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5/12/2021

Uma vítima da vaidade (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior


Uma vítima da vaidade 

Na cidade de..., numa chácara retirada, habitava uma família, cujo chefe chamava-se Manoel Correia. Ex-empregado público, obtivera a aposentadoria e aí vivia longe do burburinho da cidade.

Homem vaidoso, o seu único anelo era casar uma filha que tinha com algum fidalgo, que entusiasmasse-se pela beleza dela.

Com efeito, Elvira (tal era o seu nome) era a moça mais linda que imaginar se pode. Morena, de estatura regular, cabelos e olhos pretos, lábios rosados e pequenos, que, quando entreabriam-se, deixavam ver duas linhas de dentes claros como o marfim; era mais pelas suas maneiras agradáveis do que por esses atributos, que ela cativava a todos aqueles que tinham a dita de conhecê-la.

***

Alfredo Torres, estudante do quarto ano de medicina, tinha vindo passar, nessa mesma cidade, as férias em casa de sua família, que só à custa de muitos sacrifícios fazia-o prosseguir os estudos.

Aí pela primeira vez viu Elvira e logo consagrou-lhe amor: não esse amor vulgar, porém um amor sincero, veemente, arrebatado, capaz de afrontar todos os obstáculos, que, segundo, um escritor contemporâneo, são os maiores incentivos dele.

Elvira também, cumpre dizê-lo, logo sentiu no seu peito uma emoção, um não sei que indefinível por Alfredo; mas ao mesmo tempo o seu coração pressago augurava-lhe infortúnios. É que Alfredo além de não ser fidalgo, era pobre, e o seu amor havia de encontrar oposição da parte do seu velho pai, que aspirava ter um parente nobre, que ilustrasse a família.

Todavia amaram-se.

*** 

Estavam prestes a extinguir-se as suas férias e Alfredo preparou-se para tornar à Corte.

Sempre, nessa ocasião, ele partia alegre, pois ia dar mais um passo para chegar ao fim de sua carreira.

Desta vez porém, foi preciso que a família designasse-lhe o dia em que devia partir.

Nem era de esperar outra coisa: quem pode abandonar sem pena o seu coração?

E o coração de Alfredo ficava.

Na véspera da partida foi despedir-se da família de Elvira. Oh! Deixem os leitores que eu passe em silencio este ponto de sua vida: era mister outra pena que não a minha para descrever a dor desses dois corações cheios da seiva da juventude, obrigados ainda a ocultá-la, a reprimi-la.

***

Havia já três meses que Alfredo partira para continuar os seus estudos que Elvira vivia adormecida nos braços da esperança, quando um dia o seu aristocrático pai introduziu no seio de sua família, com muitas recomendações, um fidalgo recém-chegado à terra. Era de origem espanhola, dizia ele, chamava-se D. José Sanchez e tinha o título de barão da Felicidade.

Após dois meses de assídua frequência à casa, pediu ao Sr. Manoel Correia em casamento a sua encantadora filha.

Imagine-se a alegria deste, vendo realizada a sua única ambição. Prontamente concedeu-lhe o que queria, sem ao menos consultar a vontade da filha. – Ela é dócil, pensava, e por força há de fazer o que lhe ordenar.

Mas, se Elvira era dócil, desta vez enganou-se ele. Não só declarou-lhe que não votava a menor simpatia a esse homem, cujo passado não era conhecido, como até declarou-lhe que já tinha disposto de seu coração.

Correia ficou furioso e disse-lhe que nunca permitir-lhe-ia que se casasse senão com Exmº. Barão da Felicidade, ou com outro de sua hierarquia; que Alfredo era um miserável; e que, quanto ao passado do barão, não importava a ninguém.

Para ele o titular não era responsável pelos maus atos que praticara anteriormente, quando usava de seu nome de batismo.

Infeliz Elvira!

***

Vejamos agora quem era o homem destinado para esposo desse querubim.

Filho natural dum taverneiro português, nascera ele numa das cidades deste vasto império.

Tendo o seu pai, por meio de muitos roubos e baixezas, bem como pela miséria em que viviam, ajuntado muitos cabedais, morrendo, deixou-lhe toda a sua fortuna.

Digno filho de tal pai, D. José Sanchez, que nesse tempo era conhecido por José Medeiros, continuando a acumular dinheiro do mesmo modo, e só empregando-o em negócios ilícitos, fez afinal uma viagem a Espanha e a Portugal, donde voltou com o título de dom, outro nome e um baronato. Eis quem era D. José Sanchez, barão da Felicidade.

***

Dois meses se tinham passado depois do infausto dia em que o futuro de Elvira tinha sido anuviado por seu pai. 

Durante esse tempo, nunca se passou um só dia em que ela não ouvisse, direta ou indiretamente, alusões a si, como filha desobediente e de sentimentos baixos, ameaças de maldição paterna e por consequência de castigos na outra vida.

Finalmente uma manhã apresentou-lhe o seu progenitor um ultimatum: por bem, ou por mal havia de cumprir as suas ordens.

A pobre moça, tendo perdido esperança de casar-se com Alfredo, e temendo as ameaças de seu pai, pois era uma filha modelo, disse-lhe que estava ao seu dispor, que fizesse o que intendesse, não obstante desprezar o noivo que se lhe impunha.

Mal ouviu isto dirigiu-se logo Correia ao palácio do barão, relatou-lhe o ocorrido e pediu-lhe que determinasse com presteza o dia em que se devera efetuar o seu consorcio.

***

Faltavam oito dias para Elvira perder o seu nome, tornar-se baronesa da Felicidade, ela – a vítima da desgraça.

O Sr. Manoel Correia exultava, crendo ter conseguido a execução de seu maior anelo – afidalgar sua família.

O barão ainda mais contente estava por ter comprado com a sua infâmia a posse de uma divindade terrestre.

Só Elvira era triste, apesar das felicitações que de toda a parte e a cada instante recebia. Pálida, magra, sempre pensativa, dir-se-ia que era presa de alguma enfermidade.

E na realidade bem próximo estava o dia de sua morte. Pressentindo-o, escreveu a Alfredo a seguinte carta, cinco dias antes do destinado para a realização do seu himeneu.

“Alfredo,

“Perdoa-me o golpe que subitamente vou dar-te; mas se não dei-te antes foi esperando que a desgraça se compadecesse de mim e de ti.

“Cinco meses depois de sua partida, meu pai ofereceu-me como esposo um fidalgo improvisado, um tal barão da Felicidade, recém-vindo do estrangeiro.

“Recusei: disse-lhe que só a ti consagrava amor, que detestava esse homem.

“Julgava ter vencido a férrea vontade de meu pai; mas eis que há poucos dias ordenou-me que lhe obedecesse, isto é, que casasse-me com o seu escolhido, sob pena de, caso de novo rejeitasse, merecer a sua maldição. 

“Sem lhe dizer que sim, respondi que fizesse o que entendesse. Tu és bom, meu querido Alfredo, podias aprovar a desobediência de uma filha?

“Ajustaram meu pai e o meu futuro marido que a celebração do meu matrimonio terá lugar daqui a cinco dias. Mas creio que o céu se compadeceu de mim; parece-me que estou bem doente, que está próximo o dia de minha morte.

“Adeus; Alfredo; sou e continuarei a ser, 

                                                    Tua fiel amante
                                                            Elvira”. 

***

No dia seguinte àquele em que escrevera a carta acima, Elvira foi acometida duma febre tão violenta, que os médicos logo a desenganaram.

Nos momentos de delírio, o nome de Alfredo, acompanhado de palavras ininteligíveis, nunca lhe saiu dos lábios.

A morte zombou da ciência: no dia em que devia cingir a capela de noiva, cingiu a da imortalidade, deu a alma ao criador.

Pobre vítima da ambição e do orgulho, foi no céu receber entre os anjos, seus irmãos, o prêmio de seu martírio.

Quando Alfredo, já aflito pela leitura da carta que ela lhe dirigiu, recebeu a notícia de sua morte, despedaçou o crânio com um tiro de revólver.

***

No dia 2 de novembro de 1860, um velho chorava sobre uma sepultura e arrancava os cabelos, com visíveis sinais de loucura.

A sepultara encerrava os despojos mortais de Elvira e o velho era Manoel Correia, que murmurava febrilmente:

— Elvira... Alfredo... perdoai ao vosso assassino.


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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

Virgílio e Amélia (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior


Virgílio  e Amélia 

CAPÍTULO 1: VIRGÍLIO 

Há tempos um periódico macaense deu a seguinte notícia:

“Foi ontem encontrado na praia do Imbetiba o cadáver do Sr. Virgílio de Azevedo, que desde anteontem desaparecera desta cidade.

“A autoridade competente prossegue a averiguações sobre o fato”.

Quem era o Sr. Virgílio de Azevedo? Que emprego tinha? Seria casual a sua morte, ou teria ele sido vítima de algum crime?

Eis o que vamos, se bem que muito resumidamente, dizer aos nossos leitores.

*** 

No dia 1º de janeiro de 1840, apresentou-se um fazendeiro do município para batizar um filho, na capela onde se celebravam todos os misteres da religião nesta cidade (a qual era por esse tempo na praça da Alegria, canto da rua da Esperança, na mesma casa em que depois se tem estabelecido várias pessoas com negócios em pequena escala).

Antes porem de se celebrar a cerimônia, conferenciou ele com o padre, durante mais de uma hora, sobre o nome que lhe devia dar. Por fim decidiu que queria um nome de poeta e escolheu, entre os que o padre indicou-lhe, o de Virgílio. Foi, pois, o menino batizado com esse nome, ao qual o pai depois acrescentou o de Azevedo, para ver se com dois nomes de poetas igual sina caberia ao filho; pois era esse o seu maior desejo.

Causava na verdade admiração ver aquele homem rústico e ignorante ficar fora de si, anelante, com a boca aberta e os olhos quase a saltarem das orbitas, quando ouvia ler qualquer poesia. É que a poesia, como a música, exerce poderosa influência sobre as mais rudes naturezas. 

***

Tendo Virgílio atingido a idade de 15 anos, depois de findos os seus estudos na escola pública da cidade, aí empregou-se numa casa de comercio.

Moço inteligente, modesto e afável, granjeou em pouco tempo numerosas simpatias.

A suas horas vagas consagrava-as ele ao estudo e a composições literárias. O ramo da literatura e a que sobretudo mais se dedicava era o poético. Muitas vezes li poesias suas, que hoje deploro infinitamente não ter copiado.

Deixemos de parte vários fatos pouco importantes de sua vida, para dizermos a causa que o determinou a pôr fim a seus dias.

***  

Era um domingo; havia um pequeno sarau numa casa de família desta cidade, para a qual ele tinha sido convidado. As horas designadas compareceu e assistiu até o fim.

Porém, coisa singular! ao sair, Virgílio não era o mesmo que tinha entrado. Tornara-se pensativo e triste; sentia alguma coisa que o abrasava.

Dois dias depois publicava-se uma pequena poesia anônima, na qual o seu autor fazia, arroubado de entusiasmo, uma declaração de amor. E o autor dessa poesia era Virgílio.

Ah! Cupido, Cupido, de quantas desgraças és causa! Ora feres somente a um coração e deixas o outro incólume, ora feres a ambos, mas reserva-lhes a separação. Feliz o mortal que atravessa a longa e espinhosa carreira da vida sem ter sido tocado por tuas flechas. Desditoso aquele que uma só vez sentiu o peito ferido por ti: esse pode-se julgar infeliz para sempre, pois o amor é uma loucura e a loucura é uma desgraça.

...............................................

E pois Virgílio estava louco.

Amava perdidamente a uma gentil deidade macaense, que entretanto não amava-o.

Por mais que ele fizesse por merecer-lhe ao menos simpatia, eram baldados os seus esforços.

Ele era pobre... de dinheiro e ela rica: eis a barreira que os separava. Como diz o Dr. Joaquim Manuel de Macedo, a pobreza é a morfeia.

Todavia pobre era ela também... mas de espírito, e ele rico.

Porém o que vale o saber? Não pesa, não tem valor; com ele não se compra um vestido de seda, não se dá bailes, não se vai ao teatro.

Demais Virgílio era poeta e 

Um poeta no mundo tem apenas
O valor de uma gaiola;
É prazer de um momento, é mero luxo. 

(Álvares de Azevedo) 

Um poeta é... um doido.

***

Vendo-se possuído de uma violenta paixão por quem desprezava-o, Virgílio resolveu suicidar-se. Digam o que quiserem contra o suicídio, na minha opinião há causas que o justificam. E depois, será crime apressar o dia em que devemos ver ao nosso criador?

Antes porém de executar o seu intento, Virgílio dirigiu à sua ingrata amada a seguinte poesia, que não podemos furtar-nos de dar aos nossos leitores, como um espécime do seu talento.

 

A *** 

Quando o dobre dos sinos tu ouvires
A morte anunciando dum cristão,
Sabe, anjo cruel, lindo demônio,
Que já não pulsa mais meu coração. 

Sabe ainda que a tua crueldade
É que faz-me este mundo abandonar,
Pois não deve-se amar quem não nos ama
E viver eu não posso sem te amar.

Mal vi-te uma só vez meu coração
Senti logo pulsar de amor por ti:
Ai! Louco, que na aurígera muralha
Que se erguia entre nós não refleti!

Fizeste bem, mulher, em desprezar-me:
Tu és rica e eu pobre; fui ousado!
Maior castigo ainda merecia
Por julgar que por ti seria amado.

É duro de dizer-se, mas é certo:
Para o rico não é o pobre mais
Que um cão, que rajar-se aos pés lhe deve,
Sempre pronto a atender aos seus sinais.

Adeus, pois; sê feliz, que eu não podendo
Viver na terra, vou morrer no mar:
O meu perdão tu tens; lembra-te dele
Quando o remorso um dia te ralar. 

*** 

Quando ela recebeu essa poesia, Virgílio já era cadáver.

Tinha-se dirigido à Fortaleza e precipitado ao mar.

Pobre moço!


CAPÍTULO 2:
AMÉLIA 

Raiava o dia 10 de dezembro.

Era um dia de festa para Amélia, que fazia quatorze anos de idade. Não pensem porém, leitores, que era esta a causa de sua alegria; não: era que nesse dia cumpria-se um dos seus mais gratos desejos, uma das coisas por que anelam todas as meninas e a que dão uma importância inqualificável; ia enfim “botar vestido comprido.”

 não ser o do casamento, que dia haverá mais memorável na crônica da vida de uma moça? Nenhum, leitores; por que “botar vestido comprido” é ter entrada no número das moças e ser moça... silêncio!

Falemos em Amélia.

***

Mal lobrigou ela a claridade do dia pelas frestas da janela de seu quarto de dormir, ergueu-se de um salto do leito e vestiu com uma alegria febril um vestido que mandara fazer para esse dia.

— Que diz do meu vestido novo? perguntava ela daí a instantes à sua criada. Não fico mais gentil e mais bonita com ele? (Qual a moça que julga-se feia? Diga-lhe embora mil vezes o seu espelho: é mentira). Oh! Deus permita que minha mãe queira sair hoje: eu desejo que todos vejam o meu vestido.

— Fique quieta, sinhá, replica-lhe a criada; tenho modo: o que não se há de dizer vendo sinhá tão contente só por mode um vestido?

— Gala a boca, negra; olha que eu vou dizer à minha mãe que você está caçoando comigo.

 E foi-se.

***

A mãe já estava em pé...

Amélia dirigiu-se a ela.

— A benção, minha mãe. Este vestido não me assenta melhor do que os outros?

— Assenta, minha filha...

— Oh! estou arrependida de não o ter usado à mais tempo. Não há nada como um vestido comprido...  

— Modera a tua alegria, retorquiu-lhe a mãe; não são os trajes que dão importância às pessoas e sim as suas boas qualidades.

Amélia retirou-se triste para a janela, murmurando:

— Ai de mim! ninguém em casa faz caso do meu vestido. Vamos ver se os estranhos consideram-no mais.

***  

— Adeus, prima, como está? perguntou-lhe um sujeito que passava. Gomo vai minha tia?

— Sem novidade, primo; e Você?

— Como vês; mas que é isso? A prima já adotou o vestido comprido?

— É verdade; e completo hoje quatorze anos.

(Permitam-me, leitores, que aqui abra um parênteses para dar-vos uma explicação. Amélia disse exatamente a sua idade porque, como todas as outras meninas, deseja ser moça; mas, como todas as moças, quando chegar aos vinte anos, há de esquecê-la).

— Sei, continuou o primo, que está muito contente: era essa talvez uma das coisas que mais desejava.  

— Não o nego.

— Pois receba os meus comprimentos, quer pelo seu aniversário, quer por ter conseguido o que anelava, e desculpe-me abandonar a sua excelente companhia, porque agora tenho muito que fazer: se for*me possível, voltarei logo.

— Antes de ir, diga se aceita ou não o meu convite: venha hoje jantar cá. Minha mãe autorizou-me a convidar todos os que, como você, tem intimidade na casa.

— Aceito com muito gosto, respondeu Alfredo (assim se chama o primo de Amélia), e depois de terem-se apertado reciprocamente as mãos, retirou-se ele, ao passo que Amélia saía também da janela mais satisfeita. 

***

Eram horas do jantar... 

Achavam-se à mesa a mãe de Amélia, ela e alguns convidados.

Nos semblantes de todos brilhava a alegria; porém distinguia-se no de Amélia, que por todos os modos procurava mostrar o seu vestido.

Afinal um dos convidados reparou no seu contentamento e resolveu caçoar com ela.

— Então, D, Amélia, sei que está muito contente por completar hoje mais um ano; porém o que maior prazer lhe causa é o vestido comprido, não?

Ela corou e respondeu: 

— Não, senhor; mas não há de negar que este vestido assenta-me melhor do que os outros.

— Não, certamente; mais ainda é um pouco cedo...

— Não diga isto, exclamou ela levantando-se; eu completei hoje quatorze anos: já sou uma moça.

— Sossega, Amélia, ordenou a mãe.

E ela sentou-se enrubescendo.

***

Acabado o jantar, Amélia pediu à sua mãe que com ela fosse à casa de uma sua conhecida.

A mãe acedeu e foram...

Depois dos primeiros comprimentos, das mutuas saudades que manifestaram, Amélia foi logo perguntando à dona da casa:

— Não acha diferença em mim, D. Alexandrina?

— Acho, minha filha; mas sempre lhe advirto que o vestido comprido tem muitos espinhos.

— Como assim, senhora?

Eu to digo: as meninas vestem o vestido comprido quando chegam à mocidade; mas para ser moça, minha filha, não basta mudar de traje: é preciso também mudar de costumes. Sim, deves tomar um ar grave, ser cautelosa nas relações com os moços, mostrar enfim que tens juízo, coisa indispensável a uma moça.

— Eu o terei, D. Alexandrina.

— Então concordo com a mudança que fizeste.

***

 Estas últimas palavras da Sra. D. Alexandrina excitaram o ciúme em duas meninas de 10 e II anos, suas filhas, aspirantes ao vestido comprido, que começaram a cochichar, escarnecendo de Amélia.

Não houve um só termo de despeito com que Amélia não fosse mimoseada. Uma chamava-a impostora; a outra, tola; uma comparava-a com um pavão, a outra com um peru; e ambas por fim resolveram falar mal dela por toda a parte.

Entretanto a mãe da pobre Amélia e ela, sempre pensando em seu vestido, conversavam tranquilamente com a Sra. D. Alexandrina, até que, como ia-se tornando tarde, retiraram-se.

***

Chegando à casa, Amélia teve uma lembrança. Dirigiu-se à mãe e pediu-lhe, em atenção ao seu natalício, que deixasse convidar algumas suas amigas e conhecidos para um sarau e foi satisfeita.

Quem a visse, leitores, como eu, andar de um lugar para outro, só endireitando o vestido, que nunca ficava a seu gosto, perguntando a todos se não lhe assentava mais do que os vestidos curtos, etc., pasmaria de certo quando soubesse que a causa de tudo isto era... um vestido comprido!

Mas os seus vestidos curtos foram vingados. Nunca Amélia, que dançava regularmente, dançou tão mal, com tão pouco desembaraço, como nessa noite. A cada instante pisava no vestido e fazia goiabada.

Ora, a goiabada doce nenhuma das leitoras deixaria de apreciar; mas a goiabada na dança, como não ignoram, não é nada desejável. Julguem pois do desapontamento de Amélia nessa noite, em que mais procurava patentear os seus predicados. 

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Diz Casimiro Delavigne que o excesso dum grande bem, transforma-o num grande mal.

Foi o que aconteceu a Amélia.

Adotou o conselho da Sra. D. Alexandrina, mas num ponto tal que tornou-se insuportavelmente presunçosa.

Nenhum caso faz das suas amigas de vestido curto e trata com desprezo, e até com insolência, aos moços.

Estes porém, quando vêm-na passar, desforram-se zombando dela e não a cumprimentando.

Leitoras que ainda não andais de vestido comprido, tomai o conselho que vos dou por despedida:

— Cautela com ele; é nova túnica de Nesso.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

O anjo da solidão (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior


O anjo da solidão

Agradável e venturosa era a existência que saboreava no Frade a bela e inocente Maria.

Na hora em que, despertos no seu ninho pela tênue claridade que a poética precursora de Febo bruxuleava, da garganta delicada extraíam os passarinhos estrofes sublimes, nessa hora tão decantada, erguia-se ela do seu humilde leito.

Erguia-se; e vestindo sobre a camisa e saia um simples vestido de chita clara, que debuxava as suas delicadas formas e os contornos de seu garboso corpo, sem atavio sequer, nem dando-se ao trabalho de pôr-se ao espelho e pentear seus negros e bastos cabelos, ia, sobre o tope duma colina, aguardar o nascimento do astro majestoso que maior testemunho dá da grandeza do Criador.

E aí, saltitando a cada momento, sorrindo inebriada com os eflúvios do ar puro da manhã, tentava com uma singeleza infantil parodiar, ora as ternas e maviosas canções do sabiá, ora os alegres trinados do canário e ainda os gemebundos arrulhos da melancólica rola.  Era nesse imenso teatro da natureza uma atriz, que por espectadores apenas tinha aqueles de quem copiava as vozes.

Quando enfim, dourando ligeiras nuvens, surgia o sol na orla do horizonte, a encantadora menina deixava subitamente de imitar aos ledos passarinhos e entoava, com voz argentina e melodiosa, cantos de nativa inspiração.

Depois deitava a correr, saltando de quando em quando, como uma criança traquina, e, certa de que ninguém a via, desmudando as suas formas graciosas, mergulhava- as nas rumorosas e espumantes águas de uma cachoeira, que, por assim dizer, precipitavam-se em avalanchas.

Nesse lugar conservava-se ela, até que, fatigada dos contínuos choques que sofria e das incessantes e várias posições que exibia, sempre cantando, após ter velado as graças a que pudicícia impõe recato, regressava ao seu lar, nadando em alegria.

***

No lar, no seio de sua família, era a mesma a inconstante Maria.

Semelhante à borboleta, em todos os sítios libava o suco melífluo do prazer.  Ao chegar a casa, tomava a benção paterna, lançava-se aos braços da mãe, beijava-a e, sorrindo, dava piparotes na pontiaguda cabeça de um irmãozinho de quatro anos.  Choramingava a criança e ela, compadecida, tomava-a ao colo, embalava-a, fazia-lhe cócegas e osculava-lhe as faces.

Mas logo que o pequeno aquietava-se, punha-o no chão, dizendo: 

— Salta, manhoso.

E, antes que os pais tivessem cessado de aplaudi-la, sentava-se à costura, cantarolando, com voz doce e prolongada, cantigas populares.

Era uma esquisita organização aquela: o canto era a sua distração predileta.

Maria deverá ter nascido pássaro.

***

 Nas simples labutações domesticas empregava ela a maior parte do dia.

À tardinha, antes que no ocidente descambasse o sol, saía do mesquinho casebre que habitava e ia esperar esse momento.

Depois de ter assistido a esse espetáculo, a que ligava sumo interesse, ia então, com passo vagaroso e tremulo, requebrando-se graciosamente, visitar algumas pessoas da mais próxima vizinhança, que muito folgavam com o seu aparecimento.

Depois de ter assistido a esse espetáculo, a que ligava sumo interesse, ia então, com passo vagaroso e tremulo, requebrando-se graciosamente, visitar algumas pessoas da mais próxima vizinhança, que muito folgavam com o seu aparecimento.

Com efeito, sobre todas as pessoas exercia singular influencia essa gárrula adolescente.

Uns amavam-na pela sua gentileza, outros pela sua conversação folgazã e divertidas, outros ainda, os pobres sobretudo, pelos favores que prodigamente distribuía.

Ao cair da noite recolhia-se a casa e, antes de deitar-se, orava por seus pais e irmãos com fervor.

Depois... estendia-se languidamente no leito, fechava os olhos, seus seios agitavam-se em doce arfar e dormia.

Às vezes sonhos fagueiros faziam-na sorrir e balbuciava os nomes dos únicos entes a quem adorava.

***

 Tal era a sua vida quotidiana, passada com uma regularidade inexcedível.

Um dia, voltando ela do seu passeio matutino, encontrou em sua casa um belo moço, que, de passagem para São Francisco de Paula, fatigado, tinha pedido a seus pais curta hospitalidade.

Estava ele, sentado a uma mesquinha mesa, tomando uma refeição frugal, quando Maria, com a sua natural e inocente desenvoltura, transpôs o limiar da habitação paterna.  Vendo o desconhecido, parou e estremeceu; por alguns momentos quedou aí, observando-o com inexplicável persistência.

Pasmado desta súbita aparição, levantara-se o moço para cumprimentá-la, mas também ficou imóvel, sem poder dar um passo, subjugado pelo altivo e brilhante olhar de Maria.

Quem sabe que ideias nesse momento turbilhonavam em seu cérebro, presa do ardor da juventude?

Quem sabe o que sentiram estes dois corações jovens, ainda isentos das feridas roazes dos desenganos?

Quem sabe se para o moço eram os olhos dela duas pedras de ímã e para a moça os dele?

Quem poderia afirmar se eram ambos presas desse amor subitâneo e veemente, que rápido apossa-se do coração humano e domina-o para sempre?

*** 

— E então? Que acanhamento é esse? Perguntou alfim a mãe de Maria, vendo-a hesitar em cumprir com o dever de saudar o hospede.

— Nunca viu gente? Acrescentou o pai, aplaudindo o seu próprio dito.

Chamada assim ao sentimento da realidade, a menina recuperou a sua habitual serenidade e infantis exteriores.

Soltando uma estrepitosa gargalhada, que fez estremecer ao moço, como se sofresse um choque elétrico, disse ela:

— Se nunca vi gente?... Ora!

— Então como estás aí com tantos luxos, Cocota? Anda, fala aqui com o senhor.

Anuviando o brilho de seus olhos e corando, a moça adiantou uns passos e estendeu a mão ao moço.

Este, maquinalmente, fez o mesmo e foi vencido o principal obstáculo das paixões repentinas.

Em seguida, o moço, relanceando olhares de fogo à linda virgem, travou com os pais dela conversação sobre assumptos do lugar.

Às 10 horas da manhã, hora em que o moço retirou-se, houve entre dono da casa e o viajante, o seguinte diálogo.

Fique certo que a minha casa é também sua: disponha dela. Nunca passe por aqui sem dar-nos o gosto de sua visita.

— Obrigadíssimo. Sempre que for possível, com muito prazer abusarei do seu oferecimento.

E, dizendo isso, o moço volveu à menina um olhar expressivo, que parecia dizer: Virei por ti.

— Abusará, não, senhor; emendo a palavra. Nós, os habitantes do campo, nunca falamos dum modo diferente do que pensamos. Creia que imensa alegria teremos sempre que o senhor se dignar de honrar essa nossa casa. 

— Acredito e de novo agradeço-lhe: aprova de que não minto dar-lhe-ei voltando na próxima semana a ter com as pessoas tão benévolas para com aqueles a quem não conhecem.

O contentamento irradiou no semblante de Maria, que fez um ligeiro sinal com a cabeça, como que agradecendo a promessa de quem levava-lhe o coração.

Perturbado com este incidente, o moço gaguejou algumas escusas para retirar-se sem demora, despediu-se de todos com lagrimas nos olhos e desapareceu dentro em pouco.

***

Seis longos dias passaram-se para Maria e raiou enfim o domingo.

Creio que é Chateaubriand quem diz que até o boi conhece o domingo.

É esta uma verdade incontestável.

Nas próprias roças onde nada há de extraordinário nele, nas próprias roças sente-se uma alegria interna, um desejo inexprimível de gozar, um não sei que que arrebata o homem a um outro mundo, existente só na sua imaginação.

Era por isso que, de ordinário, no dia pelo Senhor consagrado ao descanso, Maria despertava mais cedo, tinha mais transportes de jubilo e recolhia-se mais tarde ao leito.

Desta vez porém não fez o que costumava fazer na sua digressão matutina.

Se saiu de casa, foi apenas com o intento de dissimular aos seus pais o tédio de que se achava possuída por tudo quanto a rodeava.

Desde que perdera de vista o desconhecido, fora o seu coração invadido por acerba tristeza.

Vivia num mal-estar constante; se ainda tinha ímpetos prazenteiros, era porque a precaução assim o exigia: não que o seu coração sentisse o menor prazer.

Não mais arremedava os pássaros, nem a clara água das cachoeiras tinha a ventura de receber em seu seio o cristalino corpo da gentil menina.

Em vez de galgar aos saltos o outeiro donde via erguer-se o sol, como de costume, subia-o indolentemente e, estendendo o delicado corpo, repousava o rosto na palma da mão.  Profundas cismas ocupavam-lhe então o pensamento e já o sol ia alto, quando ela dava acordo de si.

Então, sacudindo a cabeça, como para repelir as ideias que incomodavam-na, erguia-se lesta, como o amante que, próximo à hora determinada, recorda-se da entrevista prometida. 

Com o passo ligeiro dirigia-se para casa, e só quando perguntavam-lhe porque não cantava mais, suspirava as cantigas que noutro tempo tão contente entoava. 

No supracitado domingo assim porém não aconteceu.

Erguendo-se ás 7 horas da manhã, segundo o seu novo habito, ia arrastando-se com passo tardo, quando de súbito ergueu a cabeça e sentiu um estremecimento geral, em todo o corpo, ouvindo o estúpido das patas de um cavalo.

Ficou parada observando todos os pontos e bem depressa descobriu ao longe um cavaleiro, que vinha com notável celeridade.

Seria ele?

Ele, a causa única de suas penas?

Não tardou ter certeza de que não a enganara o coração; da distância em que se achava, o viajante fazia-lhe sinal com a mão para que o esperasse.

E ela esperou.

Em poucos momentos viram-se os dois face a face e ambos ficaram silenciosos durante alguns minutos.

De repente a donzela disse:

— Até que enfim...

— Tamanho interesse lhe inspiro eu?

Corou a moça e não respondeu.

— Pois não sabia que eu voltava?

— Sabia; mas não o esperava.

— Era-me impossível não voltar, replicou o moço; para quem vê os seus olhos uma vez, fugir-lhes é morrer.

— Então o senhor gosta de mim?

— Muito... muito, gentil menina.

— Será verdade? Proferiu Maria, com uma voz tão triste, tão maviosa, que afugentaria a mentira, se por ventura ali estivesse.

— Eu o juro por Deus; és a pura verdade.

— E eu também gosto muito do senhor.

— Oh! Então somos felizes. Quer casar-se comigo?

— Casar?

— Sim; o que tem?

— Mas se eu não sei o que é isso...

— Eu lhe digo: casar-se é jurar na igreja o homem à mulher e a mulher ao homem que sempre hão de estimar-se e acompanhar um ao outro, que gozarão e sofrerão juntos, que hão de ser enfim como se não fossem ambos mais do que uma só pessoa. Quer?

— Assim quero; mas primeiro há de falar com Papai e Mamãe.

— Pois sim, quando quiser.

Vamos agora.

Apeando-se, o moço colocou-se a par da moça e juntos tomaram a direção da casa dos pais desta.

***

 Ao aproximarem-se à porta, nesta surgiu o pai de Maria.

— Oh! Por cá? Exclamou. Como foi de viagem?

— Bem, excelentemente. Da saúde de todos os seus já informou-me sua filha.

— Deus lhe pague tamanho interesse por nós.

— Se alguma coisa merecesse, a única que cobiço só o Sr. Me poderia dar.

 — Então conte com ela.

— Agradecido.

— Ai! Que me lembrava que o Sr. estava de pé e fora; faça o favor de entrar.

— Pois não.

E entraram todos.

Após os usuais comprimentos à dona da casa, que estava na sala, assentou-se o desconhecido, bem como todos os presentes.

Por singular casualidade achou-se Maria sentada em frente dele.

— Ainda que mal pergunte, disse Roberto Dias (o pai de Maria), quem é o senhor? Creio que as relações que temos já nos permitem indagarmos quem somos.

— Por certo. Chamo-me Emílio da Fonseca, sou filho de um negociante de Macaé e vim a S. Francisco de Paula tratar de um negócio seu. Ocupo na casa dele o lugar de guarda-livros, que dá-me para viver folgadamente. Uma única coisa me faltava para gozar uma felicidade completa e esta acabo de encontrar.

— Não sabe quanto estimo: queira Deus que nunca o senhor a perca.

— Se perdê-la, perderei a vida.

— Tanto o senhor a estima?

— Mais ainda do que pode supor.

— E será indiscrição perguntar-lhe qual será o objeto do seu culto?

— Não; pois é o senhor quem dispõe dele.

— Diga, que se puder dar-lho...

O moço hesitou em falar.

Encarou fixamente a formosa virgem alguns segundos, como consultando-a, e vendo tingir-se as faces dela com as cores do pudor, mas nada dizer-lhe na linguagem muda dos sinais, proferiu afinal estas palavras, arbitras do seu destino:

O que me faltava, Sr., era a vida intima da família; uma mulher de quem, idolatrando-a, e eu fosse idolatrado; uma mulher que com suas caricias mitigasse o cansaço das horas de labor, me fizesse olvidar os dissabores que sofresse; uma mulher que transformasse num paraíso o meu deserto e tétrico lar. Debalde procurei-a em toda a cidade: a minha razão e o meu coração me diziam que seguisse outro rumo. Tal era o estado de minha alma, quando fui constrangido a esta súbita viagem, que me proporcionou o que eu anelava. Nela encontrei uma donzela linda e pura como a Virgem, de quem tem o nome, graciosa e encantadora como a mais sublime das criações de Rafael; amei-a subitamente, desde logo, com um amor sincero, casto e sem limites, com um amor digno do objeto do meu culto. Sabeis, senhor, quem é esse ente, que vai decidir da minha felicidade?

— Diga. 

— É vossa filha e eu vô-la peço em casamento.

Seguiu-se um longo e profundo silencio, interrompido apenas pelo longínquo rumor das cachoeiras e pelo sussurro do vento nas folhas do arvoredo.

Maria e Emílio sentiam o seu coração saltar-lhes precipitadamente nos vulcânicos peitos e encaravam os donos da casa.

Estes trocavam olhares, visto não se poderem falar livremente.

De súbito Roberto Dias voltou-se para a moça e perguntou-lhe:

— É de seu agrado, Cocota?

— Sim, senhor.

Roberto e sua mulher observaram-se e proferiram a um tempo:

— Cumpra-se a vontade de Deus.

Os bons dos roceiros eram fatalistas.

***

O que se passou depois desta conversação entre as quatro pessoas presentes.

O que disseram, o que combinaram elas?

Eis o que não podemos dizer.

Mas quando no dia seguinte, pelas 8 horas da manhã, Emilio retirou-se, foi seu companheiro de viagem Roberto Dias.

Era seu fim secreto, soubemo-lo depois, verificar o que lhe afirmara o mancebo.  Ah! Se todos os pais fizessem isso não veríamos pelo matrimonio vitimadas milhares de ingênuas criaturas, que se deixam somente guiar pelo coração.

Não veríamos o homem extravagante dissipando os ganhos, enquanto a família langue na miséria; não veríamos o infortúnio à cabeceira da maior parte dos tálamos nupciais.

Entretanto... apressemos o desfecho desta pequena história.

Reconhecendo a evidencia do que lhe dissera o moço, ratificou Roberto a sua resposta e decidiram que o consorcio deveria efetuar-se na cidade, dentro de um mês.

***

Chegara finalmente a véspera do triste dia em que a linda virgem tinha de deixar a casa paterna, isto é, de mudar-se para a cidade.

Estava resolvido que os seus pais acompanhá-la-iam a Macaé e que aí estariam um mês na companhia dela.

Depois intentavam voltar e continuar no seu trabalho de lavoura, até que, liquidando o que possuíam, pudessem vir morar coma querida filha.

Que dia de tristeza foi esse para Maria!

Ao despontar da aurora, deixou ela a cama e do seu antigo observatório foi assistir ao nascimento do sol.

Tinha tirado esse dia para reproduzir as cenas da sua vida passada.

A alegria porém abandonara-a; por tudo o que fazia, em toda a parte, lagrimas silenciosas brilhavam por instantes nos seus fulgurosos olhos e caíam, como as gotas do orvalho que balouçam-se nas folhas das arvores.

Uma dor intima a dominava; nem o amor, cada vez mais intenso, que nutria, tinha poder bastante para sobrepujar-lhe o sentimento.

É assim o coração humano: o prazer e o pesar nele dominam à porfia.

À tarde, Maria andou de porta em porta despedindo-se dos seus vizinhos, que lhe queriam tanto como aos seus próprios parentes e que chamavam-na, possuídos de singelo pasmo, - o anjo da solidão.

Chegou alfim a noite e o sono adormeceu as mágoas da pobre moça.

***

No dia seguinte, banhada em pranto e soluçando, deixou ela o seu berço, o lugar onde por tanto tempo gozou de uma felicidade que só podia ser excedida pela celeste.  Dois dias depois celebrou-se na Matriz de Macaé o consorcio de Maria e Emílio.  Que vida passará o cândido lírio do vale solitário transplantado para os jardins tumultuosos da cidade?

Só Deus e ela o sabem.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

Coração de mulher (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior

 

Coração de mulher 

Que amor sentia pela divinal formosura de Isabel o malfadado Carlos! Oh! ele amara muito seu pai e sua mãe; a morte arrebatou-os e ele quase enlouquecera.

Pois bem! Esse amor comparado com o que ora sentia era insignificante.

Poeta de altas concepções, sonhara uma virgem bela como as mais belas e capaz de amá-lo com esse amor veemente e sem limites, tão comum nos romances.

Todas as aparências induziram-no a crer que em Isabel encontraria o seu ideal.

E pois amou-a.

O seu amor porém não era desses calmos, meigos, refletidos, que com mais segurança nos pode conduzir à felicidade.

Não: era louco como o tufão, furioso como o mar em noite de tempestade, constante como a rotação da terra, sincero como as juras da virgem cândida e pura, ardente como o seio dum vulcão.

Entretanto ainda não tivera um só indicio de que Isabel consagrava-lhe afeição!

Pelo contrário, quanto mais dominava-o a paixão, quanto mais exaltado mostrava-se, mais evitava-o ela, com mais indiferença o tratava.

Suplicas, poesias, lágrimas, ameaças, nada conseguiu abalar o coração de Isabel.

O coração, disse eu; enganei-me: quem tal pratica não tem. O que existe em seu lugar é uma pendula gelada, na enérgica frase de Machado de Assis.

Um ano passou o misero poeta inutilmente nesta lida insana.

Macilento, lívido e esquálido, o desgraçado tornara-se a sombra do que fora; os amigos que, após curta ausência, viam-no, com muito custo o reconheciam.

O infeliz moço caminhava rapidamente para o tumulo. Não era preciso ser médico para o reconhecer.

Um dia Aurélio Lopes- o seu mais íntimo amigo- resolveu penetrar o mistério que envolvia a existência do malfadado.

— Dize-me uma coisa, Carlos. Por que razão tu, que nunca tiveste segredo para mim, me ocultas agora a causa do teu sofrimento? Se continuas a conservar-te mudo como até aqui, sem ouvir uma voz consoladora e amiga, breve deixarás este mundo.

— Quem dera...

— Não saio daqui enquanto não me disseres o que te aflige. Acaso já te esqueceste que sempre te fui útil e que muitas vezes servi-te de anjo tutelar?

— Oh! não; eu sou grato.

— Em nome desses favores, eu te ordeno que me abras o teu coração.

— Pois bem; eu te obedeço. Oxalá dessa confidencia resultasse-me algum benefício.

— Vamos lá. Quem sabe?

— Conheces a Isabel, aquela sereia que habita na rua de...

— Conheço-a como ás palmas de minhas mãos.

— É ela a causadora de minha morte.

— Explica-te.

— Amando-a com um amor infinito como o oceano, sou entretanto desprezado por ela, que qual estatua de carne, é insensível a este sentimento, que me abrasa o peito, que me há de levar à sepultura.

— Ouve: eu já não te disse que conheço-a como palmas de minhas mãos?

— Dissestes.

— Pois então, atende-me. Essa mulher (e crê que todas as outras) enquanto se vir admirada e solicitada, te desprezará; mas logo que, por seu turno, se julgar com razão desprezada, é capaz de rojar-se a teus pés. Finge odiá-la e verás se não digo a verdade.

— Pois sim.

— Vive para a vingança.

— Aceito.

*** 

O moral exerce imensa influência sobre o físico.

Quando imaginamos estar doentes ou sofrer, por fim adoecemos e padecemos na realidade.

Quando sentimos males físicos ou morais que queremos que eles sejam falsos, muitas vezes vemo-los desaparecer.

 Por isso não estranharão os leitores que um mês depois do que acima relatamos, de novo lhes apresentemos Carlos sob outro aspecto.

O conselho de Aurélio fez-lhe mossa: viver para vingar-se tornou-se a sua ideia fixa e dominante.

À força de fingir-se alegre e folgazão, tornou-se o com veras.

À força de querer engordar e ser bonito, viu realizado o seu desejo.

À força de fingir que amava a uma formosa moça, com cuja família dava-se, somente para desfeitear a Israel, amou-a do mesmo modo que a esta.

Mais feliz porém foi então, pois viu-se correspondido pela enlevadora Gabriela, com amor igual ao seu.

Em pouco tempo divulgou-se o boato de que próximo estava o dia do casamento de Carlos com Gabriela.

É impossível adivinhar o grau de desilusão, de desespero de Isabel, quando teve ciência de tal sucesso.

— Pois há de ele casar-se, murmurava ela passeando febrilmente na sua câmara e eu ficar solteira, vendo-o passar por mim com outra mulher, quando o seu lugar me estava reservado? Oh! não: hei de empregar todos os esforços para que esse casamento não se realize; hei de procurá-lo e recordar-lhe o amor que me consagrou; hei de explicar-lhe do melhor modo por que não o atendia, inventando razões plausíveis e valiosas; hei de enfim oferecer-lhe a minha mão. Ai! desgraçada a lembrança de fingir desprezá-lo: se eu soubesse que ele era tão volúvel por certo que render-me-ia logo aos seus pedidos.

Muito tempo ficou assim monologando, até que, para distrair-se, chegou à janela.

Coincidência fatal! À pequena distância vinha Carlos, conversando com Aurélio e rindo ás gargalhadas.

— Carlos, disse ela, vem cá.

— Senhora? 

— Desejo falar-lhe em particular.

— Com muito gosto a ouvirei, contanto que não me tome muito tempo: tenho que tratar agora de negócios relativos ao meu casamento.

— Sempre é certo?

— Sim, senhora.

— Então esqueceu-se de mim?

— É verdade, por sua culpa.

— Mas se soubesse os motivos ponderosos que me obrigaram a simular o que não sentia...

— Perdão, minha senhora, não quero ouvi-los: é tarde, é muito tarde. Agora já devo-me à outra, que me adora e à qual de nenhum modo quero desgostar. Console-se como eu me consolei: enquanto há vida há esperança... Adeus; se algum dissabor sofrer com isso, queixe-se de si.

E retirou-se bruscamente, acompanhado do seu amigo, antes que deixasse a vítima de si própria ver-lhe nos olhos duas lágrimas de piedade.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 

— Então, Carlos, o que dizes a isso? perguntava Aurélio daí a pouco. Não me agradeces o conselho com que te salvei?

— Eu não, balbuciou Carlos comovido; mudemos de conversa.

 
“Tereza”, de Fernandes Pinheiro Júnior 

*** 

Não sob o céu brasílico, nesta natureza louçã, que tantas e tão variegadas galas ostenta, porém sim nas adustas plagas africanas, viu a luz do dia Tereza.

A terra do Saara, esse imenso oceano de areia, onde não raras vezes sepultam-se as errantes caravanas; onde só de longe em longe encontram-se os oásis criados pela providência para refrigério dos viandantes; a terra dos leões, dos tigres, dos elefantes, dos camelos, das hienas, das panteras e dos chacais, foi o seu berço.

Aí passou a infância na companhia de seus pais, dois pobres pretos ignorantes, mas que a adoravam com todo o ardor de suas almas selvagens.

Livre e inocente, viu deslizarem-se os seus primeiros anos.

Quem diria que ali, num clima abrasador, ela desfrutava uma felicidade, que nunca mais gozaria, e num povo bárbaro, entre animais ferozes, ela era mais feliz do que o seria no seio dum povo civilizado, que professa a religião do Crucificado, toda de amor, toda doçura, toda caridade? Mas assim estava escrito no livro do destino e tinha de realizar-se. 

*** 

Maldita seja a escravidão!

Instituição reconhecedora do direito da força, consagradora do abuso, instituição eminentemente irreligiosa e imoral, imprime ela um negro labéu naqueles que a defendem. Com que direito um homem apossa-se doutro, igual a ele em tudo, exceto na cor, e diz-se seu possuidor, como se ele fora uma coisa, um objeto puramente material?

Não descendemos todos de um mesmo pai e de uma mesma mãe?

Oh! é triste a existência do misero cativo, se é que ele existe. Não pode pensar, não pode gozar, não pode queixar-se, não pode até adoecer: não é senhor em suma da sua vontade.

Haverá coisa pior?

Se o seu coração nutre amor a alguém, se quer divertir-se, se precisa descanso, tudo lhe é vedado.

O escravo é apenas uma máquina de trabalho; ou antes, é como o burro, que vive somente para trabalhar e sofrer maus tratos.

Sabem os leitores o valor da liberdade, desse celeste bem que nos permite fazermos o que desejamos, que é a fonte de todas as venturas?

Se sabem, basta dizer-lhes que o escravo não tem liberdade para definir a sua sorte; se não... inútil é continuarmos. 

*** 

 “Naquele engano d’alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito.”  

Estava Tereza, quando um dia, dia cruel, pois exerceu uma funesta influência em toda a sua vida, um fato inesperado, mas muito comum nesses vergonhosos tempos em que começa esta pequena história (1848), veio pôr um termo à sua felicidade e à dos seus.

Chegara a noite.

Dominava então a estação chuvosa, rara na África, pois quase sempre reina a seca ardente. A chuva, que caía em catadupas, coava pelas palhas que serviam de teto às mesquinhas palhoças dos míseros africanos, e um terrível furacão parecia querer destruir estes fracos abrigos às intempéries do tempo.

Embalada numa rede de grosseiro pano pelos seus carinhosos pais, acabara Tereza de adormecer, quando súbito desperta, assustada por aflitivos gritos e pelo estrépito de uma luta.

Ergue-se e vê seus pais lançados ao chão e sendo amarrados por seis homens brancos, que zombavam de seus clamores e de suas lágrimas.

Um grito de terror escapou-se-lhe do peito.

Foi a sua perdição.

Um dos homens lançou-se sobre a rede, agarrou-a e, visto ter ela desmaiado, amarou-a sem dificuldade.

Logo que virão seguras as suas presas, carregaram-nas os algozes para bordo dum navio traficante, que estava fundeado a pequena distância da aldeia em que teve lugar esta cena indigna.

Por toda a parte onde passavam, ouviam os pais de Tereza e ela, gritos, ais e lamentações.

Toda a aldeia era igualmente vítima da crueldade que os aniquilaria.

Muito pode a cobiça. 

***

Passou-se um ano.

O navio em que embarcaram esses desgraçados tinha chegado ao seu destino.

Durante a viagem, os pretos desesperados pela fome e por verem-se reclusos no porão dum navio, onde não havia luz, resolveram sublevar-se, a fim de recuperar a liberdade.

A sua ignorância não os deixou refletir que deviam achar-se no alto mar, que nada entendiam da navegação e que, vencedores ou vencidos, era a mesma a sorte que os aguardava-a morte.

Embora! Antes morrer livre do que existir escravo!

E pois rebelaram-se.

Quando o encarregado de fornecer-lhes o alimento, abriu a boca da escotilha para dá-lo, no quinto ou sexto dia da viagem, um negro possante saltou sobre ele, agarrou-o e caíram juntos no fundo do navio.

Aproveitando-se rapidamente deste incidente, todos os seus companheiros começaram a subir para a coberta do navio, antes de darem tempo a qualquer resistência.

Em breve acharam-se todos em cima. Negros e negras, moleques e negrinhas, formavam um todo medonho, compacto, terrível.

O furor estava desenhado em todas estas noturnas fisionomias.

Entretanto o comandante chamara às armas toda a tripulação do seu navio, e; aparecendo de súbito seguido dela, armada de espingardas e machados, intimava aos míseros africanos que de novo voltassem para o lugar donde tinham saído.

Longe de obedecerem-lhe, eles começaram exterminá-los, apontaram-lhes as espingardas.

“A nada disto os brutos se moveram.”

Pudera não! Se eles ignoravam a serventia da arma de fogo...

Afinal, fazendo grande vozeira, arremessaram-se ameaçadores sobre os seus algozes.

Um repentino clarão tinha iluminado todo o navio e soara um estampido horrível.

Mortos e feridos caíram alguns; à maior parte porém derribara o susto.

Tinham sido as espingardas descarregadas e de novo se estavam carregando.

Já humildes e de mãos postas, os negros pediam perdão, choravam, prometiam obedecer a tudo, mas não foram atendidos: uma segunda descarga ceifou mais algumas vidas, que jaziam prostradas!

Vergonha, crueldade sem nome!

Certos de que os míseros africanos não mais resistiam, ordenou-lhes o seu principal verdugo que de novo descessem ao porão.

Era de comover o coração mais empedernido a vista daquele bando de criaturas seminuas e negras, caminhavam voluntariamente para o seu suplicio.

Depois de restabelecer a ordem com a morte de vinte desgraçados com os ferimentos de oito, que, à míngua de tratamento, pereceram depois, seguiu o navio a sua rota e chegou ao fim sem nenhuma outra novidade.

E diziam-se cristãos os tripulantes desse navio! Que escárnio!

Verdadeiros monstros, tigres sanguissedentos, carniceiras hienas, eis o que eles eram. 

*** 

Entre as vítimas dessa atrocidade, achava-se o pai de Tereza. Uma bala arrebentara-lhe o crânio e prostrara-o sem vida.

Oh! É me impossível descrever a dor que sentiram sua mulher e a filha, quando viram-no exalar o último alento.

Não há termo que exprima a intensidade do desespero dessas desgraçadas criaturas. Eu quisera só que as vissem nesse momento essas almas ignorantes e cruéis, que julgam que o escravo não tem sentimento. Sim, eu quisera que as vissem lançarem-se, lacrimosas e exalando pungentes gemidos, sobre o cadáver gélido do seu parente, abraçá-lo, beijarem-no e examinarem-lhe o coração incessantemente, como que duvidando da cessação da sua existência.

A estas mostras de profunda e sincera dor, veio arrancá-las a ordem de regressarem à sua prisão.

Ai! Se elas soubessem que, para melhorar a sua sorte, perderiam o seu único amigo, por certo que conservar-se-iam alegres no infortúnio. Quanto mais se soubessem que, perdendo-o, continuariam a sofrer...

É esta a sorte da humanidade: sempre desejosa de alcançar mais do que possui, ainda quando o não necessite, faz mil esforços para melhorar e as mais das vezes encontra o veneno onde esperava o néctar, depara com o desespero onde via a esperança, acha o pranto onde sonhava o gozo, cai fulminada pela morte onde cuidava lobrigar a vida. 

*** 

Vinte e dois anos são passados depois destes tristíssimos fatos que temos narrado até aqui. Que rapariga é aquela, ainda moça, simpática, vigorosa, que com passo lesto, caminha para uma praia deserta?

Sabê-lo-emos em breve.

Chegando à praia, subiu um rochedo que havia, e com bastante dificuldade.

De repente deu um grito. De medo por certo não era ele, pois quem vai a uma praia abandonada alta noite, não receia nela encontrar quem quer que seja, porque para bom fim não vai. Ao sinal que deu da sua presença, um vulto, que estava assentado no alto do rochedo, voltou-se rapidamente e perguntou com voz rouca e vibrante:

— Quem és tu?

— Minha mãe! Exclamou a recém-chegada, que sem dúvida conheceu quem já ali estava, e atirou-se-lhe nos braços com um ardor inexplicável.

Esta também reconheceu-a logo, pois foi pronta em retribuir-lhe a efusão de alegria e murmurou com voz sufocada:

— Tereza... minha filha!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 

— Decorreram-se alguns momentos difíceis de descrever-se.

De parte a parte trocaram-se mostras de ternura e recíprocas perguntas, tão seguidas que todas ficaram sem resposta.

Por fim, restabelecida a calma, perguntou a mãe de Tereza:

— Que te trouxe aqui, minha filha?

— O desejo de pôr termo a meus dias.

— Por quê, Tereza?

— Porque, estando prestes a ser mãe, não quero dar à luz um desgraçado, não quero que meu filho seja escravo. Ai! Se soubesse quanto tenho sofrido...

— É verdade, minha filha: conta-me a tua história, que depois contar-te-ei a minha. Começa já, que estou impaciente por saber o que te aconteceu desde o fatal momento em que nos separamos.

— Pois bem, minha mãe: ouça.

E ali, sobre um rochedo, numa praia deserta, ouvindo o gemer das ondas açoitadas por um vento frio e tempestuoso, unidas por amical amplexo, a miúdo derramando amargas lágrimas pela recordação de passadas desgraças, as duas filhas da desditosa e inóspita África, desprezando os relâmpagos que sem cessar sulcavam o espaço e os trovões que ribombavam de quando em quando, sem sentirem a chuva que a grandes borbotões cabia das nuvens prenhes d’água, fizeram uma a outra, cada qual por sua vez, a narração dos seus infortúnios. 

***

Eis em resumo o que lhes sucedera desde o momento em que as deixamos.

Logo que chegaram ao seu destino foi todo o carregamento do navio, inclusive elas, vendido a um negociante milionário, cuja fortuna, como muitas que por ali existem ainda hoje, tinha procedido da sujeição ao cativeiro de milhares de criaturas.

Este, por seu turno, vendeu-as, porém cada uma a um senhor diferente.

Debalde empregaram elas a suplica e o pranto para serem vendidas juntamente.

Debalde!

Nenhum dos seus compradores quis ficar com ambas e os seu possuidor não tinha coração. Como o conquistador, que só detém-se quando é derrotado ou quando morre; como a sanguessuga, que só repleta de sangue, abandona a vítima; a sede de ouro dominava-o em todos os atos de sua vida; nada fazia de que não lhe resultasse algum proveito: era um verdadeiro homem de metal, na fase do mavioso cisne Casimiro de Abreu.

Estúpido em excesso, figurava no entanto em toda a parte, porque tinha dinheiro, assemelhando-se o pirilampo, que, sendo um mísero inseto, chama nas trevas atenção sobre si pela sua sulfurosa luz.

Desde o dia em que foram separadas nunca mais se viram essas infelizes.

A mãe de Tereza foi vendida a um péssimo senhor, que continuamente a maltratava com injurias e pancadas.

Depois de ter-lhe servido muitos anos, afinal vendeu-a ele, por precisar de dinheiro, a um homem velho e piedoso, que morrera há pouco, deixando-a livre.

Mas de que lhe servia então a liberdade?

Afastada para sempre, pensava, do único ente a quem tinha afeição, nenhum desejo tinha de viver.

Contudo, procurou subsistir e alugou-se numa casa de família, onde os chefes, inimigos irreconciliáveis da malfadada raça de Cam, continuamente a atormentavam com uma crueldade pasmosa.

Desesperada enfim de obter neste mundo melhor vida e de encontrar a sua filha querida, ideia que sempre a alentou sob o jugo do cativeiro, resolveu suicidar-se. Para esse fim tinha-se dirigido àquele lugar e onde buscava a morte achou a maior ventura que lhe era possível alcançar.

Por seu lado, Tereza fora vendida a um fazendeiro, que não era dos melhores senhores, e que comprara-a para o serviço da roça.

Exposta a todo tempo, manejando pesada enxada, nunca tivera outro pensamento que não fosse para sua mãe: nunca passou-se um só dia em que lágrimas saudosas não sulcassem as suas faces, abrasadas pelo sol.

E muitas vezes, fazendo-a o excesso de sua dor esquecer do trabalho, era chamado a ele, experimentando a pujança do musculoso braço do feitor.

Pois se era escrava a mesquinha...

Um dia finalmente, passados longos anos de um martírio indescritível, abandonou a casa do seu senhor, na qualidade de fugida.

Este recorreu aos anúncios nos periódicos e em breve foi ela reconduzida a casa, onde declarou não querer conservar-se, prometendo fugir de novo. 

Foi por isso transferida a outro possuidor, que levou-a para a Corte, teatro destes últimos acontecimentos.

Aí, cansada de sofrer e não querendo aumentar com o seu filho o número dos desgraçados, decidiu também, como a mãe, pôr fim aos seus dias.

E, singular coincidência! Mãe e filha, levadas pelo mesmo desejo de fundar os seus males, acharam-se reunidas, por assim dizer, na borda do tumulo, após longo e penoso apartamento.

Pela primeira vez em sua vida conheceram essas ignaras criaturas a bondade da Providência, isto é, que havia um ente superior a todos, arbitro do universo, que delas tinha-se compadecido.

Mas... 

*** 

Por que tanta precipitação em julgarem-se felizes!

Se sua mãe tinha encontrado o que buscava, a Tereza não acontecia o mesmo. A sua situação era idêntica à anterior.

Em breve conheceram a realidade e meditaram.

— Tereza, disse por fim a velha, eu estou contente: vi realizados os meus únicos e ardentes desejos. à tua sorte porém não melhorou e só lhe descubro uma saída: trabalhemos, trabalhemos ambas com ardor e incessantemente para a libertação de teu filho; invoquemos a caridade pública, façamos tudo para obter o dinheiro necessário para libertá-lo na pia. Quanto a ti... confia em Deus e espera.

— Aceito, minha mãe.

E, dando-se as mãos, desceram o penhasco.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

No dia seguinte era promulgada a sabia, moral e religiosa lei de 28 de Setembro de 1871, e daí a pouco dias nasceu livre o filho de Tereza.

Esta, aconselhada por alguém, dirigiu-se uma noite à rua dos Beneditinos e no outro dia pôde recordar-se, sem ter quem lho vedasse, do tempo que passara no seu país natal, criança e feliz, na companhia de seus estremecidos pais.

A maçonaria tinha estendido sobre ela a sua proteção benéfica e desde esse dia era senhora da sua vontade, tornara-se de novo um ente racional.

Reconhecida a isso, nunca deixou ela passar uma noite sem orar por seus benfeitores, em companhia de sua mãe.

Depois recordavam saudosas as cenas que tinham presenciado em sua pátria e chorando deploravam a morte do esposo e pai, vítima da cobiça, da infâmia e da falta de religião.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)