quinta-feira, 13 de maio de 2021

A felicidade (Conto), de Coelho Neto

 


A felicidade 

Em volta do palácio, que era todo de fino e reflorido mármore, estendia-se, a perder de vista, o rumoroso acampamento. 

Gente de toda a casta, homens de todos os países: uns cobertos de cerdosas peles, outros seminus, com uma tanga ligeira em torno dos rins; ainda outros com albornozes longos, fotas recamadas de pedrarias, papuzes de couro florejado, armas à cinta, seguidos de muitas lanças; e eram reis, e eram príncipes. Sacerdotes com os seus ídolos; sábios com os seus papiros; poetas com as suas liras; mercadores com os seus escravos: guerreiros com os seus escudos e tímidos, agachados entre os carros, disputando um lugar aos camelos enxareilados e aos ginetes cobertos de telizes, mendigos maltrapilhos que se encolhiam com medo. 

Todos esperavam que se abrisse a enorme porta de bronze e aparecesse o gênio que devia, por inculca do Destino, buscar o afortunado a quem coubesse o palácio com as suas inúmeras riquezas. 

Todos contavam com a ventura e já se imaginavam o eleito da Fortuna quando, ao clangor de uma buzina, a porta abriu-se de par e na soleira assomou o gênio. 

Alto e gracioso mancebo, de um louro fulvo, de Sol, que mais fazia realçar a alvura do rosto, de beleza feminina e meiga. Túnica de cor celeste, com flores de ouro, cobria-lhe ondulantemente o corpo airoso. À mão trazia, à maneira de cetro, largo trifólio engastado em comprida haste, também de ouro. 

Os homens, tolhidos em maravilhado assombro, não tiravam os olhos do mancebo. Viram-no descer as escadas, seguir à sombra dos alamos, chegar ao acampamento e, indo, sem indecisão, por entre tendas de púrpura e tendas de linho, entrar num bosque onde um homem, enrolado em farrapos, roía, com voracidade, um osso disputado aos cães. 

O gênio deteve-se; e, então, acenando ao miserável com o trifólio, ajoelhou-se na terra sórdida e, veneradamente, o elegeu senhor do palácio e de toda a sua riqueza. 

Foi um desapontamento na turbamulta. Ninguém se conformava com a estranha escolha do Destino. Pois onde havia reis, príncipes, altos senhores, poetas, sábios que liam nas estrelas, sacerdotes que se comunicavam com os deuses, mercadores que possuíam frotas nos mares e minas no seio da terra, havia de ser um roto mendigo o favorito?... 

Logo se arrancaram as lendas, arrearam-se os animais, jungiram-se os bois aos carros e, lentamente, começou o desfilar das caravanas. 

Ao limiar do palácio saíram a esperar o mendigo fâmulos e ancilas e, por entre colunas de coral e ouro, por baixo de abobada trêmula de iriados flabelos, pisando moles tapetes e ouvindo o fresco cantar das fontes, extasiadamente o miserável atravessou o peristilo, os corredores luminosos, os pátios enxadrezados e entrou na câmara, que ora toda de oloroso cedro com tauxias de ouro e prata e incrustações de pedras. 

O banho que o esperava rescendia e era todo de leite de flores. 

Refrescado, vestiram-no e rei algum carregou jamais sobre o corpo as riquezas com que o recobriram. 

 Inclinou-se o mordomo e, por entre tangeres de flautas e de cítaras, o foi guiando à grande sala onde o esperava o banquete em lauta mesa, lampejante de baixelas e cristais e toda florida. 

 Sentou-se o venturoso. 

 Logo rompeu o concerto delicado de finas harpas, de flautas suaves e de vozes. 

 Ao fim do repasto levaram-no a ver os jardins onde a Primavera não daria por falta de uma só das suas flores. Passaram aos pomares de toda a fruta, entraram ao bosque de frescos, assombrados e redolentes meandros, onde se desafiavam em gorjeios todos os passarinhos e os dóceis animais das silvas passeavam. Foram às cavalariças, onde estadeavam os mais formosos e robustos ginetes do deserto. Adiantaram-se os pastores a dar-lhe contas dos gordos rebanhos que guardavam. 

 Por fim, fez o mordomo a volta da torre de pedra onde se empilhavam os tesouros e em torno da qual, silenciosamente, iam e vinham roldas e sobrerroldas de guerreiros possantes. 

 De regresso ao palácio — já a rutila Vésper subia no horizonte, — o afortunado avistou na varanda, entre os inclinados ramos dos jasmineiros e das acácias que florescem de ouro, as lindas, esbeltas mulheres do seu gineceu que o esperavam, qual mais ansiosa do seu beijo, esmerando-se em seduzi-lo com lânguidos meneios e logo as chamou com o sôfrego desejo tanto tempo contido e, por toda a noite longa, enquanto soavam as músicas voluptuosas e os escansões serviam os vinhos em crateras e as bailadeiras faziam os mais difíceis e graciosos passos, gozou exaltadamente a delícia do amor. 

 Recolhendo à câmara — já as cotovias ensaiavam o canto — viu o seu leito, de macia cocedra, forrado a seda, ladeado por dois grifos de olhos de carbúnculo. 

 Deitou-se, mas o sono fugia-lhe. Lembrou-se, então, dos dias de fome, das noites de frio, das injúrias dos homens, do desprezo das mulheres. 

 Insone levantou-se, abriu largamente uma das grandes janelas e, à pálida luz da manhã, que nascia, sentindo o aroma dos jardins, pareceu-lhe que, ao longe, muito longe havia um palácio maior e mais rico, com mais ouro, jardins mais vastos e mais floridos, pomares mais fartos, tesouros mais cheios, mulheres mais belas, guerreiros mais robustos, músicas mais concertadas, iguarias mais saborosas e vinhos mais antigos. 

 Então, pendendo a cabeça, achou pequena a sua fortuna e, com inveja dos que haviam partido à aventura, invejando-o, pôs-se a murmurar pensativo: “Ainda, ha riquezas maiores!...”. 

E, a suspirar tais queixas, entre as púrpuras e os brocateis da câmara, veio encontrá-lo o sol, o sol que, ainda na véspera, o vira entre farrapos, disputando aos cães dos nômades, sobre o estravo dos camelos, um osso esburgado.

---
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...