quinta-feira, 11 de julho de 2019

As leis de Esparta (História), de Monteiro Lobato



As leis de Esparta
– Antes de falar em Cartago, vovó, fale dessa Esparta, para onde os gregos da guerra de Troia levaram a Helena fujona. Que era Esparta?
– Era uma cidade da Grécia de costumes bastante especiais. Escutem. Novecentos anos antes de Cristo, por lá apareceu um homem de nome Licurgo, que sonhou fazer de Esparta a mais poderosa cidade do mundo. Para isso saiu a viajar, correndo os países que pode para ver as causas da força de uns e da fraqueza de outros. Viu que os povos que só davam importância aos prazeres da vida eram fracos, ao passo que os que punham o trabalho acima de tudo e cumpriam os seus deveres, fossem agradáveis ou não, eram fortes.
Voltando a Esparta, começou Licurgo a organizar a vida dos espartanos conforme as lições que aprendeu. Fez um código de leis severíssimas, que pegava o espartaninho ao nascer e ia até o fim da vida a governá-lo com toda dureza. "É de cedo que se torce o pepino", devia ser a divisa desse código. Se os recém-nascidos eram fracos, ou possuíam qualquer defeito físico, a lei mandava abandoná-los numa montanha, para que morressem. Licurgo não queria que houvesse um só aleijado de nascença em Esparta.
– Sistema de Tia Nastácia com os pintinhos, observou Emília. Ela torce o pescoço de todos que não prometem bons frangos.
– As mães ficavam com os filhos por pouco tempo. Aos sete anos tinham de pô-los numa escola de treinamento, onde permanecessem até aos dezesseis. O treinamento consistia na educação do corpo, de modo a fazer o rapaz um perfeito e fortíssimo soldado. Regime duro como vocês não imaginam! De vez em quando os rapazes entravam na chibata, não por haverem cometido alguma deslize, mas para acostumar o corpo ao sofrimento. E quem chorasse no castigo, ficava desmoralizado pelo resto da vida. Durante os exercícios todos tinham de conservar-se em forma, sem dar a menor mostra de cansaço, ainda que estivessem morrendo de fome, sono ou dor. Também os acostumavam a comer as piores comidas, a aguentar as piores sedes, e a andar sem agasalho nos piores dias de inverno. E assim por diante. Chamavam a isso disciplina espartana.
– Tudo não prometo, disse Pedrinho, mas alguma coisa do que Licurgo mandava fazer hei de seguir – para ficar a criatura mais forte aqui das redondezas!
(Emília que fora proibida de falar em vista das muitas asneiras que andava dizendo, cochichou ao ouvido de visconde: "Quero ver se ele fica tão forte como o Quindim". "Que Quindim é esse?" perguntou o visconde. ‘O rinoceronte’, disse Emília. "Não sabe que batizei o rinoceronte com esse nome?" E foi a partir daquele momento que o rinoceronte passou a ter um nomezinho tão mimoso).
– A vida dos espartanos, continuou dona Benta, era bem dura. Simplicidade na comida, ausência de conforto e supressão completa de tudo quanto fosse luxo. Isso os transformou num povo extremamente rijo. Eram ensinados até a falar com energia e economia, dizendo o máximo com o mínimo de palavras. Como se chama este modo seco de falar, Narizinho? Eu já ensinei.
– Lacônico, respondeu a menina.
– Muito bem. E donde vem tal palavra, Pedrinho? O menino engasgou.
– Vem justamente da Lacônia, a província da Grécia de que Esparta era cidade principal. Modo de falar lacônico quer dizer o mesmo que modo de falar espartano – mas só a primeira expressão é usada. Certa vez um rei vizinho enviou aos espartanos uma carta ameaçadora dizendo que se eles não fizessem tal e tal coisa, ele rei marcharia com os seus exércitos e derruiria a cidade, escravizando toda a população. Os espartanos leram a carta e incontinente deram a resposta com uma só palavra: "Se..."
– Bonito, vovó! exclamou o menino entusiasmado. Não pode haver nada melhor do que essas respostas lacônicas. Se... Imaginem a cara do rei! Mas diga-me uma coisa, vovó: o sistema de Licurgo deu bom resultado?
– Deu e não deu, meu filho. Deu num ponto e não deu noutro. Licurgo errou cuidando mais dos músculos do que da cabeça, e apesar de todo aquele esforço Esparta nunca teve importância de Atenas, a cidade grega que lhe ficava perto. Os atenienses também cuidavam do corpo, mas como não desprezavam o espírito, tornaram-se o povo mais culto e artista da antiguidade. Cultivavam bíceps nos ginásios, e fora deles a música, a poesia, a retórica, a pintura e a escultura. Em algumas artes ainda não foram excedidos até hoje. Licurgo não conseguiu que Esparta suplantasse Atenas.
Uma vez, numa festa esportiva, um velho que entrara à última hora pôs-se a procurar assento na parte das arquibancadas que os atenienses ocupavam. Nenhum lhe cedeu lugar. Vendo isso, os espartanos, que estavam do outro lado, chamaram o velho e ofereceram-lhe o melhor lugar. Os atenienses aplaudiram com palmas o belo gesto dos espartanos. Estes comentaram laconicamente: Sabem, mas não praticam, querendo dizer que os atenienses sabiam o que era direito mas não o faziam – de ruindade.

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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