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6/23/2019

Mau sangue (Conto), de Coelho Neto



Mau sangue
Foi um reboliço, uma leva-leva entre os caboclos arranchados sob o alpendre do negócio, quando Chico Redomão, saltando do pangaré, esbaforido, alagado em suor, com a cabeça ardendo da soalheira brava, disse, atirando uma relhada a um dos grossos ourões de cabiúna:
— Hoje o dia começou mal. Estou arranjado!
— Mode quê? perguntaram.
— Topei com o diabo do Penador.
Houve alvoroço e a caboclada, em tumulto, apinhando-se em volta do peão, indagou, alarmada:
— Onde, homem de Deus?
Debaixo do umbuzeiro, dormindo. E o danado do tinhoso junto dele, rente.
— E você, criatura?
— Uai! Fechei o corpo com o sinal da cruz, juntei o pangaré nos quartos e passei de largo, numa arrancada doida. Ele vem vindo por aí.
— É que já fez coisa.
Capitão Libânio, o do negócio, perguntou lá do mulo, no seu vozeirão que estrondava:
— Que é, gente?
— É o Penador, que vem tocado.
— Quem?
— O Penador.
— Tá louco! exclamou Libânio em tom sarcástico — aqui mesmo é que ele não passa.
— Espera um instantinho...
— Garanto que ele aqui não passa. — E inflamou-se, saiu ao alpendre, d'olhos esbugalhados, arregaçando as mangas da camisa de riscadinho. Era um homenzarrão alto e grosso, guedelhudo, d'olhos sanguíneos e sempre chispando áscuas de fúria; cara larga, balofa, cor de tijolo, marcada em piques e laivos de varíola. Reluzia de suor e, num ricto que lhe arrebitava o lábio superior, os dentes apareciam, grandes e amarelos. Fechou os punhos e, altaneiro entre os caboclos, arquejando de ódio, esbravejou:
— Se aquele mofino é homem, se tem coragem no peito, que bote o pé aqui na minha porta. Diabos me levem se eu não estourar ele c'um tiro.
— Coisa ruim! resmungou, com um muxoxo rascante, um rapazola macilento que passava e repassava a faca alisando sobre a coxa compridas palhas de milho. Um velho, de maneiras arrepiadas, bolsa de couro ao flanco, que cachimbava a um canto, adiantou-se arras­tando as alpercatas e, batendo com o cachimbo na palma da mão calosa, perguntou em tom sossegado:
— Vosmecê também tem queixa desse infeliz, capitão?
Libânio voltou-se d'ímpeto e, carregando o cenho, os olhos a fagulharem, crispado e rouco, com as veias túrgidas latejando, depois de encarar no velho, atirou um murro ao peito, bramindo:
— Eu? e avançou um passo. Se eu tenho queixa desse caipora? E quem não tem? Terra qu'esse maldito pisa nem benção de santo salva; fonte em que ele bota a boca, seca.
Uma cabrocha esgroviada rebolou nos molambos em que jazia e murmurou surdamente, d'olhos perdidos, sem tirar o cachimbo dos beiços:
— Passarinho tá cantando, ele passa, passarinho cala a boca, bate as asas, cai do ramo, morto.
— É verdade! afirmaram em tom soturno. E Libânio continuou:
— Quem não se queixa dessa alma danada? Han! — Aprumou-se, deu um sacão às calças, puxando-as ao ventre impado, estendeu os grossos braços cabeludos e, de cabeça alta, carranca fechada, esteve um momento a grunhir, roxo de cólera. Súbito, d'arremetida, rompeu a turba, pulou na estrada fulgurante e, ao sol, atesando o braço, sacolejando o corpo desconforme, exclamou rancoroso, travando as palavras entre os dentes que filhavam:
— Juro por esta luz que está me alumiando que, se aquele excomungado tiver o arrojo de chegar aqui, não dá mais um passo para diante. Não dá! — afirmou com uma patada à terra dura e seca, de onde subiu uma poeira fina. E rugiu: — Tão certo como ser hoje segunda-feira das almas, como ele! Como com a minha comedeira de dois canos que está lá dentro. Que venha, se é capaz! S'eu tenho queixa!... É boa! — Aos bufos, tornou ao alpendre devagar, remoendo a fúria e, fitando o olhar sinistro no velho imperturbável, insistiu: — Tenho queixa, sim. Tenho, como todo o mundo!
— Mas queixa de que, seu capitão?
Libânio ficou um momento como aturdido, em ver­dadeiro espanto. Por fim, atirando os braços, deu as costas ao interlocutor:
— Ora! — E, violento, afogueado: — Você parece que nasceu ontem, pai. Quem sabe? Já viram? Parece que nasceu ontem!
— Estou rondando os setenta, capitão.
— E não conhece o Penador?
— Só de ouvir nomear.
— Ah l Só de ouvir nomear? Pois tudo o que se diz dele é verdade.
A cabrocha resmoneou, macambúzia:
— E muita coisa que não se- conta porque não se sabe. Roça seca da manhã pra noite, foi o sol, o sol é que leva a culpa. Animal morre no campo, é peste. Qual peste, qual nada! Quem quiser, procure os passos do Penador e há de achar. Criança está no colo da mãe, brincando, de repente, revira os olhos, estremece e, antes de receber a benção, morre. Doença... E doença anda assim? É o sangue do Penador. Até a sombra desse maldito faz mal.
— Está ouvindo? regougou Libânio. O velho acenou de cabeça, sempre incrédulo. Libânio, irritado, a sorrir, como ofendido na honra, bradou aos caboclos: — É verdade, ou não é, gente?
— Uai! Verdade pura!
— Olhe, Redomão sabe a história desse diabo. Per­gunte. Todos os olhos voltaram-se para o peão, que saía, do negócio conferindo um troco.
— Redomão!
— Que é lá, gente!
— Vem contar a história do Penador.
— Uai! Então ainda é preciso contar isso? Quem não sabe? E o peão, alentado e airoso curiboca, riscando a terra com a larga roseta de chilena, adiantou-se vaga­rosamente, risonho. Parou, relanceou um olhar alegre em volta, perguntando em tom chocarreiro.
— Quem é aí que não conhece a história do Penador?
— Este camarada, explicou Libânio, mostrando o velho, sempre impassível. Redomão casquinou um risinho. Jogou o corpo numa guinada e, de cabeça baixa, enrolando o cigarro, falou ao velho:
— Ainda que mal pergunte: Vosmecê não -é daqui?
— Não sou.
— Está se vendo.
— Estou aqui de passagem. Vou pra Bom Jesus.
— Vai no bom tempo. Acendeu o cigarro e, sen­tando-se no paiol, o curiboca começou: Pois então escute lá a história do Penador e depois, se achar do que rir, ria à sua vontade.
Os caboclos atropelaram-se aos empurrões, formando roda, uns de cócoras, firmados nas pontas dos pés, outros estirados de flanco, o busto soerguido sobre o cotovelo. O velho encostou-se a um dos esteios, sempre fumando, com um riso escarninho estampado no rosto.
Longe rinchava um carro de bois com estridente e monótono soído; anuns piavam nas moitas próximas e, ao sol cáustico, que fazia rebrilhar a estrada, moscas esvoaçavam tontas. Redomão pôs-se a falar:
— Ali assim, por detrás daquele cerrinho, é o sítio o Nhô Barreiros, o Frutal. Vosmecê conhece? o velho afirmou:
— Hen-hen!
— Terra que vale ouro! Pois foi ali mesmo que começou a trabalhar o mau sangue do Penador. O dono daquele sítio era um moço bom como ele só, Nhô Pires, casado com a moça mais bonita destas paragens, nhá Lina. Cabelo era ali! Nunca vi igual nunca mais hei de ver. E tanto tinha de bonita como de boa. Foi um choro de fazer pena por esses ranchos quando ela morreu, coitada!
— Ainda hoje se chora.
— Ainda hoje! E os caboclos confirmaram em acenos compadecidos.
— Nhô Pires — era ele, a mulher um filhinho, louro que nem inglês — querendo aproveitar a terra, foi à Vila Velha e ajustou camaradas, gente destorcida pro serviço. Penador veio no bando. O nome dele é Serafim. Moço, boa cara, boas maneiras e vivo na enxada que era um gosto. Foi logo ganhando a estima dos patrões e merecia, isso merecia. Não havia outro como ele para roçar um mato, para cavar um aceiro, para derrubar uma árvore. Braço valente! Nhô Pires não cabia em si de contente. Vosmecê lembra, capitão? Só falava do sítio, da sua gente, das plantações, da colheita e já pensava em comprar mais terra para emendar com as dele, quando, uma manhã, nhá Lina acordou gemendo c gemido foi esse que, de tardinha, seu vigário estava entrando no sítio com o Santíssimo, e, no abrir da lua, a alma da moça subia para o céu, com os anjos. O que essa morte nem eu sei contar. A casa ficou fechada e Nhô Pires, escaveirado, chorava que nem criança. Saía i li- noite pelos caminhos, a beirar o cemitério; e a gente ouvia o choro dele, triste, triste de cortar o coração mais duro. Nem bem havia passado de um mês quando o pequeno caiu com febre.
— Êh! sangue, — rosnaram com terror. Redomão olhou em volta e prosseguiu:
— Nhô Pires fez tudo: mandou longe buscar um doutor, mas qual! a criança ia acabando devagarinho. Que remédio? Penador estava no sítio cavando e, de noite, com pena, ia ficar com Nhô Pires perto do curu­mim. Lá foi! Que dor, minha Mãe do céu. Nhô Pires, coitado!... Enfim... Ficou só e o Penador na terra, trabalhando, e o sangue do Penador fazendo ingratidão. Nhô Pires não podia adivinhar. O tempo correu levando a tristeza e o moço, coitado! entrou no trabalho com a sua gente. Era desde o amanhecer até as ave-marias um malhar de ferro numa toada, todo o mundo vergando a espinha, suando no duro e a terra... pra trás! Nhô Pires semeava, o sol matava a semente; tornava a semear, a chuva varria tudo. Vosmecê já viu a terra adoecer? pois adoece que nem gente. O Frutal ficou em petição de miséria. A vida de Nhô Pires desandava mesmo e tanto ele sofreu, tanto perdeu que, uma manhã, sem fazer conta do prejuízo, vendeu o sítio a Nhô Barreiros. Foi depois do negócio que nhá Malvina — Deus lhe fale n'alma! — disse a razão da desgraça. Nhá Malvina conhe­cia gente de mau sangue pelo azedume do suor e foi ponto passar uma vez perto de Penador para ver que de era dos tais. O mal estava feito. Nhô Pires montou a cavalo e desapareceu e, até hoje, ninguém sabe dele. Nhô Barreiros tomou conta do sítio, despediu o Penador, e, sem despesa maior, em pouco tempo botou aquilo que nem um brinco. Penador ganhou o mundo, trabalhando onde topava que fazer. Mas era ponto pôr a mão numa coisa, fosse o que fosse, era aquela certeza. Serviu nas obras da ponte nova e aconteceu o que aconteceu. Entrou no campeiro no Monte Alegre e deu uma peste no gado que foi mesmo um despropósito. Ganhou fama! Hoje não há quem não conheça o Penador, ninguém quer saber dele, nem de graça. A gente tem pena, mas que há de fazer? Se ele, de noite, com fome, entra numa roça e furta uma espiga de milho, o milharal amanhece praguejado.
Libânio adiantou-se e, estendendo o braço na direção do cerro, disse:
— Olhe, ali havia uma fonte, a água melhor deste lugar, o danado bebeu... Que é dela? Ficaram as pedras; por muito favor. Pior que raio!
— E como vive essa criatura? perguntou o velho.
— Sei lá! exclamou Libânio, com ódio. A cabrocha explicou, sempre amazorrada:
— É o cachorro.
— Que cachorro?
— Um tinhoso que anda sempre com ele. É ele que dá tudo.
— O cachorro?
— Cachorro... o diabo é que é. O velho sorriu.
— Vosmecê não acredita? bradou Redomão. Pois olhe, ele está pertinho daqui, debaixo do umbuzeiro. Se vosmecê quer ver sua vida virar duma vez vá ter com ele, lá.
Nesse momento uma voz de criança bradou da estrada: "Olha o Penador!" Outras vozes cresceram: "Mofino! Penador!" Os caboclos levantaram-se em alvo­roço, alarmados; saltaram à estrada. O velho seguiu-os. Libânio correu ao negócio e voltou empunhando uma garrucha de dois canos.
Um homem esfarrapado, descalço, barba farta e inculta, um velho chapéu de palha enterrado na cabeça, com um cão no rastro, vinha lentamente, vergado como a um grande peso. Por vezes cambaleava e a sua sombra tremia ao sol. O velho olhava, com a mão em pala, t- a cabrocha, que tirara um rosário do seio, repassava as contas, murmurando exorcismos.
O sol ardia. As árvores imóveis, muito lustrosas, cintilaram. Dos capins amolecidos subia um cheiro quente de silvas queimadas e a estrada amarela, poenta esten­dia-se por entre o macegal.
— É ele!
—É.
Houve um silêncio de hesitação. O homem avançava numa nuvem de poeira fina, e luminosa como um halo. De instante a instante parava, virando, revirando a ca­beça como à procura de alguma coisa. O cão metia-se nos matos, farejando, saía à estrada, sempre de focinho baixo, em farisco aqui, ali. De repente Libânio adian­tou-se com arrogância, empunhando; a garrucha engati­lhada!
— Volta! Volta! pra trás, Penador, senão vai bala!
— Volta, desgraçado; intimaram os caboclos. O homem estacou, esteve a olhar, sem o mais leve movi­mento, hirto ao sol.
Ele fez um gesto e, rebuscando o saco que trazia às costas, puxou-o à frente, tirou uma cuia, tomou-a a mãos ambas, acenou com ela à boca, derreando a cabeça em menção de beber e, com toda a força que lhe restava, arquejou:
— Água!
— Vai beber no inferno, seu sangue ruim! respondeu o capitão. O velho murmurou comovido:
— Isso é falta de caridade, gente.
— Uai! chasqueou Redomão, vosmecê está com pena? Apois.... por que não vai lá? O velho deu d'ombros e, enchendo o cachimbo, tornou vagarosamente ao alpendre, resmungando.
— Ah! você não volta? rugiu Libânio. Um tiro atroou, rolou no silêncio do descampado. O velho pre­cipitou-se na estrada e ainda pôde ver o infeliz que fugia a correr, com o saco a saltar-lhe às costas, sempre seguido do cão. E os caboclos riam às gargalhadas sapateando no pó.
— Este foi só mod'assustar, disse Libânio, mas se ele teimasse o outro ia mesmo, duro. Pra longe, sangue danado!
Regressaram todos ao alpendre e o velho, em resposta à troça.que lhe fizeram, engrolou meio desapontado:
— Eu não digo que não acredite, mas uma sede d'água não se nega a ninguém, um inimigo que seja.
— Uai! E vosmecê não estava aí? como não foi levar?
— Não vê! exclamou um da roda. Falar é uma coisa. Esse é dos tais que empurram a gente pró fogo e ficam agachados no mato mordendo cartuchos. O velho meneou a cabeça sorrindo e, acendendo o cachimbo, recolheu-se, de novo, ao seu canto, junto ao poial. Redomão, sempre alegre, atirou-lhe uma palmada ao ombro.
É assim mesmo, compadre! Deixe lá! Seguro morreu de velho. De tolo é que você não tem nada. E, ajustando os queixo a barbeta do chapéu, saiu do alpendre. Bom, gente, a prosa está boa, mas o serviço está me chamando. Até amanhã!
Foi ao telheiro, puxou o pangaré pelo cabresto, montou-o dum salto, e, picando-o rijo, sacudiu o braço num adeus geral. O cavalo arrancou em galope arrojado.
Uma nuvem de poeira levantou-se na estrada, houve Um desabrido ladrar de cães e, de novo, o silêncio caiu tia reverberação entorpecida e estuante do sol.


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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/22/2019

Firmo, o vaqueiro (Conto), de Coelho Neto



Firmo, o vaqueiro
Sentados na soleira da palhoça, em face do verde campo, à hora vesperal em que os rebanhos recolhem, o velho Firmo e eu fumávamos, relembrando passagens alegres da vida de outrora.
Firmo era meu companheiro quando eu ia passar as férias na roça. O que ele sabia de histórias! e como as contava fazendo a voz enternecida e meiga para imitar as princesas que imploravam arremetendo com vozeirão terrível para que eu tivesse a impressão exata do bradar horrível dos gigantes antropófagos. E não só histórias dos livros, outras sabia que eu jamais em letras vira: a que descrevia a vara branca seduzindo o remador do Itapicuru e o conto do surupira, com que no bom tempo faziam cessar a minha impertinência. Algumas eram inventadas por ele, diziam; outras o velho Firmo, vaqueano e andejo, aprendera por esses sertões de Deus por onde caminhara.
Andava pelos oitenta anos, mas quem o visse a cavalo, no campo, não lhe daria tanta idade. O diabo era o reumatismo que não lhe deixava as pernas. No seu tempo ninguém levava melhor ao Firmo do Curral novo. Raparigas, que uma vez o viam montado no garboso fábrica, o laço em volta da cinta, a guilhada firme sobre a coxa coberta de couro cru, perdiam-se de amor por ele.
Era um caboclo atirado, musculoso e rijo: grandes olhos negros brilhavam no seu rosto queimado pelos verões e os cachos do seu cabelo rolavam-lhe pelos ombros largos.
Velho, embora, "ninguém lhe chegava ao pé sem muito jeito", como ele próprio dizia sorrindo com os seus dentes limados, agudos como pontas de flechas. Apesar de alquebrado e enfermo andava com arrogância e notava-se-lhe na voz, áspera e forte, o hábito de comando.
Em tempos de festa, quando vinham para a mesma eira moças do lugar e moças de mais longe, Firmo saltava na roda, sapateando, rasgando na viola atirana dos campeiros, e quem ousava pegar no verso do caboclo?! As tabaroas morenas sorriam com os olhos fascinados e unidas desfaziam-se das flores para que o cantador as fosse pisando no sapatedo... por isso o Firmo andava sempre de ponta com os companheiros e, mais de uma vez, o descante acabou varrido à faca; mas quem ficasse do lado do caboclo podia estar descansado — nunca fugiu de arrelia, fosse com um, fosse com dez ou mais.
Mamãezinha, a velha mucama de casa, quando o via passar no caminho, curvado pitando o seu cachimbo de taquara, dizia maliciosa:
— Isso, ahn! isso, foi o diabo!
Firmo "vivia encostado no tempo de d'antes", a saudade era o seu conforto. "Hoje em dia qu'é qu'a gente vê? má língua e moleza só", dizia e citava o valente d'antanho e mostrava as velhas gabando-lhe a beleza que a idade fanara. "Serapião, homem que nem o diabo!... Ana Rosa, essa curumba... foi mulata de dengue, era um motim aqui em cima por causa dela. Filo-mena, com essa cara de peixe moqueado, teve o seu luxo e foi gente... Eu também pisei duro, ora!"
Firmo vivia das recordações. Passava os dias caminhando de um para outro lado, visitando as palhoças, ou à beira do rio para ver e ouvir as lavadeiras, quando não se metia a fazer bodoques para as crianças.
À tarde sentava-se em um pilão quebrado, à porta da casa, e deixava-se estar inerte, os olhos ao longe: "Estava vivendo..." dizia quando eu lhe perguntava que fazia ali sozinho. Estávamos, às vezes, sentados juntos, ele a contar-me histórias, quando nos chegava, nítido e agudo, o grito do campeiro. Firmo calava-se, um estremecimento agitava-o, os olhos dilatados recobravam o brilho antigo e punha-se de pé, devassando a paisagem triste, à luz crepuscular.
De repente aparecia a nuvem de poeira anunciando o gado que chegava... uma mancha vermelha, uma mancha negra, outra e logo o magote, os bois juntos, emaranhando os chifres; um mugia, outros imitavam-no levantando os focinhos ou ferravam-se às marradas, sendo, às vezes, necessária a intervenção do vaqueiro que apartava os dois à ponta de vara. E a marcha aproximava-se morosa.
Firmo ficava, enlevado acompanhando os movimentos da manada, inclinando-se para um lado, para outro, aspirando sôfrego. De repente batia as palmas e juntava, logo em seguida, as mãos na boca à guisa de porta--voz, bradando:
— Eh! eh! cou! ruma!   Eh! lou...
E ficava longo tempo excitado, a olhar. Não perdia uma só das peripécias e, se um touro espirrava, correndo aos galões pela campina, o velho entrava a bramar do outeiro, tão alto, tão alto que as raparigas, que andavam na eira recolhendo a roupa ou socando o arroz, paravam assustadas erguendo os olhos para o lado da palhoça do vaqueiro velho. Mas ninguém o incomodava antes de ser laçado o boi fujão e quando o vaqueiro aparecia, arrastando o animal laçado, Firmo suspirava baixinho:
— Ah!    Nossa Senhora! meu tempo!
Foi pelo Natal que o vi pela última vez. Começavam os preparativos da festa, quando cheguei ao sítio. Nas casas dos escravos, às vezes, à noite, ensaiavam as crianças. Na eira os rapazolas preparavam jiraus; colhia-se o arroz novo para os presepes e de todos os lados, mal o sol fugia, começavam as toadas das cantigas ao Deus Menino e as falas dos falantes que figuravam no Mistério.
Firmo estava doente, mal podia mover-se: passava os dias na rede. Subi a vê-lo, uma noite justamente na véspera do grande dia. Encontrei-o deitado, fumando, os olhos semicerrados.
— Eh! vaqueiro velho...    Então que é isso?!
— Estou derrubado, patrãozinho.
— Mas que diabo tem você?
— Moléstia má, patrãozinho; parece que desta feita vou mesmo.
— Ora qual...
— Eu é que sei como me sinto, patrãozinho. Se até o pito me faz nojo...
— Pois eu preparei uma surpresa que te vai fazer mais bem do que todas as mezinhas de mãe Tude. Quem está aí fora ? adivinha...
— Ah! patrãozinho, alguma alma boa...    Quem há de ser?
— Raimundinho.
O velho sacudiu-se novamente na rede e, voltando-se para a porta com um sorriso, perguntou:
— E onde está esse negro que não entra?
— Boa noite à gente da casa! disse da porta o cafuso.
— Entra, negro!
O cafuso, um codoense de fama, atravessou o limiar da porta:
— Então, tio Firmo, a febre pôde mais, hein?
— Sim, porque eu não vi quando ela entrou... quando não! Então, negro, que é que vamos fazendo?...
— Vim fazer a minha festa. Dizem que vão queimar fogaréus no Curral novo...
— Como vai Noca?
— Boa.
— E Ana? está na cidade, mais o pai?
— Hen, hen, afimou o cafuso.
— Negro, você não vai daqui hoje. Ah! patrãozinho, vosmecê, vai ver o que é um diabo. Negro, ajunta a madeira ali atrás da arca...
— Está encordoada?
— Ó danado! Onde você viu viola sem corda? e afinada, ajunta.
O codoense agachou-se, apanhou a viola do vaqueiro e logo correu os dedos ágeis pelas cordas.
— Passa p'ra luz, cafuso.
— Lá vou...
Sentou-se no centro da mesa, cruzou as pernas e, tombando a cabeça, gemeu a toada sertaneja.
— Anda com Deus.
— Lá vai; pigarreou e desferiu:
No coração de quem ama
Nasce uma flor que envenena.
— Eh, gritou o Firmo entusiasmado, concluindo a quadra:
"Morena, essa flor que mata Chama-se paixão, morena..."
— Pega, negro... não deixa o verso no chão!
De fora, contínuo e doce, vinha o coro longínquo das crianças em louvor de Jesus e, de vez em vez, reboava o mugido de um touro.
Quando o cafuso descansou a viola, Firmo disse da rede com esforço, arrastando a foz fraca:
— Canta, canta mais, cafuso... Quem não tem Nosso Pai ouve a cantiga. Canta.
Era tarde quando desci o outeiro. Raimundo lá ficou cantando.
No dia seguinte, à hora em que saía o gado, estava eu debruçado à varanda quando vi o cafuso que preparava o animal viajeiro:
— Raimundinho, como vai ele?... De longe apontou para a palhoça:
— Sim.
O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido; depois, saltando para o animal, levou o polegar à boca fazendo estalar a unha nos dentes: "Às quatro da manhã... Atirei um verso e disse, para bulir com ele: Pega, velho! Não respondeu. Tio Firmo, mesmo velho e doente, não era homem para deixar um verso no chão... Fui ver, coitado!... estava morto". E deu de esporas para que eu não lhe visse as lágrimas.
Subi ao outeiro... Pobre Firmo! Lá estava no fundo da rede, cercado de gente. Guardara o sorriso, morrera feliz, ouvindo os cantos do seu tempo e bem perto de casa o mugido dos rebanhos. E bem que o choraram nessa noite os grandes bois, e diziam, entretanto, que eles estavam louvando o Senhor Menino; chorando o companheiro é que eles estavam, os grandes bois que pressentem todas as desgraças e que veem a Morte passar, à noite, com a foice de rastro, através das campinas. Bem que choraram nessa noite os bois: de certo viram a Morte entrar na cabana de Firmo.
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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

5/14/2019

A bicha de sete cabeças (Fábula), de Teófilo Braga



A bicha de sete cabeças

Era uma vez um filho de um rei que era muito amigo do filho de um sapateiro; brincavam sempre juntos, e o príncipe não tinha vergonha de acompanhar com o filho do sapateiro por toda a parte. O rei não estava contente com aquela confiança, e disse ao sapateiro para mandar o filho para muito longe, dando-lhe muito dinheiro. O rapaz foi-se embora, mas o príncipe assim que soube disto fugiu do palácio e foi por esse mundo além à procura do amigo. Encontrou-o passado algum tempo, abraçaram-se e foram ambos de jornada. Indo mais para diante, encontraram uma formosa menina amarrada a urna árvore. O príncipe assim que a viu ficou logo muito apaixonado, e perguntou-lhe quem é que a tinha deixado ali. Ela respondeu que não podia dizer nada, mas só pedia que a salvassem. O príncipe conheceu que ela era de sangue real, e pensou em casar com ela. Pô-la na garupa do seu cavalo e foram caminhando todos três. Pernoitaram naquela noite em um bosque onde estavam três cruzes; o príncipe e a donzela adormeceram, mas o filho do sapateiro deixou-se ficar acordado para o que desse e viesse. Lá por essa noite adiante viu vir três pombas e pousarem cada uma na sua cruz.

A primeira pomba disse: — O príncipe cuida que há de casar com a donzela, mas em ela passando ao pé dum laranjal há de pedir uma laranja, e em a comendo há de arrebentar:

E quem isto ouvir e não se calar
Em pedra mármore há de se tornar.

A segunda pomba disse: — Ainda não é só isso; ela há de passar por pé de uma fonte e há de querer beber água, e logo que a beba há de arrebentar:

E quem isto ouvir e não se calar
Em pedra mármore há de se tornar.

A terceira pomba disse: — Ainda não é só isso; se ela escapar de tudo, assim que chegar a casa, na noite de noivado há de vir uma bicha de sete cabeças que há de matá-la.

E quem isto ouvir e não se calar
Em pedra mármore há de se tornar.

Ouviu o filho do sapateiro isto tudo, e quando amanheceu disse ao príncipe que era melhor voltarem para o reino, porque o rei devia de estar muito amargurado, e que lhe daria o perdão e licença para casar com a donzela, que era de sangue real. O príncipe deu pelo que disse o filho do sapateiro e metraram-se a caminho. Passaram por um laranjal, e aconteceu o que a pomba tinha dito; mas o filho do sapateiro disse que aquelas laranjas não se vendiam, e foram andando. Passaram por uma fonte, a menina quis beber, como a outra pomba tinha dito, mas o filho do sapateiro disse que não havia com que tirar a água. Até que chegaram ao palácio; o rei ficou muito alegre quando viu o filho, perdoou-lhe, e sabendo que o conselho do filho do sapateiro é que o fizera voltar para casa, deu-lhe licença para viver no palácio em companhia do seu amigo. O príncipe pediu licença ao pai para casar com a menina que tinha salvado, porque ela era de sangue real; o pai disse que só dava licença ao fim de seis meses depois de a conhecer melhor e ver as suas qualidades. O certo é que o príncipe casou com ela, e perguntou ao filho do sapateiro o que é que queria de dom no dia do casamento. Ele disse que só queria uma coisa, e era dormir na noite do noivado no mesmo quarto. Lá lhe custou isto, mas o príncipe sempre consentiu. O amigo deitou-se à porta do quarto, com uma espada escondida, e quando os noivos estavam dormindo sentiu entrar pelo quarto dentro uma grande bicha de sete cabeças. Como ele já esperava isto, descarregou um golpe certeiro e matou o monstro, mas sempre uma gota de sangue espirrou e foi bater na cara da princesa que estava adormecida. O filho do sapateiro tratou de limpar o sangue que estava pelo chão, e como visse a gota de sangue na cara da princesa foi lho limpar com a ponta de uma toalha molhada. A princesa acordou com aquela friagem, e gritou sobressaltada para o marido:

— Vinga-me do teu melhor amigo, que me deu um beijo.

O príncipe levanta-se furioso para matar o amigo que ele julgava traidor; mas ele pede-lhe que demore o seu rigor, para contar a toda a corte o caso acontecido. Ajuntou-se toda a gente do palácio; o rapaz começou a relatar tudo, e ia-se tornando pouco a pouco em pedra mármore. Ficaram todos com muita pena de ser tão mal paga aquela fidelidade, e o príncipe resolveu colocar a estátua de mármore, que fora o seu maior amigo, no jardim do palácio. O príncipe costumava levar os filhos a brincarem no jardim, e sentava-se ao pé da estátua chorando com pesar, e dizia:

— Quem me dera o meu amigo outra vez vivo.

— Pois se queres o teu amigo outra vez vivo (disse-lhe uma voz) mata esses teus filhos, e unta esta pedra com sangue inocente.

O príncipe hesitou, mas cheio de confiança no poder da amizade, degolou os meninos, e a estátua mexeu-se logo e apareceu ali o amigo outra vez vivo. Abraçaram-se muito, e quando o príncipe se voltou para o lugar onde estavam os filhos achou-os muito alegres a brincarem, tendo apenas em volta do pescoço uma fitinha vermelha. Nunca mais se separaram, e dali em diante viveram todos muito felizes.

(Algarve)

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)