domingo, 30 de junho de 2019



O Abismo 
(Parábola)

Certo velho mostrava ao filho uma pequena medalha de bronze que tinha suspensa ao peito e que guardava, há muitos anos, com religioso carinho.
E disse:
— Esta medalha que vês, meu filho, de aspecto insignificante, feita de metal tão comum, não a daria eu por uma bolsa de ouro nem pelas glórias terrenas a que a vaidade aspira tanto. Amo este objeto como a um filho dedicado e à noite, beijo-o com fervoroso carinho.
— Mas por que é que amas esta medalha, meu pai? Ela é tão feia!
— Não sei se ela é feia; sei apenas que ela é um símbolo que constitui para mim a mais cara recordação da minha vida. Há tempos, o único amigo que tive, único companheiro da minha miséria, deu-ma no leito de morte, depois de a ter beijado, e morreu. Ao expirar, agarrou-me as mãos, abriu muito os olhos e parece que soltou por eles todo o extremoso amor com que me amava. Meu primeiro e derradeiro amigo! Quem me dera tê-lo ao meu lado, hoje que a fortuna entrou em meu lar!
— Compreendo agora, meu pai, porque esta medalha te é tão cara. Eu, porém, fosse qual fosse a recordação que ela me trouxesse ou o símbolo que representasse, não a amaria nunca.
— Por que, rapaz?
— Por ser muito feia e eu só gosto das coisas formosas que agradem à vista.
Então o pai falou:
"Nunca devemos amar as coisas ou pessoas só pelo aspecto externo que as reveste: devemos penetrar-lhes no fundo, estudar-lhes o íntimo a ver se essas pessoas têm qualidades nobres ou essas coisas qualidades que as valorizem. Muitas vezes um belo homem, trajado como um fidalgo, aparentando os mais elevados sentimentos, oculta uma alma ruim, carcomida de vícios e envenenada de remorsos; outras vezes encontrarás num homem humilde, coberto de andrajos, mostrando toda a pobreza em que vive, um coração nobre, cheio das mais santas delicadezas de sentimentos.
Vou-te contar, pois, uma pequena história de que poderás tirar algum proveito mais tarde.
Dois amigos seguiam por uma estrada, a passo, muito satisfeitos com sua existência. Chegaram a um lugar onde a estrada se dividia; de um lado ficava um sinuoso atalho e do outro uma entrada de bosque sombreado de árvores floridas.
— Eu, disse o primeiro, sigo pelo atalho, que é descoberto; poderei prever qualquer perigo.
— Eu, respondeu o segundo, vou pelo bosque gozar a frescura das folhagens e o aroma das relvas.
Separaram-se.
O primeiro caminhou adiante sem embaraço nem perigo.
O segundo entrou no bosque. O solo era todo coberto de uma grama verde e fresca e por cima a galharia das árvores trançava-se fazendo um teto meio escuro, por onde a luz se coava brandamente. Deu alguns passos avante; mas, quando foi pisar a relva, o solo faltou-lhe e o desgraçado rolou e desapareceu num abismo que se abriu.
Eis a minha história, meu caro filho.
Nunca te deixes arrastar só pelo aspecto das coisas; os abismos e os despenhadeiros são sempre cercados de flores e vegetações formosas; mas se te aproximares delas para gozar de perto a frescura perfumosa das flores, encontrarás a morte adiante e nem tempo terás para o arrependimento dos pecados.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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