quinta-feira, 11 de julho de 2019

A guerra de Troia (Estória), de Monteiro Lobato



A guerra de Troia
– As guerras, prosseguiu dona Benta, constituem os principais acontecimentos da vida dos povos. Com elas as nações nascem e morrem. A história dos gregos principia a ser conhecida com a guerra de Troia, que se deu cerca de mil e duzentos anos antes de Cristo, nos começos da Idade do Ferro. Há muito de lenda na história desta guerra, porque os gregos eram criaturas ricas de imaginação. Mas vale a pena ser contada. Querem ouvi-la, seja verdade ou não?
– Queremos! exclamaram todos.
– Pois ouçam lá, disse dona Benta. Houve uma vez uma grande festa entre os deuses do Olimpo, e estavam todos banqueteando-se quando uma deusa, que não fora convidada, resolveu vingar-se dum modo especial – lançando a mesa um pomo de ouro com estas palavras: "A mais bela!".
A deusa que teve esta lembrança era a deusa da briga, e não fora convidada justamente para que reinasse paz na festa. Pois com a ideia do pomo, a malvada conseguiu imediatamente despertar a vaidade de todas as deusas ali reunidas visto que cada qual se julgava a única merecedora da fruta.
O meio de resolver o caso foi mandar vir da Terra um pastor de nome Páris, que decidisse qual a mais bela. Imediatamente as deusas trataram de seduzir o juiz. Juno prometeu fazê-lo rei; Minerva prometeu dotá-lo de grande sabedoria e Vênus, a deusa da beleza, prometeu-lhe o amor da mulher mais bela do mundo.
Páris não era um simples pastor e sim filho de Príamo, o rei de Troia, uma cidade que ficava perto da Grécia, do outro lado do mar. Em menino fora abandonado numa montanha para morrer no dente dos lobos; mas um casal de pastores o salvou. Agora estava no Olimpo, como juiz desempatador num concurso de beleza.
– Por quem será que vai decidir-se? Eu aposto em Juno, disse Pedrinho.
– E eu em Minerva, disse Narizinho.
– E eu em Vênus, que é a mais esperta, berrou Emília.
– Emília ganhou! Disse dona Benta. Entre ser um rei ou um sábio, e ser marido da mulher mais bela do mundo, Páris não vacilou – e portanto entregou o pomo a Vênus. Essa sentença deu origem a uma série de calamidades, cujo desfecho foi a destruição de Troia. A mulher mais bela entre as mortais era Helena, que já estava casada com Menelau, rei de Esparta, uma das cidades da Grécia. Vênus aconselhou Páris a raptar Helena.
Páris foi a Esparta, onde Menelau o recebeu principescamente. Apesar disso fugiu de noite com Helena e atravessou o mar, de rumo a Troia.
Meneleu e todos os gregos, furiosíssimos com aquilo, preparam uma expedição contra a cidade de Troia, para se vingarem de Páris e arrecadarem a princesa fugitiva. Naquele tempo as cidades eram cercadas de muralhas, e como não houvesse canhões e nem pólvora, tornava-se difícil penetrar nelas. Os gregos sitiaram Troia durante dez anos, sem que nada conseguissem. Por fim, resolveram recorrer a um estratagema.
– Já sei, inventaram o cavalo de Troia!
– Isso mesmo. Construíram um enorme cavalo de madeira, que puseram junto aos muros, em seguida retiraram-se com armas e bagagens, dando todos os sinais de que desistiam de tomar a invencível Troia. Logo que os gregos desapareceram, os troianos abriram as portas e foram admirar o cavalo. Imediatamente surgiu a ideia de o recolherem dentro da cidade. Um sacerdote de nome Laocoonte opôs-se, alegando que o cavalo de nada adiantava na cidade, além de que podia ser um embuste. Os troianos, porém, que estavam ansiosos para ver o cavalo enfeitando como um troféu de guerra uma das suas praças, não lhe deram ouvidos. Logo depois Laocoonte com mais dois filhos foram enlaçados e asfixiados por duas enormes serpentes saídas do oceano. O povo viu nisso sinal de que até os deuses estavam danados com ele por não querer o cavalo dentro da cidade – e sem mais vacilações recolheram o animalão de pau. Para isso tiveram que derrubar um pedaço da muralha.
Tudo correu muito bem, mas a noite uma portinhola na barriga do cavalo se abriu e por ela começaram a sair soldados gregos dos melhores. Saíram e correram a tomar conta das portas. Ao tempo que isso acontecia, as forças gregas, que se haviam retirado, principiaram a voltar. Pela manhã atacaram a cidade, entraram pela brecha feita para dar passagem ao cavalo e trucidaram todos os seus defensores e habitantes. Depois lançaram fogo às casas e retiraram-se para a Grécia, levando consigo a fugitiva Helena.
– Agora compreendo a expressão – presente de gregos! Disse Pedrinho. Quer dizer presente de inimigo, presente de alguém que não merece confiança.
– De fato assim é, meu filho. Quem aceita um presente de gregos, está perdido. A história minuciosa da guerra entre gregos e troianos encontra-se em dois poemas de grande fama. Um deles chama-se Ilíada, nome que vem do segundo nome de Troia, Ílion. O outro chama-se Odisseia. Neste conta-se o que, depois de terminada a guerra, se passou com um dos heróis gregos, Ulisses ou Odisseu. Sabem qual foi o poeta que compôs estes poemas?
– Camões! gritou a burrinha da Emília.
– Homero, ensinou dona Benta. Homero era um rapsodo, quer dizer, um pobre diabo que andava pelas ruas cantando versos para viver, como fazem hoje os homens do realejo. Além do mais, cego, o coitado – e por isso nunca escreveu seus poemas. Foram escritos por outras pessoas que de tanto ouvi-los os guardaram de cor. Só depois da morte é que Homero ficou famoso. Nove cidades gregas passaram a disputar a honra de ter sido o berço do cego que em vida andava de porta em porta, declamando seus poemas em troca de esmolas.
– Coitado! exclamou Narizinho. Nem teve o gosto de saber que ia ficar célebre...
– Homero ficou mais que célebre – ficou celebérrimo, como também aconteceu a certo rei de Israel...
Dona Benta tomou fôlego e prosseguiu.

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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