segunda-feira, 3 de junho de 2019

O folar do Sr.Abade (Conto), de Conde de Arnoso



O folar do Sr.Abade

Eram cinco horas da manhã e já o bom do abade, um velho, gritava da janela da residência à criada que o servia:

– Joana, ó Joana, enxota-me as galinhas do campo. Olha que ficamos sem feijão para o inverno.

– Estas galinhas são a minha perdição!

Também não sei porque mas não deixa levar à feira. Via-me livre delas por uma vez.

– Não sabes; sei eu. Leva logo uma à Joaquina da Cancela. Coitada! tem a rapariga doente.

– Ora, Sr. abade, com perdão, mas hoje, domingo de Páscoa, quando todos os fregueses têm de lhe dar o folar, é que o Sr. abade quer... ai! está tudo mudado, tudo de pernas para o ar – resmungava a criatura com as mãos cruzadas sobre a barriga por debaixo do avental de serguilha e, depois de olhar para a estreita janela – foste-te embora? Pois deixa estar, hei de levar a mais magra, a pinta, a que tem gogo.

Joana não podia levar à paciência a vida de abnegação do pobre e bondoso abade. Recordava-se com saudade dos seus três antecessores – era nova então! – principalmente do primeiro, da vidinha regalada que passava. Quando agora ia à venda, com a roca esquecida na cinta, encher de azeite a almotolia de lata, dizia sempre depois das sacramentais palavras – ora louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo:

– Tio Zé, tio Zé, como aquilo não há! Cuidei até que não havia. Pois olhe, tenho visto muito, que eu, quando cá vieram os franceses, tinha os meus quinze anos bem puxados.

E era então um nunca acabar de histórias facetas, que a velha gaiteira acompanhava com casquinadas de riso, abrindo desmesuradamente a larga boca desdentada.

Tinha razão. O abade era... era santo, por que não? Duma austeridade simples, compreendia os sagrados deveres do seu ministério; a sua religião era feita de amor e de carinho, tinha para todas as desgraças palavras de consolação e conforto. Caridoso, fazia o bem que podia, que era muito. Tinha uma figura simpática atraente. As crianças não fugiam dele com medo; pelo contrário, procuravam-no com prazer, iam risonhas para a escola, para as práticas do catecismo. E todavia, ao princípio, os letrados da aldeia, o regedor, os da junta de paróquia, as beatas que então havia, ralhavam, porque as práticas dos domingos, à missa do dia, tinham pouco latim e não falavam do inferno.

À medida que o foram conhecendo, foram-no estimando e amando. Hoje, quando passa, com a sua batina comprida e um chapéu braguês de abas largas, apoiado à bengala abacial, uma sólida bengala de cana da Índia, ferrada e encimada por um tosco castão d’osso, os que trabalham no campo saúdam-no com respeito.

Sobre a sua cabeça encanecida brilham como um resplendor as bênçãos de todos.

***

No Minho não há nada mais alegre que o aspeto exterior duma pequena igreja d'aldeia. Pintadas de branco, batendo-lhes em cheio o fulgurante sol, riem-se para nós. A própria cruz do adro, coberta de musgo e de hera, parece querer abraçar-nos com os seus braços viçosos. E então, quando o sino repica, sentimos a alma a rir, a rir às gargalhadas!

Por um dia criador, um dia esplêndido de primavera, repicava o sino de presbitério e pela larga porta que abre para o adro e olha para a cruz, vinha saindo: o abade com a sobrepeliz da cor dos seus cabelos, a estola e o manipulo; o sacristão com o seu fato domingueiro meio coberto pela opa encarnada trazendo nos braços o Cristo crucificado ornado de flores, um pequenito de opa também, caída até aos pés, segura na mão esquerda a caldeirinha d'água benta com o hissope, na direita uma grande campainha que agita de espaço a espaço; mais atrás dois homens, com lenços amarrados na cabeça, sustentam pelas azas, um enorme cesto, cesto barreleiro, forrado com um lençol de linho.

Meia duzia de garotos, que, perto do adro jogavam o talo, vão correndo e gritando:

– Aí vem o Sr. abade aos ovos! Aí vem o Sr. abade aos ovos!

E, naquele dia, por todas as casas da freguesia vai uma grande azafama: abrem-se as velhas arcas da roupa branca; as camas fazem-se de lavado; varre-se o chão; limpam-se os moveis; raparigas com os seus lenços mais garridos, as suas capotilhas vermelhas, os seus aventais mais asseados e as suas arrecadas, como se fossem para uma romaria, entram alegres com braçados de flores, de alecrim e alfazema que espalham pelo chão, e, no quarto mais asseado, ou na cozinha em frente da lareira, se a casa é pobre, destaca o folar sobre a mesa de pinho coberta por uma toalha branca.

O abade caminha feliz, risonho e contente. Anda na companhia de Deus visitando os seus fregueses, benzendo-lhes as casas, recebendo a colheita que em dias menos prósperos distribuirá pelos pobres. Não sente cansaço. É grande a volta, grande a caminhada; mas a alegria com que o recebem em toda a parte, na casa do lavrador abastado, como na do pobre jornaleiro, dá-lhe forças, sente-se aliviado do peso de trinta anos!

Com uma palavra anima os homens do cesto que caminham derreados com o peso das ofertas.

– Rapazes, o dia está feito, agora é saltar o portelo, meter à azinhaga da bouça e estamos em casa dos fidalgos. Daí à Joaquina da Cancela são dois passos, depois à igreja, à residência, é subir a festo a encosta do monte.

Efetivamente, um quarto de hora depois, chegavam ao pátio do solar dos fidalgos da portela, uma construção irregular e pesada do século XVI, com a sua vasta capela senhorial. Na sala de entrada de teto de carvalho trabalhado, a antiga sala de armas, a sala dos retratos de família, senhores e criados esperam a visita do abade. No grande bufete, ao centro, coberto com damascos da capela, está o folar – dois pintos – sobre uma bandeja de prata. Amos e criados beijam, ajoelhando-se, os pés do Cristo. O abade toma o hissope, e, com gestos largos, solenes e compassados, benze os quatro ângulos da casa. O pequeno morgado forte, rijo e traquina, atira o folar para dentro da caldeirinha, cheia até meio de cobre – a esmola dos pobres.

Finda a curta cerimônia, a fidalga oferece, com a franca teimosia minhota, pão de ló, vinho verde e maduro.

***

Numa enxerga esfarrapada gemia, ardendo em febre, no humilde casebre da Joaquina da Cancela, a sua filha mais velha, uma rapariga de quinze anos boa e trabalhadeira. Havia apenas três dias que caíra de cama, mas nesses três dias não sossegara um instante piorando de momento a momento. A mãe, que constantemente a velava, via com horror transfigurar-se-lhe a fisionomia. Animava-a contudo uma grande esperança:

– Podia Deus roubar-lhe a sua querida filha?...

E Maria, pela madrugada daquele dia, tinha caído num sono tranquilo. Ao acordar, voltou-se para a mãe, dizendo-lhe com uma voz fraca, arrastada, mas alegre:

– Estou melhor, muito melhor. É hoje domingo de Páscoa e por estar doente não quero que se deixe de enfeitar a casa para receber o Sr. abade. A mãe vá buscar flores. Fico com os irmãozinhos. Se me sentir pior, mando chamá-la.

Doida de contentamento com os alívios da filha, a mãe saiu a colher flores, dando, num momento, à sua pobreza um ar alegre de festa!

– Aqui tens, filha, cinco réis para dares ao Sr. abade.

Maria, banhada num suor frio, levantou ainda os braços agarrando-se ao pescoço da mãe, mas, soltando um flébil gemido, caiu desfalecida na enxerga.

– Jesus! Jesus! minha filha! a minha pobre filha!...

Vinha entrando o abade.

– Ai! Sr. abade! E apontou para a filha, branca como a neve dos caminhos num dia de geada.

O padre escutou um instante, com o ouvido encostado ao peito da desditosa criança.

Estava morta!

Cerrou-lhe os olhos e aspergiu-a d'água benta murmurando uma oração. Depois, pegou no Cristo, e, ajoelhando-se à beira do catre, aproximou-o daqueles lábios descorados.

– Está no céu! Amanhã às 6 horas cá estaremos para o enterro; e é ter animo, coragem!

Joaquina soluçava. Os pequerruchos, numa grande gritaria, agarravam-se-lhe às pregas da saia. Então, afogando em si toda a sua imensa dor, disse-lhes, dando-lhes o Cristo a beijar:

– Filhos, beijem o nosso pai. João, entrega tu o folar ao Sr. abade.

– O folar?! Acabas de dar a Deus a maior e melhor esmola que podias dar-lhe! – e, tirando da caldeirinha todo o dinheiro que trazia – aí tens para os primeiros tempos. há de fazer-te falta o que ela ganhava, depois... a residência não é longe, e sempre por lá há de haver alguma coisa.

Até Amanhã.

***

O sol escondia-se ao longe.

O som da campainha perdia-se ecoando alegremente pelas quebradas do monte...

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Atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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