sexta-feira, 24 de maio de 2019

Monteiro Lobato: Plágio post-mortem (Ensaio)



Plágio post-mortem 

A 11 de outubro de 1916, pela tarde, entra a esvoaçar em São Paulo um corvo sinistro: o boato da morte de Ricardo Gonçalves.

— Será possível!...

Era. O boato confirma-se. La buffera infernal que mai non resta tragara-o para sempre.

Ricardo, a tiros de revólver no coração, fechara o epílogo da sua tragédia de amor. E a Pauliceia tão fria, tão sem gestos, tão fechada consigo mesmo chorou-o com as suas melhores lágrimas — irmãs das que teria mais tarde para Moacir Piza.

Criatura de eleição, era Ricardo o feitiço dos seus amigos: nenhum possuiu que o não chore ainda hoje. Poeta dos que falam à alma, seus versos, dos mais ricos de poesia de quantos se fizeram no Brasil, viviam na boca dos amadores, passavam de álbum a álbum, perpetuavam-se nas folhas à força de transcrições. Esperança do povo, sua ação social relevada em discursos de perturbadora eloquência, fazia os humildes enxergarem nele a aurora de um Graco. Paixão das mulheres, sua beleza física, de fundo romântico, culminava nos olhos divinos de expressão e nostalgia do além, tornando-o o homem fatal dos amores que fulminam.

Em suma: caso raríssimo de requinte racial, de confluência harmônica das três grandes forças: gênio, beleza, coração. Dessa amálgama feliz vinha o dom supremo — a bondade filha da suprema compreensão.

Uma bala de revólver roubou a São Paulo a flor peregrina ainda mal desabrochada.
Mas o perfume ficou: seus versos.

Ricardo os fazia de raro em raro, sem mira noutra coisa senão fazê-los. Linguagem natural do coração, exteriorizava-os despreocupado, como a violeta que recende à tardinha.

Não os publicava; a sede da perfeição inatingível não lho permitia. Seus amigos, porém, os foram levando a jornais e revistas, receosos de que se perdessem tão finos lavores.

Seis anos após sua morte esses versos foram reunidos em volume — Ipês. A coleção trazia além das suas produções originais algumas traduções de Leconte e Rostand. E Ricardo Gonçalves passou a viver a doce vida da sombra, em seus versos e na saudade dos amigos. Conquistara a paz. Dera a vida terrena em troca dessa mansa quietude.

Os anos passam. De súbito, uma revista carioca explode uma acusação hienal contra a memória do morto. Xavier Pinheiro impiedosamente o acusa de plagiário; mais, de gatuno de versos alheios. Acusa-o de haver furtado a Porto Carrero uma tradução de Rostand.

E o articulista esmaga a nobre sombra cotejando as duas produções — na realidade uma só porque absolutamente idênticas.

Mais que brutal, mais que grosseira, a conclusão do acusador era inepta. Se o livro de Carrero apareceu depois da morte de Ricardo como poderia este plagiar post-mortem?

Se plágio havia, plagiou quem apareceu por último. A cronologia, portanto, investia, virava pelo avesso o libelo e punha em má situação Porto-Carrero.

Era, entretanto, absurda qualquer das duas hipóteses. Nenhum dos dois poetas merecia que nem por sombras pairasse sobre eles tão infantil suspeita.

O caso devia ser bem outro, e era.

Havia acontecido o seguinte.

Como o livro dos “Ipês” só foi organizado muitos anos depois da morte do poeta o organizador do trabalho teve que lutar com muitas dificuldades. Teve que catar as produções esparsas aqui e ali, escabichando coleções de revistas e jornais, álbuns, memória de amigos.

E no afã da colheita... apanhou a tradução de Carrero e a incluiu na coletânea como sendo a de Ricardo.

Só agora, com o alarme de Xavier Pinheiro, se verificou o engano, e graças a uma busca rigorosa foi possível desenterrar de uma revistazinha antiga a tradução de Ricardo, que traz a data de 1904.

A Manhã, órgão de desagravos, vai desagravar a sombra caluniada publicando as duas traduções. E seus leitores, comparando-as, hão de forçosamente exclamar:

— Que criatura feliz este Rostand, cujos versos encontram tradutores de tal quilate!
A de Ricardo é esta:


MANEIRA DE FAZER PASTÉIS DE AMÊNDOA

Com três ovos — cada clara
Bem batida, uma por uma,
Se prepara
Uma xícara de espuma
Branca e leve qual se fosse
Neve pura; põe-se então,
Com leite de amêndoa doce,
Quinze gotas de limão.

Depois se bate e adelgaça,
Visando-se obra perfeita,
Fina massa
Que se deita
Numas formas especiais.
E em cada pastel, brocado
Lado a lado,
Põe-se a espuma e nada mais.

Os pastéis assim obtidos
São no forno muito quente,
Docemente,
Com cautela introduzidos.
Espera-se um pouco e, após,
Na bandejinha que os trouxe,
Enfileiram-se ante nós
Os pastéis de amêndoa doce.

(1904)


A de Porto-Carrero é a seguinte:

TORTAZINHAS DE AMÊNDOAS E MODO DE AS FORMAR
Batam-se bem alguns ovos
Inda novos;
Nas ondas que a espuma trouxe
De cidra o sumo se deite,
Grosso leite,
Bom leite de amêndoa doce.

Passe-se dentro da lata
Fresca nata
Em formas de bom-bocado:
De damasco a borda peje-se;
E despeje-se
Gota a gota com cuidado

Tudo na forma, de forma
Que essa forma
Vá para o forno; e, rendendo-a,
Sigam-se as outras; saindo
Venham vindo
As tortazinhas de amêndoa.

Imagino (gratuitamente) que os próprios tradutores torceriam o nariz aos pastéis feitos pelas suas receitas — mas poeticamente as duas estão, ou devem estar certas.



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In: Na Antevéspera
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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