfos populares,
Juncarão um só dia os teus altares,
Por muitos dias pálidos de cores.

Custa muita ilusão perdida a glória,
Muitas noites sem paz, sem sono e calma,
Para levar-se uma enfezada palma
Ao túmulo de ouro, sim, mas vão da história...



QUESTÕES

É noite. Os astros pelos céus profundos
Parecem doidas bocas a cantar;
E as vagas murmuravam docemente,
E ia por longe em frêmitos o mar...
E veio à praia o poeta, a fronte ardente,
Queixosa a voz e merencório o olhar,
E perguntou entre raivoso e triste,
E perguntou ao mar: — Tudo isto existe?
Mas por que existe? Diz, responde, ó mar!

Donde vim? Eu quem sou?... E desde quando
O homem se mostrou? Por que assim ando?
Para onde vou? E pelo azul além
Quem mora? — Quem por cima das estrelas
Paira e se esconde e à terra enfim não vem?
O enigma desta vida, o doloroso,
O velho, o grande enigma, sim, que tem
Que tantas frontes endoidece e queima,
Que para o haver a gente corre e teima:
E o não acha ninguém, ninguém, ninguém?

Os séculos pela boca dos profetas,
Pela ciência um dia o hão de encontrar?
Esta velha questão, que é sempre nova,
Vós me ides, vagas, já e já contar... —
E o céu cintila e as ondas murmurejam:
Como quem diz: — o pobre louco... vejam...
Sibila o vento, que faz rir o ar.
As estrelas parecem soletrar
Uma palavra vaga eternamente.
Tudo parece ao poeta inconsciente,
Frio, insensível, fórmula indiferente...
E o mar, que se levanta furioso,
Que um segredo talvez lhe vai contar,
Ruge, rebrama, cai, volta ao repoiso...
E o poeta espera que responda o mar!...

 

PARAÍSO PERDIDO

Deixaste-me às portas de ouro
Do Paraíso: — entreabriste
Uma fresta, e quando viste
Que na louca embriaguez
Eu já estava de entrá-lo,
Sem o mais ligeiro abalo
Me arremessaste um sorriso,
A chave que o paraíso
Logo mo cerrou de vez.

O raio, que nos fulmina,
O abismo, que nos devora,
Não tem o terror da aurora
Desse teu fulvo sorrir:
Luz nele havia, inundava
Campo vasto, árido, incerto
E fundo, como um deserto,
Em que deve andar bem perto
Com seus tesouros Ofir.

Galopei no teu sorriso
Como um hipógrifo em sonhos,
E por valados medonhos,
Hirtos, profundos, rolei:
E sem saber como hei ido,
Roto, esmagado, perdido
Por uns páramos infindos,
A luz dos teus olhos lindos
Por cima dos meus achei.

Ergui os braços, os joelhos
Vacilaram-me transidos:
Meus lábios mal desunidos
Murmurejaram: — perdão...
Tu, como o anjo do Éden,
Sem dar ouvido aos que pedem
Às portas do paraíso,
Conservando o teu sorriso,
Tu... tu... murmuraste: — não!...

Era um murmúrio tão baixo,
Como um bálsamo de vida
Com que se pensa a ferida,
Que sangra e não quer fechar:
Como um retalho de seda
Com que a pálpebra se enxuga:
Como um anjo, que na fuga
Do céu, procura a vereda
Que leva a escuso lugar.

Porém não pude ir mais longe:
Estendendo o dedo e o braço,
Mostraste-me além o espaço:
Sentei-me e fiz que não vi:
Sentei-me à porta, caindo;
E ali quis ficar, ouvindo
Essa música distante:
E tu gritaste: — adiante...
Ergui-me, chorei, parti...

Recordo. — Bastou somente
Para fechar-me o paraíso,
Arregaçar-te um sorriso
Da boca os rubros corais:
Calmo sorriso, deserto
Cheio de luz, que devora:
Caminha-se; e a cada hora:
É um oásis agora?
É deserto e nada mais.

Deixei atrás as areias:
Adiante areias ainda;
E tua figura linda
Sempre... sempre a andar em mim!...
E tu serás como um sonho,
Que em todos os sítios ponho,
Feito só de meu desejo:
Eu te vejo, eu te não vejo...
Deserto, não terás fim?

Hei de andar, alma erradia,
Sem prazer, e sem conforto,
Frio, como um corpo morto,
Deixado à beira do mar,
Vendo as ondas uma e uma
Lançar o soluço e a espuma...
Saber que o mar não descansa,
Que lhe morreu a esperança,
Porém não a de chorar.

Sempre uma mulher formosa,
Que nos meus sonhos eu traço:
Sempre uma sombra no espaço,
Sempre uma porta a se abrir:
Sempre um Éden, que desenho...
A que portas bater venho?
As portas, onde estão elas?
Entre as estrelas mais belas
Sempre a visão a fugir!...

Ah! se eu te encontro algum dia!
Se o mistério se descerra!...
Se eu te levanto da terra,
Em que altar te hei de eu pôr?
Em cima de que montanha,
Tão verdejante, tamanha,
Terás meu culto, querida?
Em cima de minha vida,
Em cima de meu amor.

E não terei outra sorte,
Não espero outro destino;
O bordão do peregrino
Será meu arrimo pois:
Eu terei no meu caminho
Sempre uma árvore sem ninho,
Sempre uma noite medonha,
Sem saber onde os pés ponha...
Sempre ais e vento entre os dois...

Sim! sempre a de ir contra as rochas
Bater, e gemer somente:
Ficar convencido e crente
Que não há mais a fazer...
Sim!... ficarei prisioneiro
Em torno do mundo inteiro...
Perdi tudo!... Com efeito
O coração no meu peito
Ficou de amor a morrer,

Como um monte na invernia,
Tronco sem folhas e flores,
Noite empolgada de horrores,
Onde cantam temporais:
Como o rochedo indiferente,
Como o rio sem corrente,
Como praia sem lamento
De mar, de vaga, de vento...
Onde há só morte, e não ais...

Relincha, meu hipógrifo,
Bate as asas pelos ares;
Sacode bem os pesares;
Nelas há bem desse pó:
Quando em ti eu for montado,
Tu levas um desgraçado,
Sonhando... sempre sonhando...
Tu levas um miserando,
Tu levas um triste só.

Onde estão as portas de ouro
Do paraíso perdido?
Mas para tão longe hei ido,
Que não sei mais onde estão:
Tu andas em toda parte:
Eu procuro, para amar-te;
Para servir-te eu procuro:
No passado e no futuro,
Sempre esta eterna visão!...

Tu estarás, como a Aurora,
Como a Vênus matutina,
Cujo fado, cuja sina
Em seus palácios reais,
É rugir ao sol, que chega,
Não mais encontrar a veiga,
Nem aos vergéis dar seu pranto:
Dizendo ao sol entretanto:
— Sol! jamais... jamais... jamais...

Eu, aurora, não me tenho
Como o sol no azul distante;
Astro não sou rutilante,
Que dê tamanho clarão;
Nem sou verme luzidio,
Brilhando às margens de um rio,
Ou pelas margens de um vale;
Não sou nada que te iguale:
Mas eu sou um coração.

Ouve: jamais!... também digo,
Jamais! repito eu agora,
Como a estrela, como a aurora
Nos seus ricos arraiais
Sem nunca contar contigo:
Vejo céu, não vejo abrigo;
Entre nuvens passo, e morro,
Náufrago enfim sem socorro,
Sem vida, sem nada mais...

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