segunda-feira, 24 de junho de 2019

Amores trágicos (Conto), de Brito Camacho



Amores trágicos
Tinha dezessete anos.
A noiva, um pouco mais nova do que ele, morrera havia dois meses.
Aos dezessete anos não é licito ter uma noiva, mas apenas uma namorada, duas ou três namoradas, porque os jovens corações, à semelhança das borboletas, pousam aqui e além, sempre enternecidos, mas livres sempre.
Certo é que, desde que lhe morreu a noiva, uma encantadora rapariga que aliava aos mais desejáveis dotes físicos os mais excelentes predicados morais, nunca mais teve uma hora de sossego, baldadamente procurando diluir em lágrimas a dor imensa que o torturava.
Todos os dias, ao cair da tarde, rigorosamente vestido de luto, ia ajoelhar sobre a sua sepultura, atapetada de flores.
Ali ficava, horas esquecidas, ás vezes colando o ouvido à pedra tumular como para recolher um segredo, uma palavra carinhosa, um juramento de amor, uma promessa de felicidade com que ela, a morta querida, pretendesse suavizar o seu incomportável sofrimento, a sua dilacerante saudade.
Tivera a coragem, que se lhe afigurava agora covardia, de não se matar quando a viu morta, não obstante ter-lhe dito, pouco antes, perguntando-lhe ela, numa crise de sofrimento pré-agônico, o que faria se ela morresse:
— Se fu morresses, o que Deus não permitirá, matava-me.
Só abandonara o cadáver por breves instantes, em- quanto o vestiam, e até fecharem o caixão, como que hipnotizado, os olhos fitos no seu rosto lindo, que a morte não transtornara, parecia querer surpreender o mais leve, o mais apagado sinal de vida, um imperceptível tremelicar das pálpebras ou dos lábios, um estremecimento de letárgico que se não ouvisse, como a harmonia das esferas, que se não visse, como o movimento da luz.
Quando a metraram na cova, ainda alto o sol, a atmosfera ligeiramente turva, o céu de um azul desbotado, quase sem nuvens, dois rouxinóis puseram-se a trinar, pousados no mesmo cipreste, ali perto, e ele teve a impressão de um coro divino que se organiza para acompanhar a alma da sua querida morta aos paramos infinitos.
A partir de então, todos os dias, àquela hora, rigorosamente vestido de preto, ia ajoelhar sobre a sua sepultura, atapetada de flores, e ás vezes, colando o ouvido à pedra tumular, parecia-lhe que lá de dentro vinham sons, vozes mal articuladas em que ele adivinhava promessas de felicidade, juramentos d'amor.
Naquele dia, como nos outros, rigorosamente vestido de preto, chegou à hora em que ela fora enterrada e ajoelhou sobre a sua sepultura, atapetada de flores, colhidas de fresco. Um moço do cemitério, generosamente retribuído, tinha o encargo piedoso de não deixar que houvesse flores murchas sobre aquele cofre sagrado.
Pareceu-lhe, na alucinação que o dominava, que ela se revolvia na cova e o chamava para junto de si, para os divinos esponsais.
— Eu vou! Eu vou!
Um guarda que andava ali perto, em serviço de ronda, ouviu uma detonação, e correndo para o local donde lhe pareceu que ela partira, encontrou-o morto, o revolver na mão crispada e nos lábios o esboço dum sorriso triste e feliz, expressão trágica dos que morrem de amor, certos de que noutro mundo, certos de que noutra vida encontrarão a felicidade que na terra não encontraram.

---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...