terça-feira, 16 de julho de 2019

Cocktail (Conto), de Cláudio Basto


Cocktail

O negro do "bar", debruçado na mesa vazia, sorve, de olhos semicerrados, os frios do mármore úmido. Em cada vigia salta uma flecha de fogo, e a luz das três horas da tarde mergulha no mar o corpo mole e oleoso.

Ao meu lado, estendida na cadeira de lona riscada de vermelho e branco, miss Garrett, Americana de St. Louis Missouri, comprida e magra, parece uma espada retesa na sua bainha de linho.

Miss Garrett fala mal dos judeus, não acredita na South América, tem sardas do trópico, e é amiga íntima de miss O’Bryen, campeã de tênis de San Antônio do Texas.

Miss Garrett, de St. Louis Missouri, e miss O'Bryen, campeã de tênis de San Antônio do Texas, viajam na mesma cabine, vestem os mesmos vestidos brancos, têm, de manhã, o mesmo cheiro de pasta dentifrícia e dizem "darling", uma para a outra, como se estivessem jogando entre si  com a mesma bola de que se serviu miss O’Bryen para o "wonderfull drive", como escreveu John Joyce, correspondente do "New York Times", para o "drive" único, que afastou, de uma vez, a concorrência de miss Edith Lathrop, campeã do Country Club, de Dayton.

O ar das Antilhas sopra um desejo de aventuras navais.

O ar das Antilhas balança pelo "deck" a sua pluma de aromas salgados O ar das índias Ocidentais!

Mas todos os saxões abaixam as conchas vermelhas das pálpebras espessas sobre os olhos inúteis.

Do meu lado direito, miss Garrett ressona.

Do meu lado esquerdo, miss O’Bryen ressona.
Diante de mim, envernizado de suor, o negro do bar ressona.

Brancos e pretos ressonam.

Doçura da paz "yankee".

O ar das Antilhas belisca o mar.

A única aventura de bordo é a minha imaginação!



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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