quarta-feira, 12 de maio de 2021

Coração de mulher (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior

 

Coração de mulher 

Que amor sentia pela divinal formosura de Isabel o malfadado Carlos! Oh! ele amara muito seu pai e sua mãe; a morte arrebatou-os e ele quase enlouquecera.

Pois bem! Esse amor comparado com o que ora sentia era insignificante.

Poeta de altas concepções, sonhara uma virgem bela como as mais belas e capaz de amá-lo com esse amor veemente e sem limites, tão comum nos romances.

Todas as aparências induziram-no a crer que em Isabel encontraria o seu ideal.

E pois amou-a.

O seu amor porém não era desses calmos, meigos, refletidos, que com mais segurança nos pode conduzir à felicidade.

Não: era louco como o tufão, furioso como o mar em noite de tempestade, constante como a rotação da terra, sincero como as juras da virgem cândida e pura, ardente como o seio dum vulcão.

Entretanto ainda não tivera um só indicio de que Isabel consagrava-lhe afeição!

Pelo contrário, quanto mais dominava-o a paixão, quanto mais exaltado mostrava-se, mais evitava-o ela, com mais indiferença o tratava.

Suplicas, poesias, lágrimas, ameaças, nada conseguiu abalar o coração de Isabel.

O coração, disse eu; enganei-me: quem tal pratica não tem. O que existe em seu lugar é uma pendula gelada, na enérgica frase de Machado de Assis.

Um ano passou o misero poeta inutilmente nesta lida insana.

Macilento, lívido e esquálido, o desgraçado tornara-se a sombra do que fora; os amigos que, após curta ausência, viam-no, com muito custo o reconheciam.

O infeliz moço caminhava rapidamente para o tumulo. Não era preciso ser médico para o reconhecer.

Um dia Aurélio Lopes- o seu mais íntimo amigo- resolveu penetrar o mistério que envolvia a existência do malfadado.

— Dize-me uma coisa, Carlos. Por que razão tu, que nunca tiveste segredo para mim, me ocultas agora a causa do teu sofrimento? Se continuas a conservar-te mudo como até aqui, sem ouvir uma voz consoladora e amiga, breve deixarás este mundo.

— Quem dera...

— Não saio daqui enquanto não me disseres o que te aflige. Acaso já te esqueceste que sempre te fui útil e que muitas vezes servi-te de anjo tutelar?

— Oh! não; eu sou grato.

— Em nome desses favores, eu te ordeno que me abras o teu coração.

— Pois bem; eu te obedeço. Oxalá dessa confidencia resultasse-me algum benefício.

— Vamos lá. Quem sabe?

— Conheces a Isabel, aquela sereia que habita na rua de...

— Conheço-a como ás palmas de minhas mãos.

— É ela a causadora de minha morte.

— Explica-te.

— Amando-a com um amor infinito como o oceano, sou entretanto desprezado por ela, que qual estatua de carne, é insensível a este sentimento, que me abrasa o peito, que me há de levar à sepultura.

— Ouve: eu já não te disse que conheço-a como palmas de minhas mãos?

— Dissestes.

— Pois então, atende-me. Essa mulher (e crê que todas as outras) enquanto se vir admirada e solicitada, te desprezará; mas logo que, por seu turno, se julgar com razão desprezada, é capaz de rojar-se a teus pés. Finge odiá-la e verás se não digo a verdade.

— Pois sim.

— Vive para a vingança.

— Aceito.

*** 

O moral exerce imensa influência sobre o físico.

Quando imaginamos estar doentes ou sofrer, por fim adoecemos e padecemos na realidade.

Quando sentimos males físicos ou morais que queremos que eles sejam falsos, muitas vezes vemo-los desaparecer.

 Por isso não estranharão os leitores que um mês depois do que acima relatamos, de novo lhes apresentemos Carlos sob outro aspecto.

O conselho de Aurélio fez-lhe mossa: viver para vingar-se tornou-se a sua ideia fixa e dominante.

À força de fingir-se alegre e folgazão, tornou-se o com veras.

À força de querer engordar e ser bonito, viu realizado o seu desejo.

À força de fingir que amava a uma formosa moça, com cuja família dava-se, somente para desfeitear a Israel, amou-a do mesmo modo que a esta.

Mais feliz porém foi então, pois viu-se correspondido pela enlevadora Gabriela, com amor igual ao seu.

Em pouco tempo divulgou-se o boato de que próximo estava o dia do casamento de Carlos com Gabriela.

É impossível adivinhar o grau de desilusão, de desespero de Isabel, quando teve ciência de tal sucesso.

— Pois há de ele casar-se, murmurava ela passeando febrilmente na sua câmara e eu ficar solteira, vendo-o passar por mim com outra mulher, quando o seu lugar me estava reservado? Oh! não: hei de empregar todos os esforços para que esse casamento não se realize; hei de procurá-lo e recordar-lhe o amor que me consagrou; hei de explicar-lhe do melhor modo por que não o atendia, inventando razões plausíveis e valiosas; hei de enfim oferecer-lhe a minha mão. Ai! desgraçada a lembrança de fingir desprezá-lo: se eu soubesse que ele era tão volúvel por certo que render-me-ia logo aos seus pedidos.

Muito tempo ficou assim monologando, até que, para distrair-se, chegou à janela.

Coincidência fatal! À pequena distância vinha Carlos, conversando com Aurélio e rindo ás gargalhadas.

— Carlos, disse ela, vem cá.

— Senhora? 

— Desejo falar-lhe em particular.

— Com muito gosto a ouvirei, contanto que não me tome muito tempo: tenho que tratar agora de negócios relativos ao meu casamento.

— Sempre é certo?

— Sim, senhora.

— Então esqueceu-se de mim?

— É verdade, por sua culpa.

— Mas se soubesse os motivos ponderosos que me obrigaram a simular o que não sentia...

— Perdão, minha senhora, não quero ouvi-los: é tarde, é muito tarde. Agora já devo-me à outra, que me adora e à qual de nenhum modo quero desgostar. Console-se como eu me consolei: enquanto há vida há esperança... Adeus; se algum dissabor sofrer com isso, queixe-se de si.

E retirou-se bruscamente, acompanhado do seu amigo, antes que deixasse a vítima de si própria ver-lhe nos olhos duas lágrimas de piedade.

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— Então, Carlos, o que dizes a isso? perguntava Aurélio daí a pouco. Não me agradeces o conselho com que te salvei?

— Eu não, balbuciou Carlos comovido; mudemos de conversa.

 
“Tereza”, de Fernandes Pinheiro Júnior 

*** 

Não sob o céu brasílico, nesta natureza louçã, que tantas e tão variegadas galas ostenta, porém sim nas adustas plagas africanas, viu a luz do dia Tereza.

A terra do Saara, esse imenso oceano de areia, onde não raras vezes sepultam-se as errantes caravanas; onde só de longe em longe encontram-se os oásis criados pela providência para refrigério dos viandantes; a terra dos leões, dos tigres, dos elefantes, dos camelos, das hienas, das panteras e dos chacais, foi o seu berço.

Aí passou a infância na companhia de seus pais, dois pobres pretos ignorantes, mas que a adoravam com todo o ardor de suas almas selvagens.

Livre e inocente, viu deslizarem-se os seus primeiros anos.

Quem diria que ali, num clima abrasador, ela desfrutava uma felicidade, que nunca mais gozaria, e num povo bárbaro, entre animais ferozes, ela era mais feliz do que o seria no seio dum povo civilizado, que professa a religião do Crucificado, toda de amor, toda doçura, toda caridade? Mas assim estava escrito no livro do destino e tinha de realizar-se. 

*** 

Maldita seja a escravidão!

Instituição reconhecedora do direito da força, consagradora do abuso, instituição eminentemente irreligiosa e imoral, imprime ela um negro labéu naqueles que a defendem. Com que direito um homem apossa-se doutro, igual a ele em tudo, exceto na cor, e diz-se seu possuidor, como se ele fora uma coisa, um objeto puramente material?

Não descendemos todos de um mesmo pai e de uma mesma mãe?

Oh! é triste a existência do misero cativo, se é que ele existe. Não pode pensar, não pode gozar, não pode queixar-se, não pode até adoecer: não é senhor em suma da sua vontade.

Haverá coisa pior?

Se o seu coração nutre amor a alguém, se quer divertir-se, se precisa descanso, tudo lhe é vedado.

O escravo é apenas uma máquina de trabalho; ou antes, é como o burro, que vive somente para trabalhar e sofrer maus tratos.

Sabem os leitores o valor da liberdade, desse celeste bem que nos permite fazermos o que desejamos, que é a fonte de todas as venturas?

Se sabem, basta dizer-lhes que o escravo não tem liberdade para definir a sua sorte; se não... inútil é continuarmos. 

*** 

 “Naquele engano d’alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito.”  

Estava Tereza, quando um dia, dia cruel, pois exerceu uma funesta influência em toda a sua vida, um fato inesperado, mas muito comum nesses vergonhosos tempos em que começa esta pequena história (1848), veio pôr um termo à sua felicidade e à dos seus.

Chegara a noite.

Dominava então a estação chuvosa, rara na África, pois quase sempre reina a seca ardente. A chuva, que caía em catadupas, coava pelas palhas que serviam de teto às mesquinhas palhoças dos míseros africanos, e um terrível furacão parecia querer destruir estes fracos abrigos às intempéries do tempo.

Embalada numa rede de grosseiro pano pelos seus carinhosos pais, acabara Tereza de adormecer, quando súbito desperta, assustada por aflitivos gritos e pelo estrépito de uma luta.

Ergue-se e vê seus pais lançados ao chão e sendo amarrados por seis homens brancos, que zombavam de seus clamores e de suas lágrimas.

Um grito de terror escapou-se-lhe do peito.

Foi a sua perdição.

Um dos homens lançou-se sobre a rede, agarrou-a e, visto ter ela desmaiado, amarou-a sem dificuldade.

Logo que virão seguras as suas presas, carregaram-nas os algozes para bordo dum navio traficante, que estava fundeado a pequena distância da aldeia em que teve lugar esta cena indigna.

Por toda a parte onde passavam, ouviam os pais de Tereza e ela, gritos, ais e lamentações.

Toda a aldeia era igualmente vítima da crueldade que os aniquilaria.

Muito pode a cobiça. 

***

Passou-se um ano.

O navio em que embarcaram esses desgraçados tinha chegado ao seu destino.

Durante a viagem, os pretos desesperados pela fome e por verem-se reclusos no porão dum navio, onde não havia luz, resolveram sublevar-se, a fim de recuperar a liberdade.

A sua ignorância não os deixou refletir que deviam achar-se no alto mar, que nada entendiam da navegação e que, vencedores ou vencidos, era a mesma a sorte que os aguardava-a morte.

Embora! Antes morrer livre do que existir escravo!

E pois rebelaram-se.

Quando o encarregado de fornecer-lhes o alimento, abriu a boca da escotilha para dá-lo, no quinto ou sexto dia da viagem, um negro possante saltou sobre ele, agarrou-o e caíram juntos no fundo do navio.

Aproveitando-se rapidamente deste incidente, todos os seus companheiros começaram a subir para a coberta do navio, antes de darem tempo a qualquer resistência.

Em breve acharam-se todos em cima. Negros e negras, moleques e negrinhas, formavam um todo medonho, compacto, terrível.

O furor estava desenhado em todas estas noturnas fisionomias.

Entretanto o comandante chamara às armas toda a tripulação do seu navio, e; aparecendo de súbito seguido dela, armada de espingardas e machados, intimava aos míseros africanos que de novo voltassem para o lugar donde tinham saído.

Longe de obedecerem-lhe, eles começaram exterminá-los, apontaram-lhes as espingardas.

“A nada disto os brutos se moveram.”

Pudera não! Se eles ignoravam a serventia da arma de fogo...

Afinal, fazendo grande vozeira, arremessaram-se ameaçadores sobre os seus algozes.

Um repentino clarão tinha iluminado todo o navio e soara um estampido horrível.

Mortos e feridos caíram alguns; à maior parte porém derribara o susto.

Tinham sido as espingardas descarregadas e de novo se estavam carregando.

Já humildes e de mãos postas, os negros pediam perdão, choravam, prometiam obedecer a tudo, mas não foram atendidos: uma segunda descarga ceifou mais algumas vidas, que jaziam prostradas!

Vergonha, crueldade sem nome!

Certos de que os míseros africanos não mais resistiam, ordenou-lhes o seu principal verdugo que de novo descessem ao porão.

Era de comover o coração mais empedernido a vista daquele bando de criaturas seminuas e negras, caminhavam voluntariamente para o seu suplicio.

Depois de restabelecer a ordem com a morte de vinte desgraçados com os ferimentos de oito, que, à míngua de tratamento, pereceram depois, seguiu o navio a sua rota e chegou ao fim sem nenhuma outra novidade.

E diziam-se cristãos os tripulantes desse navio! Que escárnio!

Verdadeiros monstros, tigres sanguissedentos, carniceiras hienas, eis o que eles eram. 

*** 

Entre as vítimas dessa atrocidade, achava-se o pai de Tereza. Uma bala arrebentara-lhe o crânio e prostrara-o sem vida.

Oh! É me impossível descrever a dor que sentiram sua mulher e a filha, quando viram-no exalar o último alento.

Não há termo que exprima a intensidade do desespero dessas desgraçadas criaturas. Eu quisera só que as vissem nesse momento essas almas ignorantes e cruéis, que julgam que o escravo não tem sentimento. Sim, eu quisera que as vissem lançarem-se, lacrimosas e exalando pungentes gemidos, sobre o cadáver gélido do seu parente, abraçá-lo, beijarem-no e examinarem-lhe o coração incessantemente, como que duvidando da cessação da sua existência.

A estas mostras de profunda e sincera dor, veio arrancá-las a ordem de regressarem à sua prisão.

Ai! Se elas soubessem que, para melhorar a sua sorte, perderiam o seu único amigo, por certo que conservar-se-iam alegres no infortúnio. Quanto mais se soubessem que, perdendo-o, continuariam a sofrer...

É esta a sorte da humanidade: sempre desejosa de alcançar mais do que possui, ainda quando o não necessite, faz mil esforços para melhorar e as mais das vezes encontra o veneno onde esperava o néctar, depara com o desespero onde via a esperança, acha o pranto onde sonhava o gozo, cai fulminada pela morte onde cuidava lobrigar a vida. 

*** 

Vinte e dois anos são passados depois destes tristíssimos fatos que temos narrado até aqui. Que rapariga é aquela, ainda moça, simpática, vigorosa, que com passo lesto, caminha para uma praia deserta?

Sabê-lo-emos em breve.

Chegando à praia, subiu um rochedo que havia, e com bastante dificuldade.

De repente deu um grito. De medo por certo não era ele, pois quem vai a uma praia abandonada alta noite, não receia nela encontrar quem quer que seja, porque para bom fim não vai. Ao sinal que deu da sua presença, um vulto, que estava assentado no alto do rochedo, voltou-se rapidamente e perguntou com voz rouca e vibrante:

— Quem és tu?

— Minha mãe! Exclamou a recém-chegada, que sem dúvida conheceu quem já ali estava, e atirou-se-lhe nos braços com um ardor inexplicável.

Esta também reconheceu-a logo, pois foi pronta em retribuir-lhe a efusão de alegria e murmurou com voz sufocada:

— Tereza... minha filha!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 

— Decorreram-se alguns momentos difíceis de descrever-se.

De parte a parte trocaram-se mostras de ternura e recíprocas perguntas, tão seguidas que todas ficaram sem resposta.

Por fim, restabelecida a calma, perguntou a mãe de Tereza:

— Que te trouxe aqui, minha filha?

— O desejo de pôr termo a meus dias.

— Por quê, Tereza?

— Porque, estando prestes a ser mãe, não quero dar à luz um desgraçado, não quero que meu filho seja escravo. Ai! Se soubesse quanto tenho sofrido...

— É verdade, minha filha: conta-me a tua história, que depois contar-te-ei a minha. Começa já, que estou impaciente por saber o que te aconteceu desde o fatal momento em que nos separamos.

— Pois bem, minha mãe: ouça.

E ali, sobre um rochedo, numa praia deserta, ouvindo o gemer das ondas açoitadas por um vento frio e tempestuoso, unidas por amical amplexo, a miúdo derramando amargas lágrimas pela recordação de passadas desgraças, as duas filhas da desditosa e inóspita África, desprezando os relâmpagos que sem cessar sulcavam o espaço e os trovões que ribombavam de quando em quando, sem sentirem a chuva que a grandes borbotões cabia das nuvens prenhes d’água, fizeram uma a outra, cada qual por sua vez, a narração dos seus infortúnios. 

***

Eis em resumo o que lhes sucedera desde o momento em que as deixamos.

Logo que chegaram ao seu destino foi todo o carregamento do navio, inclusive elas, vendido a um negociante milionário, cuja fortuna, como muitas que por ali existem ainda hoje, tinha procedido da sujeição ao cativeiro de milhares de criaturas.

Este, por seu turno, vendeu-as, porém cada uma a um senhor diferente.

Debalde empregaram elas a suplica e o pranto para serem vendidas juntamente.

Debalde!

Nenhum dos seus compradores quis ficar com ambas e os seu possuidor não tinha coração. Como o conquistador, que só detém-se quando é derrotado ou quando morre; como a sanguessuga, que só repleta de sangue, abandona a vítima; a sede de ouro dominava-o em todos os atos de sua vida; nada fazia de que não lhe resultasse algum proveito: era um verdadeiro homem de metal, na fase do mavioso cisne Casimiro de Abreu.

Estúpido em excesso, figurava no entanto em toda a parte, porque tinha dinheiro, assemelhando-se o pirilampo, que, sendo um mísero inseto, chama nas trevas atenção sobre si pela sua sulfurosa luz.

Desde o dia em que foram separadas nunca mais se viram essas infelizes.

A mãe de Tereza foi vendida a um péssimo senhor, que continuamente a maltratava com injurias e pancadas.

Depois de ter-lhe servido muitos anos, afinal vendeu-a ele, por precisar de dinheiro, a um homem velho e piedoso, que morrera há pouco, deixando-a livre.

Mas de que lhe servia então a liberdade?

Afastada para sempre, pensava, do único ente a quem tinha afeição, nenhum desejo tinha de viver.

Contudo, procurou subsistir e alugou-se numa casa de família, onde os chefes, inimigos irreconciliáveis da malfadada raça de Cam, continuamente a atormentavam com uma crueldade pasmosa.

Desesperada enfim de obter neste mundo melhor vida e de encontrar a sua filha querida, ideia que sempre a alentou sob o jugo do cativeiro, resolveu suicidar-se. Para esse fim tinha-se dirigido àquele lugar e onde buscava a morte achou a maior ventura que lhe era possível alcançar.

Por seu lado, Tereza fora vendida a um fazendeiro, que não era dos melhores senhores, e que comprara-a para o serviço da roça.

Exposta a todo tempo, manejando pesada enxada, nunca tivera outro pensamento que não fosse para sua mãe: nunca passou-se um só dia em que lágrimas saudosas não sulcassem as suas faces, abrasadas pelo sol.

E muitas vezes, fazendo-a o excesso de sua dor esquecer do trabalho, era chamado a ele, experimentando a pujança do musculoso braço do feitor.

Pois se era escrava a mesquinha...

Um dia finalmente, passados longos anos de um martírio indescritível, abandonou a casa do seu senhor, na qualidade de fugida.

Este recorreu aos anúncios nos periódicos e em breve foi ela reconduzida a casa, onde declarou não querer conservar-se, prometendo fugir de novo. 

Foi por isso transferida a outro possuidor, que levou-a para a Corte, teatro destes últimos acontecimentos.

Aí, cansada de sofrer e não querendo aumentar com o seu filho o número dos desgraçados, decidiu também, como a mãe, pôr fim aos seus dias.

E, singular coincidência! Mãe e filha, levadas pelo mesmo desejo de fundar os seus males, acharam-se reunidas, por assim dizer, na borda do tumulo, após longo e penoso apartamento.

Pela primeira vez em sua vida conheceram essas ignaras criaturas a bondade da Providência, isto é, que havia um ente superior a todos, arbitro do universo, que delas tinha-se compadecido.

Mas... 

*** 

Por que tanta precipitação em julgarem-se felizes!

Se sua mãe tinha encontrado o que buscava, a Tereza não acontecia o mesmo. A sua situação era idêntica à anterior.

Em breve conheceram a realidade e meditaram.

— Tereza, disse por fim a velha, eu estou contente: vi realizados os meus únicos e ardentes desejos. à tua sorte porém não melhorou e só lhe descubro uma saída: trabalhemos, trabalhemos ambas com ardor e incessantemente para a libertação de teu filho; invoquemos a caridade pública, façamos tudo para obter o dinheiro necessário para libertá-lo na pia. Quanto a ti... confia em Deus e espera.

— Aceito, minha mãe.

E, dando-se as mãos, desceram o penhasco.

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No dia seguinte era promulgada a sabia, moral e religiosa lei de 28 de Setembro de 1871, e daí a pouco dias nasceu livre o filho de Tereza.

Esta, aconselhada por alguém, dirigiu-se uma noite à rua dos Beneditinos e no outro dia pôde recordar-se, sem ter quem lho vedasse, do tempo que passara no seu país natal, criança e feliz, na companhia de seus estremecidos pais.

A maçonaria tinha estendido sobre ela a sua proteção benéfica e desde esse dia era senhora da sua vontade, tornara-se de novo um ente racional.

Reconhecida a isso, nunca deixou ela passar uma noite sem orar por seus benfeitores, em companhia de sua mãe.

Depois recordavam saudosas as cenas que tinham presenciado em sua pátria e chorando deploravam a morte do esposo e pai, vítima da cobiça, da infâmia e da falta de religião.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

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