terça-feira, 30 de julho de 2019

Eça de Queirós nas palavras de Antônio Cândido (Discurso)


Eça de Queirós nas palavras de Antônio Cândido

Minhas Senhoras, Meus Senhores:

Com superior eloquência, falada e escrita, e em formosos versos, disse-se já de Eça de Queirós o que havia a dizer nesta hora. Tudo o que demonstra a sua grandeza, e tudo o que constituiu o seu encanto pessoal, foi aqui relembrado com justiça: justiça a que não faltou, não podia faltar a alta e piedosa bondade a que os mortos têm direito, e sem a qual é sempre falível ou, pelo menos, estreita a visão das coisas humanas.

Eça de Queirós era inacessível aos fumos e estonteamentos da vaidade: desta vulgar tentação, a que ainda os mais fortes sucumbem, defendia-o o processo usual da sua ironia; mas se tivera a previsão desta comemoração, tão saudosa e tão amorável, creio que ela lhe sorriria como a mais bela recompensa dada ao seu gênio e ao seu trabalho... Um grande e poderoso artista fixa-lhe em precioso mármore a fisionomia nervosa, intensa, expressiva: e, na admirável composição de toda a escultura, colhe e perpetua o feitio original da sua figura e a síntese literária da sua obra. Amigos fiéis — fiéis depois da morte! — agrupam-se em redor do seu monumento, e, penetrados da sua glória, dizem sobriamente, em seu louvor, merecidas palavras de afeto e de verdade. O profundo sentimento, a quase divina piedade dos que ele mais amou sobre a terra prolongará a fugaz duração deste momento em que o seu claro perfil reaparece na luz e graça natural... Nada, do que ele quereria, falta; nada, do que lhe repugnaria, se faz!

O grande perigo de uma celebração desta ordem foi afastado por intencional vontade de nós todos. Eça de Queirós era dos que nunca perdoaram à Grécia, a luminosa pátria do aticismo, ter inventado a Retórica, e tê-la ordenado, nos seus dias decadentes: seria indigno dele e de nós que lhe trouxéssemos agora as oferendas da nossa admiração nas velhas ânforas usadas e puídas, de que se não exala nunca todo o perfume da sinceridade, grato aos vivos, mais grato aos mortos... Era em mim, talvez, que o perigo parecia maior. Mas se alguma poeira me ficou das tribunas, em que fui hóspede, sacudi-a longe daqui: por temor dele, que ainda me pode ouvir, e em homenagem à absoluta perfeição que foi, progressivamente, a flor, o ideal, ç maravilhoso encanto da sua formosíssima palavra escrita!  

Formosíssima, decerto; inigualável até, sob muitos aspectos. O escritor faz-se; mas que laboriosa evolução é precisa para se conseguir uma linguagem adequada e dócil, um estilo literário e perfeito!  

Eça de Queirós tinha a predisposição nativa e procurou as estranhas influências que dão esse supremo resultado. A lógica, que é condição primária para pensar e escrever bem; a observação atenta, que descobre nas coisas qualidades novas, geralmente ignoradas; a imaginação poética que, fundindo o espírito e a natureza, era o maravilhoso mundo da arte: tudo isto havia, e em sumo grau, no seu gênio pessoal. Depois, o trabalho de toda a sua vida foi a fecundação e o aproveitamento destas faculdades ingênitas. Sempre à procura de alguma coisa inédita,— como aquele lendário mereante de que ele fala num dos seus livros, — avidamente procurou nas literaturas estranhas, nos poetas raros de psicologia mórbida, nas civilizações cultíssimas, no contato com a natureza e com as populações exóticas, tudo o que pudesse ser um novo motivo para a Arte e um esplendor novo para a Forma. Para isto, fez e refez o seu estilo, desarticulou-o e recompô-lo, deu-lhe agilidade e graça, tornou-o de uma leveza quase imponderável: e pode dizer- se que, desde a gaze diáfana, de que se tecem os sonhos, até ao bronze consistente, em que se gravam as legendas imortais, de tudo houve na sua palavra fulgidíssima!

A sua prosa não tem a larga medida oratória, tão agradável ao ouvido peninsular; mas há harmonioso ritmo nos seus períodos, as suas frases parecem, por vezes, abertas em ouro pelo buril dum artista precioso e paciente: e dentro desses períodos, e dentro dessas frases, a alma moderna vive livremente a sua vida ansiada, inquieta, cheia de elevados ideais e de contradicções flagrantes, com uma nevrose em cada dia, ora mística e pura como um tabernáculo de Deus, ora desvairada, incoerente, como possessa de um demônio louco! A graça ridente, as surpresas do espírito, o contraste das coisas, a emoção que irrompia, às vezes, dos íntimos recatos, em que ele a guardava, encontravam sempre a palavra adequada, a expressão nítida e própria, simples ou artificiosa, grave ou hilariante...

Na visão e cópia da natureza era inexcedível: ou tivesse visto a paisagem, ou a sua imaginação a houvesse adivinhado e recomposto. Igualmente magistral nos dois processos de representar o mundo exterior: quando recebia e comunicava a impressão dominante, apontando-a, sugerindo-a apenas, e quando, distendendo a sua palavra, como um véu transparente, sobre a superfície das coisas, as mostrava, como ele as via, na forma, no relevo, na cor e proporção que tinham. Se a ironia era o seu processo mais frequente na observação da sociedade, a sinceridade e a ternura reservava-as inteiramente para a natureza: como se houvesse no grande e requintado artista, que ele foi, uma ingênua alma de celta, primordial e simples, absorta no mistério e na adoração das coisas criadas!

A descrição da Palestina, mirrada e triste, a do Extremo Oriente, monstruoso e fantástico, e aquele quadro minucioso e completo, exuberante e magnífico, dos dias genesíacos da Terra, num dos seus Contos, — são, na arte de pintar por palavras e frases, o mais alto exemplo e o mais acabado modelo. Mas superior a tudo é a pintura amorável que ele fez da nossa terra: desta benigna natureza, tão bela, tão poética, tão abençoada de Deus. O norte de Portugal... como o lindo norte de Portugal se reflete na prosa dos seus últimos livros, impressionada e verdadeira, fluida e plástica, opulenta de tons e de cores?! Por mim digo que nunca lhe agradecerei bastante o vivo prazer que experimentei encontrando nos seus livros a minha amada terra natal, e vendo-a, e sentindo-a, como eu lhe quero e como ela é, com as suas serras alterosas e os seus vales profundos, alternando na paisagem a grandeza e a graça: as suas cearas lourejantes, e os seus ricos e fartos milharais; os seus densos arvoredos copados e redondos; o carvalho ancestral dominando, solitário, as selvas e as encostas; o castanheiro verde com os seus frutos dourados; a água caindo, correndo, gralhando, agora sumida na terra, reaparecendo logo entre alvos seixos luzidios; os caminhos e as sombras; o entardecer dos dias claros e quentes; a suma bondade e a penetrante poesia que se exalam de tudo; o sono da terra durante a noite, velado por estrelas, até à manhã seguinte, em que se repete a fulgida iluminação solar do nosso verão fecundo, do nosso verão criador.

Inspirava-o a musa de Virgílio quando, com tanta verdade e tanto amor, ele descrevia assim a deliciosa, a incomparável paisagem portuguesa...

A língua que falamos, meus senhores, é um dos laços que nos prendem, e dos mais fortes, na comunidade nacional. Aquele que consegue aperfeiçoá-la, dar-lhe maior precisão ou nitidez, tornai-a de qualquer forma mais rica de locuções ou mais maleável na estrutura — presta um inestimável serviço às letras e à pátria. Eça de Queirós prestou este serviço. Nos seus últimos livros atingiu por vezes a absoluta propriedade no dizer, aquela divina perfeição que o oráculo de Delfos impunha, como norma ou como ideal, a toda a cultura ateniense. Só por isto ele merecia que se lhe erigisse um monumento; e que o ideasse e executasse o grande escultor que foi escolhido para que, na feliz e harmoniosa conjunção da obra de arte e do que ela glorifica, se ficasse representando uma das maiores belezas e um dos supremos encantos do espírito português neste momento!

Eça de Queirós foi também um criador d’almas. Fez concorrência ao estado civil, na bela frase de Balzac.

Na seleção e na arte com que as produziu, a sua imaginação, que seria a faculdade primacial do seu espírito se esta designação não pertencesse antes à sua penetração da realidade da Vida, usou processos novos, desconhecidos ainda entre nós. Não as espiritualizou, não as sublimou em sonhos aéreos de elevação e de bondade: fiel à escola que preferiu ou que se lhe impôs, tomou da natureza, como ele a viu, o molde das suas criações: e afeiçoou-as com engenho fecundo, animou-as, por vezes, com flagrante verdade. A carne, de que as revestiu, não envelhece; o espírito, que lhes insuflou, não diminui; a vida, que lhes imprimiu, não acaba.

Os personagens dos seus Romances e dos seus Contos não são destinados a representar a eterna natureza humana nas suas paixões imutáveis, nas qualidades e nos vícios por que se revela a sua dupla origem divina e terrestre. Não foram talhados no bloco ingente em que Shakespeare, Rabelais, Molière recortaram os seus; nem ainda na matéria, incoercível e vaga, das grandes transformações sociais, com mais ou menos consciência percebidas, como o D. Quixote de Cervantes ou o Fígaro de Beaumarchais. Foi na massa dos costumes contemporâneos, confusa, inextricável, contraditória, foi na sociedade de ontem e de hoje, como ela é, e pintando-a, quase sempre, com a intenção e a cor da máxima naturalidade, que ele procurou e quis as suas figuras maiores.

Que acentuada e característica personalidade o grande romancista lhes deu! Têm fisionomia inconfundível, têm ação lógica, têm vida própria e distinta. Algumas, animadas por um assopro de gênio, viverão longo tempo na memória portuguesa. Eça de Queirós marcou-as com o selo da grande Arte. Essas não sofrem no confronto das que gerou a imaginação sutil, laboriosa e disciplinada, de Gustave Flaubert.

Por vezes a fantasia de Eça de Queirós, não podendo conter-se na observação fria, na precisão científica de particularidades mínimas, no desenho do natural, na análise paciente dos caracteres, escapava-se, ultrapassava as balizas, rompia os liames que a apertavam; e, nesta triunfal insubmissão aos preceitos principais da sua arte, era tão bela e tão surpreendente como nas obras de fôlego, sob outro aspecto melhores, mais perfeitas, em que o seu engenho se provou e assinalou.

Que finíssima comédia há em todos os seus livros! As caricaturas, que fazia, valem artisticamente os retratos de tamanho natural que nos deixou. O seu humor, o seu espírito, era tão grande como as outras faculdades do seu entendimento claro e profundo. Se sentiu a tristeza das coisas de que fala o poeta latino, não gostava de a exprimir: mas a ironia da Vida inspirou-lhe paginas imortais de pensamento, de penetração moral, de verdade e de graça...

Nesta hora de apoteose a um grande escritor, na póstuma celebração do seu nome e do seu gênio, é a quantidade de esforço inteligente que ele empregou, e a medida em que adiantou ou serviu a cultura contemporânea— que devem ser rememoradas em voz alta. As contenções das escolas não veem para aqui.

Eça de Queirós ocupa um lugar eminente entre os melhores espíritos do nosso tempo e do nosso país; e foram realmente grandes os homens com que ele podia competir na emulação do renome e da glória.

Não declinarei os nomes dos vivos: só os mortos, na sua impassividade sereníssima, podem ser louvados sem que a vaidade os perturbe, a modéstia os retraía, a comparação os afronte e moleste.

Camilo, já na declinação da idade, mas em toda a pujança do seu portentoso cérebro, vivia ainda o romance original da sua vida e cumulava a colossal medida do seu trabalho ingente, do seu trabalho enorme. Antero de Quental, sumo poeta, subia aos páramos supremos, à nebulose metafísica em que o ser e o nada se confundem: e, águia ferida na vista pelo sol, maior na queda do que fora antes, dava-nos, no seu último livro, o espetáculo formidável, trágico e místico, da imaginação quase sem asas, arrastando-se, genialmente ainda, num espaço quase sem luz... Oliveira Martins entesourava e difundia, com maravilhoso método, o saber enciclopédico do seu tempo, levantava do seu túmulo, animava e movia as veneráveis figuras da nossa história: e tinha ainda maneira de nos dizer a quantidade de ilusão poética, a porção de sonho triste que lhe enchia a grande alma e lhe magoava doloridamente o coração!...

Eça de Queirós teve outro destino. Das infinitas curiosidades do seu tempo tentou-o a que mais se ajustava à sua índole e à sua consciência. Enveredou por um caminho novo entre nós; e a luz raiou, a verdade resplendeu ante os seus olhos: a luz e a verdade que a cada temperamento de eleição é dado ver e fixar, e que, na hora própria, a crítica apura, conta, entre as aquisições definitivas da Ciência, da Literatura e da Arte.

Shakespeare faz dizer a Hamlet: Horácio há no céu e sobre a terra mais coisas do que imagina a tua sonhadora filosofia... Também na Arte havia mais coisas do que sonhava a fantasia de toda a gente quando Eça revolucionou a literatura da nossa terra, servindo um ideal que ainda não fora visto aqui, e servindo-o, e realizando-o, com brilho singular e com rara perfeição, até às vésperas da sua morte!

Na atitude do seu esforço para arrancar à vida alguma das recônditas verdades, que ela encerra, o representa este admirável monumento. Redivivo no mármore, a que o gênio do artista deu intenção e alma, parece que continua a obra interrompida...

Merecido premio a quem perscrutando, como artista, os segredos da natureza, estudando, como crítico, os fatos sociais, procurando o verdadeiro sentido da história, a que tinha de recorrer, penetrando o oculto simbolismo das lendas, de que fez maravilhosos contos, renovando e enriquecendo a língua em que escrevia, tão perfeitamente interpretou e compreendeu o seu tempo, e tão gloriosamente serviu e engrandeceu a sua pátria!


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ANTÔNIO CÂNDIDO


"Discurso" (1903)

Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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