sexta-feira, 23 de março de 2018

História do Brasil: Guerra dos Emboabas (Ensaio), de Rocha Pombo



Guerra dos Emboabas

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)
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1 - Não há nada que nos possa dar uma ligeira ideia sequer do alvoroço geral que produziu a notícia (pelos fins do século XVII) da descoberta das grandes jazidas de ouro no interior. Espalhada a notícia por todo o Brasil e lá no reino, as migrações em massa tornaram-se espantosas. "Das cidades, das vilas, dos recôncavos, do fundo dos sertões, acorriam brancos, pardos, negros, índios. A mistura era de toda condição de pessoas: homens, mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, plebeus e fidalgos, seculares e clérigos, religiosos de diferentes institutos, muitos que nem tinham no Brasil convento nem casa". Era a vertigem da fome que atacara todo um tempo!

Seria fácil prever o que se vai dar naquelas vastas aglomerações de gentes de toda ordem, tangidas do seu delírio, ali como afastadas do mundo, fora da ação da autoridade oficial, e tendo de instituir como leis o talante dos mais fortes, o sucesso dos mais espertos, a preeminência dos que tivessem mais fortuna. Em todas as zonas que foram invadidas, desde os primeiros dias começou-se a sentir que a existência nos vários núcleos de mineração ia ser amargurada. Os próprios chefes, que tinham levado às vezes anos e anos unidos pelo sentimento da mesma causa, estavam agora suspeitos uns dos outros, quando não inimigos irreconciliáveis.

Enquanto os paulistas defendiam as minas como de direito patrimônio seu exclusivo, por terem sido eles os descobridores, iam os forasteiros entrando com eles vigorosamente numa competição desesperada e quando se sentiram bastante fortes pelo número, não trepidaram em levantar-se unidos para conseguir pela força o que pela força lhes recusavam.

Desde 1706, a animosidade crescente entre os dois partidos fazia prever que o rompimento era inevitável, e que bastaria um incidente para precipitar uma contra a outra aquelas facções em alvoroços.

Esse incidente apareceu logo e mais de um em vários pontos, acendendo-se como de súbito a desordem geral. O que se deu no Caeté é que foi decisivo.  Estavam ali, pela manhã de um domingo, à porta da igreja, à espera da missa, Jerônimo Pedroso de Barros e seu cunhado Júlio César Moreira, ambos paulistas orgulhosos e cheios de império. Passou-lhes pela frente, àquela hora, um forasteiro, trazendo, como de costume, uma espingarda a tiracolo, e muito ufano, com ares quase de acinte e ostentação.

Foi isto o bastante. Querem os paulistas tomar a arma ao forasteiro.  Grita este por socorro, e acodem muitos a defendê-lo, tendo à frente Manuel Nunes Viana, cabeça dos reinóis, e o mais poderoso caudilho das Minas.

2 - Sujeito inteligente e muito atilado, compreendeu Viana a inconveniência do destempero e o perigo do transe, procurou acalmar os ânimos, fazendo sentir aos paulistas a injustiça que cometiam contra aquele pobre homem.

Mas as boas maneiras de Viana animaram os paulistas a prorromper em mais violentos impropérios contra os forasteiros em geral. Tomaram por medo o que não era mais que prudência. E logo das palavras de insulto foram até o formal desafio — diz o historiador Diogo de Vasconcelos arrebatado então, de ira, chamou-os Viana ali mesmo a campo. Interpuseram-se naquele momento alguns circunstantes, e evitou-se o conflito naquele tão impróprio lugar. O repto, porém, estava lançado entre as duas hostes.

Tendo notícia de que os paulistas se preparavam para desafrontar a Jerônimo Pedroso, previne-se pela sua parte Nunes Viana, disposto a fazer-lhes frente em qualquer terreno.

À vista disso, puseram-se em conselho os paulistas de todo o distrito, e cuidaram do sossegar os ânimos. Procurou-se então o chefe dos emboabas, e com ele combinou-se a paz por um ajuste que se reduziu a termo, e foi por todos assinado.

Não tardou, porém, que um novo incidente viesse comover outra vez todo o distrito de Caeté: a morte do paulista José Pardo, quando, em sua própria casa, dava refúgio ou escapula a um mameluco que tinha assassinado um forasteiro, e era perseguido pelo clamor dos outros.

A guerra tornou-se agora inevitável.

Pelos fins de 1707 correu entre os forasteiros o aterrador boato de que os paulistas, em concerto no Rio das Velhas, tinham decidido expelir ou exterminar de uma vez todos os seus concorrentes moradores nas Minas. Dizia-se até, já marcado o dia (para meados de janeiro) em que se devia fazer o massacre em todos os arraiais.

Assim que se espalhou essa notícia, começaram a afluir de todos os distritos para Caeté multidões de forasteiros em grande alarma, e pôr-se às ordens de Nunes Viana. Foi este aclamado governador das minas, "para de uma vez acabar com a insolência dos paulistas e obrigá-los a viver dentro das leis". Instala Viana o seu governo em uma das suas casas do Caeté; e proclama à população das Minas, assegurando que só assumira tão grande responsabilidade para salvar, naquela conjuntura, os interesses da paz e da justiça.

Assustados com semelhantes movimentos, fugiram do Caeté os paulistas em grande aflição, e foram concentrando-se no arraial de Sabará, onde se apercebem para a guerra.

Ali os foi atacar Nunes Viana, obrigando-os a fugir em completa desordem.

Esta primeira vitória dos emboabas começa logo a complicar as funções do governador das Minas, pondo-lhe em contraste com o coração o destempero da massa heterogênea que tinha de conter. Aparecem dissenções, ciúmes e despeitos no próprio exército vitorioso. "Os naturais do Norte, em maior número da Bahia e de Pernambuco" opõem-se formalmente à moderação com que se tratam os vencidos. Alguns chefes ali mesmo se separam, em grande furor contra Viana.

Como para atalhar os embaraços que sobrevinham, recebe-se notícia de que os paulistas da Cachoeira do Campo e do Ribeirão do Carmo ameaçavam o arraial de Ouro Preto.

Aumentada a sua gente com a de Pascoal da Silva Guimarães, foi o governador das Minas investir a primeira daquelas posições. Deu-lhe dois ataques, sendo, em ambos, ele próprio ferido, tendo afinal de passar o comando ao terrível frade Francisco de Menezes, a alma danada de toda aquela discórdia.

Este homem, já famoso nas Minas, maligno, astuto e sutil "como um demônio", arma um bote fatal contra os paulistas. Fingindo uma obrigada suspensão da luta, espera que tudo no arraial entre no silêncio do sono, e faz, insidioso, felino e sinistro, invadi-lo alta noite, surpreendendo os paulistas no seu repouso. A confusão foi horrível. A vitória foi completa.

Com este segundo estrondoso feito acentuam-se os embaraços com que desde Sabará andava lutando Nunes Viana.

É neste momento que Fr. Francisco de Menezes, e outros frades que com ele vivem de conluio a explorar aquela situação, tomam o expediente de sagrar Nunes Viana como supremo ditador das Minas Gerais, dando-lhe assim à autoridade uma como sanção divina, que a fizesse parecer legítima aos olhos de toda a gente simples do sertão.

Celebrou-se ali mesmo, em Cachoeira, a cerimônia da sagração com muita pompa. Dali partiu o ditador para a Serra do Ouro Preto, onde entrou em triunfo. Tornou-se então, este arraial, como a capital das Minas, estabelecendo ali o ditador o seu governo.

4 - Os paulistas, que iam sendo acossados das derrotas, foram reunindo-se no arraial do Rio das Mortes; e sentindo-se fortes pelo número, resolveram tomar a ofensiva, indo logo cercar o arraial forasteiro da Ponta do Morro. Resistiram os emboabas até que lhes chegassem socorros de Ouro Preto. Mandou-lhes o ditador uns mil homens, às ordens do valente, mas cruel e desumano sargento-mor Bento do Amaral Coutinho.

Sabendo que vinha esse reforço, levantaram os paulistas o cerco, e seguiram caminho de São Paulo.

Chegando à Ponta do Morro no outro dia, destacou imediatamente Coutinho uma partida no encalço dos fugitivos. Voltou esta força dando conta de que, a cerca de umas quatro léguas dali, estavam os paulistas acampados, ou pelo menos uma parte deles, parecendo tranquilos como em pouso.

Mal ouvira aquela notícia, "saltando como um tigre mal ferido", mandou Coutinho reunir a sua gente, e se pôs em marcha para aquele lugar. No dia seguinte cercava o capão onde estavam os paulistas, rompendo logo fogo cerrado. Combateu-se ali dois dias sem cessar. Por fim, não tendo mais munições, renderam-se os paulistas sob a garantia das vidas. Assim que viu, porém, aquela gente desarmada, caiu o próprio sargento-mor, e seguido dos seus, sobre ela, massacrando-a toda. "Eram cerca de trezentos homens, e foram todos imolados. Transidos de horror, os próprios oficiais, e muitos reinóis protestaram contra a iniquidade; mas em vão. Só puderam afastar-se, para não selar com o seu testemunho aquela cena de infâmia e canibalismo".

É fácil imaginar o espanto e consternação que nas Minas e em toda a colônia produzira aquela sacrílega enormidade. O sítio onde se deu a carnificina ficava à margem da estrada real; mas dali por diante mudou-se o caminho, e ninguém mais quis passar junto daquele, que ficou chamado Capão da Traição.

O próprio governador do Rio de Janeiro, D. Fernando Martins Mascarenhas de Lancastro, que não dera ouvido aos clamores que desde muito lhe vinham do sertão "recebendo agora notícia daquele pavoroso morticínio, compreendeu que males tinha deixado consumar com a sua desídia". E tal foi a impressão que sentiu que tomou imediatamente a resolução de partir ele próprio para as Minas.

Infelizmente, foi este erro muito maior que o outro. Entrou ele na região conflagrada como quem vai castigar, e muito ostentoso da sua autoridade.

Preparou-lhe, no entanto, Nunes Viana, um simulacro de guerra, e o fez retroceder do arraial de Congonhas, saindo mesmo de noite e atropeladamente.

5 - Tão fortes se sentem os forasteiros que resolvem expedir para a corte um mensageiro, encarregado de expor tudo ao próprio rei, "como se quisessem assim dar contas de uma função legítima, e convencer o governo de que só por melhor zelar os interesses da justiça, da ordem geral e da fazenda pública é que se tinham levantado".

O mensageiro escolhido foi fr. Francisco de Menezes, hábil, astuto, dissimulado como ninguém para aquela tarefa. Aos argumentos de que se valesse, juntaria o poder de uma eloquência que mais do que tudo tinha força em Lisboa: a dos quintos que se haviam arrecadado (de importância superior à dos do último ano) e dos valiosos presentes que se enviavam ao rei.

Se alcançarem o que intentam, que é o perdão geral, terão vencido, e as Minas estarão pacificadas. Se o rei se mostrar austero, e os repelir, neste caso, "sem mais dever de súditos de um rei que os abandona", cuidarão por si mesmos do seu destino na amplitude da terra, "ainda que tenham que trasladar-se para os seus confins à procura de outra lei"...

À vista de caso tão complicado, a única providência que a corte podia tomar foi a que tomou, nomeando para o governo do Sul Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, homem notável, que já havia governado o Maranhão, dando provas de prudência, firmeza, circunspeção e espírito de justiça.

Por mais alarmantes que fossem as informações que recebera ao chegar ao Rio acerca da situação das Minas, principalmente as que lhe dera o seu predecessor, o primeiro cuidado de Antônio de Albuquerque foi ir em pessoa às regiões que se achavam em violento estado de rebelião e de guerra.

Antes de partir, teve ensejo de receber um emissário dos forasteiros, o carmelita fr. Miguel Ribeiro, homem inteligente e digno, e já conhecido, e parece que até amigo do Governador. Expôs fr. Miguel o que se havia passado, e a situação em que se encontram as Minas, e pediu a Albuquerque, em nome dos levantados, que fossem por si mesmo conhecer a verdade.

Compreendeu tudo o hábil político, e viu logo que não se enganara quanto ao caminho que planeara tomar. De acordo com o frade, em vez de seguido de grande aparato de forças, deliberou partir para o sertão levando apenas, como guarda de pessoa, uma escolta de vinte soldados.

6 - Dirigiu-se primeiro, o Governador, acompanhado de Fr. Miguel, para o arraial de Caeté, que estava em poder dos paulistas; e dali expediu o seu ajudante para Ouro Preto, levando a Nunes Viana a intimação de apresentar-se com urgência no Caeté.

O ditador, que já se havia adiantado em declarar-se submisso, recebeu satisfeito a intimação; e no dia seguinte, em companhia de uns quantos amigos, veio encontrar-se com o Governador. Com mostras de deferência, recebeu-o Albuquerque; e para dar ao fato "um caráter solene, convocou  uma Junta", perante a qual depôs Nunes Viana, em mãos da autoridade superior, "o governo e a regência das Minas, e fez a sua submissão, com juramento de fidelidade aos delegados de El-Rei, presentes e futuros".

Acabou assim, exatamente no transe que parecia de mais angústia, aquele extraordinário movimento, sem dúvida o mais estranho dos tempos coloniais, e o mais notável como expressão dessa alguma coisa de nova consciência que dá sinal de si na ordem civil. De certo que em plena paz não se julgam ainda os distritos mineiros (e por ali a ordem vai ser precária até meados do século); mas aquele grande perigo (de tão considerável poder militar que crescia com os sucessos) estava desfeito.

Como indispensável medida de prudência, afastou-se Viana, assim como outros cabeças da revolução, por algum tempo das Minas, para não embaraçarem por ali a ação reparadora da autoridade.

Com os paulistas, no entanto, não teve Antônio de Albuquerque a mesma fortuna.

Tendo tomado todas as medidas tendentes a normalizar as coisas nos vários distritos mineiros, seguiu o Governador com destino a São Paulo.

Aquele horroroso massacre do Capão da Traição tinha exacerbado os velhos ódios, e os paulistas agitaram-se em grande furor de vingança. Reuniu-se o povo no paço do senado, e ali proclamou-se a guerra santa contra os forasteiros. Aclamado chefe Amador Bueno da Veiga, em breve estava formado um exército respeitável.

Ao pôr-se em marcha esta gente para o sertão das Minas, reza a tradição que as esposas "animaram os maridos para aquela ação do seu maior empenho, lembrando-lhes que só com o sangue dos inimigos se devia lavar aquela mancha, que tanto denegria o timbre e o crédito dos paulistas: protestando-lhes juntamente que se assim o não fizessem, seriam objeto do seu maior desprezo e aborrecimento, ficando para sempre abandonados da sociedade e união conjugal".


Aclamação de Amador Bueno (pintura de Oscar Pereira da Silva)


7 - Ao ter notícia da borrasca iminente, pensou Albuquerque em fazê-la parar chamando à razão as facções outra vez em delírio. Mas já não havia mais tempo. No Rio das Mortes levanta-se de novo o alarma geral; e pareceu que as Minas estavam nas vésperas de mais temeroso incêndio.

Na esperança, porém, de fazer em São Paulo o que fizera no Caeté, apressa o Governador a sua marcha. Em Guaratinguetá sabe que os paulistas "estão dali a um dia de viagem", e enviou um oficial a encontro de Amador Bueno, convidando-o para uma entrevista antes de continuar a marcha.

Acedeu de pronto Amador, apresentando-se em Guaratinguetá. Não se sabe o que se passou na conferência. Pode-se, no entanto, afirmar com segurança que Albuquerque, não tendo conseguido dissuadir os paulistas daquele intento, lançou-lhes toda a responsabilidade do passo que iam dar; e dali apressou-se a voltar para o Rio, onde tomou providências em favor dos arraiais ameaçados.

Por sua parte, tendo aviso de tudo, acodem os forasteiros à Ponta do Morro, e ali se fortificam.

Não tinham ainda acabado de construir as suas trincheiras, quando apareceram os paulistas, e foram logo cercando a praça. Combateu-se ali ferozmente durante mais de uma semana.

Afinal, ao romper da manhã de um sábado, viu-se do reduto "deserto o campo em fora, e o silêncio mais profundo em torno do arraial". É que correra, entre os paulistas, a notícia de que avançava uma grande força em socorro da praça; e mesmo de noite resolveram abalar, sem mais disciplina nem ordem.

No seu entusiasmo, puseram-se os forasteiros no encalço dos fugitivos; "oito dias os foram perseguindo — diz Southey; mas levavam eles a dianteira, e sendo o medo mais veloz do que a esperança, chegaram a São Paulo sãos e salvos, posto que com pouco fundamento para esperarem uma recepção triunfal da parte das viragos que os haviam instigado".

Só agora é que se consideram pacificadas as Minas Gerais.

Vem logo a criação da nova capitania de São Paulo e Minas.

O próprio Antônio de Albuquerque mostrou aos paulistas como eram preferíveis os processos que eles tinham repelido; com eles se reconciliou; e veio logo o perdão geral; e por aquela vez parecia tudo esquecido.


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Imagens:
http://memoria.bn.br

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