quarta-feira, 12 de maio de 2021

Segredos de um coração (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior


CAPÍTULO 1: SEGREDOS DE UM CORAÇÃO 

Lá, ao longe, num sítio que a vista descortina, mas cuja distancia não pode medir, soerguia-se pálida, merencória e radiante de beleza, a rainha noturna da etérea imensidão. Era o dia de plenilúnio. 

A vasta baía do Guanabara, prateada pelos seus raios, apresentava aos olhos da bela e pitoresca Niterói um espetáculo arrebatador, digno de ser admirado pelo mundo inteiro. 

Sobre ela prolongava-se o firmamento límpido, sem uma nuvem, no vivo azul do qual, de longe em longe, cintilava apenas uma estrelinha. 

A viração suave agitava ligeiramente os ramos das árvores, após um dia em excesso calmoso. 

A deliciosa fragrância das flores, que adornavam os jardins niteroienses, embalsamavam o puro ambiente. 

Noite mais linda e voluptuosa é impossível que tenha havido em qualquer parte do globo terráqueo.

***  

De uma casa da rua da Praia, cujo jardim estava na frente, entreabrira-se havia pouco uma janela e um vulto nela se debruçara. 

À claridade do luar, bem se podia distinguir uma sedutora fisionomia feminil, o semblante angélico de uma virgem, que não teria mais de dezoito anos. 

Descorada e macilenta, a moça se reclinara ao peitoril e, depois de ter observado por instantes a rainha das noites, fixou a sua vista na rua e ficou queda e silenciosa. 

Tão imóvel conservou-se e por tanto tempo, que dir-se-ia uma estátua, porém a estátua da beleza. 

A Vênus pagã, se existisse e a encontrasse de frente, velaria o seu rosto, dominada pelo pejo de ver uma mortal excedê-la em formosura. 

De súbito a jovem estremeceu. 

Ouvindo passos, apurara a vista e viu passar junto ao gradil do jardim, com passos lentos, uma família composta de um homem e uma senhora idosos, adiante dos quais caminhava, dando o braço a um mancebo, uma linda e gentil deidade que quase igualava-se à sua observadora. 

Vi-os; e sua fronte pendeu sobre a mão e frases ininteligíveis exalou-se o seu peito. 

Não era mister possuir-se a faculdade de adivinhar para saber que a moça sofria. Por fim os seus lábios cessaram de palpitar apenas e moveram-se como as pétalas da rosa, agitadas pela brisa. 

Tornou-se então possível ouvir o que dizia ela.


Deixava destilar os segredos do seu ingênuo e infeliz coração.

***  

“São eles. 

“Eles – os felizes da minha felicidade, que ousam passar por mim para meu maior martírio. 

“Oh! eu sofro muito! 

“Amo-o; e sou desprezada, por outra a quem não sou inferior. 

“A minha consciência diz-me que os meus dotes intelectuais excedem o nível dos seus. 

“Todos acham-me bela; até as minhas próprias companheiras! 

“Quais os motivos da sua ingratidão? 

“Oh! eu sofro muito! 

“E no entanto amo-o com aquele amor puro e veemente que consagro a Deus e a meus pais. 

“E no entanto apossa-se de mim a febre do desespero no dia em que não o vejo. 

“E no entanto dera a minha vida para salvar a dele.” 

Aqui sentidos soluços embargaram a voz da moça.

***  

Após alguns instantes continuou: 

“Eu deliro. 

“O que me impede que o esqueça e o despreze também? 

“Acaso merece ele o meu amor? 

“Por que hei de carpir a minha... ventura? 

“Ventura, sim; que o homem que aflige uma mulher inocente é uma fera, é uma víbora. 

“Maldição para ele. 

.......................................................................... 

“Ai! que digo? 

“O meu coração, estorcendo-se em convulsões de agonia, rebela-se contra os decretos da razão. 

“É-me impossível olvidá-lo. 

“Leve-me embora o seu desprezo à sepultura; sempre consagrar-lhe-ei estima, sempre por ele pedirei a Deus. 

“No céu mesmo, a sua lembrança e a da adoração que lhe tributo continuará a dominar-me. 

“E quando soar a trombeta do anjo da ressurreição; quando no Josafá se encarnarem todas as almas; confiada na magnanimidade divina, tenho certeza que encontrá-lo-ei. 

“E então...” 

Não pôde concluir; parece que mão invisível e bondosa, receando que deles irrompesse alguma blasfêmia, abotoara os seus lábios.

*** 

“E ela? prosseguiu a moça com voz sumida. 

“Crendo talvez que é a sua pessoa e não a sua fortuna que ele adora, sem dúvida corresponderá ao seu amor. 

“Sem dúvida, sabendo que eu o amo, não perderá ocasião de ridicularizar-me, sendo por ele aplaudida e acoroçoada! 

“Oh! Vergonha! Miséria! 

“Até quando há de o dinheiro ser superior à virtude, ao talento, ás qualidades reais? 

“Compadecei-vos de mim, meu Deus. 

“Já que é-me impossível conquistar ao menos a sua atenção, já que sou ludibrio dum ingrato, já que a carreira de minha vida está juncada de urzes e espinhos, arrebatai-me deste mundo, eu vô-lo peço por Jesus Cristo. 

“Atendei-me, Senhor”. 

De novo, sufocada pelas lágrimas reprimidas, calou-se a desditosa. 

Seus olhos erravam, brilhantes de um brilho sinistro, do céu para a rua e desta para o jardim. 

A cor de seus lábios tinha desmaiado prodigiosamente. 

Arquejante levara a mão ao peito, como para comprimir o coração, que parecia-lhe querer arrebentar de dor. 

Uma tosse convulsiva apoderou-se dela e embargou-lhe de uma vez a voz. 

Só então cessou de delirar e, fechando a janela, recolheu-se ao leito. 

Quem seria essa vítima do amor? 

É-nos unicamente licito as seguintes ligeiras e incompletas informações. 

Chamava-se Madalena. 

Não sendo correspondido o seu amor pelo indivíduo a quem tributava-o dum modo descomunal, tanto se afligiu com isso a infeliz, que afinal ficou ética. 

Havia já três meses que era presa dessa cruel enfermidade, quando se passou o que vimos de referir.

*** 

Recolhida ao seu leito, adormeceu logo e dentro em pouco começou a sonhar.

 

Viu um anjo esplendoroso e de alvas roupagens sorrindo e chamando-a. 

Ergueu-se para acompanhá-lo e de súbito, abrindo-se a terra, foi ela precipitada no espaço. 

Nessa ocasião, atemorizada, soltou um ai, que foi como o ponto final do seu sonho. 

Era o seu último suspiro.

 

CAPÍTULO 2:  JUSTIÇA DE DEUS 

Doze dias depois daquele em que a desventurada Madalena foi habitar com os anjos, celebrava-se um casamento na igreja de... 

Os noivos já são conhecidos dos nossos leitores desde a história anterior. 

Eram os dois moços que recordaram à malfadada amante a sua desgraça. 

Chamavam-se: ela Aurora e ele – Rafael. 

A noiva era filha de um ricaço viúvo, cujas riquezas todos ignoravam donde provinham. 

O noivo era um rapaz extravagante que, tendo esbanjado uma imensa fortuna, herdada de seus pais, procurava então reaver a perdida posição por meio de uma aliança dinheirosa. 

Quis a fatalidade que Madalena encontrasse-o no seu caminho e disso resultou a sua desventura. 

A notícia da morte desta não lhe causou a menor comoção; a perda de uma moça virtuosa e pobre não lhe era de nenhum modo sensível. 

O seu deus era o interesse.

***  

São passados dois anos. 

Recostado ao sofá, acabara Rafael de ler a Pátria, jornal niteroiense, em voz alta, para a sua consorte ouvir. 

Nele se anunciava um baile para o dia seguinte. 

Aurora, que, sentada numa cadeira de balanço, escutava-o, não pôde dissimular a sua alegria, sabendo essa nova. 

— Vamos, exclamou peremptoriamente. 

— Hoje não, respondeu o marido. 

— Havemos de ir. 

— Com o meu consentimento, não. 

— Era o que faltava: se não quer ir, fique só. 

— Não fico, porque tu não vás. 

— E por que não vou? 

— Porque já estou aborrecido de festas e porque não posso com tanta despesa. 

— Ora... 

— Não posso, sim; a todas as partes tu queres ir: se não fosse eu, não perdias um só baile, um só espetáculo; num dia gastaras o que eu ganho num mês. Teatros, salões, bondes, barcas: eis as únicas coisas em que tu cuidas. 

— E de quem é o dinheiro? 

— Cala-te, mulher. 

— Não calo-me: de quem é o dinheiro? 

— O que gasta é adquirido pelo meu trabalho; o que tens ainda está no banco em que puseste: felizmente tenho tido até hoje o bom senso de não tocar no teu dote. 

— Mas eu tenho dinheiro e quero ir a toda a parte; quero gozar da vida, quero me divertir. 

— Tu não refletes, Aurora: então por termos dinheiro devemos esbanjá-lo, não fazermos nada, só cuidarmos em divertir-nos e adquirirmos hábitos perniciosos? Não podemos ter filhos? 

...................................................................

***  

Havia seis meses que era esta a vida dos dois cônjuges. 

No princípio, na lua de mel, de boa vontade frequentava Rafael todos os divertimentos e era um escravo submisso das modas, não só para contentar a jovem esposa, como ainda porque era do seu gênio. 

Mas tudo muda: o mundo é um vasto cosmorama, onde as vistas sucedem-se constantemente; um imenso teatro, onde os homens, ridículos comediantes, a cada hora apresentam um aspecto diverso. 

Passadas as indescritíveis delicias do noivado e os dias de vero prazer que por algum tempo o seguem, arrependeu-se Rafael das loucuras da sua mocidade e do esbanjamento do dinheiro que havia. 

Considerou demais que o seu estado era outro e que outro devera ser portanto o seu procedimento. 

Cada um em seu lugar, dizia ele. 

Desde esse tempo (ano e meio depois do seu casamento) era a sua vida um continuo martírio. 

Ora nuvens ligeiras e pardas, ora grossas e negras, toldavam o horizonte da sua felicidade. 

Sempre havia desavenças entre os dois. 

Por um lado queria ele, obedecendo à razão, reformar o seu modo de viver. Por outro, caprichava ela em haurir, cada vez a mais largos tragos, a taça do prazer. 

É esta a causa da desgraça ser o apanágio da maior parte dos matrimônios: a falta de juízo e de condescendência mútua. 

E o pior é que quem fica com má fama é o pobre sacramento! 

***

Mil vezes o remorso e o arrependimento tinham inexoravelmente pungido o peito de Rafael. 

A lembrança de Madalena perseguia-o sempre e fazia-o (tanto pode o infortúnio!) derramar lágrimas de sincero pesar. 

A desoras, era o seu sono perturbado: parecia-lhe que a moça esquálida e lívida erguia-se do tumulo para acusá-lo de sua ingratidão para zombar de seu estado. 

Começou a emagrecer a olhos vistos, trazia o seu rosto abatido, de seus lábios viu fugir o riso, tornou-se o seu semblante cadavérico. 

Os seus próprios companheiros de extravagâncias não conheciam-no mais. 

Dir-se-ia que a sepultura em breve abriria a boca para tragá-lo. 

Mas quis Deus que, para maior punição sua, assim não sucedesse. 

Uma febre tifoide ceifou em poucos dias a vida da sua consorte e, em razão de não ter ela tido filhos, nem feito testamento, passou a maior parte de sua fortuna ás mãos dos parentes. 

*** 

Rafael é um exemplo da justiça de Deus. 

Procurando somente o interesse, em vez das boas qualidades e do amor desinteressado, foi sua existência por isso infelicitada e, como complemento da sua má sorte, foi alfim privado do móbil do seu casamento. 

Compadeçamo-nos dele, porque assaz purgou o seu erro: desculpem-me as leitoras, nem no inferno pode haver suplicio pior do que uma mulher impertinente. 

Sirva entretanto o pobre moço de exemplo àqueles que, casando-se, só têm por fim adquirir fortuna.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

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