segunda-feira, 24 de junho de 2019

As aparências enganam (Conto), de Brito Camacho


As aparências enganam
Sempre tivera a paixão das mulheraças, importando-se pouco que fossem bonitas ou feias. Todos os encantos femininos eram redutíveis, segundo o seu critério e gosto, a gramas e centímetros. Bem entendido, a mulher comprida, esgalgada, expressa numa só dimensão, o comprimento, embora lhe chamasse a atenção, não lhe perturbava os sentidos. O mesmo lhe sucedia com as mulheres baixas e repolhudas, as madamas estilizadas em abobora, com mais de noventa quilos, peso limpo.
Era capaz de correr a cidade inteira, em todas as direções, atrás desses Himalaias de saias, e por mais de uma vez lhe sucedeu continuar a viagem, em comboio, muito para além do seu destino, atraído por qualquer Eva de um metro e setenta e cinco de altura, não levando em conta os saltos, e a largura correspondente.
Era um fetichismo burlesco, no gênero de muitos outros que andam descritos em certos livros de medicina e constituem um dos capítulos mais interessantes da psicopatologia dos sexos, Sobre a maior parte dos outros fetichismos amorosos, que ele nem conhecia de leitura, jamais tendo prendido a sua atenção a essa ordem de estudos, este tinha a vantagem de não o sujeitar a percalços graves, sempre a respeitosa distância das madamas que seguia, a menos que um olhar acariciador caísse sobre ele, como um convite.
Falava do Oriente com muito desdém, por causa da pequenez das mulheres, talvez estimáveis bibelôs, cheios de frescura e de graça, mas bibelôs em todo o caso. Lera, algures, que as crianças são mulheres pequeninas, e logo invertera a máxima, para seu uso, dizendo que as mulheres pequenas são crianças grandes. Ora as crianças, na sua minusculidade de bonecas, eram indiferentes, absolutamente indiferentes aos seus apetites amorosos, eminentemente sexuais.
Fosse como fosse, as mulheraças exerciam sobre ele, bonitas ou feias, uma atração irresistível, a tal ponto que algumas vezes lhe sucedeu continuar a viagem, em comboio, muito para além do seu destino, prezo aos encantos de uma Vênus culatrona, comprida e larga.
Entrou no baile sem nenhuma intensão de se demorar; mas viu aquela enorme máscara, dominando a multidão, e ficou talqualmente como um saloio que dando uma topada numa pedra, encontrasse um tesouro. Tinha um rebolar de ancas como têm geralmente as varinas, e era de uma elegância tamanha a dançar, que dir-se-ia uma estrela coreográfica aplaudida e consagrada pelas mais exigentes plateias. Véstia de Judite de Betúlia, segundo a narrativa bíblica, e ele não se importava de ser o Olofernes, com tanto que antes de lhe cortar a cabeça, ela se lhe tivesse entregado sem restrições.
Pôs-se a segui-la devorando a com os olhos, lamentando-se de não saber dançar, o que tornaria fácil a abordagem, aliás nunca extremamente difícil num baile de máscaras, com entradas pagas.
Notou que ela andava em completa liberdade, dançando com este, dançando com aquele, conversando com uns, conversando com outros, mas livre como um passarinho na eira ou como um cabrito na pastagem.
Tanto fez que ela o notou, demorando se a fitai-o por detrás da máscara, naquele momento atrelada a um cavalheiro que lhe dava pelo ombro, e era dos homens mais altos que havia na sala.
Já perto da meia-noite, vendo-a no bufete, encheu-se de coragem e convidou-a para cear, se quisesse dar-lhe esse prazer — ali mesmo ou n’um gabinete reservado.
Agradeceu, fazendo uma reverencia, e voltou para a sala do baile, alta como a Torre dos Clérigos, ancha como o zimbório da Estrela.
Continuou a persegui-la, agora com mais insistência, às vezes perdendo-a de vista, no turbilhão dançante, e então farejando-a como um podengo, no mato, fareja um coelho.
Passou revista à carteira, e verificou que tinha bagagem suficiente para empreender uma batida àquela peça de caça grossa, que certamente não era uma ressurreição da Lucrécia romana, e a ser uma Imperatriz, seria a famosa Catarina da Rússia, cantada pelo Bocage.
Nunca se vira assim enternecido, fascinado por uma mulher, talvez bonita, talvez feia, o que pouco lhe importava, porque o seu critério de beleza feminina era o quilo e o metro.
Na verdade, era uma grande mulher, uma enormíssima mulher, as ancas largas como se fosse o cavalo de Troia antes de parir todos aqueles guerreiros que lhe atafulhavam o ventre.
Pediu a um amigo que fosse dançar com ela, para ele ter um bom pretexto para se aproximar, entabulando uma conversa que tivesse resultados decisivos.
Assim foi.
O amigo retirou-se logo que a conversa pegou, e ele então, mais animado que no bufete, a ver que as horas iam passando, e o baile acabaria antes do sol fora, não esteve com grandes cerimônias — propôs-lhe saírem, indo acompanhar à casa.
Houve a inevitável resistência, começando pelo desdém, vindo a seguir o protesto mais afetuoso que violento, acabando numa enternecida condescendência, guardadas as devidas cautelas — mulher casada, com filhos...
Morava longe, era muito conhecida no Bairro, e aquela hora, já quase dia, algum vizinho podia estar à porta ou à janela, ou recolher de uma noitada carnavalesca, encontrando-se na rua, de nada lhe servindo a máscara.
O porteiro do hotel, quando os viu entrar, estacou diante d’aquela bisarma de saias, tendo a impressão de ver na sua frente uma baleia mascarada. Ele então, radiante, parecendo ainda mais pequenino ao pé daquela mole gigantesca, tinha o ar babado de um serviçal que a patroa admite na sua intimidade.
— Haverá quarto?
O porteiro, já velhote, permitindo-se uma liberdade que, em qualquer outra época, não teria com o hospede da mais humilde condição, disfarçando um riso velhaco sob a espessura d um bigode branco pela idade e amarelado pelo cigarro, respondeu:
— Quarto ha, com certeza; agora cama que dê a conta...
E servindo-se dos olhos como de um compasso, mediu-os de alto a baixo, primeiro o cavalheiro, depois a dama, mal resistindo à tentação de lhes dizer que no Hotel não havia leito onde pudesse estender-se tão agigantada pessoa sem ficar com as pernas dependuradas.
Subiram, e logo ao cimo da escada lhes apareceu um criado, o de vela, perguntando o que desejavam. 
— Um quarto, se há.
— Sim senhor, há quarto. É só para dormida?
— É. Por que faz essa pregunta?
— É porque o quarto só para dormida paga-se adiantado.
Tirou dinheiro da carteira e pagou — dando logo gorjeta.
O criado desapareceu, levando um castiçal na mão; voltou daí a pouco, e disse para o cavalheiro, muito atencioso:
— Façam favor acompanhem-me.
Ninguém soube, ¡amais, o segredo daquele tête-à-tête, mas daí a nada o homenzinho, deixando no quarto a mulher himalaica e mascarada, saía em pé de vento, murmurando esta imprecação raivosa:
— Malandro!... Grandíssimo malandro!



---Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019

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