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6/24/2019

Possessão (Conto), de Domício da Gama


Possessão


— ... Tia Anica também lhe mandou muitos abraços, muitas saudades... Tem tanta pena de não poder vir passar com você uns tempos! Diz que só de os ver tão bem casados, tão unidos, tão unidos, tão felizes, lhe passariam todos os achaques da velhice e a cisma dos desgostos antigos...
— Coitada da Tia Anica...
— As suas cartas lhe fazem muita falta, agora que ela está tão só. Ainda o primo Luís sempre foi de poucas letras, mas você, que escrevia tanto e tão bem, antes e depois... ela guarda as cartas na caixinha de costura, para as reler, e às vezes fica um tempo imenso de olhos postos naqueles papéis, que ela sabe de cor, como um Livro de versos. Diz que ainda não houve romance que lhe interessasse tanto como a história do seu casamento...
— Já tudo me parece tão longe!...
— Ela conta as peripécias com entusiasmo; a parte que tomou na conspiração para que a madrinha desse consentimento...
— Mamãe nunca quis.
— Por causa de umas histórias de Alcazar, não foi? Tia Anica sabia que andava nisso mais intriga do que outra coisa e que, mesmo sendo verdade, Luizinho era um moço de brio: não ia agora... o caso é que ela sente-se toda orgulhosa, quando os nossos parentes conversam sobre você. É como se falasse bem de uns filhos mimosos... Faltam agora os netos. Vocês, quando é que pensam nisso? O tempo passa depressa, sem sentirem, não é? Olhe que já lá vão cinco anos, Ninita...
— A quem o diz você, Amélia! Eu que conto os dias...
— Os dias que não são bem azuis... As nuvens descansam os olhos da claridade demais.
— Quando ela é demais. Não tive tempo para cansar-me dos dias claros, minha prima...
— Ora, então, Ninita, não é para chorar... Se eu soubesse que se afligia assim... Vamos...
— É, prima, é para chorar, sim... É para chorar que eu vivo, por castigo de ter desobedecido àquela santa que está no céu! Se não fosse pensar que me separava dela de uma vez, quanto menos me custaria acabar com a vida!
— Que loucura, Ninita! Pode-se bem chorar sem ofender a Deus! Então, já se viu!
— Você tem razão: É um desatino... que eu já tresvario, de tanto sofrer. Mas a gente, quanto mais _ esperanças pôs... Tia Anica vive tão-satisfeita, pensando que tudo me saiu conforme nós esperávamos, que era tão natural que fosse! Por isso é que deixei de lhe escrever, não é por ingratidão. Não tenho coragem para lhe dizer a -verdade, embora me desabafasse...
— Pois desabafe agora: tem um coração que lhe escuta...
— Prima, que diferença das esperanças!...
Isto era por uma manhã muito clara e alegre, na sala de jantar de uma casinha da Rua Silva Manuel. Entrava muita luz pela janela aberta sobre um quintalinho triste, com as suas plantas sem trato e as ruas sujas. A sala, igualmente descuidada, por arrumar, com um vago aspecto de mau lugar. Os móveis em desordem, maltratados, pareciam mais dê uma taverna que de uma casa de família. Uma garrafa de cerveja quebrada ao pé do aparador, grande número de outras vazias em cima e pontas de cigarros e cartas de jogar por toda a parte tapetando o chão, completavam a aparência suspeita da casa, que devia ser toda assim: no gabinete contíguo via-se um cão dormindo sobre um sofá de palhinha encardida e usada, num ninho de jornais velhos e livros desparelhados. Sentia-se como um cheiro de desconforto, o mau ar dos lugares em que se não vive feliz.
Pela porta aberta do corredor entrava, com o grito de um vendedor de jornais, o ruído de carroças passando interminavelmente. A mulher que chorava levantou-se e foi fechá-la. Era alta e de boa compostura. Ganhava em estar em pé e andava bem. Sentada, tinha umas posturas acabrunhadas de corpo quebrado pelo sofrimento. A boca era aflitiva: descaída, torcida, amargurada. Os olhos, muito pisados, tinham uma expressão indecisa entre a queixa e a resignação; eram, antes, melancolicamente distraídos, como se tivessem tomado o jeito dos olhares longos, acompanhando o voo das cismas. Era descorada e quieta, como uma doente. Nas asas do nariz direito e fino corria-lhe às vezes um estremecimento rápido, como de um desejo logo abafado. Não era bonita, mas tinha uma expressão. E as roupas lhe iam bem, simples e honestas, sem abandonos de vítima da fatalidade, como sem esmeros impróprios.
A visita chegava da roça e o mostrava, bem que não fosse uma caipira. Era bonita, morena e nédia; ar de saúde e contente; no leque, na gola do corpinho, na capa do livro de missa c na portinhola do carro parado à porta, tinha um monograma com uma coroa fidalga — o marido era barão. Casada de pouco, ela tinha imaginado encontrar a prima numa situação feliz em que as orgulhosas alegrias da sua pudessem expandir-se, ecoando simpaticamente. E, afinal de contas, não só a sua felicidade era de uma aparência quase impertinente, mas ainda, por dizer que os seus parentes cuidavam que ela vivesse muito feliz, a prima desatava em pranto. A expressão da baronesa era entre penalizada e contrariada. A outra continuou:
— Há mulheres que se enganaram nos seus cálculos de futuro, Amélia, mas, tanto como eu, há poucas debaixo do céu. Você ainda se lembra das nossas festas na chácara? era capaz de pensar que me encontraria um dia como me vê? Não havia nada que fosse bom demais para mim, hem? nem sonho que não pudesse fazer... Não sendo feia, tendo fortuna e uma mãe que só vivia da minha alegria... Tão mal que lhe paguei! Começo a acreditar que são coisas que têm de ser, para que cada um carregue a sua cruz nesta vida. De qualquer modo, mamãe tinha de ser infeliz, desde que se me meteu na cabeça casar com o Luizinho. Ela morria logo atrás de mim — e eu morria, esteja você bem certa, se não me dessem o meu tormento — e morria sem me ter visto contente. Às vezes, mesmo, penso que foi melhor que ela morresse logo. Lá do Reino da Glória ela vê no meu coração ainda melhor do que eu. E se viva fosse, seria uma agonia o seu viver, porque eu nunca havia de lhe explicar bem o meu modo todo especial de sofrer. Eu dizendo isto a você parece uma loucura — se pudesse mudar a minha sorte, eu não queria outra. Basta que lhe explique que em toda a minha agonia, o sofrimento pessoal, por mim mesma, é quase nada comparado com o que sofro por ele, de o ver tão miserável e eu sem lhe poder valer...
— Mas, não entendo... Acalme-se para me falar, Ninita!
— Prima, eu me casei com um desgraçado, que não tem o respeito de si mesmo nem dos mais e não posso imaginar-me casada com outro que não fosse ele! Se agora me dissessem: — "Teu casamento não era verdade; foi um pesadelo de cinco anos; passemos uma esponja iro passado, que não reste mais memória cicie", eu pediria, de joelhos, que não fizessem tal ou que me matassem então, porque, arrancarem-se o meu martírio, seria como se me arrancassem o melhor, o mais íntimo da alma, que se faz de sofrimento, por amor, por ódio, por impulsos de coração. Já estou feita assim...
Neste instante ouviu-se, vindo do interior da casa, uma voz de homem que cantava uma copla de canção francesa:
Vivent ces nuits d'orgie
Ou la raison se perd,
Dans un joyeux concert
Formé par la folie!
Ninita interrompeu-se, mais pálida ainda e depois continuou, com a voz tremula e comovida:
— É assim que ele acorda todos os dias, tão contente, sem saber que as suas cantigas me ofendem como injúrias.
— É o Luizinho!...
— É meu marido... Aquilo é um sossego de coração, (orno se esta casa fosse um ninho de amor, ele um homem de bem e eu uma mulher feliz! Quase me põe doida o desejo que às vezes tenho de lhe dar razão, para sossegar-me a mim também. Mas para isso seria preciso sair d;is regras, viver como uma afronta a Deus e ao respeito do mundo. Ele vive assim porque não tem consciência: eu, se fizesse o mesmo, seria uma criminosa cm vez de uma desgraçada. E a fogueira de ciúmes em que me consumo, Amélia! Aquela canção de que ele se lembra assim que se levanta, é o grande sucesso da Bellony, a alcazarina com quem ele gasta tudo o que lhe cai nas mãos rotas...
— A Bellony? Mostraram-ma ontem de tarde em Botafogo, que passava governando o seu carro. É bonita, mas tem um ar ordinário!
— Pois dela eu só tenho os restos. Restos dela e de outras. Até das minhas escravas, enquanto as tive cm (asa, até da minha cozinheira... Apanhei-os um dia, chegando da rua sem ser esperada. Imagine com que nojo... Amélia, enquanto nós duas passávamos horas c horas a falar de amor, de paixão, de coisas que não entendíamos, pensávamos que todos os sentimentos se purificam quando o coração se nos inflama com o ardor deles. E era um engano: por experiência, sei que há sentimentos que mesmo na fogueira da paixão não se limpam. O meu amor pelo meu marido me envergonha a meus próprios olhos, como um sentimento indigno c nem a minha dignidade de senhora, nem a minha consciência de cristã me deixam entregar-me a ele sem remorsos. No entanto, com toda esta agonia de ciúmes, de vergonha, de medo da miséria e de piores transes, não posso imaginar-me vivendo com outra coisa no coração...
Nesse momento ouviram-se os passos de alguém que saía pelo corredor e a mesma voz de ainda há pouco, continuando a canção, foi se afastando:
Vivent le vin et l'amour
Qui viennent tour a tour
Gharmer
Les chagrins de la vie!
E a grande porta da rua rangeu e tornou a fechar-se. Ninita abaixou a cabeça um momento, escutando. Depois, pegou na vassoura encostada a um canto da sala e pôs-se a varrer as cartas de jogar, pontas de charutos e fósforos meio queimados, que alastravam o chão. Mas logo parou e, deixando-se cair sobre uma cadeira, disse para a prima, com um grande sentimento na voz:
— Não conte à nossa gente como me viu, Ameliazinha. Diga-lhes que não me veio visitar, se não quiser comprometer-se e mentir ainda mais. Para que dar desgostos, desde já, à nossa pobre tia Anica? Depois, com que coragem ia você dizer-lhe que a sua Ninita querida está feita dona de casa em que se joga por dinheiro e se tira barato, que de manhã é ela quem varre a casa, quem pega na vassoura com suas mãos de duquesa, para ver se, com a humilhação de sua sorte, enxota o que lhe resta de brio, que é o que mais a aflige na sua miséria? Prima, eu estou fazendo esforços para lhe não sujar os ouvidos com a minha confissão, mas não posso mais conter-me: por um beijo, um carinho daquele homem que é de todas menos meu, que nem passa, antes de sair, pela sala em que estou para me dizer bom dia, pelos restos que as outras me deixam e que eu careço de andar mendigando para ter de longe em longe — eu não troco a posição que me quisessem dar de fortuna, de consideração, de sossego, mas sem este amor, esta paixão danada em que me abraso como no fogo do inferno... Chego a pensar, às vezes, que é o espírito maligno que me possui, que me faz estrebuchar nos espasmos desta bem-aventurança atroz!...
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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/20/2019

A Bacante (Conto), de Domício da Gama



A Bacante

Ele ia lentamente, meneando a bengala, com ar de indiferente, inclinada a cabeça sobre o ombro, mostrando na fadiga fingida dos gestos, na afetação de descuido nas palavras, o desdém de todo o amador, verdadeiramente amador, pelas preciosidades das coleções alheias.

Entretanto os olhos lhe desmentiam o aparente descuido cada vez que encontravam algum objeto de forma rara, a ansa de um vaso preciosamente esculpida, o cinzelado de uma ferragem antiga, ou simplesmente um brasão desconhecido na borda de um prato esmaltado.

Mas o Dr. Van Doylen, o dono do museu, que o acompanhava, bem lhe conhecia os falsos desdéns de amador, dentro do qual se acouta sempre o negociante, o comprador mais apaixonadamente cauteloso.

For isso mostrava ouvir com religiosa atenção o discurso friamente admirativo, que, sobre a sábia monotonia do verde de uma paisagem detestável, lhe fazia o seu amigo, Comandante Siemens, da linha do Sul.

E resolvido finalmente a desfazer-se do mal-aventurado quadro, vítima desse intempestivo elogio, vitupério indireto, o Doutor se deleitava no prazer de possuidor feliz, vendo os relances de olhos cora que o desdenhoso, conhecedor emérito, escrutava as suas peças de valor, escondidas no fundo dos grandes armários envidraçados.

Como na especialidade fossem ambos finos, a comédia do subentendido da vaidade e da mentira era interessante.

— Tem aumentado muito a sua coleção de esmaltes... Sabe que os Limoges autênticos são raros? Falsifica-se muito, e muito bem, este gênero....

— Nestes tenho eu confiança, Comandante. Tenho visto muito, para ser hoje embaçado. Lembra-se daquele pequeno bronze em forma de lacrimatório, com um gênio chorando à borda? Dei por ele um Luiz em Marselha. Mandei restaurar-lhe a montagem. O Pinto Leite viu-o e me ofereceu dez libras

— Pinto Leite é rico.

— Tem gosto, corrigiu secamente o Doutor. Depois, como o outro mirasse muito um objeto tosco, ele passou-lho às mãos:

— Vale o peso da prata, cinco libras. Isso é obra de algum ourives português, a quem encomendaram um santo rico — Gosta da arte ingênua? Eu acho que a arte ingênua não é arte.

A discussão durou dez minutos, mansa e sem o calor das disputas de teoristas.

Ali, com efeito, a arte ingênua era mal representada, ainda que o Comandante classificasse de ingênuos os bordados, pinturas, esmaltes e lavores da China e do Japão. Mas era só por conversar.

Tinham chegado ao fundo da sala. Van Doylen, embrulhado no seu roupão de veludo preto, que com as longas barbas brancas lhe dava um ar de mágico, se tinha encostado ao umbral de uma larga porta, tão larga que parecia continuar a galeria, e se recolhia na contemplação do seu tesouro, gozando duplamente da sua posse e da admiração que ele causava. A luz coada pelas grandes vidraças amarelo-vermelhas, uma luz de ouro em brasa, tinha intermitências de sombra, das nuvens que passavam. Lá fora a ventania torcia as árvores e a sua zoada melancólica aumentava o conforto daquele interior de arte e de riqueza. Um cheiro misturado de vernizes, de madeiras perfumadas, dos estofos antigos, dos óxidos metálicos, de coisas velhas, um cheiro do passado pairava. Por trás deles, um pesado reposteiro, com arabescos em canutilho de ouro enegrecido sobre o fundo carmesim, oscilava lentamente.

O comandante voltou-se:

— E as suas terras-cotas?

Van Doylen sobraçou o reposteiro, arredando:

— Separei-as com os outros nus. Minha mulher gosta de vir aqui com as visitas, gente que acha que os nus são inconvenientes.

Entraram. A sala, forrada de púrpura carregada, quase negra, dava em manchas suaves o branco fosco dos mármores e biscuits, o tisne dos bronzes negros, o ouro claro dos polidos, o rosa-seca das terras-cotas e o amarelo creme dos marfins antigos. Começaram pelas cabeças de expressão, classificadas com arte por grupos das emoções características. A conversa adoçou-se então pelo amortecimento da rivalidade latente entre amadores, e reduziu-se ao quase sussurro lento dos comentários abundantemente, insaciavelmente adjetivados.

Os gestos, as fisionomias, vivamente, energicamente dramáticas, obtinham logo o qualificativo justo para a expressão bem clara. Mas as cabeças mais finas, revelando sentimentos mais complexos, não se satisfaziam com adjetivos simples. Eram as expressões modernas que os prendiam mais tempo no estudo psicológico do sentimento revelado no gesto indeciso, oscilante e complicado de movimentos partidos de origens comuns. Uma cabeça toucada à fantasia, fronte imóvel de esfinge, boca andrógina, com o sorriso perturbante, o gesto ambíguo, excitante, e a curiosidade e o saber, a alma dos dois sexos, o grande mistério dos limites psíquicos, mergulhou-os em considerações profundas sobre a questão das naturezas duplas, da reprodução, dualismo, unitarismo, símbolos antigos, aspirações míticas das teogonias primitivas, Ísis-Osíris e a poesia dos desejos divinizados...

Iam discorrendo e andando. Mas o Comandante estacou de repente, pálido e comovido. Os olhos distraídos tomaram-lhe a expressão desejosamente adorativa de quem se acha sob o coup de foudre de uma paixão ardente. Ele tinha visto a Desejada, a graça fugitiva feita estátua, o movimento preso no voo, a realidade de um sonho que até ali se contentava em sonho.
Tudo num relance, só a percepção do gesto, ao princípio. Depois a investigação palpitante das particularidades harmoniosas o envolveu de todo na chama devoradora do desejo.

Van Doylen já contava com esse efeito da sua Bacante. E desviando-se, fingindo ocupar-se com outra coisa, torcia a seu pesar os cantos da boca num sorriso orgulhoso. Depois saboreou o seu triunfo:

— Não é exemplar de comércio. O escultor modelou-a para a reproduzir em bronze, mas o fundidor faliu e este modelo, vendido no leitão, começou a correr mundo até chegar às minhas mãos....

— Que a não deixarão mais?...

— Que jamais nunca a deixarão!

— Mesmo com o frio da morte?...

— Oh! Comandante, não me queira ver morto para possuir um bocado de argila!

O outro protestou sorrindo, mas a visita acabou num constrangimento, que nem a despedida do Comandante, partindo para a Europa em comissão, conseguiu dissipar.

Ele viu a Bacante em sonho nessa noite.

À frente da procissão sagrada, ela vinha, na divina nudez de estatua viva. Guia da festa impura, corifeia lúbrica, festa era vê-la na embriaguez lasciva, dançando a dança em que a razão se perde! A paisagem encantada, olímpica, paisagem de sonho, invadida pela bacanal infrene, toda se iluminava para aquela aparição radiosa. E ela tomava todo o espaço, e só ela avultava e vivia, como entre os acessórios apenas indicados de um quadro a figura principal. Elástica e flexível como um junco ao vento, saltava sem cessar na lânguida cadência de uma música sem som. Torcendo-se em requebros estudados, correndo todas as posições acadêmicas, ela improvisava na plástica da carne variações infinitas, sempre novas, cambiantes inefáveis, sobre o tema vulgaríssimo da sexualidade em delírio. Grande artista que era! Por fim, como um acorde final, vibrante, ela estacou na postura extática do modelo, levemente dobrada sobre a esquerda, a perna direita livre, torcendo alto o tirso engrinaldado sobro os seios eretos e a cabeça descabida para traz, com a boca entreaberta e os olhos pesados de languidez, na amorosa oferenda ao deus novo, feminil, ao louro Baco, ao sírio Dionisos.

O Comandante quis ser Dionisos. Mas despertou.

E o amargor de não possuir a estatueta idealizada no sonho envenenou-lhe a vida daí por diante. Comprou figuras parecidas, mandou fazer bacantes, estimulou a imaginação de mais de um escultor: só teve decepções.

Perdei a alegria de viver, abandonou as suas coleções, tornou-se misantropo pelo incontentamento de uma ambição que sentia ilegítima.

Como misantropo, evitou os amigos, Van Doylen inclusive. Para com esse o constrangimento era como de humilhação e de vergonha. Por isso, quando soube que ele estava doente, não foi visitá-lo. Disseram-lhe que tísico, e ele levantou os ombros, parecendo indiferente.

Indiferente, não: dolorosamente perturbado. Lembrava-se de que o amigo não acreditara nos protestos que lhe fizera, de não querer a sua morte por preço da estatueta. Agora não poderia ir vê-lo, para que o moribundo não
pensasse que ele era o herdeiro cobiçoso indo espiar-lhe a agonia.

E, atribuladamente indeciso, ia e vinha nas suas viagens mensais, recebendo notícias cada vez piores do doente. Por fim, com atraso de oito dias, voltando de uma viagem de mau mar, demoras e contratempos, deram-lhe recado que o Dr. Vau Doylen lhe queria falar, antes de morrer.

Acudiu pressuroso. Ia resgatar a sua ingratidão e desamor com toda a exuberância do arrependimento e do afeto, que lhe brotava dos lábios em palavras generosamente sentidas.

Era tarde, porém. O velho colecionador, que se linha feito transportar para o meio dos seus nus, morria vagarosamente na suprema contemplação solitária daquilo que tinha sido a vida da sua vida, resumindo sensações, esgotando tudo em um longo olhar sedento, sofregamente, como quem bebe a derradeira laça. Entretanto, quando viu aproximar-se o único que com ele partilhara dos mesmos ideais, porque a rivalidade ainda é uma comunhão no desejo, ele teve um sorriso de alegria e entendeu o braço tremulo para tomar a Bacante, que lhe estava ao alcance, e depositar-lha nas mãos. Mas o esforço foi vão. A mão vacilante só pôde agarrar a estátua e suspendê-la pelo tirso. Depois, um sacudimento convulso, de impotente... e ei-la por terra, em pedaços, a esplendida Bacante dos desejos!

O Comandante teve um só grito, um clamor, duas palavras de ódio para exprimir a sua suspeita:

— Oh! egoísta infame!...

Os que acudiram ao grito, o encontraram prostrado sobre os fragmentos de barro, aos pés de Van Doylen, que expirava, levando para além-mundo o espanto desta cena final do drama da mais terrível cobiça que pode cancerar um coração.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

12/12/2017

Maria Sem Tempo (Conto), de Domício da Gama


Maria Sem Tempo
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era magra, pequena, escura. Tinha a extrema humildade dos que vivem longos anos sob o céu destruidor, sem pensar ao menos em resistir à sorte, com a passividade inerte da folha que o vento rola pelos caminhos. Era assim mirrada e seca e sombria, como se tivesse perdido a seiva ao ardor dos estios, como se guardasse das noites sem estrelas o negrume cada vez mais denso.

Era louca, porque só tinha uma ideia, e a criatura humana pode não ter ideias, mas não pode ter uma só. A sua era o angustioso desassossego das maternidades malogradas. Perdera um filho e o procurava. Andava pelos caminhos para buscá-lo e só levantava a voz para chamá-lo, ansiosamente, carinhosamente: "Luciano! Meu filho!..." E escutava longo tempo por trás nas cercas, no aceiro dos matos, à entrada dos terreiros das fazendas, nos desertos e nos povoados, onde quer que a levasse a sua dolorosa esperança. Aquela figura miserável, toda feita num gesto indagador, com a mão abrigando os olhos, à espreita, ou levantando o xale que lhe encobria a cabeça de cabelos hirtos, para ouvir melhor a resposta ideal, aquela encarnação de um desejo sempre iludido enturvava o esplendor do mais radioso meio-dia.

Gente compassiva, donas de casa a quem se apertava o coração ouvindo ecoar pelas estradas o seu reclamo desolador, quiseram retê-la, dar-lhe amparo e agasalho: "Aonde vai, Sinhá Maria? Fique com a gente, mulher! Por estes sóis que matam, assim ao desabrigo do tempo, o que faz uma criatura de Deus? Descanse uns dias e vá então..." Mas a louca se escusava resolutamente: "Não tenho tempo, minha senhora. Vou ao encontro do meu Luciano, que me disse que havia de voltar. Como não tenho mais casa, preciso de estar no caminho. Não vá ele passar enquanto aqui estou..." E se precipitava para fora exalando o seu grito: "Luciano! Meu filho Luciano!..."

E Maria sem Tempo não era uma lição, nem um castigo, nem um exemplo. Se alguma coisa ela provava, era que há sofrimentos que nada provam e que nada justifica, que são, pela razão obscura daquilo que tem de ser. A sua miséria nem mesmo era trágica, porque não exclamava, não lutava, não indagava. O céu rigoroso era-lhe como um senhor cruel, que a pobre escrava não entendia e sob cujos golpes se encolhia apenas. Vivera para ser mãe: sofria disso, como disso outras jubilam.

Quem a encontrava pelos desertos, longe de todo o amparo, às horas tristes do dia, pensava logo com piedade na solidão da sua alma. Mas se iam falar-lhe, ela se não mostrava agradecida à sociedade que lhe queriam dar: recaía logo no seu silêncio absorto, tão ocupado pelo seu sentimento.

O meu Luciano! dizer estas palavras era para ela o mesmo que sentir-se viva. Dizia-as alto, gritando, clamando, enchendo as grotas e os recantos das florestas com o seu alarido de araponga louca; dizia-as baixinho, suspirando, fundindo o coração num ajoelhamento de prece, na prostração suprema do supremo amor. E às vezes, caminhando horas ao longo da praia, com os cabelos sacudidos pelo vento do largo, vacilando sobre a areia branca e infirme que entontece, ela cantava ao mar em fúria a canção monotonamente sublime da sua pena sem fim.

Eles eram dois humildes e mansos e os soberbos e violentos lá de longe fizeram uma guerra para mal deles, uma guerra de tantos anos durando já que os cabelos da mulata tiveram tempo de embranquecer. E o seu Luciano sempre por lá, longe da sua velha, que só tinha a ele no mundo, e que não pudera opor-se a que partisse, porque com o poder de homens, que o vieram buscar naquela noite, tinha-se juntado todo o poder celeste, estrondando numa trovoada de arrasar o mundo. Quando chegaram os homens malditos, ela estava com o filho rezando o Magníficat, à claridade da vela benta em frente ao registro da advogada contra o raio. A voz dele tinha uma toada grave e cheia de fervor, que lhe quebrava a ela a friúra do medo no coração. Ai! não era dos raios e coriscos do céu que a pobre mulata devia recear! Num silêncio entre dois refegões de vento, bateram de repente à porta. Luciano foi abrir e logo um homem entrando, antes de dizer uma palavra, lhe foi deitando a mão. O rapaz deu um pulo, esquivando-se, mas o outro gritou e a casa se encheu de gente armada, soldados, que subjugaram o seu filho e o amarraram. Ela conhecia um dos homens, o que tinha entrado primeiro: de joelhos, como tinha ficado diante da santa, arrastou-se aos pés dele. "Seu Capitão, não me tire o meu filho, que não cometeu crime. Tenha piedade de uma pobre mãe..." O Capitão, meio embaraçado, sem convicção, resmungou umas frases, falou em defesa da pátria, em honra nacional ofendida, dever de todo brasileiro e não sei que mais. Mas a mulher não lhe deu ouvidos; viu que lhe tiravam o filho para a matança nos campos do Sul e desatinou de todo, a pedir, a suplicar, de rastos pelo chão, beijando os pés e abraçando pelos joelhos os seus carrascos, sem poder mais chegar ao filho das suas entranhas. O Capitão começou a se incomodar com a cena e deu ordem de partir, apesar da tempestade no seu auge. Então Maria se endireitou, arquejante sobre os joelhos, e viu, enquadrado pela porta aberta sobre a noite negra cortada de relâmpagos, o seu belo rapaz, que, sem chapéu, de roupas rotas mostrando o peito nu, levantava para ela as mãos algemadas, num gesto de adeus, e lhe dizia com voz trêmula e sentida: "Não se desconsole, Mãe, que ainda hei de voltar..." Nesse instante um fuzil cegou-a e o estampido imediato de um trovão derrubou-a por terra. Quando tornou a si estava sozinha no meio da noite escura. Parece que esta lhe entrou deveras pela mente, e lhe apagou as últimas claridades que lá luziam. Ela se desinteressou de tudo o que ocupa as vidas mais humildes, desprendeu-se por uma inatenção absoluta dos fatos que podem servir de marca aos dias, perdeu a noção do tempo, perdeu as suas afeições menores, enclausurou-se, absorveu-se no seu único sentimento transformado em culto, endoideceu.

Como sempre fora uma pobre inteligência, a sua loucura não se caracterizou senão por uma teimosia especial, passiva, mas inflexível, uma recusa absoluta a ceder aos argumentos dos que queriam convencê-la de que o filho não andava por aquelas bandas e que não era gritando pelos caminhos que ela havia de o recuperar. Ele lhe dissera que havia de voltar... Essa promessa lhe não deixava lugar no espírito nem para a ideia da morte. Quando lhe disseram que Luciano morrera num combate, que um voluntário, que voltava ferido, o tinha visto cair ao seu lado no campo e ao seu lado morrer no hospital de sangue, ela sacudiu a cabeça, incrédula. A força da ideia fixa venceu-lhe a timidez natural e lhe tirou todos os escrúpulos e receios que a pudessem deter no cumprimento do seu fadário. Na abstração poética é assim um caráter heroico.

Os sinais físicos de loucura estavam nos seus olhos perdidos como os de um cão de caça, desatentos ou muito atentos, mas sem simpatia, e nos cabelos hirtos, eriçados, como num perene arrepio de pavor. O resto, mãos e pés de nômade selvagem, miséria profunda do corpo desprezado, fizera-o o ascetismo inconsciente da sua existência errante. A voz cantante, plangente antes, arrastava-se apoiando demais em certas sílabas, como quem chama. E falando baixo tinha umas inflexões escuras, vindas mais de dentro, o tom reflexivo de quem pensa em voz alta.

Sonhava muito, quando dormia, e prolongava o seu sonho, sempre o mesmo, pela vigília. Era com o dia da volta dele que sonhava, com a hora em que, avistando-o, lhe dissesse: "Bendito seja Deus, meu filho, que te torno a ver!" Ele abaixaria os olhos diante do seu olhar carinhoso, com os seus modos tão bonitos de bom filho e depois lhe contaria o que tinha visto pelas terras longes, a história da sua ausência, as grandezas do mundo, as lindezas das outras gentes, tudo o que ela nem podia imaginar que fosse, tudo evocaria o som da sua voz, cuja lembrança bastava para lhe encher a ela os olhos de lágrimas. E voltariam a levantar a casa arruinada, o ninho velho donde a má sorte os enxotara, a refazer a vida antiga, humilde e pobre, que ela não trocaria pela de uma rainha, com Luciano...

Sonhava, e procurava o seu sonho, correndo as estradas. Mas não se afastava dos sítios familiares, algumas léguas de circuito, três municípios, a pátria. Mais longe já parece que a língua mudava ou pelo menos mudavam os costumes. Eram mais duros para a pobre mãe, como se ela pudesse fazer mal, ou não entendiam-na e desconfiavam. Um dia chegou ao pé de uma cidade muito bonita: as casas tinham vidros que faiscavam ao sol; nas ruas passava muita gente, toda calçada de botinas, os homens de gravata ao pescoço, as mulheres de chapéus com flores, todos muito soberbos; carros e cavaleiros passavam a toda a pressa, fazendo muito barulho nas pedras da calçada. Apareceram uns soldados e a pobre Maria fugiu espavorida. Era ali sem dúvida que moravam os que lhe tinham arrancado o seu Luciano. Disseram-lhe mais tarde que ela quase tinha estado na Praia Grande, que era para onde iam os designados para o recrutamento militar, mas que não era ali que eles batalhavam.

O invencível terror do desconhecido a impediu de ir procurar o filho aos campos do Sul. O Sul sabia ela onde era. De lá vinham as piores borrascas. E os tiros de canhão, que diziam de gala na cidade, para ela eram batalhas mais perto, a guerra que se aproximava. Se com a guerra lhe aparecesse um dia de repente Luciano! Quando o ar estava pesado, o tempo de oração, ela escutava estremecendo o troar surdo dos canhões que salvavam no Rio, avaliando a aproximação da guerra pela sonoridade mais clara dos tiros, que lufadas de aragem quente e a banzeira traziam.

Um dia de verão, depois do meio-dia, ela vinha subindo da restinga do mar para a terra firme. Não passava ninguém pelas estradas. O sol de fogo retorcia a folha das árvores e fazia ferver o miolo da doida vagabunda. No grande silêncio da calma acabrunhante só se ouvia o zumbido do enxame de mutucas importunas, que acompanham a gente pelos caminhos à beira dos charcos, e o canto de galos longe. O chão escaldava; a doida movia rápida os magros pés descalços e caminhava de braços levantados, sustentando o xale acima da cabeça. Mas de instante a instante parava, com um gesto de impaciência, e se abaixava para atirar uma pedrada ou um punhado de areia aos camaleões cinzentos, que vinham pôr-se à beira do caminho, debaixo dos gravatás de folhas de serra e flor vermelha, e lhe faziam sinaizinhos brejeiros com a cabeça, quando ela passava. Sobre a ponte do Paracatu parou para ver uma cobra verde, que se lavava no magro fio d’água que ainda corria. Depois entrou na sombra do caminho estreito, com árvores dos dois lados, um desfiladeiro entre a lagoa e a barranca de um morro a pique, e se deteve a colher os cachinhos de jatitás verdes para refrescar a boca sequiosa. Passou um cavaleiro pela estrada e no ouvido ficou-lhe a cadência do meio galope, acompanhamento da toada favorita de Luciano, quando falquejava no mato:

Os olhos de Joanita
São pretos como carvão...

Fora ela que lha ensinara, em pequenino. Vinha de tão longe a cantiga do Mineiro da serra! Vinha de antes das tristezas dela... Cerrou-se-lhe a garganta e retomou a estrada.

Já ia pondo a mão à cancela do campo do capitão Rosa, quando um tiro de canhão atroou os ares; depois outro e outro e em seguida um estrondo prolongado, como o de uma casa desabando.

Maria sem Tempo pensou na guerra. Chegara enfim! A artilharia destruía as grossas muralhas da casa da fazenda. Só lhe admirava aquele silêncio depois da catástrofe. Deu a volta para ir espreitar pela outra cancela, e não entendeu mais nada, quando viu a casa em pé, o gado no campo e na lombada do morro do Cantagalo e o eito de escravos no trabalho, manejado as enxadas, em que o sol faiscava. Ali estava tudo em paz; no céu nem uma nuvem quebrava a dureza do azul implacável: donde vinha então aquele troar de canhões?

A doida aproximou-se da fazenda, mas saíram-lhe cães bravos ao encontro e ela regressou do meio da ladeira. Deu então volta ao morro pelo lado do brejo, para entrar pelo engenho. Mas ao passar pelo campinho de dentro, onde se soltavam os animais de sela e as lavadeiras estendiam a roupa a corar, pareceu-lhe que ouvia deveras a cantiga do Mineiro da serra, a cantiga da saudade, que lhe entrava pelos ouvidos, em vez de ressoar-lhe apenas da memória esvaída. Transpôs a cerca de bambus em moitas sussurrantes e encontrou um cavouqueiro, dos que ali andavam a arrebentar pedra para construção, que descia da pedreira e vinha jantar. Maria perguntou-lhe ansiosamente: "O meu filho? é o meu Luciano quem está cantando?" O homem respondeu: "É o Luciano, sim; mas não vá para lá agora, que ele vai pegar fogo à mina." A doida não lhe deu mais atenção e embarafustou pelos cafezais acima. Chegando à entrada da pedreira, viu um rapaz meio pendurado de uma corda de nós, que acabava de arranjar os estopins e punha fogo à mina. Ela gritou: "Meu filho? És tu, meu Luciano?" O Chico Macaé, que já ia marinhando pela corda acima, voltou-se espavorido: "Meu Deus! que faz aí, Sinhá Maria? Fuja, que aí vai pedra! Corra, suma-se depressa, mulher!" E como ela estacasse atônita, ele lançou mão de uma pedra para afugefentá-la. A mãe louca viu o gesto e, pondo as mãos na cabeça, despenhou-se pelo cafezal da grota. Alguns segundos mais e a mina rebentava e Maria sentia cair-lhe em torno uma chuva de pedras miúdas, enquanto ao longo da pedreira as grandes lascas desabavam fragorosamente.

Maria sem Tempo caiu extenuada sob uma grande mangueira no meio do campo. Na perturbação da emoção profunda todas as ideias se lhe confundiram e o desvario completo entrou-lhe na mente.

Era aquilo a guerra e era o seu filho que a fazia contra ela. O homem dissera que era ele e a cantiga a não enganara. Para se encontrarem daquele modo vivera ela tão longos anos, penando pelos caminhos! À ideia de que pudera ter morrido aos golpes do filho estremecido, um calafrio sacudiu-a toda convulsivamente e por fim as pernas se lhe inteiriçaram. Depois, a necessidade de abandonar toda a esperança quebrou-lhe as derradeiras forças. Uma toalha de gelo espremeu-lhe o coração num grito de agonia infinita e Maria sem Tempo morreu.

Algumas horas depois formava-se uma trovoada e um raio caía sobre a árvore que abrigava o cadáver. A tempestade passou e os escravos que, voltando da roça, foram ver o tronco lascado descobriram a morta. Os respingos da chuva lhe tinham coberto o rosto de terra e os olhos esgazeados já pareciam olhar do fundo da sepultura. Um dos escravos se abaixou para lhos fechar, dizendo: "Coitada de Sinhá Maria! Vá que ela agora descanse de procurar o filho!..." E outro, velho, resmungou, sem saber que tão bem dizia: "Esta morreu de ser mãe..."