terça-feira, 16 de julho de 2019

Sesta (Conto), de Ronald de Carvalho


 Sesta

Mademoiselle Blanche Durand é sobrinha do mais rico perfumista da rua Bonaparte, na Ilha de Nossa Senhora de Guadalupe. Seu "bangalô" tem uma varanda que dá para o mar.

No "bangalô" de mademoiselle Durand há uma vitrola de Broadway, uma mesinha redonda de pés torcidos, onde estão os caramujos mandados por suas primas da ilha de Maria-Galante, uma flauta para as digestões de mr. Durand e uma estante para os romances de Delly. Mademoiselle Durand, da sua rede, entre as mangueiras e os castanheiros, olha, de quando em quando, para o grande portão de madeira do fundo do jardim.

Mademoiselle Durand espera o correio de Paris.

Calor!

Misturam-se, na folhagem morna, azuis de araras, amarelos de tucanos.

Silêncio... silêncio...

Dentro da rede clara, mademoiselle Durand é toda a sesta lasciva das Antilhas.

Mademoiselle Durand mostra, no estojo das gengivas roxas, os dentinhos pontudos como pontinhos de luz.

Sonha com as modas de Paris.

A rede não se mexe

E a sua mãozinha chata, pendente de um montão de rendas, parece a cabeça de uma cobra negra, espiando a sombra quieta dos coqueiros sobre o chão.
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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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