domingo, 14 de julho de 2019

A lavadeira Conto), de José Veríssimo



A lavadeira
Era a flor das lavadeiras de ***
Chamava-se Raimunda da Outra-banda.
Outra banda do rio — pois lá nascera.
Conhecia-a assim.
Um dia levantei-me cedo.
Abri a janela do meu quarto e olhei para a terra e para o céu.
O dia estava belíssimo. O céu azul e rosa, a terra alegre. Os passarinhos trinavam nas árvores e o vento agitava de leve as franças das palmeiras.
Respirei ávido os perfumes da floresta que traziam as brisas da manhã.
Por debaixo da minha janela passaram duas mulheres, pareciam mãe e filha.
A mãe não me atraiu a atenção: era uma velha vulgar.
A filha era mais bonita que a manhã.
***
Era de estatura meã, tinha a fronte breve como a de Vênus pagã, cabelos pretos, olhos também negros, gordinha, cara alegre, o nariz pequeno e um tanto achatado na ponta.
Trazia na cabeça um balaio cheio de roupa, o que fazia-a corada.
Tinha atrás da orelha um, pequeno ramalhete de jasmins, isso tornava-a sedutora.
Vestia uma saia amarela com florezinhas azuis sobre a camisa branca como a pena da garça, debruada por uma renda larga que deixava ver-lhe o soberbo colo.
Tirei os olhos dela e olhei para o dia, a manhã era belíssima.
Olhei para a lavadeira, ela era mais bela que a manhã.
Depois ela voltou uma esquina e desapareceu.
As auras trouxeram-me ainda em seu regaço um aroma dos jasmins dos seus cabelos.
Quanto tempo levei a respirar esse aroma, não sei.
Entrando de novo no meu quarto, vi a minha espingarda a um canto.
Maquinalmente vesti-me, tomei os preparos de caça, pus a espingarda ao ombro e saí.
Nunca havia acertado um tiro, essa espingarda era um luxo campestre, um pretexto para gozar dos encantos das florestas.
Parti.
Segui o caminho que levara a lavadeira. Havia nela ainda o perfume dos jasmins dos seus cabelos negros.
Segui-o distraído.
As suçuaranas — a rainha da mata virgem — podia atravessar-se-me no caminho, sem que eu me lembrasse que trazia uma espingarda.
***
Leitor, si algum dia fores a*** e te disserem que existe aí um lago, não crê. É uma mistificação.
Houve, é verdade, em outras eras, um lago aberto, grande, franco e belo, a acariciar com suas pequenas ondas a fina e branca areia das suas margens.
Hoje a aninga, as ninféias, e outras plantas aquáticas, como o mururé e o capim, cobrem totalmente a sua superfície.
Somente aqui e ali se forma uma bacia de que se aproveitam os banhistas e lavadeiras... para lavarem a roupa e o corpo.
Mas, apesar disso, convido-te, leitor, caso fores a*** não deixes de ir visitar o lago ou antes as diversas bacias que ele forma; há aí paisagens de uma perfeição acabada.
Esse caminho levava ao lago.
Segui-o.
Foram primeiro infrutíferas as minhas pesquisas.
Com a cabeça pendida, voltava — sonhando mil sonhos da mocidade — quando um delicioso cheiro de jasmim e uma risada argentina me fizeram, como a um cão de caça, levantar a cabeça e dilatar as narinas.
Procurei por todos os lados. Por entre a folhagem vi como um lençol prateado e nele alguma coisa que se movia.
Aproximei-me e olhei.
***
Ela estava ali.
As águas do lago formavam nesse lugar uma bacia.
O fundo era de areia alva como a pétala do bogarim.
As bordas eram formadas pelas magníficas esmeraldas das folhas do muraré, corada por suas garbosas flores.
Junto à margem, com as águas a lamber-lhe o tronco, espalhando sua sombra nas águas de cristal da bacia, elevava-se airosa uma palmeira miriti.
Em uma das palmas do miriti um carachué cantava.
Mais longe erguia-se uma grande árvore de cujos ramos pendiam os ninhos aboboriformes dos japiins, que saltavam de galho em galho, soltando aos ares os seus alegres cantares.
O japiim é o garoto dos pássaros; o seu canto é irônico, galhofeiro, e, às vezes, insolente.
O sabiá cantava no miriti e um canto semelhante partia do meio dos japiins.
O sabiá exasperava-se, sacudia frenético as asas e arrancava da garganta as suas mais belas notas.
Dir-se-ia que no bando de japiins havia um sabiá, porque um canto idêntico, de notas tão belas, respondia ao cantor pousado na rama do miriti.
E assim continuavam esse mimoso duelo à face da natureza.
***
A roupa havia sido lavada e estendia-se agora sobre a macia relva que bordava a praia.
A lavadeira estava no banho.
Viam-se no chão seus vestidos.
A saia amarela com raminhos azuis devera ter sido solta de uma só vez da cintura e caíra, formando um círculo, aos pés de sua dona. Com ele e por baixo dela caiu também a anágua. A camisa essa estava atirada à beira da praia, bem perto d'água, onde, com medo de molhar-se — a ingrata — teria abandonado aquela cujo corpo cobria.
Sobre a saia repousava — e sentia-se que ali fora posto com todo o amor — o ramo de jasmins.
Do regaço líquido das águas surgiu um corpo trigueiro e esbelto.
O que se via primeiro era uma cabeça emoldurada por uns cabelos negros e lustrosos como as asas da araúna, a espelharem-se úmidos sobre o colo e ombros.
Em seguida o pescoço roliço e belo como da garça, entroncando-se no colo soberbo, moreno e aveludado.
Depois os seios esféricos, túmidos, de uma admirável pureza de linhas, terminando em ponta aguda, desafiando desejos e pedindo beijos.
Dois braços torneados e bem feitos, acabando por umas mãozinhas microscópicas, que cobriam o seio com pudico recato de mulher bonita.
Tudo isto, todas estas belezas, envoltas no manto liquido formado pelas águas, cobertas de pingos d'água onde o sol irradiava fingindo diamantes, fazia-me pensar na igara da lenda indígena e a mim mesmo perguntava si não era eu o mancebo da lenda, a quem a mãe. d'água aparecia com todos os seus encantos para o seduzir.
"Foi na taba dos Manaus.
Um dia um moço tapuio, filho do tuxaua, seguia em uma igara o igarapé que banha a ponta do Tarumã.
Era o mais valente, o mais forte e o mais belo da tribo.
Na ponta de sua flecha pairava certeira a morte.
O seu tacape era o terror da onça e do mundurucu.
E um dia, em uma igara, o moço seguia o igarapé que banha a ponta de Tarumã.
A tarde ia linda, e o sol, mergulhando por detrás da coluna, onde se erguia a floresta, dourava as águas do rio Negro.
E a igara, impelida pelo braço robusto do moço manaus, cortava ligeira, como a seta do seu arco, as águas do riacho.
De noite, alta noite, o moço voltou.
Estava triste e não dormiu.
A mãe dele chorou por ver a tristeza do filho e quis conhecer o motivo de suas mágoas.
O moço falou assim:
— Ouve, mãe, ouve, porque só a ti posso contar a dor que me vai n'alma.
Era uma moça linda... como nunca vi nem entre as filhas dos Manaus, nem dos Mundurucus. Quando a igara vogava, ouvi um canto longínquo mais doce do que o do carachué, mais terno que o arrulho da juriti. Era dela. Estava sentada à margem do rio. Tinha tos cabelos cor de pedra amarela e nele enlaçadas flores do mururé e cantava como jamais ouvi cantar. Depois seus olhos, verdes como a pedra das icamiabas, fitaram-se em mim.
Um momento olhou-me e em seguida estendeu-me os braços, e... o seu corpo esbelto como o açaizeiro, mergulhou nas águas do igarapé, que resvalaram-lhe pelo dorso branco como as penas da garça.
E o moço calou-se.
A velha ouviu, chorou e disse:
— Não voltes, filho, não voltes ao igarapé de Tarumã. Essa virgem é a igara, a mãe d'água. Seu sorriso mata como a flecha do guerreiro e a sua voz é traidora como a pepéua que se oculta nas folhas. Filho, por Tupã, não voltes ao igarapé do Tarumã.
A cabeça do moço inclinou-se sobre o peito e ele ficou mudo.
E no dia seguinte, quando o sol se punha, a igara cortava ligeira as águas do Tarumã.
O moço manaus nela ia e não voltou mais à taba de seus pães.
Não souberam mais dele.
Ousados pescadores contavam à noite, junto ao fogo da oca, que ao passarem de volta de suas pescarias pelo igarapé de Tarumã, quando a noite vai alta, viam ao longe o vulto de uma mulher que cantava, e junto dela o de um guerreiro moço.
E se alguém mais atrevido se aproximava, as águas do rio abriam-se e os vultos desapareciam nelas".
***
Esta poética lenda dos filhos dos Manaus estava-me na memória.
E ao ver banhando-se a linda lavadeira de*** lembrei-me da igara.
***
Apesar de sozinha, a gentil lavadeira não estava sossegada.
Ora seu corpo cortava airoso como o da irerê as águas claras da bacia sobre as quais boiavam seus negros cabelos, quando não repousavam úmidos no dorso lustroso. Ora fazia de uma folha, que a sua mãozinha travessa ia buscar aqui ou ali, uma canoinha, que punha-se a impelir como o sopro da sua boca mimosa até ela ir ao fundo. E quando se dava o naufrágio, como si ele a divertisse muito, seus lábios arrochados abriam-se em um riso alegre e ruidoso, deixando ver duas ordens de dentes pequenos, apontados e alvos como os jasmins que usava em seus cabelos.
E o brinquedo continuava.
***
Brincava e ria sozinha como as aves suas companheiras que cantam na solidão.
Como era bela assim!
E o sabiá cantava e ela escutava-o.
O pássaro notou essa atenção e estimulado soltou uma escala nítida, estridente, argentina, clara.
Depois começou uma ária, melodiosa, sublime, em que a sua voz alcançava todos os tons com uma clareza e perfeição dignas de reparo, sobre os motivos talvez de alguma Lúcia dos bosques.
Às vezes o canto tomava uns acentos clássicos, que recordavam Haendel ou Mozart, outras havia nele uma melodia terna que lembrava Verdi.
Os japiins escolheram o seu melhor cantor para zombar da ave rei das matas. Ele fez fiasco. Não conseguiu arremedá-lo. O chilro do pássaro passava do lírico ao épico, do épico ao bucólico. Ora era pastoril, terno apaixonado. Ora era altivo, arrogante, heroico. Havia algumas notas que pareciam uma risada. Tinham seu que de chacota. Offenbach misturava-se com Rossini.
Os japiins estavam mudos, corridos de vergonha.
E a gentil lavadeira parará de folgar e escutava, com a bela cabeça erguida, o canto do carachué.
***
Eu também escutava-o e olhava-a.
De repente estremeci.
Por detrás da linda lavadeira apareceu, primeiro uma cabeça, e depois um corpo, redondo, negro, luzidio, asqueroso.
Era a sicuriju.
Tinha a boca aberta e desusava branda e cautelosa sobre as folhas verdes do maruré.
E aproximou-se.
Alongou o pescoço, esmagou com a repugnante cabeça uma flor, escancarou as fauces e...
E a horrível cobra ia morder no colo airoso da Raimunda da Outra-banda.
Levantei a espingarda e, rápido, trêmulo, precipitado, atirei.
O réptil estorceu-se, girou sobre si mesmo e caiu com a cabeça esmigalhada sobre o mururé.
A lavadeira deu um grito, correu para a margem, envolveu-se instintivamente nas roupas e fitou os olhos pasmos na serpente, com as mãos amparando o seio ofegante, como se o coração lhe quisesse saltar tora.
Foi esse o primeiro tiro que acertei.
O povo de minha terra crê que ninguém erra tiro em cobra.
***
Voltei à cidade.
Perguntei pela lavadeira.
Disseram-me seu nome e contaram-me quem era.
Era casta e pura como a Mani da lenda indígena.
***
Passaram-se dois anos.
Eu voltei a ***
Uma tarde estava sentado no parapeito do alpendre da linda capelinha do Bom Jesus, edificada em uma risonha colina.
Do sol apenas uns raios vinham bater nas paredes brancas da capela.
Era Ave Maria.
As lavadeiras, com seus balaios na cabeça voltavam do lago e passavam em minha frente no lado oposto da praça.
Lembrei-me então da gentil lavadeira que vira outrora banhando-se nas águas do lago.
Meu amigo A... estava comigo.
Perguntei-lhe pela Raimunda da Outra-banda.
Respondeu-me: Morreu.
Eu estremeci e, com esse acento de quem não quer crer uma verdade dolorosa, tornei-lhe:
— Morreu!?... Como?
— Vive hoje com um região, comerciando nos lagos de Faro.
Disse e calou-se.
***
Alguma coisa oprimiu-me o coração.
Era o toque plangente de Ave Maria no sino da capela.


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José Veríssimo Dias de Matos (1857-1916)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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