quarta-feira, 12 de maio de 2021

Virgílio e Amélia (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior


Virgílio  e Amélia 

CAPÍTULO 1: VIRGÍLIO 

Há tempos um periódico macaense deu a seguinte notícia:

“Foi ontem encontrado na praia do Imbetiba o cadáver do Sr. Virgílio de Azevedo, que desde anteontem desaparecera desta cidade.

“A autoridade competente prossegue a averiguações sobre o fato”.

Quem era o Sr. Virgílio de Azevedo? Que emprego tinha? Seria casual a sua morte, ou teria ele sido vítima de algum crime?

Eis o que vamos, se bem que muito resumidamente, dizer aos nossos leitores.

*** 

No dia 1º de janeiro de 1840, apresentou-se um fazendeiro do município para batizar um filho, na capela onde se celebravam todos os misteres da religião nesta cidade (a qual era por esse tempo na praça da Alegria, canto da rua da Esperança, na mesma casa em que depois se tem estabelecido várias pessoas com negócios em pequena escala).

Antes porem de se celebrar a cerimônia, conferenciou ele com o padre, durante mais de uma hora, sobre o nome que lhe devia dar. Por fim decidiu que queria um nome de poeta e escolheu, entre os que o padre indicou-lhe, o de Virgílio. Foi, pois, o menino batizado com esse nome, ao qual o pai depois acrescentou o de Azevedo, para ver se com dois nomes de poetas igual sina caberia ao filho; pois era esse o seu maior desejo.

Causava na verdade admiração ver aquele homem rústico e ignorante ficar fora de si, anelante, com a boca aberta e os olhos quase a saltarem das orbitas, quando ouvia ler qualquer poesia. É que a poesia, como a música, exerce poderosa influência sobre as mais rudes naturezas. 

***

Tendo Virgílio atingido a idade de 15 anos, depois de findos os seus estudos na escola pública da cidade, aí empregou-se numa casa de comercio.

Moço inteligente, modesto e afável, granjeou em pouco tempo numerosas simpatias.

A suas horas vagas consagrava-as ele ao estudo e a composições literárias. O ramo da literatura e a que sobretudo mais se dedicava era o poético. Muitas vezes li poesias suas, que hoje deploro infinitamente não ter copiado.

Deixemos de parte vários fatos pouco importantes de sua vida, para dizermos a causa que o determinou a pôr fim a seus dias.

***  

Era um domingo; havia um pequeno sarau numa casa de família desta cidade, para a qual ele tinha sido convidado. As horas designadas compareceu e assistiu até o fim.

Porém, coisa singular! ao sair, Virgílio não era o mesmo que tinha entrado. Tornara-se pensativo e triste; sentia alguma coisa que o abrasava.

Dois dias depois publicava-se uma pequena poesia anônima, na qual o seu autor fazia, arroubado de entusiasmo, uma declaração de amor. E o autor dessa poesia era Virgílio.

Ah! Cupido, Cupido, de quantas desgraças és causa! Ora feres somente a um coração e deixas o outro incólume, ora feres a ambos, mas reserva-lhes a separação. Feliz o mortal que atravessa a longa e espinhosa carreira da vida sem ter sido tocado por tuas flechas. Desditoso aquele que uma só vez sentiu o peito ferido por ti: esse pode-se julgar infeliz para sempre, pois o amor é uma loucura e a loucura é uma desgraça.

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E pois Virgílio estava louco.

Amava perdidamente a uma gentil deidade macaense, que entretanto não amava-o.

Por mais que ele fizesse por merecer-lhe ao menos simpatia, eram baldados os seus esforços.

Ele era pobre... de dinheiro e ela rica: eis a barreira que os separava. Como diz o Dr. Joaquim Manuel de Macedo, a pobreza é a morfeia.

Todavia pobre era ela também... mas de espírito, e ele rico.

Porém o que vale o saber? Não pesa, não tem valor; com ele não se compra um vestido de seda, não se dá bailes, não se vai ao teatro.

Demais Virgílio era poeta e 

Um poeta no mundo tem apenas
O valor de uma gaiola;
É prazer de um momento, é mero luxo. 

(Álvares de Azevedo) 

Um poeta é... um doido.

***

Vendo-se possuído de uma violenta paixão por quem desprezava-o, Virgílio resolveu suicidar-se. Digam o que quiserem contra o suicídio, na minha opinião há causas que o justificam. E depois, será crime apressar o dia em que devemos ver ao nosso criador?

Antes porém de executar o seu intento, Virgílio dirigiu à sua ingrata amada a seguinte poesia, que não podemos furtar-nos de dar aos nossos leitores, como um espécime do seu talento.

 

A *** 

Quando o dobre dos sinos tu ouvires
A morte anunciando dum cristão,
Sabe, anjo cruel, lindo demônio,
Que já não pulsa mais meu coração. 

Sabe ainda que a tua crueldade
É que faz-me este mundo abandonar,
Pois não deve-se amar quem não nos ama
E viver eu não posso sem te amar.

Mal vi-te uma só vez meu coração
Senti logo pulsar de amor por ti:
Ai! Louco, que na aurígera muralha
Que se erguia entre nós não refleti!

Fizeste bem, mulher, em desprezar-me:
Tu és rica e eu pobre; fui ousado!
Maior castigo ainda merecia
Por julgar que por ti seria amado.

É duro de dizer-se, mas é certo:
Para o rico não é o pobre mais
Que um cão, que rajar-se aos pés lhe deve,
Sempre pronto a atender aos seus sinais.

Adeus, pois; sê feliz, que eu não podendo
Viver na terra, vou morrer no mar:
O meu perdão tu tens; lembra-te dele
Quando o remorso um dia te ralar. 

*** 

Quando ela recebeu essa poesia, Virgílio já era cadáver.

Tinha-se dirigido à Fortaleza e precipitado ao mar.

Pobre moço!


CAPÍTULO 2:
AMÉLIA 

Raiava o dia 10 de dezembro.

Era um dia de festa para Amélia, que fazia quatorze anos de idade. Não pensem porém, leitores, que era esta a causa de sua alegria; não: era que nesse dia cumpria-se um dos seus mais gratos desejos, uma das coisas por que anelam todas as meninas e a que dão uma importância inqualificável; ia enfim “botar vestido comprido.”

 não ser o do casamento, que dia haverá mais memorável na crônica da vida de uma moça? Nenhum, leitores; por que “botar vestido comprido” é ter entrada no número das moças e ser moça... silêncio!

Falemos em Amélia.

***

Mal lobrigou ela a claridade do dia pelas frestas da janela de seu quarto de dormir, ergueu-se de um salto do leito e vestiu com uma alegria febril um vestido que mandara fazer para esse dia.

— Que diz do meu vestido novo? perguntava ela daí a instantes à sua criada. Não fico mais gentil e mais bonita com ele? (Qual a moça que julga-se feia? Diga-lhe embora mil vezes o seu espelho: é mentira). Oh! Deus permita que minha mãe queira sair hoje: eu desejo que todos vejam o meu vestido.

— Fique quieta, sinhá, replica-lhe a criada; tenho modo: o que não se há de dizer vendo sinhá tão contente só por mode um vestido?

— Gala a boca, negra; olha que eu vou dizer à minha mãe que você está caçoando comigo.

 E foi-se.

***

A mãe já estava em pé...

Amélia dirigiu-se a ela.

— A benção, minha mãe. Este vestido não me assenta melhor do que os outros?

— Assenta, minha filha...

— Oh! estou arrependida de não o ter usado à mais tempo. Não há nada como um vestido comprido...  

— Modera a tua alegria, retorquiu-lhe a mãe; não são os trajes que dão importância às pessoas e sim as suas boas qualidades.

Amélia retirou-se triste para a janela, murmurando:

— Ai de mim! ninguém em casa faz caso do meu vestido. Vamos ver se os estranhos consideram-no mais.

***  

— Adeus, prima, como está? perguntou-lhe um sujeito que passava. Gomo vai minha tia?

— Sem novidade, primo; e Você?

— Como vês; mas que é isso? A prima já adotou o vestido comprido?

— É verdade; e completo hoje quatorze anos.

(Permitam-me, leitores, que aqui abra um parênteses para dar-vos uma explicação. Amélia disse exatamente a sua idade porque, como todas as outras meninas, deseja ser moça; mas, como todas as moças, quando chegar aos vinte anos, há de esquecê-la).

— Sei, continuou o primo, que está muito contente: era essa talvez uma das coisas que mais desejava.  

— Não o nego.

— Pois receba os meus comprimentos, quer pelo seu aniversário, quer por ter conseguido o que anelava, e desculpe-me abandonar a sua excelente companhia, porque agora tenho muito que fazer: se for*me possível, voltarei logo.

— Antes de ir, diga se aceita ou não o meu convite: venha hoje jantar cá. Minha mãe autorizou-me a convidar todos os que, como você, tem intimidade na casa.

— Aceito com muito gosto, respondeu Alfredo (assim se chama o primo de Amélia), e depois de terem-se apertado reciprocamente as mãos, retirou-se ele, ao passo que Amélia saía também da janela mais satisfeita. 

***

Eram horas do jantar... 

Achavam-se à mesa a mãe de Amélia, ela e alguns convidados.

Nos semblantes de todos brilhava a alegria; porém distinguia-se no de Amélia, que por todos os modos procurava mostrar o seu vestido.

Afinal um dos convidados reparou no seu contentamento e resolveu caçoar com ela.

— Então, D, Amélia, sei que está muito contente por completar hoje mais um ano; porém o que maior prazer lhe causa é o vestido comprido, não?

Ela corou e respondeu: 

— Não, senhor; mas não há de negar que este vestido assenta-me melhor do que os outros.

— Não, certamente; mais ainda é um pouco cedo...

— Não diga isto, exclamou ela levantando-se; eu completei hoje quatorze anos: já sou uma moça.

— Sossega, Amélia, ordenou a mãe.

E ela sentou-se enrubescendo.

***

Acabado o jantar, Amélia pediu à sua mãe que com ela fosse à casa de uma sua conhecida.

A mãe acedeu e foram...

Depois dos primeiros comprimentos, das mutuas saudades que manifestaram, Amélia foi logo perguntando à dona da casa:

— Não acha diferença em mim, D. Alexandrina?

— Acho, minha filha; mas sempre lhe advirto que o vestido comprido tem muitos espinhos.

— Como assim, senhora?

Eu to digo: as meninas vestem o vestido comprido quando chegam à mocidade; mas para ser moça, minha filha, não basta mudar de traje: é preciso também mudar de costumes. Sim, deves tomar um ar grave, ser cautelosa nas relações com os moços, mostrar enfim que tens juízo, coisa indispensável a uma moça.

— Eu o terei, D. Alexandrina.

— Então concordo com a mudança que fizeste.

***

 Estas últimas palavras da Sra. D. Alexandrina excitaram o ciúme em duas meninas de 10 e II anos, suas filhas, aspirantes ao vestido comprido, que começaram a cochichar, escarnecendo de Amélia.

Não houve um só termo de despeito com que Amélia não fosse mimoseada. Uma chamava-a impostora; a outra, tola; uma comparava-a com um pavão, a outra com um peru; e ambas por fim resolveram falar mal dela por toda a parte.

Entretanto a mãe da pobre Amélia e ela, sempre pensando em seu vestido, conversavam tranquilamente com a Sra. D. Alexandrina, até que, como ia-se tornando tarde, retiraram-se.

***

Chegando à casa, Amélia teve uma lembrança. Dirigiu-se à mãe e pediu-lhe, em atenção ao seu natalício, que deixasse convidar algumas suas amigas e conhecidos para um sarau e foi satisfeita.

Quem a visse, leitores, como eu, andar de um lugar para outro, só endireitando o vestido, que nunca ficava a seu gosto, perguntando a todos se não lhe assentava mais do que os vestidos curtos, etc., pasmaria de certo quando soubesse que a causa de tudo isto era... um vestido comprido!

Mas os seus vestidos curtos foram vingados. Nunca Amélia, que dançava regularmente, dançou tão mal, com tão pouco desembaraço, como nessa noite. A cada instante pisava no vestido e fazia goiabada.

Ora, a goiabada doce nenhuma das leitoras deixaria de apreciar; mas a goiabada na dança, como não ignoram, não é nada desejável. Julguem pois do desapontamento de Amélia nessa noite, em que mais procurava patentear os seus predicados. 

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Diz Casimiro Delavigne que o excesso dum grande bem, transforma-o num grande mal.

Foi o que aconteceu a Amélia.

Adotou o conselho da Sra. D. Alexandrina, mas num ponto tal que tornou-se insuportavelmente presunçosa.

Nenhum caso faz das suas amigas de vestido curto e trata com desprezo, e até com insolência, aos moços.

Estes porém, quando vêm-na passar, desforram-se zombando dela e não a cumprimentando.

Leitoras que ainda não andais de vestido comprido, tomai o conselho que vos dou por despedida:

— Cautela com ele; é nova túnica de Nesso.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

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